terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo oito


É mais uma das peculiaridades da vida que as pessoas digam coisas ridículas quando sabem que são ridículas. Se alguém perguntar: “Como vai?”, por exemplo, você pode dizer sem pensar: “Bem, obrigado”, quando de fato acabou de ser reprovado em um exame ou foi pisoteado por uma vaca. Um amigo pode dizer: “Procurei as minhas chaves em todos os lugares possíveis e imagináveis”, mas você sabe que ele só procurou em alguns lugares ali por perto. Uma vez eu disse a uma mulher que amava muito: “Tenho certeza de que esses problemas logo irão acabar e de que você e eu iremos ser felizes para sempre”, quando na verdade já suspeitava que as coisas ficariam muito piores. E foi assim com os dois Baudelaire mais velhos, quando se viram cara a cara com Quigley Quagmire e começaram a dizer coisas que sabiam ser absurdas.
“Você está morto”, disse Violet, e tirou sua máscara para se certificar de que enxergava com clareza. Mas não havia como confundir Quigley, apesar de os Baudelaire nunca o terem visto antes. Era tão parecido com Duncan e Isadora que só podia ser o terceiro trigêmeo Quagmire.
“Você e seus pais morreram num incêndio”, disse Klaus, mas quando tirou a máscara sabia que isso não era verdade. Até o modo como Quigley sorria para os dois Baudelaire era exatamente igual ao dos seus irmãos.
“Não”, disse Quigley. “Eu sobrevivi e estou procurando pelos meus irmãos.”
“Mas como você sobreviveu?”, perguntou Violet. “Duncan e Isadora disseram que a casa foi totalmente destruída pelo incêndio.”
“E foi”, disse Quigley de um jeito triste. Ele ergueu os olhos para a queda d’água congelada e suspirou. “Vou começar do começo. Eu estava na biblioteca da minha família, estudando um mapa da Floresta Finita, quando ouvi o ruído de vidros estilhaçando e pessoas gritando. Minha mãe entrou correndo na sala e disse que era um incêndio. Tentamos sair pela porta da frente, mas o vestíbulo estava cheio de fumaça, então ela me levou de volta à biblioteca e levantou um canto do tapete. Embaixo havia um alçapão secreto. Ela me disse para aguardar lá embaixo enquanto ia buscar meus irmãos. Lembro-me de ter ouvido a casa desmoronar acima de mim, do som de passos frenéticos e dos meus irmãos gritando.” Quigley pôs a máscara no chão e encarou os Baudelaire. “Mas ela nunca voltou”, disse. “Ninguém voltou, e quando tentei abrir o alçapão, alguma coisa que tinha caído sobre ele não me deixava abri-lo.”
“Como você conseguiu sair?”, perguntou Klaus.
“Andando”, disse Quigley. “Quando percebi que ninguém ia me salvar, tateei no escuro e notei que estava numa espécie de corredor. Não havia mais para onde ir, portanto comecei a andar. Nunca senti tanto medo na vida, percorrendo sozinho um corredor escuro que meus pais mantinham em segredo. Não tinha ideia de onde iria chegar.”
Os dois Baudelaire se entreolharam. Estavam pensando na passagem secreta que descobriram debaixo da casa deles, quando estavam sob os cuidados de Esmé Squalor e seu marido.
“E aonde conduzia?”, perguntou Violet.
“A casa de um herpetologista”, disse Quigley. “No final do corredor havia uma porta secreta que levava a um salão enorme, todo de vidro. O salão estava cheio de jaulas vazias, mas era evidente que tinha sido usado para abrigar uma coleção de répteis.”
“Nós também estivemos lá!”, exclamou Klaus, surpreso. “É a casa do tio Monty! Ele foi nosso tutor até o conde Olaf chegar, disfarçado de...”
“Assistente de laboratório”, completou Quigley. “Eu sei. A mala dele ainda estava lá.”
“Também havia uma passagem secreta embaixo da nossa casa”, disse Violet, “mas só descobrimos quando fomos morar com Esmé Squalor.”
“Há segredos por toda parte”, disse Quigley. “Acho que todos os pais têm segredos. Você só precisa saber onde procurar.”
“Mas por que os nossos pais haveriam de ter túneis embaixo de casa que levavam a um prédio de apartamentos elegante e à casa de um herpetologista?”, disse Klaus. “Não faz nenhum sentido.”
