quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo onze


Anfiteatros cirúrgicos não são, nem de longe, tão populares quanto teatros dramáticos, teatros de música e teatros de projeção cinematográfica, também conhecidos como cinemas, e é fácil ver por quê. Um teatro dramático é uma sala grande e escura na qual atores interpretam uma peça, e se você estiver na plateia poderá se divertir ouvindo o diálogo e olhando para as vestimentas. Um teatro de música é uma sala grande e escura na qual músicos interpretam uma sinfonia, e se você estiver na plateia poderá se divertir ouvindo as melodias e olhando para o maestro, enquanto ele agita a sua varinha de um lado para outro. E um teatro de projeção cinematográfica é uma sala grande e escura na qual um projecionista exibe um filme, e se você estiver na plateia poderá se divertir comendo pipoca e fofocando sobre estrelas de cinema. Mas um anfiteatro cirúrgico é uma sala grande e escura na qual médicos realizam procedimentos médicos, e se você estiver na plateia o melhor a fazer é ir embora imediatamente, porque nunca há nada para se ver em um anfiteatro cirúrgico além de dor, sofrimento e desconforto, e é por essa razão que a maior parte dos anfiteatros cirúrgicos foi fechada, ou convertida em restaurantes.
Lamento ter de dizer, contudo, que o anfiteatro cirúrgico do Hospital Heimlich ainda era bastante popular na época em que se passa esta história. Quando Klaus e Sunny, seguindo os dois parceiros de Olaf disfarçados, passaram pela porta quadrada de metal, viram que a sala grande e escura estava cheia de gente. Havia fileiras de médicos de aventais brancos, que obviamente estavam ansiosos por assistir a uma nova operação. Havia grupos de enfermeiras sentadas juntas e cochichando excitadas sobre a primeira craniectomia do mundo. Havia um grande grupo de Combatentes pela Saúde do Cidadão que pareciam prontos para explodir numa canção, se fosse necessário. E havia uma grande quantidade de gente que parecia ter ido ao anfiteatro cirúrgico simplesmente para ver o que estava sendo apresentado. As quatro pessoas disfarçadas empurraram a maca para cima de um pequeno palco vazio, iluminado por um candelabro pendurado no teto, e assim que a luz do candelabro caiu sobre a irmã inconsciente de Klaus e Sunny, a plateia inteira prorrompeu em vivas e aplausos. Os brados da multidão só serviram para deixar Klaus e Sunny ainda mais ansiosos, mas os dois parceiros de Olaf pararam de empurrar a maca, ergueram os braços e inclinaram-se várias vezes para a plateia.
“Muito obrigado!”, gritou o homem de mãos de gancho. “Doutores, enfermeiros e enfermeiras, Combatentes pela Saúde do Cidadão, repórteres d’O Pundonor Diário, distintos convidados e pessoas comuns, bem-vindos sejam ao anfiteatro cirúrgico do Hospital Heimlich. Eu sou o dr. O. Lucafont, e serei o seu médico-anfitrião para a apresentação de hoje.”
“E eu sou o dr. Flacutono”, anunciou o careca, parecendo um pouco enciumado com todos aqueles aplausos que o homem de mãos de gancho estava recebendo. “Sou o cirurgião que inventou a craniectomia, e estou emocionado por operar hoje diante de toda essa gente bonita e maravilhosa.”
“Viva o dr. Flacutono!”, gritou uma enfermeira, e a multidão aplaudiu de novo. Alguns dos repórteres até assobiaram quando o careca fez uma reverência rasgada, usando uma das mãos para segurar a peruca encaracolada na cabeça.
“O cirurgião está certo!”, disse o homem de mãos de gancho. “Vocês são bonitos e maravilhosos, todos vocês! Vamos lá, uma salva de palmas para vocês mesmos!”
“Viva nós!”, gritou um voluntário, e a plateia aplaudiu mais uma vez. Os dois Baudelaire olharam para a irmã mais velha, esperando que o barulho da multidão a acordasse, mas Violet não se mexeu.
