segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo onze


Como já comentamos antes, muitas vezes a primeira frase de um livro pode revelar ao leitor o tipo de enredo que ele vai ter pela frente. Este livro, vocês estão lembrados, começa com a frase “Os órfãos Baudelaire olharam através da janela suja do trem e contemplaram o negrume melancólico da Floresta Finita, pensando se algum dia a vida deles melhoraria”; com certeza o enredo foi tão desgraçado e agourento como a primeira frase prometera. Estou puxando esse assunto agora só para que vocês possam entender o pavor experimentado por Violet e Sunny Baudelaire quando abriram um certo livro na biblioteca da Serraria Alto-Astral. As duas irmãs Baudelaire já estavam tomadas de pavor, é claro. Um pouco desse pavor devia-se ao procedimento cruelmente injusto de Senhor. Um pouco desse pavor devia-se à incapacidade de ajuda por parte de Charles, por mais gentil que ele fosse. Mais um pouco desse pavor fora causado pelo fato de Klaus ter sido hipnotizado novamente. E, sem dúvida, a parte do leão desse pavor – a expressão parte do leão significa aqui “a maior parte” e não tem nada a ver com leões – fora causada pelo conde Olaf – ou, como ele insistia em chamar a si próprio, Shirley –, que estava de volta na vida dos Baudelaire, causando tanto sofrimento.
Mas esse pavor recebeu um reforço extra quando Violet e Sunny iniciaram a leitura de Ciência ocular avançada, da dra. Georgina Orwell. A primeira frase era: “Este tomo se empenha em escrutinar quase exaustivamente a epistemologia de abordagens oftalmologicamente controladas de sistemas oculares e os esforços subsequentes que são requisitos imperativos para expurgar condições maléficas”. A medida que Violet lia o texto em voz alta para a irmã, as duas meninas foram sentindo o pavor que se apodera do leitor quando começa um livro muito chato e difícil.
“Puxa vida”, comentou Violet, fazendo mil conjeturas sobre o que a palavra tomo poderia significar. “Este livro é muito difícil.”
“Garj!”, disse Sunny, fazendo mil conjeturas sobre o que poderia significar o verbo empenhar.
“Se ao menos tivéssemos um dicionário”, disse melancolicamente Violet. “Poderíamos, quem sabe, descobrir o que significa essa frase.”
“Yash!”, assinalou Sunny, talvez querendo dizer: “Se Klaus não estivesse hipnotizado, poderia nos explicar o que essa frase significa”.
Violet e Sunny suspiraram, e o pensamento delas voltou-se para o pobre irmão hipnotizado. Klaus parecia tão diferente do irmão que elas conheciam, que era quase como se o conde Olaf já houvesse triunfado com seu plano perverso e destruído um dos órfãos Baudelaire. Klaus sempre se mostrava interessado no mundo à sua volta, e agora tinha no rosto aquela expressão vazia. Em geral seus olhos mantinham-se semicerrados por efeito da leitura, e agora estavam arregalados como se tivesse ficado horas assistindo televisão. As irmãs se acostumaram a vê-lo sempre atento e cheio de coisas interessantes para dizer, mas agora ele esquecia tudo, e na maior parte do tempo guardava um silêncio absoluto.
“Sabe-se lá se Klaus conseguiria definir essas palavras para nós...”, lamentou Violet. “Ele disse que sentia que uma parte do seu cérebro tinha sido apagada sem deixar vestígios. Talvez ele não tenha conhecimento de todas essas palavras quando está hipnotizado. Não me lembro de tê-lo ouvido definir nada desde o acidente com Phil, quando explicou a palavra 'exorbitante'. Talvez fosse melhor você tentar descansar um pouco, Sunny. Se durante a leitura eu descobrir qualquer coisa útil, acordo você.”
Sunny engatinhou por cima da mesa e deitou-se junto a Ciência ocular avançada, que era quase do seu tamanho. Violet olhou para a irmã por um instante, depois voltou sua atenção para o livro. Gostava de ler, não resta dúvida, mas era uma inventora e não uma pesquisadora. Simplesmente não tinha a mesma incrível aptidão de Klaus. Violet tornou a ler a primeira frase e tudo o que viu foi uma tremenda confusão de palavras difíceis. Ela sabia que, se estivesse na biblioteca, e não hipnotizado, Klaus seria capaz de encontrar um meio de tirá-las daquela situação. Começou a imaginar como seu irmão procederia para ler Ciência ocular avançada e tentou adivinhar seus métodos.
