quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo quatro


Se você alguma vez for forçado a assistir a uma aula de química, provavelmente verá, na frente da classe, um grande quadro dividido em retângulos com diferentes números e letras em cada um deles. Esse quadro é chamado de tabela dos elementos, e os cientistas gostam de dizer que contém todas as substâncias de que é formado o nosso mundo. Como todo mundo, os cientistas erram de tempos em tempos e é fácil ver que estão errados a respeito da tabela dos elementos. Porque muito embora essa tabela contenha um grande número de elementos, do elemento oxigênio, que é encontrado no ar, ao elemento alumínio, que é encontrado nas latas de refrigerante, a tabela dos elementos não contém um dos elementos mais poderosos que formam o nosso mundo, e este é o elemento surpresa. O elemento surpresa não é um gás, como o oxigênio, nem um sólido, como o alumínio. O elemento surpresa é uma vantagem injusta, e pode ser encontrado em situações em que uma pessoa se aproxima furtivamente de outra. A pessoa surpreendida – ou, neste triste caso, as pessoas surpreendidas – fica atordoada demais para se defender e a pessoa furtiva tem a vantagem do elemento surpresa.
“Olá, faz favor”, disse o conde Olaf em sua voz rascante, e os órfãos Baudelaire ficaram atordoados demais para se defender. Eles não gritaram. Eles não fugiram de Olaf. Eles não bradaram aos seus tutores para salvá-los. Eles simplesmente ficaram lá parados dentro de seus enormes ternos risca-de-giz, olhando para o homem terrível que, de algum modo, os encontrara mais uma vez.
Enquanto Olaf olhava para eles de cima para baixo com um sorriso sórdido, se regalando com a vantagem injusta do elemento surpresa, as crianças viram que ele envergava mais um de seus nefandos disfarces, uma expressão que aqui significa que ele não as enganou nem por um instante, não importa o que estivesse vestindo. Nos pés de Olaf havia um par de lustrosas botas de cano alto que chegavam quase até os joelhos – do tipo de botas que alguém poderia usar para andar a cavalo. Sobre um dos olhos de Olaf havia um monóculo, que é uma lente para um olho só em vez de dois – um tipo de acessório que obriga a pessoa a franzir a testa para segurá-lo no lugar. E o resto do corpo estava coberto por um terno risca-de-giz – o tipo de terno que alguém poderia usar para estar in no momento em que tem lugar esta história. Mas os Baudelaire sabiam que Olaf não fazia questão de estar in, assim como não tinha a visão imperfeita em um olho, nem estava de saída para andar a cavalo. As três crianças sabiam que Olaf estava usando as botas para encobrir o olho tatuado em seu tornozelo esquerdo. Sabiam que ele estava usando o monóculo para poder franzir a testa e tornar difícil ver que tinha uma única longa sobrancelha acima dos seus olhos muito, muito brilhantes. E sabiam que ele estava usando um terno risca-de-giz para que todos pensassem que era uma pessoa rica e in cujo lugar era a Avenida Sombria, em vez de um vilão ganancioso e traiçoeiro cujo lugar era uma prisão fortemente guardada.
“Vocês devem ser crianças, faz favor”, continuou ele, usando incorretamente a expressão “faz favor” pela segunda vez. “O nome meu está Gunther. Faz favor desculpa meu pronúncia. Faz favor, eu não está fluente no língua inglesa, faz favor.”
“Como...”, disse Violet, e parou. Ela ainda estava atordoada e era difícil terminar a frase “Como você nos encontrou tão depressa, e como passou pelo porteiro que prometeu mantê-lo longe de nós?” enquanto estava sob efeito do elemento surpresa.
“Onde...”, disse Klaus, e parou. Ele estava tão atordoado quanto a irmã e achou impossível terminar a frase “Onde você pôs os trigêmeos Quagmire?” enquanto estava sob efeito do elemento surpresa.
“Bic...”, disse Sunny, e parou. O elemento surpresa desabara sobre a mais jovem dos Baudelaire tão pesadamente quanto sobre Violet e Klaus, e Sunny não conseguiu encontrar as palavras para terminar a frase “Bicaiado?”, que queria dizer alguma coisa como “Que novo plano malévolo você urdiu para roubar a nossa fortuna?”.
“Eu está vendo que vocês também não está fluentes no língua inglesa, faz favor”, disse o conde Olaf, continuando a fingir um jeito diferente de falar. “Onde está o mãe e a pai?”
“Nós não somos a mãe e o pai”, disse Esmé, e os Baudelaire sentiram mais um elemento surpresa quando os Squalor saíram para o corredor de uma outra porta. “Somos os tutores legais. Essas crianças são órfãs, Gunther.”
“Ah!” Atrás do seu monóculo, os olhos do conde Olaf ficaram ainda mais brilhantes, como acontecia com frequência quando ele olhava de cima para baixo para os Baudelaire indefesos. As crianças se sentiram como se os seus olhos fossem um par de fósforos acesos, prestes a esturricá-los. “Órfãos do tipo in!”, disse ele.
“Eu sei que os órfãos são in”, disse Esmé, ignorando a formulação arrevesada de Olaf. “De fato, são tão in que deviam ser leiloados no grande evento da semana que vem!”
