quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo onze


A expressão francesa “cul-de-sac” descreve o que os órfãos Baudelaire encontraram quando chegaram ao fim do corredor escuro e, como todas as expressões francesas, é mais facilmente compreendida quando você traduz as palavras francesas uma por uma. A palavra “de”, por exemplo, é uma palavra francesa muito comum, portanto mesmo não sabendo nem uma palavra em francês eu teria certeza de que “de” significa “de”. A palavra “sac” é menos comum, mas estou razoavelmente certo de que significa alguma coisa como “circunstâncias misteriosas”. E a palavra “cul” é uma palavra francesa tão rara que sou forçado a adivinhar a sua tradução, e o meu palpite é que, neste caso, significaria “No final do corredor escuro, as crianças Baudelaire encontraram uma variedade”, portanto a expressão “cul-de-sac” aqui significa “No final do corredor escuro, as crianças Baudelaire encontraram uma variedade de circunstâncias misteriosas”.
Se os Baudelaire tivessem sido capazes de escolher uma expressão francesa que estivesse aguardando por eles no final do corredor, podiam ter escolhido uma que significasse “Quando as três crianças dobraram o último canto escuro do corredor, a polícia já tinha capturado Gunther e salvado os trigêmeos Quagmire”, ou pelo menos “Os Baudelaire ficaram encantados ao ver que o corredor levava diretamente ao Veblen Hall, onde estava acontecendo o Leilão In”. Mas o final do corredor revelou-se tão misterioso e preocupante quanto o resto dele. Toda a extensão do corredor era muito escura, e tinha tantas viradas e curvas que as três crianças se viram frequentemente indo de encontro às paredes. O teto do corredor era muito baixo – Gunther deve ter tido que se abaixar quando o usou para os seus planos traiçoeiros – e acima das suas cabeças as três crianças puderam ouvir uma série de ruídos que lhes forneciam pistas sobre aonde o corredor provavelmente as levava. Depois das primeiras curvas, ouviram a voz abafada do porteiro e os seus passos quando andava acima delas, e os Baudelaire se deram conta de que deviam estar embaixo do saguão do edifício de apartamentos dos Squalor. Depois de mais algumas curvas, ouviram dois homens discutindo decorações praianas, e se deram conta de que deviam estar caminhando embaixo da Avenida Sombria. Depois de mais algumas curvas, ouviram o estrépito desconjuntado de um velho bonde que passava acima das suas cabeças, e as crianças souberam que o corredor as levava por baixo de uma das paradas de bonde da cidade. O corredor fazia curvas e mais curvas, e os Baudelaire ouviram uma variedade de sons urbanos – o bater de cascos de cavalos, o ranger estridente de equipamentos industriais, o repicar de sinos de igrejas e o estardalhaço de pessoas derrubando coisas –, mas quando finalmente chegaram ao final do corredor não havia som absolutamente nenhum acima das suas cabeças. Os Baudelaire ficaram parados, imóveis, e tentaram imaginar um lugar da cidade que fosse absolutamente silencioso.
“Onde vocês acham que estamos?”, perguntou Violet aguçando os ouvidos para escutar ainda mais atentamente. “Está silencioso como um túmulo lá em cima.”
“Não é com isso que estou preocupado”, respondeu Klaus cutucando a parede com o seu atiçador de fogo. “Não consigo descobrir para que lado o corredor vira. Acho que podemos estar em um beco sem saída.”
“Um beco sem saída!”, disse Violet, e cutucou a parede oposta com o seu atiçador. “Não pode ser um beco sem saída. Ninguém constrói um corredor que não leva a lugar nenhum.”
“Pratjic”, disse Sunny, o que queria dizer “Se Gunther usou esta passagem, ele deve ter saído em algum lugar”.
“Estou cutucando cada centímetro dessas paredes”, disse Klaus, soturno, “e não existe porta, nem escadaria, nem curva, nem nada. É um beco sem saída, com certeza. Não existe outra palavra para isto. Na verdade, há uma expressão francesa para beco sem saída, mas não consigo me lembrar qual é.
“Acho que teremos de voltar sobre os nossos passos”, disse Violet muito infeliz. “Acho que teremos de fazer meia-volta, e andar todo o corredor de novo, e escalar até a rede, e fazer com que Sunny morda a parede até a cobertura, e encontre mais alguns materiais para fazer uma corda ersatz, e escalar tudo de novo até o último andar, e escorregar pelo corrimão até o saguão, e sair sorrateiramente sem que o porteiro nos veja, e correr até o Veblen Hall.”
“Pietian”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Nunca chegaremos lá a tempo de expor Gunther e salvar os Quagmire”.
“Eu sei”, suspirou Violet. “Mas não sei o que mais poderíamos fazer. Parece que estamos despreparados, mesmo com estes atiçadores.”
“Se tivéssemos umas pás”, disse Klaus, “poderíamos abrir caminho cavando para fora do corredor, mas não podemos usar os atiçadores como pás.”