Primeiro voltou as páginas do livro até o comecinho, antes daquela primeira frase, e foi parar no sumário – que, como vocês sabem, é uma lista com os títulos de cada capítulo e o número da página em que eles começam. Quando abriu o livro pela primeira vez Violet mal se deteve no sumário; no entanto, depois concluiu que primeiro Klaus provavelmente consultaria o sumário, para ter uma noção de quais capítulos poderiam ser mais úteis. Passou os olhos pela lista, do princípio ao fim:

1. Introdução 1
2. Oftalmologia básica 105
3. Miopia e hipermetropia 279
4. Cegueira 311
5. Coceira nos cílios 398
6. Lesão nas pupilas 501
7. Pestanejar problemático 612
8. Piscadelas problemáticas 650
9. Práticas cirúrgicas 783
10. Óculos, monóculos e lentes de contato 857
11. Óculos escuros 926
12. Hipnose e controle da mente 927
13. Qual é a melhor cor de olho? 1000

Na mesma hora, é claro, Violet viu que o capítulo doze seria o mais útil, e alegrou-se de ter pensado em consultar o sumário antes de ler 926 páginas até chegar aonde precisava. Grata por ter conseguido pular aquele primeiro parágrafo assustador – a palavra “assustador” aqui significa “cheio de palavras incrivelmente difíceis” –, correu entre os dedos as páginas de Ciência ocular avançada e deteve-se no capítulo “Hipnose e controle da mente”.
A expressão “coerência estilística” é usada para descrever livros que mantêm um mesmo estilo do princípio ao fim. Por exemplo, o livro que vocês estão lendo neste momento tem coerência estilística porque começa triste e continuará desgraçadamente triste até a última página. Lamento dizer que ao começar a leitura do capítulo doze Violet percebeu que o livro da dra. Orwell também tinha coerência estilística. A primeira frase do capítulo “Hipnose e controle da mente” era: “A hipnose é metodologia eficaz mas precária e não deveria ser empreendida por neófitos”, ou seja, igualzinha em dificuldade e chatice ao período que abria o livro. Violet releu a frase, tornou a lê-la mais uma vez e seu coração começou a apertar. Meu Deus do Céu, como Klaus conseguia vencer aqueles obstáculos? Quando as três crianças moravam com os pais, havia um imenso dicionário na biblioteca da casa, e Klaus recorria a ele diversas vezes quando estava às voltas com livros difíceis. Mas como Klaus lia livros difíceis quando não havia dicionários por perto? Era um enigma, e Violet sabia que precisava resolver esse enigma mais que depressa.
Voltou a prestar atenção no livro, e releu a frase uma vez mais, porém pulou as palavras que não conhecia. Como acontece muitas vezes quando se lê dessa maneira, o cérebro de Violet produziu um ruído diante de cada palavra – ou parte de palavra – que ela não conseguia entender. De modo que dentro de sua cabeça a frase inicial do capítulo doze era lida assim: “A hipnose é método...hmmm hmmm mas hmmm e não deveria ser hmmmida por hmmms”; embora não fosse capaz de dizer exatamente o que significava, dava para arriscar um palpite. “Poderia significar”, arriscou para si própria, “que a hipnose é um método difícil e não deveria ser exercida por amadores”, e o interessante é que o palpite não se afastava muito do correto. Ficava cada vez mais tarde, e Violet continuou a ler o capítulo dessa maneira, surpreendida que, por mais incrível que parecesse, estivesse descobrindo o sentido de páginas e mais páginas do livro da dra. Orwell. Esse não é o melhor método para ler, claro, porque podemos arriscar palpites terrivelmente errados, mas quebra um galho numa emergência.
Horas a fio, a biblioteca da Serraria Alto-Astral ficou em absoluto silêncio, quebrado apenas pelo ruído de páginas viradas conforme avançava a leitura de Violet, insistentemente empenhada em descobrir qualquer coisa que os pudesse ajudar. De quando em quando olhava para a irmã, e, pela primeira vez em sua vida, desejou que Sunny tivesse mais idade. Muitas vezes, quando a pessoa está tentando achar a solução de um problema – como desfazer a hipnose que está atuando sobre o irmão para evitar que todos fossem parar nas mãos de um homem ganancioso que se faz passar por uma recepcionista –, discutir o problema com outras pessoas ajuda a chegar a uma solução rápida e útil. Violet se lembrou de que, quando moraram com tia Josephine, foi de grande ajuda falar com Klaus sobre um bilhete que revelou encerrar um segredo oculto em suas linhas. Porém com Sunny era diferente. A mais nova dos Baudelaire era encantadora, bem dotada em matéria de dentes, e muito inteligente para um bebê. Mas não deixava de ser um bebê, e, à medida que hmmmava ao longo do capítulo doze, Violet se afligia com a ideia de que poderia não chegar a resultado algum, tendo apenas um bebê como interlocutor para discussão. De qualquer modo, quando encontrou uma frase que lhe pareceu útil, cutucou Sunny para que acordasse e leu a frase em voz alta.
“Escute só isso, Sunny”, disse Violet quando a irmã abriu os olhos. “Uma vez que o sujeito da experiência tenha sido hipnotizado, uma simples palavra hmmm servirá para fazê-lo executar quaisquer atos hmmm que qualquer hmmm deseje que seja hmmmado.”
“Hmmm?”, perguntou Sunny.
“São palavras que desconheço”, Violet explicou. “É difícil ler dessa maneira, mas dá para entender o que a dra. Orwell quer dizer. Acho que ela quer dizer que, depois de hipnotizar alguém, basta dizer uma certa palavra para que essa pessoa lhe obedeça. Está lembrada do que Klaus nos contou que aprendeu na Enciclopédia de hipnose? Havia aquele rei egípcio que cacarejava como uma galinha, e o comerciante que de um momento para o outro sabia tocar violino, e aquele escritor e tudo o mais... Tudo o que o hipnotizador fez foi pronunciar uma palavra, uma palavra diferente para cada caso. Fico pensando qual é a palavra que age no caso de Klaus.