“Esmé!”, disse Jerome. “Estou chocado! Nós não vamos leiloar estas crianças.”
“É claro que não”, disse Esmé. “Leiloar crianças é contra a lei. Ora, vamos. Venha comigo, Gunther. Vou levá-lo em uma excursão completa pelo nosso apartamento. Jerome, leve as crianças para o Café Salmonela.”
“Mas nós ainda nem os apresentamos”, disse Jerome. “Violet, Klaus, Sunny, este é Gunther, o leiloeiro de quem estávamos falando há pouco. Gunther, estes são os mais novos membros da nossa família.”
“Eu está feliz em conhecer, faz favor”, disse Olaf estendendo uma das suas mãos descarnadas.
“Já nos conhecemos antes”, disse Violet, feliz ao ver que o elemento surpresa estava passando e que ela estava encontrando coragem para falar. “Muitas vezes antes. Jerome e Esmé, este homem é um impostor. Ele não é Gunther, e não é um leiloeiro. Este é o conde Olaf.”
“Eu não está entendendo, faz favor, o que a órfão está dizendo”, disse Olaf. “Faz favor, eu não está fluente no língua inglesa, faz favor.”
“Você é fluente, sim”, disse Klaus, que também começava a se sentir mais corajoso que surpreso. “Você fala inglês perfeitamente.”
“Ora, Klaus, estou surpreso com você!”, disse Jerome. “Uma pessoa que já leu tanto como você devia ter notado que ele cometeu alguns erros gramaticais.”
“Uaram!”, gritou Sunny.
“Minha irmã tem razão”, disse Violet. “O inglês errado é apenas parte do seu disfarce. Se vocês o fizerem tirar as botas, verão a tatuagem dele, e se o fizerem tirar o monóculo, ele vai desfranzir a testa e...”
“Gunther é um dos leiloeiros mais in do mundo”, disse Esmé, impaciente. “Ele mesmo me disse. Não vou fazê-lo se despir só para vocês se sentirem melhor. Agora apertem a mão de Gunther e saiam para jantar, e não se fala mais nisto.”
“Ele não é Gunther, estou dizendo!”, gritou Klaus. “Ele é o conde Olaf.”
“Eu não sabe o que você está dizendo, faz favor”, disse o conde Olaf, encolhendo os ombros esqueléticos.
“Esmé”, disse Jerome, hesitante. “Como podemos ter certeza de que este homem é de fato quem ele diz ser? As crianças realmente parecem muito assustadas. Talvez devêssemos...”
“Talvez devêssemos ouvir o que eu tenho a dizer”, disse Esmé, apontando um dedo de unha comprida para si mesma. “Sou Esmé Gigi Geniveve Squalor, a sexta consultora financeira mais importante da cidade. Moro na Avenida Sombria e sou inacreditavelmente rica.”
“Eu sei disso, meu bem”, disse Jerome. “Eu moro com você.”
“Bem, se você quer continuar morando comigo, vai chamar este homem pelo nome certo, e isto vale para vocês três crianças também. Eu me dou ao trabalho de comprar uns ternos risca-de-giz maravilhosos para vocês, e vocês começam a acusar as pessoas de andar disfarçadas!”
“Tudo bem, faz favor”, disse o conde Olaf. “Os crianças está confundidas.”
“Nós não estamos confusos, Olaf”, disse Violet.
Esmé voltou-se para Violet e lançou-lhe um olhar irado. “Você e os seus irmãos vão chamar este homem de Gunther”, ordenou ela, “ou vão me deixar muito, muito arrependida por trazer vocês ao meu glamouroso lar.”
Violet olhou para Klaus, depois para Sunny, e tomou uma decisão rápida. Nunca é agradável discutir com alguém, mas às vezes é útil e necessário. Outro dia, por exemplo, foi útil e necessário para mim ter uma discussão desagradável com um estudante de medicina, porque se ele não tivesse me emprestado a sua lancha de corrida eu estaria agora acorrentado dentro de uma minúscula sala à prova d’água, em vez de estar sentado em uma fábrica de máquinas de escrever batendo esta deplorável história. Mas Violet percebeu que não era útil nem necessário discutir com Esmé, pois a sua tutora já tinha claramente se decidido quanto a Gunther. Seria mais útil e necessário sair da cobertura e tentar imaginar o que fazer a respeito do reaparecimento daquele pavoroso vilão, em vez de ficar ali parada discutindo sobre que nome usar para ele, e assim Violet respirou fundo e sorriu para o homem que tantas desgraças trouxera às vidas dos Baudelaire.
“Mil perdões, Gunther”, disse ela, quase engasgando com o seu falso pedido de desculpas.
“Mas...”, começou Klaus, porém Violet lançou-lhe um olhar que queria dizer que os Baudelaire iriam discutir o assunto mais tarde, quando não houvesse adultos por perto. “Tem razão”, disse ele depressa, entendendo na hora a olhada da irmã. “Nós o confundimos com outra pessoa, senhor.”
Gunther ergueu a mão para o rosto e ajustou o monóculo. “Tudo bem, faz favor”, disse ele.