Quigley suspirou e pôs a mochila no chão, ao lado da máscara. “Há muita coisa que não faz sentido”, disse. “Eu esperava encontrar as respostas aqui, mas agora duvido que algum dia vá encontrá-las.” Ele pegou seu caderno roxo e abriu na primeira página. “Tudo o que posso contar é o que tenho aqui neste livro de lugar-comum.”
Klaus deu um sorrisinho para Quigley e enfiou a mão no bolso para pegar os papéis que guardara. “Conte para nós o que você sabe”, disse Klaus, “e nós contaremos a você o que sabemos. Talvez juntos possamos responder às nossas perguntas.”
Quigley assentiu, e as três crianças sentaram-se em círculo sobre o que antes fora o piso da cozinha. Quigley abriu a mochila e tirou um saquinho de amêndoas salgadas, que ele ofereceu aos irmãos. “Vocês devem estar com fome depois de escalar o Caminho Secundário das Chamas”, disse. “Eu, pelo menos, estou. Vejamos, onde eu estava?”
“Na Sala dos Répteis”, disse Violet, “no fim do corredor.”
“Por algum tempo nada aconteceu”, disse Quigley. “Na soleira da porta havia um exemplar d’O Pundonor Diário, que trazia uma reportagem sobre o incêndio. Foi assim que fiquei sabendo da morte dos meus pais. Passei muitos dias sozinho. Estava tão triste e assustado que não sabia o que fazer. Esperava que o herpetologista fosse amigo dos meus pais e que aparecesse para trabalhar. Talvez ele pudesse me ajudar. A cozinha estava cheia de comida, por isso não passei fome, mas todas as noites dormia ao pé da escada para ouvir se alguém entrasse.”
Os Baudelaire balançaram a cabeça, compreensivos, e Violet pôs a mão no ombro de Quigley para reconfortá-lo. “Foi a mesma coisa com a gente, desde que tivemos notícia sobre os nossos pais”, disse Violet. “Nem me lembro do que dissemos ou fizemos.”
“Mas ninguém veio procurá-lo?”, perguntou Klaus.
O Pundonor Diário noticiou que eu tinha morrido no incêndio”, disse Quigley. “A matéria afirmava que minha irmã e meu irmão tinham sido mandados para a Escola Preparatória Prufrock e o espólio estava a cargo da sexta consultora financeira mais importante.”
“Esmé Squalor”, disseram Violet e Klaus simultaneamente, uma palavra que aqui significa “ao mesmo tempo e com o mesmo tom de nojo”.
“Exato”, disse Quigley. “Mas eu não estava interessado nisso. Queria encontrar meus irmãos. Achei um atlas na biblioteca do dr. Montgomery e o estudei até encontrar a localização da Escola Preparatória Prufrock. Não ficava muito longe, portanto comecei a juntar os suprimentos que pude para a expedição.”
“Você não pensou em chamar as autoridades?”, perguntou Klaus.
“Acho que não estava pensando com clareza”, admitiu Quigley. “Meu único intuito era encontrar meus irmãos.”
“É claro”, disse Violet. “E depois, o que aconteceu?”
“Fui interrompido”, disse Quigley. “Bem na hora que eu estava enfiando o atlas numa grande sacola, entrou alguém. Era Jacques Snicket, mas eu ainda não sabia de quem se tratava. Mas ele sabia quem eu era, e ficou feliz por eu estar vivo.”
“Como você sabia que podia confiar nele?”, perguntou Klaus.
“Ele conhecia a passagem secreta”, disse Quigley. “Ele sabia um bocado de coisas sobre a minha família, ainda que tivesse passado anos sem ver os meus pais. E...”
“E...?”, disse Violet.
Quigley deu um sorrisinho. “Ele era muito lido”, disse. “Estava na casa do dr. Montgomery para ler. Disse que havia um arquivo importante escondido em algum lugar por ali e teria de ficar por alguns dias para encerrar sua investigação.”
“Então ele não levou você para a escola?”, perguntou Violet.
“Disse que não era seguro que eu fosse visto”, explicou Quigley. “Contou que fazia parte de uma organização secreta, assim como os meus pais.”