“Riiss”, disse Sunny, que provavelmente significava: “Não faço a menor ideia, sou apenas um bebê”, ou algo do gênero.
Violet sorriu-lhe, gentil, e tentou imaginar o que Klaus diria se estivesse ali na biblioteca, não hipnotizado, junto com suas irmãs. “Vou procurar mais informação”, decidiu ela.
“Bruol”, disse Sunny, querendo dizer: “E eu voltarei a dormir”.
Ambas as Baudelaire cumpriram o que se propuseram, e por algum tempo a biblioteca retornou ao silêncio. Violet hmmmou pelo livro adiante e começou a ficar cada vez mais cansada e mais aflita. Faltavam apenas umas poucas horas para começar o dia de trabalho, e ela temia que seus esforços fossem tão infrutíferos – a palavra “infrutíferos” significa aqui “incapazes de anular a hipnose de Klaus” – como seriam se ela tivesse baixa autoestima. Mas, bem quando estava a ponto de adormecer ao lado de sua irmã, encontrou uma passagem no livro que lhe pareceu da maior utilidade; ela foi logo lendo a passagem em voz alta, o que imediatamente acordou Sunny.
“A fim de hmmm o domínio hipnótico sobre o hmmm, o mesmo método hmmm é utilizado: uma palavra hmmm, pronunciada em voz alta, fará hmmm o hmmm no mesmo instante”, disse Violet. “Acho que a dra. Orwell está falando de anular o efeito da hipnose sobre as pessoas, e parece que é só pronunciar em voz alta uma outra palavra. Se descobrirmos qual é a palavra, poderemos tirar Klaus do transe hipnótico, e não cairemos nas garras de Shirley.”
“Skel”, disse Sunny, esfregando os olhos. Ela provavelmente quis dizer: “Mas quem é que sabe que palavra é essa?”.
“Não sei”, disse Violet, “porém temos que descobrir antes que seja tarde demais.”
“Hmmm”, disse Sunny, pronunciando um ruído de hmmm porque estava pensando e não porque estivesse lendo uma palavra desconhecida.
“Hmmm”, disse Violet, o que significava que ela também estava pensando. Mas em seguida ouviu-se um outro hmmm que fez as duas Baudelaire se entreolharem com aflição. Esse não era o hmmm de um cérebro que ignorava o significado de uma palavra, nem o hmmm de uma pessoa pensando. Esse hmmm era muito mais longo e muito mais forte, era um hmmm que fez as irmãs Baudelaire fugirem correndo da biblioteca, com o livro bem seguro em suas mãos trêmulas. Era o hmmm produzido pela serra da Serraria Alto-Astral. Alguém ligara a máquina mais mortífera da serraria nas primeiríssimas horas da manhã.
Violet e Sunny atravessaram correndo o pátio, bastante às escuras naquele momento em que poucos raios de sol surgiam no céu. Abriram às pressas as portas da serraria e olharam para o interior do recinto. O capataz Flacutono estava parado junto à entrada, de costas para as duas meninas, apontando o dedo para a frente e dando uma ordem. A enferrujada máquina de serrar zumbia disparada, produzindo aquele hmmm terrível, e havia sobre o chão uma tora pronta para ser serrada. A tora parecia coberta com camadas e mais camadas de corda, ou seja, o material que estava no interior da máquina de desenrolar corda antes de Klaus tê-la arrebentado.
As duas irmãs foram olhar a situação mais de perto e, avançando alguns passos para dentro da serraria, viram que a corda estava enrolada em alguma outra coisa, um volume considerável junto à tora. Quando observaram com maior nitidez, espiando por trás do capataz Flacutono, conseguiram distinguir que o tal volume era Charles. Ele estava amarrado à tora com tanta corda que parecia um casulo, um casulo extremamente apavorado. Voltas e mais voltas da corda cobriam sua boca para que ele não conseguisse emitir nenhum som, mas seus olhos estavam descobertos e ele os fixava com terror na serra, cada vez mais próxima.
“É, seu porcariazinho”, dizia o capataz Flacutono, “até agora você deu sorte, evitando as minhas garras de chefe, mas a canja acabou. Mais um acidente e você estará em nossas mãos; e este vai ser o pior acidente da serraria. Imagine só como Senhor vai ficar contrariado quando souber que seu sócio foi retalhado em tábuas humanas. Vamos lá, seu sortudo, empurre essa tora para junto da serra!”
Violet e Sunny avançaram mais alguns passos. Chegaram tão perto que, com o braço esticado, dava para tocar no capataz Flacutono – não que desejassem fazer coisa tão repulsiva, é claro –, e então viram Klaus. Ele estava manejando os controles da máquina de serrar, descalço, com seus olhos arregalados e sem expressão fixos no capataz.
“Sim, senhor”, disse ele, e nesse momento o que se lia nos olhos esgazeados de Charles era puro pânico.

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