“Tenti”, disse Sunny, o que queria dizer “Se tivéssemos um pouco de dinamite, poderíamos abrir caminho para fora do corredor com uma explosão, mas não podemos usar os atiçadores como dinamite”.
“Mas talvez possamos usá-los para fazer barulho”, disse Violet de repente. “Vamos bater no teto com os nossos atiçadores e ver se conseguimos atrair a atenção de alguém que esteja passando lá em cima.”
“Não me soa como se houvesse alguém passando lá em cima”, disse Klaus, “mas vale a tentativa. Vem cá, Sunny, vou erguer você para que o seu atiçador também alcance o teto.”
Klaus ergueu a irmã e as três crianças começaram a bater no teto, planejando fazer um estardalhaço que durasse vários minutos. Mas assim que os atiçadores atingiram o teto pela primeira vez, uma chuvarada de poeira preta caiu sobre os Baudelaire. O pó choveu em cima deles como uma tempestade seca e imunda, e as crianças tiveram de interromper o seu estardalhaço para tossir, esfregar os olhos e cuspir o pó que tinha caído dentro das suas bocas.
“Eca!”, fez Violet, cuspindo. “Que gosto horrível!”
“Tem gosto de torrada queimada”, disse Klaus.
“Peflob!”, gritou Sunny.
Diante disto, Violet parou de tossir e lambeu a ponta do dedo, pensativa. “São cinzas”, disse ela. “Talvez estejamos embaixo de uma lareira.”
“Eu não acho”, disse Klaus. “Olhe para cima.”
Os Baudelaire olharam para cima e viram que o pó preto tinha revelado uma faixa de luz muito pequena, mal chegando à largura de um lápis. As crianças olharam fixamente para ela e puderam ver o sol da manhã olhando fixamente de volta.
“Tisdu?”, disse Sunny, o que queria dizer “Em que lugar da cidade pode-se encontrar cinzas do lado de fora?”.
“Talvez estejamos embaixo de uma churrasqueira”, disse Klaus.
“Bem, logo vamos descobrir”, retrucou Violet, e começou a limpar mais pó do teto com a mão. Enquanto o pó caía sobre as crianças em uma nuvem espessa e escura, a faixa magrinha de luz foi se transformando em quatro faixas magrinhas de luz, como o desenho de um quadrado no teto. A luz do quadrado, os Baudelaire puderam ver um par de dobradiças. “Olhem”, disse Violet, “é um alçapão. Não dava para ver na escuridão do corredor, mas lá está ele.”
Klaus pressionou o seu atiçador contra o alçapão tentando abri-lo, mas ele não cedeu. “Está trancado, é claro”, disse ele. “Aposto que Gunther o trancou atrás dele, quando levou embora os Quagmire.”
Violet encarou o alçapão e as outras crianças puderam ver, à luz do sol que se infiltrava, que ela estava amarrando o cabelo com uma fita, para impedir que caísse nos olhos. “Não é uma fechadura que vai nos deter”, disse ela. “Não agora, que já chegamos até aqui. Acho que a ocasião está finalmente madura para estes atiçadores – não como soldadores, nem para fazer barulho.” Ela sorriu e voltou sua atenção para os irmãos. “Podemos usá-los como pés-de-cabra”, disse ela, animada.
“Herdiset?”, perguntou Sunny.
“Um pé-de-cabra é uma espécie de alavanca portátil”, disse Violet, “e estes atiçadores vão funcionar perfeitamente. Vamos enfiar a ponta torta na parte onde a luz está brilhando, e depois empurrar o resto do atiçador com força para baixo. Entenderam?”
“Acho que sim”, disse Klaus. “Vamos tentar.”
Os Baudelaire tentaram. Cuidadosamente, enfiaram a parte dos atiçadores que tinha sido aquecida no forno em um lado do quadrado de luz. E então, gemendo com o esforço, empurraram a ponta reta dos atiçadores para baixo o mais forte que puderam, e fico feliz em relatar que os pés-de-cabra funcionaram perfeitamente. Com um tremendo som crepitante e mais uma nuvem de cinzas, o alçapão girou nas dobradiças e se abriu na direção das crianças, que tiveram de se esquivar quando ele passou por cima das suas cabeças. A luz do sol invadiu o corredor, e os Baudelaire viram que tinham finalmente chegado ao fim da sua longa, tenebrosa jornada.
“Funcionou!”, gritou Violet. “Funcionou de verdade!”
“A ocasião estava madura para as suas habilidades de inventora!”, exclamou Klaus. “A solução estava bem na ponta dos nossos atiçadores!”
“Upa!”, gritou Sunny, e as crianças concordaram.
Ficando na ponta dos pés, os Baudelaire conseguiram se agarrar às dobradiças, içando-se para fora do corredor e deixando para trás os seus pés-de-cabra. Um momento depois, as três crianças estavam apertando os olhos à luz do sol.