“C.S.C.”, disse Klaus, e Quigley assentiu.
“Duncan e Isadora tentaram nos contar sobre C.S.C.”, disse Violet, “mas nunca tiveram chance de fazer isso. Não sabemos nem o que a sigla quer dizer.”
“Quer dizer uma porção de coisas”, disse Quigley, folheando o seu caderno. “Quase tudo o que a organização usa tem as mesmas iniciais. Desde os detetives felinos voluntários, os Caçadores de Segredos Criminais, até a porta com Cerramento Supravernacular Complexo.”
“Mas o que a organização faz?”, perguntou Violet. “O que é C.S.C.?”
“Jacques não quis me contar”, disse Quigley, “mas acho que as iniciais representam Corporação pelo Salvamento das Chamas.”
“Corporação pelo Salvamento das Chamas?”, repetiu Violet, e olhou para o irmão. “O que quer dizer isso?”
“Em algumas comunidades”, disse Klaus, “não existe um corpo de bombeiros oficial, portanto elas dependem de voluntários para apagar os incêndios e salvar as vítimas.”
“Disso eu sei”, ponderou Violet, “mas o que isso tem a ver com os nossos pais, o conde Olaf e tudo o que nos aconteceu? Sempre achei que se descobríssemos o que significam as iniciais, teríamos resolvido o mistério, mas continuo tão confusa quanto antes.”
“Você acha que os nossos pais estavam combatendo incêndios em segredo?”, perguntou Klaus.
“Mas por que manteriam segredo?”, perguntou Violet. “E por que precisavam de uma passagem secreta embaixo da casa?”
“Jacques disse que as passagens foram construídas por membros da organização”, disse Quigley. “Em caso de emergência, poderiam escapar para um lugar seguro.”
“Mas o túnel que encontramos liga a nossa casa à de Esmé Squalor”, disse Klaus. “Aquele não é um lugar seguro.”
“Alguma coisa aconteceu”, disse Quigley. “Alguma coisa mudou tudo.” Ele folheou algumas páginas do seu livro de lugar-comum até encontrar o que estava procurando. “Jacques Snicket chamou aquilo de ‘cisão’“, explicou, “mas eu não sei o que quer dizer essa palavra.”
“Uma cisão”, disse Klaus, “é a divisão de um grupo de pessoas antes unidas. É como uma grande briga em que cada qual escolhe o seu lado.”
“Faz sentido”, disse Quigley. “Do jeito que Jacques falou parece que a organização inteira estava um caos. Voluntários que antes trabalhavam juntos agora eram inimigos; lugares que antes eram seguros agora eram perigosos. Ambos os lados empregavam os mesmos códigos e os mesmos disfarces. E até mesmo o símbolo de C.S.C., que era usado para representar os nobres ideais compartilhados por todos, virou fumaça.”
“Mas como aconteceu a cisão?”, perguntou Violet. “O que desencadeou a luta?”
“Não sei”, disse Quigley. “Jacques não teve tempo de me explicar.”
“O que ele estava fazendo?”, perguntou Klaus.
“Procurando vocês”, respondeu Quigley. “Ele mostrou uma fotografia em que vocês três estão no cais de algum lago, e me perguntou se eu os tinha visto ultimamente. Ele sabia que o conde Olaf era o tutor de vocês e sabia também de todas as coisas horríveis que aconteceram lá. Sabia que vocês tinham ido morar com o dr. Montgomery. Sabia até de algumas invenções que você fez, Violet, e das pesquisas de Klaus, e até de algumas das façanhas odontológicas de Sunny. Ele queria encontrá-los antes que fosse tarde demais.”
“Tarde demais para o quê?”, perguntou Violet.
“Não sei”, disse Quigley com um suspiro. “Jacques passou muito tempo na casa do dr. Montgomery, mas estava ocupado com a investigação, não teve tempo de me explicar tudo. Ficava acordado a noite inteira lendo e copiando informações, e depois dormia o dia inteiro, às vezes desaparecia por horas seguidas. Um dia me disse que precisava sair para entrevistar alguém na cidade de Paltryville, e nunca mais voltou. Aguardei semanas e semanas pela sua volta. Li uma porção de livros e comecei a escrever o meu próprio livro de lugar-comum. De início foi difícil achar alguma informação sobre C.S.C, mas tomei notas sobre tudo o que encontrei. Devo ter lido centenas de livros. Jacques nunca mais voltou. Certa manhã aconteceram duas coisas que me fizeram decidir não esperar mais. A primeira foi um artigo n’O Pundonor Diário dizendo que os meus irmãos tinham sido raptados da escola. Sabia que precisava fazer alguma coisa. Não podia esperar por Jacques Snicket nem por ninguém.”
