domingo, 21 de agosto de 2016

Capítulo oito


A manhã seguinte começou com uma aurora prolongada e colorida, que Sunny viu do seu esconderijo embaixo da Árvore do Nunca Mais. Ela continuou com os sons dos corvos que despertavam, que Klaus ouviu de dentro da biblioteca no celeiro, e prosseguiu com a visão dos pássaros fazendo o seu familiar círculo no céu, que Violet viu bem no momento em que estava saindo do ateliê de invenções. Quando Klaus juntou-se à irmã do lado de fora do celeiro e Sunny engatinhou pela paisagem achatada para chegar até eles, os pássaros já tinham parado de circular e estavam voando juntos para a cidade alta. A manhã estava tão linda e tranquila que, ao descrevê-la, quase consigo me esquecer de que aquela era uma manhã muito, muito triste para mim, uma manhã que eu gostaria de riscar para sempre do calendário Snicket. Mas não posso apagar esse dia, assim como não sou capaz de escrever um final feliz para este livro, pela simples razão de que a história não acontece assim. Não importa o quanto era adorável a manhã, ou o quanto os Baudelaire estavam confiantes com o que já tinham descoberto no decorrer da noite, no horizonte desta história não há um final feliz, assim como não havia um elefante no horizonte de C.S.C.
“Bom dia”, Violet disse a Klaus, e bocejou.
“Bom dia”, Klaus respondeu. Ele estava segurando dois livros nos braços, mas mesmo assim conseguiu acenar para Sunny, que ainda estava engatinhando na direção deles. “Como foram as coisas com Hector no ateliê de invenções?”
“Bem, Hector caiu no sono algumas horas atrás”, disse Violet, “mas eu descobri algumas pequenas falhas na casa móvel autossustentável a ar quente. A condutividade do motor era baixa, devido a alguns problemas com o gerador eletromagnético que Hector construiu. Isto significa que a taxa de inflação dos balões frequentemente se tornava irregular, e, assim sendo, reconfigurei alguns condutos-chave. Também o sistema de circulação de água estava operando com tubulações inadequadas, o que significa que o aspecto autossustentável da central de alimentação provavelmente não iria durar tanto quanto deveria, daí redirecionei uma parte da ciclagem áquea.”
“Dia!”, exclamou Sunny ao aproximar-se dos irmãos.
“Bom dia, Sunny”, disse Klaus. “Violet estava justo me contando que notou algumas coisas erradas com a invenção de Hector, mas acha que conseguiu consertar.”
“Bem, eu gostaria de testar o dispositivo inteiro antes de subirmos nele, se houver tempo”, disse Violet erguendo Sunny do chão e segurando-a nos braços, “mas acho que tudo deverá funcionar razoavelmente bem. É uma invenção fantástica. Um pequeno grupo de pessoas poderia realmente passar o resto da vida em segurança no ar. Você descobriu alguma coisa na biblioteca?”
“Bem, primeiro eu descobri que os livros sobre as regras de C.S.C. são na verdade muito fascinantes”, disse Klaus. “A Regra nº 19, por exemplo, reza claramente que as únicas canetas aceitáveis dentro dos limites da cidade são as feitas de penas de corvo. E no entanto, a Regra nº 39 reza claramente que é ilegal fazer qualquer objeto com penas de corvo. Como os cidadãos conseguem obedecer às duas regras ao mesmo tempo?”
“Talvez eles não possuam caneta nenhuma”, disse Violet, “mas isso não é importante. Você descobriu alguma coisa de útil nos livros de regras?”
“Sim”, disse Klaus, e abriu um dos livros que estava carregando. “Ouçam isto: ‘A Regra nº 2493 reza claramente que qualquer pessoa que esteja para ser queimada na fogueira tem a oportunidade de fazer um discurso logo antes de o fogo ser aceso’. Podemos ir até a cadeia central da cidade esta manhã para garantir que Jacques tenha essa oportunidade. Em seu discurso, ele poderá contar às pessoas quem ele realmente é, e por que tem aquela tatuagem.”
“Mas ele tentou fazer isso ontem na reunião”, disse Violet. “Ninguém acreditou nele. Ninguém sequer ouviu o que ele tinha a dizer.”
“Eu estava pensando a mesma coisa”, disse Klaus, abrindo o segundo livro, “até que li isto aqui.”
“Touí?”, perguntou Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Existe uma regra que reza claramente que as pessoas têm de ouvir discursos?”.
“Não”, respondeu Klaus. “Este não é um livro de regras. É um livro sobre psicologia, o estudo da mente. Foi removido da biblioteca porque tem um capítulo sobre a tribo dos cheroquis, na América do Norte. Eles fazem toda sorte de coisas com penas, o que quebra a Regra nº 39.”
“Isso é ridículo”, disse Violet.
“Concordo”, disse Klaus, “mas estou contente por este livro estar aqui e não na cidade, porque ele me deu uma ideia. Há um capítulo aqui sobre a psicologia das turbas.”
“Quediz?”, perguntou Sunny.
“Uma turba é uma multidão de pessoas”, explicou Klaus, “geralmente irada.”
“Como os cidadãos e o Conselho dos Anciãos estavam ontem”, disse Violet, “na Prefeitura. Eles estavam incrivelmente irados.”
“Exatamente”, disse Klaus. “Agora escutem isto.” O Baudelaire do meio abriu o segundo livro e começou a ler em voz alta. “‘O diapasão emocional subliminar da ingovernabilidade de uma turba jaz na ressonância de opiniões solitárias enfaticamente manifestadas em diversos pontos do campo estereofônico.’“
“Diapasão? Ressonância? Estereofônico?”, perguntou Violet. “Até parece que você está falando de música.”
“O livro usa uma porção de palavras complicadas”, disse Klaus, “mas por sorte havia um dicionário na biblioteca de Hector. Ele foi removido de C.S.C. porque definia a expressão ‘dispositivo mecânico’. Tudo o que aquela sentença quer dizer é que se umas poucas pessoas, dispersas no meio da multidão, começarem a bradar suas opiniões, logo a turba inteira irá concordar com elas. Isso aconteceu na reunião do Conselho de ontem – umas poucas pessoas disseram coisas iradas, e logo o salão inteiro ficou irado.”
“Viu”, disse Sunny, o que queria dizer “Sim, eu me lembro”.
“Quando chegarmos à cadeia”, disse Klaus, “vamos nos certificar de que Jacques será autorizado a fazer o seu discurso. Então, enquanto ele se explica, vamos nos espalhar no meio da multidão e bradar coisas como ‘Eu acredito nele!’ e ‘Ouçam, ouçam!’. A psicologia da turba fará com que todos exijam que Jacques seja libertado.”
“Você acha mesmo que isto vai funcionar?”, perguntou Violet.
“Bem, eu preferiria fazer um teste primeiro”, disse Klaus, “assim como você preferiria testar a casa móvel autossustentável a ar quente. Mas não temos tempo. E então, Sunny, o que você descobriu depois de passar a noite debaixo da árvore?”
Sunny ergueu uma de suas mãozinhas para mostrar mais uma tirinha de papel. “Dístico!”, exclamou ela triunfante, e seus irmãos juntaram-se em volta dela para ler.