“Agora, as duas adoráveis senhoras que vocês estão vendo são duas colegas minhas chamadas dra. Tocuna e enfermeira Flo”, continuou o careca. “Que tal dar a elas as mesmas boas-vindas maravilhosas que vocês nos deram?”
Klaus e Sunny meio que esperavam que alguém na multidão gritasse: “Elas não são colegas médicas! Elas são aquelas crianças procuradas por assassinato!”, mas em vez disso, a multidão meramente aplaudiu mais uma vez, e as duas crianças se viram acenando, infelizes, para a plateia. Embora os jovens estivessem aliviados por não terem sido reconhecidos, a sensação de borboletas nos seus estômagos só fez piorar, enquanto todo mundo no anfiteatro cirúrgico ia ficando cada vez mais ansioso para que a operação tivesse início.
“E agora que vocês já conheceram todos os nossos fantásticos artistas”, disse o homem de mãos de gancho, “vamos dar início ao espetáculo. Dr. Flacutono, está pronto para começar?”
“Certamente”, disse o careca. “Agora, senhoras e senhores, como certamente já sabem, uma craniectomia é um procedimento em que a cabeça do paciente é removida. Os cientistas descobriram que muitos problemas de saúde estão enraizados no cérebro, portanto a melhor coisa a fazer com um paciente enfermo é removê-lo. No entanto, uma craniectomia é tão perigosa quanto necessária. Existe uma chance de que Laura V. Bleediotie venha a morrer no decorrer da operação, mas às vezes é preciso correr o risco de acidentes, a fim de curar a doença.”
“A morte de um paciente seria com certeza um acidente terrível, dr. Flacutono”, disse o homem de mãos de gancho.
“Com certeza, dr. O. Lucafont”, concordou o careca. “É por isso que farei com que minhas colegas realizem a cirurgia, enquanto eu supervisiono. Dra. Tocuna e enfermeira Flo, podem começar.”
A multidão aplaudiu mais uma vez, e os parceiros de Olaf fizeram reverências e jogaram beijos para todos os cantos do anfiteatro cirúrgico, enquanto as duas crianças se entreolhavam horrorizadas.
“O que vamos fazer?”, murmurou Klaus para a irmã, olhando para a multidão. “Estamos cercados por pessoas que esperam que serremos fora a cabeça de Violet.”
Sunny olhou para Violet, ainda inconsciente na maca, e depois para o irmão, que estava segurando o comprido facão enferrujado que Esmé lhe dera.
“Diferir”, disse ela. A palavra “diferir” tem dois significados, mas como acontece com a maioria das palavras com dois significados, você pode deduzir qual deles está sendo usado, examinando a situação. A palavra “diferir”, por exemplo, pode se referir ao que diz alguém cuja opinião não é a mesma que a sua, mas Klaus percebeu imediatamente que o que Sunny queria dizer era algo mais no gênero de: “Vamos tentar adiar a operação o máximo que pudermos, Klaus”, e ele concordou silenciosamente com a cabeça. O Baudelaire do meio respirou fundo e fechou os olhos, tentando pensar em alguma coisa que pudesse ajudá-lo a protelar a craniectomia, e subitamente lembrou-se de uma coisa que tinha lido.
Quando você lê tantos livros como Klaus Baudelaire, fica sabendo uma grande quantidade de informações que podem não ser úteis por muito tempo. Você pode ler um livro que ensina tudo sobre exploração do espaço sideral, mesmo que você não se torne um astronauta até os oitenta anos de idade. Você pode ler um livro sobre como fazer acrobacias em patins de gelo, e depois não fazer essas acrobacias por algumas semanas. Você pode ler um livro sobre como ter sucesso no casamento depois que a única mulher que você já amou, e amará para sempre, se casou com outra pessoa e pereceu em uma tarde terrível. Mas apesar de Klaus ter lido livros sobre exploração do espaço sideral, acrobacias em patins de gelo e bons métodos de casamento, sem ter encontrado ainda muita utilidade para essas informações, ele aprendeu uma grande quantidade de informações que estavam prestes a se tornar realmente muito úteis.