Uma das coisas que mais aprecio entre os meus bens é uma pequena caixa de madeira com uma fechadura especial, que tem mais de quinhentos anos de idade e funciona usando um código secreto que o meu avô me ensinou. Meu avô aprendeu com o avô dele, e o avô dele aprendeu com o avô dele, e eu ensinaria ao meu neto se achasse que ainda viria a ter uma família que fosse minha, em vez de viver o resto dos meus dias sozinho neste mundo. A pequena caixa de madeira é uma das coisas que mais aprecio entre os meus bens, porque quando a fechadura é aberta usando o código, uma pequena chave de prata pode ser encontrada lá dentro, e essa chave serve na fechadura de um dos meus outros bens que mais aprecio, que é uma caixa de madeira ligeiramente maior, a qual me foi dada por uma mulher, a respeito da qual meu avô sempre se recusou a falar. Dentro dessa caixa de madeira ligeiramente maior está um rolo de pergaminho, palavra que aqui quer dizer “um pedaço de papel muito velho trazendo impresso um mapa da cidade na época em que os órfãos Baudelaire nela viviam”. O mapa tem cada detalhe da cidade anotado em tinta azul-escura, com as medidas dos edifícios, esboços de vestimentas e gráficos das mudanças no tempo, tudo acrescentado às margens do mapa pelos doze donos anteriores, todos agora falecidos. Passei mais horas do que jamais poderei contar examinando cada centímetro desse mapa tão atentamente quanto possível, para que tudo o que pode ser aprendido ali fosse copiado para os meus arquivos e depois para livros como este, na esperança de que o grande público finalmente fique sabendo cada detalhe da conspiração traiçoeira da qual passei a vida tentando escapar. O mapa contém milhares de coisas fascinantes que foram descobertas por todo tipo de exploradores, investigadores criminais e artistas de circo no decorrer dos anos, mas a coisa mais fascinante que o mapa contém foi descoberta bem naquele momento pelas três crianças Baudelaire. Às vezes, na calada da noite, quando não consigo dormir, levanto-me da cama e, usando o código, abro a pequena caixa de madeira para retirar a chave de prata que abre a caixa de madeira ligeiramente maior, para que eu possa me sentar à minha escrivaninha e examinar mais uma vez, à luz de vela, as duas linhas pontilhadas que indicam o corredor subterrâneo que começa no fundo do poço do elevador na Avenida Sombria 667 e termina no alçapão que os Baudelaire conseguiram abrir com os seus pés-de-cabra ersatz. Fico olhando demoradamente para aquela parte da cidade onde os órfãos se içaram para fora daquele corredor horroroso mas, não importa quanto tempo eu olhe, mal posso acreditar nos meus próprios olhos, do mesmo modo como os jovens não podiam acreditar nos deles.
Os irmãos tinham ficado no escuro por tanto tempo que seus olhos demoraram um bocado para se acostumar com os arredores adequadamente iluminados, e eles ficaram parados um momento, esfregando os olhos e tentando ver aonde o alçapão os levara. Mas no súbito resplendor do sol da manhã, a única coisa que as crianças conseguiram ver foi a sombra gorducha de um homem perto delas.
“Com licença”, disse Violet enquanto seus olhos ainda estavam se ajustando à luz. “Precisamos chegar ao Veblen Hall. É uma emergência. Pode me dizer onde é?”
“S-só dois qua-quarteirões naquela direção”, gaguejou a sombra, e as crianças pouco a pouco se deram conta de que se tratava de um carteiro com um ligeiro excesso de peso, apontando rua abaixo e olhando assustado para as crianças. “Por favor, não me machuquem”, acrescentou o carteiro se afastando um passo das crianças.
“Não vamos machucá-lo”, disse Klaus, limpando as cinzas dos óculos.
“Os fantasmas sempre dizem isso”, disse o carteiro, “mas depois machucam a gente, de um jeito ou de outro.”
“Mas nós não somos fantasmas”, disse Violet.
“Não me digam que vocês não são fantasmas”, retrucou o carteiro. “Eu vi vocês se levantarem das cinzas com estes olhos, como se tivessem vindo do centro da terra. As pessoas sempre disseram que era mal-assombrado este terreno aqui, onde a mansão Baudelaire pegou fogo, e agora sei que isto é verdade.”
O carteiro saiu correndo antes que os Baudelaire pudessem responder, mas de qualquer modo as três crianças estavam espantadas demais com as palavras dele para conversar. Elas piscaram e piscaram muito sob o sol da manhã e, finalmente, seus olhos se ajustaram o suficiente para ver que o carteiro tinha razão. Era verdade. Não era verdade que as três crianças fossem fantasmas, é claro. Elas não eram criaturas espectrais que se ergueram do centro da terra, mas três órfãos que tinham se içado para fora do corredor. Mas o carteiro falara a verdade quando contou onde estavam. Os órfãos Baudelaire olharam em volta e se agarraram uns nos outros como se ainda estivessem em um corredor escuro, e não do lado de fora à plena luz do dia, em pé no meio das ruínas e cinzas do seu lar destruído.

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