A que antes se lê, contém uma pista,
Recurso inicial que o bandido despista.

“Bom trabalho, Sunny”, disse Violet. “Definitivamente, este é mais um poema de Isadora Quagmire.”
“E parece nos remeter de volta à primeira linha do primeiro poema”, disse Klaus. “Ele diz que ‘A que antes se lê, contém uma pista’.”
“Mas o que significa ‘Recurso inicial que o bandido despista’?”, perguntou Violet. “Iniciais, como C.S.C?”
“Talvez”, respondeu Klaus. “Mas a palavra ‘inicial’ também pode significar ‘primeiro’. Acho que Isadora quer dizer que este é o primeiro jeito que ela encontrou para se comunicar conosco enganando o bandido – isto é, Olaf – através destes poemas.”
“Mas isto nós já sabemos”, disse Violet. “Os Quagmire não precisariam nos contar. Vamos examinar todos os poemas juntos. Talvez isso nos forneça um quadro completo.”
Violet tirou do bolso os outros dois poemas, e as três crianças olharam para todos eles em conjunto.

Cá, por safiras, cativos estamos.
Hora após hora, em terror aguardamos.
Até de manhã, não vai dar pra falar;
Fechado e tristonho há de o bico ficar.
A que antes se lê, contém uma pista,
Recurso inicial que o bandido despista.