“É tão mais agradável quando ninguém está discutindo”, disse Jerome. “Vamos, crianças, vamos jantar. Gunther e Esmé têm de planejar o leilão e precisam do apartamento só para eles.”
“Me dê só um minuto para enrolar as minhas mangas”, replicou Klaus. “Os nossos ternos estão um pouquinho grandes.”
“Primeiro vocês se queixam de que Gunther é um impostor, depois se queixam dos ternos”, disse Esmé revirando os olhos. “Acho que isto serve para mostrar que os órfãos podem ser in e indelicados ao mesmo tempo. Venha, Gunther, deixe-me mostrar o resto do meu glorioso apartamento.”
“Até logo, faz favor”, disse Gunther às crianças, os olhos brilhando forte, e deu-lhes um pequeno aceno de mão enquanto seguia atrás de Esmé pelo corredor. Jerome acenou de volta, mas assim que Gunther desapareceu na virada do corredor ele se inclinou para perto das crianças.
“Foi muito gentil vocês terem parado de discutir com Esmé”, disse ele. “Eu pude perceber que vocês não ficaram totalmente convencidos de ter se enganado a respeito de Gunther. Mas não se preocupem. Há uma coisa que podemos fazer para tranquilizá-los.”
Os Baudelaire se entreolharam e sorriram de alívio. “Oh, obrigada, Jerome”, disse Violet. “O que você tinha em mente?”
Jerome sorriu e se ajoelhou para ajudar Violet a enrolar as pernas do seu terno. “Será que você adivinha?”, disse ele.
“Poderíamos obrigar Gunther a tirar as botas”, disse ela, “aí então veríamos se a tatuagem de Olaf está lá.”
“Ou poderíamos obrigá-lo a tirar o monóculo e desfranzir a testa”, disse Klaus enquanto enrolava as mangas, “aí então poderíamos dar uma olhada melhor na situação da sua sobrancelha.”
“Resica!”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa do tipo “Ou poderíamos simplesmente dizer a ele para ir embora da cobertura e nunca mais voltar!”.
“Bem, não sei o que ‘Resica!’ quer dizer”, disse Jerome, “mas nós não vamos fazer nenhuma das outras coisas. Gunther é um convidado, e nós não queremos ser indelicados com ele.”
Na verdade, os Baudelaire queriam ser indelicados com ele, mas sabiam que seria indelicado dizer isso. “Então o que vai nos tranquilizar?”, perguntou Violet.
“Em vez de descer todas aquelas escadas a pé”, disse Jerome, “podemos descer pelo corrimão! É muito divertido e, sempre que faço isto, tiro todos os meus problemas da cabeça, não importa quais sejam. Sigam-me!”
Descer escorregando pelo corrimão, é claro, não iria fazer os Baudelaire se sentirem nem um pouco melhor a respeito da pessoa pérfida que estava emboscada na sua casa, mas antes que qualquer um deles pudesse dizer isto, Jerome já estava mostrando o caminho para fora da cobertura.
“Venham, Baudelaires!”, chamou ele, e as crianças o seguiram corredor abaixo, através de quatro salas de estar e uma cozinha, passando por nove quartos de dormir e, finalmente, para fora do apartamento. Ele levou as crianças para além dos dois pares de portas de elevador até o topo da escadaria e sentou-se no corrimão com um sorriso largo.
“Eu vou primeiro”, disse ele, “para vocês verem como se faz. Tenham cuidado nas curvas e, se estiverem indo depressa demais, podem reduzir a velocidade raspando os sapatos na parede. Não tenham medo!”
Jerome deu um impulso, e um segundo depois já tinha escorregado para fora de vista, sua risada reverberando pela escadaria enquanto ele precipitava-se corrimão abaixo para o saguão. As crianças olharam para baixo no vão da escada e sentiram o coração encolher de medo. Não era medo de descer pelo corrimão. Os Baudelaire já tinham escorregado por um bom número de corrimãos abaixo e, apesar de nunca terem descido por um que tivesse quarenta e oito ou oitenta e quatro andares de altura, não estavam com medo de tentar, especialmente agora que a luz normal estava in e eles podiam enxergar aonde iam. Mas assim mesmo estavam com medo. Estavam com medo de que Gunther tivesse algum plano engenhoso e sórdido para pôr as mãos na fortuna dos Baudelaire, e eles não tinham a mínima ideia do que era. Estavam com medo de que algo horrível tivesse acontecido aos trigêmeos Quagmire, já que Gunther parecia ter tido tempo à vontade para achar os Baudelaire aqui, em seu novo lar. E estavam com medo de que os Squalor fossem de pouca ou nenhuma ajuda para manter as três crianças a salvo das garras perversas de Gunther.
O som das risadas de Jerome foi ficando cada vez mais fraco à medida que ele escorregava para cada vez mais longe, e enquanto eles continuavam ali parados sem dizer palavra, olhando para baixo, para a escadaria que dava voltas, e mais voltas, e mais voltas até onde os olhos podiam alcançar, os órfãos Baudelaire temiam que, a partir daquele ponto, seria tudo “pra baixo”.

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