Os Baudelaire balançaram a cabeça, concordando.
“Qual era a segunda coisa?”, perguntou Violet.
Quigley fez silêncio e revirou um punhado de cinzas no chão, deixando-as cair de suas mãos enluvadas. “Senti cheiro de fumaça”, disse, “e quando abri a porta da Sala dos Répteis, vi que alguém atirara uma tocha acesa através do vidro do teto. Em minutos, a casa inteira, inclusive a biblioteca, estava em chamas.”
“Oh”, disse Violet baixinho. “Oh” é uma palavra que usualmente significa algo na linha de: “Ouvi o que você disse e não estou interessada”, mas nesse caso, é claro, a mais velha dos Baudelaire queria dizer algo bem diferente, algo difícil de definir. Ela queria dizer: Estou triste por ouvir que a casa do tio Monty foi incendiada, mas não só isso. Com “Oh” Violet estava também tentando descrever sua tristeza com relação a todos os incêndios que trouxeram Quigley, Klaus e ela até as Montanhas de Mão-Morta, para se sentar em círculo e tentar resolver o mistério que os envolvia. Quando Violet disse “Oh”, não pensava apenas no incêndio da Sala dos Répteis, mas nos incêndios que destruíram a casa dos Baudelaire e a casa dos Quagmire, o Hospital Heimlich, o Parque Caligari e a base de operações de C.S.C, onde o cheiro da fumaça permanecia no ar. Ao pensar em todos esses incêndios, Violet se sentiu como se o mundo inteiro ardesse em chamas e ela e seus irmãos, e todas as outras pessoas decentes do mundo, jamais pudessem encontrar um lugar seguro.
“Outro incêndio”, murmurou Klaus, e Violet percebeu que ele estava pensando na mesma coisa. “Aonde você poderia ir, Quigley?”
“O único lugar em que consegui pensar foi Paltryville”, disse Quigley. “Na última vez em que vi Jacques ele disse que estava indo para lá. Se eu conseguisse encontrá-lo, talvez ele me ajudasse a resgatar Duncan e Isadora. O atlas do dr. Montgomery mostrava como chegar lá, mas fui a pé, pois tinha medo de pegar carona, afinal qualquer um poderia ser inimigo. Demorei bastante para chegar, mas assim que pisei na cidade vi um grande edifício que combinava com a tatuagem no tornozelo de Jacques Snicket. Achei que devia ser um lugar seguro.”
“O consultório da dra. Orwell!”, exclamou Klaus. “Não é um lugar seguro!”
“Klaus foi hipnotizado lá”, explicou Violet, “e o conde Olaf estava disfarçado de...”
“De recepcionista”, concluiu Quigley. “Eu sei. A placa falsa com o nome dele ainda estava sobre a mesa. O consultório estava abandonado, mas eu sabia que Jacques estivera lá porque havia algumas anotações com a letra dele. Com essas anotações e as informações extraídas da biblioteca do dr. Montgomery, tomei conhecimento da base de operações de C.S.C. E em vez de esperar por Jacques, parti para encontrar a organização. Achei que era a chance de resgatar meus irmãos.”
“Então você partiu para as Montanhas de Mão-Morta sozinho?”, perguntou Violet.
“Não exatamente”, disse Quigley. “Eu tinha essa mochila que Jacques deixou para trás, com Cilindros Sempre-verdes Combustíveis e outras coisas, e tinha o meu livro de lugar-comum. Por fim encontrei os Escoteiros da Neve e me dei conta de que me esconder entre eles seria a melhor maneira de chegar ao Monte Fraught.” Ele virou uma página do seu livro de lugar-comum e examinou as anotações. “Fenômenos notáveis das Montanhas de Mão-Morta, que li na biblioteca do dr. Montgomery, tinha um capítulo escondido que me revelou tudo sobre o Caminho Secundário das Chamas e a porta com Cerramento Supravernacular Complexo.”