“A parte sobre o bico ainda é a mais confusa”, disse Klaus.
“Leucophrys!”, disse Sunny, o que queria dizer “Acho que posso explicar isto – os corvos estão trazendo os dísticos”.
“Como isso é possível?”, perguntou Violet.
“Loidya!”, respondeu Sunny. Ela queria dizer alguma coisa tipo “Tenho certeza absoluta de que ninguém se aproximou da árvore durante toda a noite, e de madrugada o bilhete caiu dos galhos da Árvore.”
“Já ouvi falar de pombos-correio”, disse Klaus. “São pássaros que vivem de levar mensagens. Mas nunca ouvi falar de corvos-correio.”
“Talvez eles não saibam que são corvos-correio”, disse Violet. “De algum modo, os Quagmire podem estar prendendo as tirinhas de papel nos corvos – nos bicos, ou nas penas – e depois os poemas se soltam quando eles dormem na Árvore do Nunca Mais. Os trigêmeos têm de estar em algum lugar aqui na cidade. Mas onde?”
“Co!”, gritou Sunny, apontando para os poemas.
“Sunny tem razão”, disse Klaus, alvoroçado. “Aqui diz ‘Até de manhã, não vai dar pra falar’. Isto quer dizer que eles estão prendendo os poemas nos corvos de manhã, quando eles se empoleiram na cidade alta.”
“Bem, esta é mais uma razão para irmos à cidade alta”, retrucou Violet. “Podemos salvar Jacques antes que ele seja queimado na fogueira, e procurar pelos Quagmire. Se não fosse por você, Sunny, não saberíamos onde procurar pelos Quagmire.”
“Hasserin”, disse Sunny, o que queria dizer “E se não fosse por você, Klaus, não saberíamos como salvar Jacques”.
“E se não fosse por você, Violet”, disse Klaus, “não teríamos possibilidade de escapar desta cidade.”
“E se continuarmos parados aqui”, disse Violet, “não vamos salvar ninguém. Vamos tratar de acordar Hector e ir andando. O Conselho dos Anciãos disse que eles iriam queimar Jacques na fogueira logo depois do café-da-manhã.”
“Yikes!”, disse Sunny, o que queria dizer “Isto não nos deixa muito tempo”, portanto os Baudelaire não levaram muito tempo entrando no celeiro e passando através da biblioteca de Hector, que era tão vasta que as duas irmãs Baudelaire mal podiam acreditar que Klaus tinha conseguido encontrar informações úteis entre as prateleiras e mais prateleiras de livros. Havia estantes tão altas que era preciso subir em uma escada para alcançar as últimas prateleiras, e outras tão baixas que era preciso se arrastar pelo chão para conseguir ler os títulos. Havia livros que pareciam pesados demais para deslocar, e livros que pareciam leves demais para permanecer no lugar, e havia livros que pareciam tão chatos que as irmãs não conseguiam imaginar que alguém fosse capaz de ler – mas estes eram os livros que ainda estavam amontoados em pilhas enormes espalhadas pelas mesas depois da sessão de leitura de noite inteira de Klaus. Violet e Sunny tiveram vontade de parar por um momento para guardar tudo, mas sabiam que não tinham muito tempo.
Atrás da última estante da biblioteca ficava o ateliê de invenções de Hector, onde Klaus e Sunny tiveram o primeiro vislumbre da casa móvel autossustentável a ar quente, que era uma engenhoca maravilhosa. Doze cestas enormes, cada qual do tamanho de um quarto pequeno, estavam empilhadas no canto, conectadas por toda sorte de diferentes tubos, canos e arames, e rodeando as cestas havia uma série de grandes tanques metálicos, engradados de madeira, jarras de vidro, sacos de papel, recipientes de plástico e rolos de barbante, junto com diversos dispositivos mecânicos grandes, com botões, interruptores e engrenagens, e uma grande pilha de balões vazios. A casa móvel autossustentável a ar quente era tão imensa e complicada que lembrou aos dois Baudelaire mais jovens o que eles costumavam pensar ao imaginar como seria por dentro o cérebro inventivo de Violet, e cada parte da casa parecia tão interessante que Klaus e Sunny não sabiam para onde olhar primeiro. Mas os Baudelaire sabiam que não tinham muito tempo, portanto, em vez de explicar a invenção aos irmãos, Violet foi em passos rápidos diretamente até uma das cestas, a qual deixou Klaus e Sunny surpresos quando viram que continha uma cama, e esta, por sua vez, continha um Hector adormecido.
“Bom dia”, disse o factótum depois que Violet o sacudiu gentilmente até acordá-lo.
“É mesmo um bom dia”, retrucou ela. “Nós descobrimos algumas coisas maravilhosas. Vamos explicar tudo a caminho da cidade alta.”
“Da cidade alta?”, disse Hector, saindo da cesta. “Mas os corvos estão empoleirados na cidade alta. Na parte da manhã, fazemos as tarefas da cidade baixa, estão lembrados?”