“Antes de fazer a primeira incisão”, disse Klaus, usando uma palavra difícil em vez de “corte”, a fim de soar mais como um profissional da medicina, “acho que a enfermeira Flo e eu devíamos conversar um pouco sobre o equipamento que estamos usando.”
Sunny olhou intrigada para o irmão.
“Facão?”, perguntou ela.
“Certo”, disse Klaus. “É um facão, e...”
“Todos nós sabemos que é um facão, dra. Tocuna”, disse o homem de mãos de gancho, sorrindo para a plateia enquanto o careca se inclinava e sussurrava para Klaus: “O que você está fazendo?”, chiou ele. “Apenas serre fora a cabeça da pirralha, e pronto!”
“Um médico de verdade jamais realizaria uma nova operação sem explicar tudo”, Klaus sussurrou em resposta. “Temos de seguir falando, ou nunca conseguiremos enganá-los.”
Os parceiros de Olaf olharam para Klaus e Sunny um momento, e os dois Baudelaire se prepararam para sair correndo, arrastando a maca de Violet com eles, caso fossem finalmente reconhecidos. Mas depois de um momento de hesitação, os dois homens se entreolharam e concordaram.
“Acho que você está certa”, disse o homem de mãos de gancho, e depois voltou-se para a plateia. “Desculpem pela demora, pessoal. Como vocês sabem, nós somos médicos de verdade, e por isso estamos explicando tudo. Prossiga, dra. Tocuna.”
“A craniectomia será realizada usando uma faca”, disse Klaus, “que é o instrumento cirúrgico mais antigo do mundo.” Ele estava se lembrando do capítulo sobre facas na História completa dos instrumentos cirúrgicos, que lera quando tinha onze anos. “As primeiras facas foram encontradas nas tumbas egípcias e nos templos maias, onde eram usadas com fins cerimoniais e, na maior parte, confeccionadas em pedra. Gradualmente, o bronze e o ferro se tornaram os materiais essenciais das facas, muito embora algumas culturas as confeccionassem usando os incisivos de animais abatidos.”
“Dentes”, explicou Sunny.
“Existem diversos tipos diferentes de facas”, continuou Klaus, “incluindo o canivete, a navalha e a faca de rasto, mas o facão requerido para a craniectomia é uma faca Bowie, assim chamada em homenagem ao coronel James Bowie, que viveu no Texas.”
“Esta não foi uma explicação magnífica, senhoras e senhores?”, disse o homem de mãos de gancho.
“Certamente foi”, concordou uma repórter. Era uma mulher que usava um tailleur cinzento e mascava chiclete enquanto falava a um pequeno microfone. “Já posso ver a manchete: ‘MÉDICA E ENFERMEIRA EXPLICAM HISTÓRIA DA FACA’. Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!”
A plateia aplaudiu concordando, e o anfiteatro cirúrgico se encheu de sons de vivas e palmas. Violet se mexeu na maca, muito de leve. Sua boca se abriu um pouco mais, e uma das mãos caídas estremeceu um instante. Os movimentos foram tão pequenos que só Klaus e Sunny notaram, e eles se entreolharam, esperançosos. Conseguiriam continuar diferindo até passar completamente a anestesia?
“Chega de conversa”, sussurrou o careca para as crianças. “É muito divertido enganar pessoas inocentes, mas é melhor prosseguirmos com a operação antes que a órfã acorde.”
“Antes de fazer a primeira incisão”, disse Klaus novamente, continuando a dirigir-se à plateia, como se o careca não tivesse falado nada, “eu gostaria de dizer umas poucas palavras com relação à ferrugem.” Ele fez uma breve pausa e tentou se lembrar do que tinha aprendido em um livro intitulado O que acontece ao metal molhado, que ganhara de presente da mãe. “A ferrugem é uma camada marrom-avermelhada que se forma sobre certos metais quando eles oxidam, o que é um termo científico para uma reação química que ocorre quando o aço ou o ferro entram em contato com a umidade.” Ele ergueu o facão enferrujado para que a plateia o visse e, com o canto do olho, viu a mão de Violet se mexer de novo, só um pouquinho. “O processo de oxidação é parte integrante de uma craniectomia, devido aos processos oxidativos da mitocôndria celular e da desmistificação cosmética”, continuou ele, tentando usar tantas palavras complicadas quantas fosse capaz de pensar.