Klaus tentou ler as anotações por cima do ombro de Quigley. “Eu devia ter lido aquele livro quando tive a oportunidade”, disse ele, balançando a cabeça. “Se soubéssemos a respeito de C.S.C, quando morávamos com o tio Monty poderíamos ter evitado muitos problemas.”
“Quando morávamos com o tio Monty”, lembrou Violet, “estávamos preocupados em escapar das garras do conde Olaf, não pensávamos em fazer qualquer pesquisa adicional.”
“Eu tive tempo à vontade para pesquisar”, disse Quigley, “mas ainda não encontrei todas as respostas que procuro. Não encontrei Duncan e Isadora e não sei onde está Jacques Snicket.”
“Ele está morto”, disse Klaus com muita calma. “O conde Olaf o assassinou.”
“Achei que vocês me diriam isso”, disse Quigley. “Quando ele não voltou imaginei que alguma coisa estava muito errada. Mas e os meus irmãos? Vocês sabem o que aconteceu com eles?”
“Eles estão em segurança, Quigley”, disse Violet. “Pelo menos é o que pensamos. Nós os salvamos das garras de Olaf, e eles escaparam com um homem chamado Hector.”
“Escaparam?”, repetiu Quigley. “Para onde foram?”
“Não sabemos”, admitiu Klaus. “Hector construiu uma casa móvel autossustentável a ar quente. Era uma casa voadora, mantida no ar por uma porção de balões. Hector disse que poderia flutuar para sempre.”
“Nós tentamos embarcar”, disse Violet, “mas o Olaf conseguiu nos impedir.”
“Então vocês não sabem onde eles estão?”, perguntou Quigley.
“Receio que não”, disse Violet, e afagou sua mão. “Mas Duncan e Isadora são pessoas intrépidas. Sobreviveram nas garras de Olaf por bastante tempo, recolhendo e anotando informações sobre os esquemas dele.”
“Violet está certa”, disse Klaus. “Tenho certeza de que, onde quer que estejam, continuam a pesquisar. Acabarão descobrindo que você está vivo e virão procurá-lo, assim como você foi procurá-los.”
Os dois Baudelaire estremeceram. Eles estavam falando sobre a família de Quigley, é claro, mas se sentiam como se estivessem falando sobre a deles. “Tenho certeza de que os seus pais também estão vivos e procurando por vocês”, disse Quigley, como se tivesse lido os pensamentos deles. “E Sunny também. Vocês sabem onde ela está?”
“Em algum lugar aqui perto”, disse Violet. “Com o conde Olaf. Ele também queria encontrar a base de operações.”
“Talvez Olaf já tenha passado aqui”, disse Quigley, correndo os olhos pelos destroços. “Talvez tenha sido ele quem ateou fogo nesse lugar.”
“Acho que não”, disse Klaus. “Ele não teria tido tempo para atear fogo nesse lugar inteiro. Estávamos bem atrás dele. E tem mais, eu não acho que o lugar tenha sido incendiado de uma só vez.”
“Por que não?”, perguntou Quigley.
“É grande demais”, respondeu Klaus. “Se a base de operações inteira estivesse queimando, o céu teria sido coberto de fumaça.”
“É verdade”, disse Violet. “Toda essa fumaça iria levantar muitas suspeitas.”
“Onde há fumaça”, disse Quigley, “há fogo.”
Violet e Klaus se voltaram para o amigo concordando, mas Quigley olhava para a lagoa e os dois afluentes congelados, onde antes ficavam as janelas da cozinha de C.S.C, e onde eu, certa vez, piquei brócolis enquanto a mulher que eu amava preparava um molho picante de amendoim. Ele apontava para o céu, onde eu e meus associados costumávamos observar as águias voluntárias capazes de localizar fumaça a grandes distâncias.
Mas naquela tarde não havia águias nos céus das Montanhas de Mão-Morta, e quando Violet e Klaus olharam na direção em que Quigley apontava, outra coisa chamou a sua atenção. Pois quando Quigley falou “Onde há fumaça, há fogo”, ele não estava se referindo à teoria de Klaus sobre a destruição da base de C.S.C, mas à fumaça verde que se elevava no céu do Cume das Aflições, no topo do escorregador de gelo.

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