“Não vamos fazer tarefa nenhuma esta manhã”, disse Klaus com firmeza. “Esta é uma das coisas que precisamos explicar.”
Hector bocejou, se espreguiçou e esfregou os olhos, depois sorriu para as três crianças. “Bem, desembuchem”, disse ele, usando uma expressão que aqui quer dizer “Comecem logo a me contar sobre os seus planos”.
Os irmãos seguiram de volta na frente de Hector, passando pelo ateliê de invenções e pela biblioteca secreta, e aguardaram enquanto ele trancava o celeiro. Então, enquanto davam os primeiros passos pela paisagem achatada rumo à cidade alta, os órfãos Baudelaire desembucharam. Violet contou a Hector sobre os aperfeiçoamentos que fizera na sua invenção, e Klaus contou-lhe sobre o que aprendera na biblioteca de Hector, e Sunny contou-lhe – com um pouco de ajuda dos irmãos na tradução – sobre a sua descoberta de como os poemas de Isadora estavam sendo entregues. Quando os Baudelaire estavam desenrolando a terceira e última tirinha de papel para mostrar a Hector o terceiro dístico, eles já tinham chegado à periferia recoberta de corvos da cidade alta de C.S.C.
“Então os Quagmire estão em algum lugar na cidade alta”, disse Hector. “Mas onde?”
“Não sei”, admitiu Violet, “mas é melhor tentarmos salvar Jacques primeiro. Onde fica a cadeia central?”, perguntou Violet a Hector.
“Fica do outro lado do Chafariz Corvídeo”, respondeu o factótum, “mas parece que não vamos precisar de orientação. Olhem o que está na nossa frente.”
As crianças olharam, e viram alguns dos cidadãos portando tochas flamejantes e caminhando cerca de um quarteirão à frente.
“Já deve ser depois do café-da-manhã”, disse Klaus. “E melhor a gente se apressar.”
Os Baudelaire caminharam o mais depressa que podiam por entre o bando de pássaros crocitantes pousados no chão, com Hector seguindo desassossegado bem atrás, e logo eles dobraram uma esquina e chegaram ao Chafariz Corvídeo – ou pelo menos o que dava para ver dele. O chafariz estava apinhado de corvos que agitavam as asas na água para tomar o seu banho matinal, e os Baudelaire mal conseguiam ver uma pena de metal que fosse do hediondo monumento. Do outro lado do pátio havia um edifício com barras nas janelas e corvos nas barras, e os cidadãos com suas tochas formavam um semicírculo em volta da porta do edifício. Mais cidadãos de C.S.C. estavam chegando de todas as direções, e as três crianças puderam ver alguns membros do Conselho dos Anciãos com seus chapéus de corvo reunidos em pé e ouvindo alguma coisa que a sra. Morrow estava dizendo.
“Parece que chegamos na hora H”, disse Violet. “É melhor nos espalharmos pelo meio da multidão. Sunny, você vai para a extrema esquerda. Eu vou para a extrema direita.”
“Oqueu”, disse Sunny, e começou a engatinhar através do semicírculo de gente.
“Acho que vou simplesmente ficar aqui”, disse Hector baixinho, olhando para o chão, mas as crianças não tinham tempo para discutir com ele. Klaus começou a andar diretamente para o meio da multidão.
“Esperem!”, gritou Klaus, avançando com dificuldade através do povo. “A Regra nº 2493 reza claramente que qualquer pessoa que esteja para ser queimada na fogueira tem a oportunidade de fazer um discurso logo antes de o fogo ser aceso!”
“Sim!”, gritou Violet do lado direito da multidão. “Que Jacques seja ouvido!”
A oficial Luciana se plantou bem na frente de Violet, que quase bateu a testa no lustroso capacete da chefe. Atrás do visor do capacete, Violet pôde ver os cantos da boca cheia de batom de Luciana se erguerem em um minúsculo sorriso. “É tarde demais para isso”, disse ela, e alguns cidadãos em volta murmuraram concordando. Com uma batida surda de uma das botas, ela deu um passo para o lado e deixou Violet ver o que estava acontecendo. Do lado esquerdo da multidão, Sunny engatinhou por cima dos sapatos de uma pessoa que estava mais perto da cadeia, e Klaus espiou por cima do ombro do sr. Lesko, tentando ver para onde todo mundo estava olhando tão fixamente.
Jacques estava deitado no chão com os olhos fechados, e dois membros do Conselho dos Anciãos puxavam um lençol branco por cima dele, como se o estivessem acomodando para um cochilo. Porém, por mais ardentemente que eu queira poder escrever que era isso, ele não estava dormindo. Os Baudelaire tinham chegado à cadeia central antes que os cidadãos de C.S.C. pudessem queimá-lo na fogueira, mas ainda assim não chegaram na hora H.

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