“Palmas!”, gritou Sunny, e a plateia novamente aplaudiu, embora não tão sonoramente desta vez.
“Muito impressionante”, disse o parceiro careca, fulminando Klaus com o olhar por cima da máscara cirúrgica. “Mas eu acho que estas adoráveis pessoas vão entender melhor o processo depois que a cabeça for de fato removida.”
“É claro”, retrucou Klaus. “Mas primeiro, precisamos atentar as vértebras, para que possamos efetuar um talho preciso. Enfermeira Flo, poderia por favor dar uma mordidela no pescoço de Viol..., quero dizer, Laura V. Bleediotie?”
“Sim”, disse Sunny com um sorriso, sabendo exatamente o que Klaus pretendia. Na ponta dos pés, a mais nova dos Baudelaire deu algumas mordidelas no pescoço da irmã, esperando que aquilo acordasse Violet. Quando os dentes de Sunny rasparam sua pele, Violet estremeceu e fechou a boca, mas nada além disso.
“O que você está fazendo?”, perguntou o homem de mãos de gancho, num sussurro enfurecido. “Faça a operação de uma vez, ou Mattathias vai ficar furioso!”
“A enfermeira Flo não é maravilhosa?”, perguntou Klaus à plateia, mas apenas umas poucas pessoas na multidão bateram palmas, e não houve um viva sequer. Claramente, as pessoas no anfiteatro cirúrgico estavam impacientes por ver algum tipo de cirurgia, em vez de ouvir mais explicações.
“Creio que você já mordeu o suficiente o pescoço dela”, disse o careca. Sua voz era amistosa e profissional, mas os olhos miravam as crianças cheios de suspeita. “Vamos prosseguir com a craniectomia.”
Klaus assentiu e agarrou a faca com as duas mãos, segurando-a por cima da irmã indefesa. Ele olhou para a figura adormecida de Violet e perguntou a si mesmo se conseguiria fazer no pescoço de Violet um corte muito pequeno, suficiente para despertá-la, porém sem causar um ferimento sério. Ele olhou para a lâmina enferrujada, que balançava para cima e para baixo, enquanto suas mãos tremiam de medo. E então olhou para Sunny, que tinha parado de mordiscar o pescoço de Violet e estava de olhos erguidos para ele, olhos arregalados.
“Não posso fazer isto”, sussurrou ele, e ergueu os olhos para o teto. Lá no alto, acima deles, havia um alto-falante quadrado de intercomunicador que não notara antes, e essa visão o fez pensar em uma coisa. “Não posso fazer isto”, ele anunciou, e a multidão abafou um grito de espanto.
O homem de mãos de gancho deu um passo na direção da maca e apontou a sua luva flácida e encurvada para Klaus. O Baudelaire do meio pôde ver a ponta aguda do gancho, que perfurara o dedo da luva, projetando-se como uma criatura do mar emergindo da água.
“Por que não?”, perguntou baixinho o homem de mãos de gancho.
Klaus engoliu em seco, esperando ainda ser capaz de soar como um profissional médico, em vez de uma criança assustada.
“Antes de fazer a primeira incisão, há mais uma coisa que precisa ser feita. A coisa mais importante que fazemos aqui no Hospital Heimlich.”
“E que coisa é essa?”, perguntou o careca. Sua máscara cirúrgica encrespou-se para baixo quando ele fez uma carranca sinistra para as crianças, mas a máscara de Sunny começou a encrespar-se na direção oposta quando ela percebeu sobre o que Klaus estava falando, e começou a sorrir.
“Papelada!”, disse ela, e para deleite dos Baudelaire a plateia começou a aplaudir de novo.
“Viva!”, bradou um dos voluntários C.S.C., no fundo do anfiteatro cirúrgico, enquanto os aplausos continuavam. “Viva a papelada!”
Os dois parceiros de Olaf se entreolharam frustrados, enquanto os Baudelaire se entreolhavam aliviados.
“Viva a papelada, é isso mesmo!”, exclamou Klaus. “Não podemos operar uma paciente até que a sua ficha esteja absolutamente completa!”
“Não posso acreditar que nos esquecemos disso, mesmo que seja por um momento!”, exclamou uma enfermeira. “A papelada é a coisa mais importante que fazemos neste hospital!”
“Já posso ver a manchete: “HOSPITAL HEIMLICH QUASE ESQUECE A PAPELADA!’. Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!”
“Alguém vá chamar Hal”, sugeriu um médico. “Ele está encarregado da Biblioteca de Registros, portanto pode resolver esse problema de papelada para nós.”
“Vou chamar Hal agora mesmo!”, anunciou uma enfermeira, saindo do anfiteatro cirúrgico, e a multidão bateu palmas em apoio à sua decisão.
“Não há necessidade de chamar Hal”, disse o homem de mãos de gancho, erguendo as luvas encurvadas para tentar acalmar a multidão. “A papelada foi providenciada, garanto para vocês.”
“Mas toda a papelada cirúrgica tem de ser verificada por Hal”, disse Klaus. “Essa é a política do Hospital Heimlich.”
O careca fulminou as crianças com o olhar e falou-lhes em um sussurro amedrontador:
“Que diabo vocês estão fazendo?”, perguntou ele. “Vão arruinar tudo!”
“Acho que a dra. Tocuna está certa”, disse outro médico. “Essa é a política aqui.”
A multidão aplaudiu de novo, e Klaus e Sunny se entreolharam. Os dois Baudelaire, é claro, não tinham ideia de qual era a política do hospital no que concerne à papelada cirúrgica, mas estavam começando a ver que a multidão acreditaria em qualquer coisa, se achasse que era dita por um profissional médico.
“Hal está a caminho”, disse a enfermeira, retornando ao recinto. “Aparentemente houve algum problema na Biblioteca de Registros, mas ele virá o mais depressa que puder para resolver essa questão de uma vez por todas.”
“Não precisamos de Hal para resolver essa questão de uma vez por todas”, disse uma voz vinda do fundo do anfiteatro, e os Baudelaire se voltaram para ver a figura delgada e claudicante de Esmé Squalor, caminhando diretamente para eles com seus sapatos de salto de estilete, com duas pessoas seguindo-a obedientemente. As duas pessoas estavam ambas vestidas de aventais de médico e máscaras cirúrgicas, exatamente como os dos Baudelaire. Klaus e Sunny só puderam ver uma pequena parte de seus rostos pálidos acima da máscara e perceberam imediatamente que eram as duas assistentes empoadas de Olaf.
“Esta é a verdadeira dra. Tocuna”, disse Esmé, apontando para uma das mulheres, “e esta é a verdadeira enfermeira Flo. As duas pessoas em cima desse palco são impostores.”
“Não, não somos”, disse zangado o homem de mãos de gancho.
“Não vocês dois”, retrucou Esmé, impaciente, lançando um olhar feroz por cima da máscara cirúrgica para os dois capangas. “Quero dizer as outras duas pessoas em cima desse palco. Elas enganaram todo mundo. Elas enganaram médicos, enfermeiras, voluntários, repórteres, e inclusive a mim. Isto é, até eu encontrar as verdadeiras parceiras do dr. Flacutono.”
“Na minha opinião médica”, disse Klaus, “esta mulher perdeu a cabeça.”
“Eu não perdi a cabeça”, disse Esmé, com um rosnido, “mas vocês estão prestes a perder as de vocês, pirralhos Baudelaire.”
“Baudelaire?”, perguntou a repórter d’O Pundonor Diário. “Os mesmos Baudelaire que assassinaram o conde Omar?”
“Olaf”, corrigiu o careca.
“Estou confuso”, queixou-se um voluntário. “Já tem gente demais fingindo ser outra pessoa.”
“Deixem-me explicar”, disse Esmé, subindo ao palco. “Eu sou uma profissional médica, exatamente como o dr. Flacutono, o dr. O. Lucafont, a dra. Tocuna e a enfermeira Flo. Isso vocês mesmos podem ver, pelos nossos aventais de médico e máscaras cirúrgicas.”
“Nós também!”, gritou Sunny.
A máscara cirúrgica de Esmé encrespou-se para cima em um sorriso perverso.
“Não por muito tempo”, disse ela e, em um só gesto repentino, arrancou as máscaras dos rostos dos Baudelaire. A multidão abafou um grito de espanto quando as máscaras caíram esvoaçando ao chão, e as duas crianças viram os médicos, enfermeiros, repórteres e pessoas comuns na plateia olharem horrorizados para eles. Somente os Combatentes pela Saúde do Cidadão, que acreditavam que a falta de notícias é uma boa notícia, não reconheceram os jovens.
“Eles são os Baudelaire!”, exclamou uma enfermeira, atônita. “Li sobre eles n’O Pundonor Diário!”
“Eu também!”, exclamou um médico.
“É sempre um prazer ter um retorno dos nossos leitores”, disse a repórter, modestamente.
“Mas deveria haver três órfãos homicidas, e não dois”, disse um outro médico. “Onde está a mais velha?”
Rapidamente, o homem de mãos de gancho plantou-se na frente da maca, escondendo Violet da plateia.
“Ela já está na cadeia”, disse ele, depressa.
“Não está!”, disse Klaus, e afastou os cabelos de Violet dos olhos para que todos pudessem ver que ela não era Laura V. Bleediotie. “Essas pessoas horrorosas a disfarçaram como paciente, para que pudessem cortar a cabeça dela!”
“Não seja ridículo”, disse Esmé. “Era você quem estava tentando cortar a cabeça dela. Olhe só, ainda está segurando a faca.”
“É verdade!”, exclamou a repórter. “Já posso ver a manchete: ‘ASSASSINO TENTA ASSASSINAR ASSASSINA’. Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isto!”
“Tuím!”, gritou Sunny.
“Nós não somos assassinos!”, traduziu Klaus, desesperado.
“Se vocês não são assassinos”, disse a repórter estendendo o seu microfone, “então por que se infiltraram em um hospital disfarçados?”
“Acho que posso explicar isso”, disse uma outra voz familiar, e todos se voltaram para ver Hal entrando no anfiteatro cirúrgico. Em uma das mãos, estava segurando o molho de chaves que os Baudelaire tinham feito com clipes de papel e a fita de cabelo de Violet e, com a outra, apontava irado para as crianças.
“Aqueles três assassinos Baudelaire”, disse ele, “fingiram ser voluntários para ir trabalhar na Biblioteca de Registros.”
“Eles fizeram isso?”, disse uma enfermeira enquanto a plateia abafava um grito de espanto. “Você quer dizer que eles são assassinos e também falsos voluntários?”
“Não admira que eles não soubessem a letra da canção!”, exclamou um voluntário.
“Se aproveitando da minha vista fraca”, continuou Hal, apontando para os seus óculos, “eles fizeram estas chaves falsas e substituíram as verdadeiras, para poder entrar sorrateiramente na biblioteca e destruir as pastas sobre os seus crimes!”
“Nós não queríamos destruir a pasta”, disse Klaus, “nós queríamos limpar o nosso nome. Sinto muito por tê-lo enganado, Hal, e sinto muito se alguns arquivos de aço foram derrubados, mas...”
“Derrubados?”, repetiu Hal. “Vocês fizeram mais do que derrubar arquivos de aço.” Ele olhou para as crianças e suspirou com um ar cansado, depois voltou-se para ficar de frente para a plateia. “Estas crianças cometeram crime de incêndio premeditado”, disse ele. “A Biblioteca de Registros está ardendo enquanto estamos aqui, falando.”

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