segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo nove


Quando as crianças estão com problemas, é comum vocês ouvirem as pessoas dizer que é tudo por causa de baixa autoestima. “Baixa autoestima” é uma expressão usada para descrever pessoas que não valorizam a si próprias. Podem se achar feias, ou chatas, ou incapazes de fazer qualquer coisa, ou ainda uma combinação de tudo isso; e, quer tenham ou não razão, dá para entender por que esses sentimentos podem acabar levando-as a “entrar numa fria”. Na grande maioria dos casos, entretanto, “entrar numa fria” não tem nada a ver com a autoestima de uma pessoa. Em geral, tem muito mais a ver com quem ou o que está diretamente provocando o problema – um monstro, um motorista de ônibus, uma casca de banana, abelhas assassinas, o diretor do colégio – do que com a imagem que a pessoa tem de si própria.
E foi o que aconteceu quando Violet e Sunny Baudelaire puseram os olhos no conde Olaf – ou, de acordo com o que estava escrito na placa em cima da escrivaninha, Shirley. Violet e Sunny tinham um nível muito saudável de autoestima. Violet sabia que era capaz de fazer as coisas corretamente, porque inventara uma porção de aparelhos que funcionavam de modo perfeito. Sunny sabia que não era chata, porque seus irmãos sempre mostravam o maior interesse por tudo o que ela tinha a dizer. E ambas as irmãs Baudelaire sabiam que não eram feias, pois podiam ver seus traços faciais refletidos bem no meio dos olhos muito, muito brilhantes do conde Olaf. De nada adiantava, entretanto, elas pensarem essas coisas, porque a verdade era que tinham sido apanhadas.
“Olá, garotinhas”, disse o conde Olaf com uma voz ridícula de falsete, como se fosse uma recepcionista chamada Shirley e não o perverso caçador da fortuna dos Baudelaire. “Qual é o nome de vocês?”
“Você sabe os nossos nomes”, disse Violet de modo seco, e aqui seco é usado com o sentido de “farta dos recursos absurdos empregados pelo conde Olaf”. “Essa peruca e esse batom não nos enganam, nem o seu vestido marrom-claro nem os seus sapatos bege. Você é o conde Olaf.”
“Lamento, mas estão enganadas”, disse o conde Olaf. “Sou Shirley. Vejam o que está escrito nesta placa.
“Fiti!”, gritou Sunny estridentemente, o que significava: “Essa placa não prova nada, ora essa!”.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Só por causa de um pedaço de madeira com um nome não quer dizer que você seja Shirley.”
“Eu lhe digo por que sou Shirley”, disse o conde Olaf. “Sou Shirley porque gostaria que me chamassem de Shirley, e não fazer isso é uma prova de falta de educação.”
“Estou pouco ligando”, disse Violet, “se estamos sendo mal-educadas com uma pessoa tão abominável como você.”
O conde Olaf balançou a cabeça. “Mas se vocês vierem com falta de educação pra cima de mim”, disse ele, “eu também poderia responder a vocês com algum ato grosseiro, como, por exemplo, arrancar o cabelo de vocês com estas mãos aqui, ó.”
Violet e Sunny ficaram olhando para as mãos do conde Olaf. E notaram então que ele deixara as unhas crescerem bastante, e que como parte do disfarce pintara-as com um esmalte rosa brilhante. As irmãs Baudelaire se entreolharam. Aquelas unhas pareciam, de fato, muito afiadas.
“Tudo bem, Shirley”, disse Violet. “Você esteve espreitando a gente o tempo todo, em Paltryville, desde que chegamos, não foi?”
Shirley ergueu uma das mãos para ajeitar a peruca que saíra do lugar. “Talvez”, disse ela, sempre com aquela voz boba de falsete.
“E o tempo todo esteve escondida aqui na casa em forma de olho, não foi?”, perguntou Violet.
Shirley ficou pestanejando sem parar, e as duas irmãs notaram que abaixo de sua longa sobrancelha única – outro traço identificador do conde Olaf – ela usava longos cílios postiços. “Talvez”, disse ela.
“E você está mancomunada com a dra. Orwell!”, disse Violet usando uma expressão que aqui significa “trabalhando de comum acordo, para apossar-se da fortuna dos Baudelaire”. “Sim ou não?”
“Pode ser”, disse Shirley, cruzando as pernas e revelando longas meias brancas estampadas com olhinhos.
“Popinsh!”, gritou Sunny estridentemente.
“Sunny está tentando dizer”, disse Violet, “que a dra. Orwell hipnotizou Klaus e causou aquele terrível acidente, pode ser?”
“É viável”, disse Shirley.
“E ele está sendo hipnotizado de novo, neste exato momento, não é isso?”, perguntou Violet.
“É uma hipótese um tanto quanto provável”, disse Shirley.
Violet e Sunny se entreolharam, com o coração pulando. Violet segurou a mão da irmã e deu um passo para trás, em direção à porta. “E agora você vai tentar dar um sumiço na gente, estou certa?”
“Claro que não”, disse Shirley. “Vou oferecer a vocês um biscoitinho, como uma boa recepcionista. “
“Você não é uma recepcionista!”, gritou Violet.


“Claro que sou”, disse Shirley. “Sou uma pobre recepcionista que vive sozinha e que deseja muito ter filhos para cuidar. Três filhos, na verdade: uma garotinha sabichona, um garotinho hipnotizado e um bebê dentuço.”
“É, mas você não pode cuidar da gente”, disse Violet. “Já estamos sob a guarda de Senhor.”
“Sim, porém muito em breve ele passará a guarda para mim”, disse Shirley, com os olhos brilhando intensamente.
“Isso é um ab...”, disse Violet, entretanto deteve-se antes de pronunciar “... surdo”. Ela quis completar o que estava dizendo com “... surdo”. Ela quis dizer “Senhor não faria uma coisa dessas”, mas no íntimo tinha suas dúvidas. Senhor já fizera os três Baudelaire dormir num único beliche. Já os fizera trabalhar numa serraria. E já lhes servira chiclete como almoço. E, por mais que ela quisesse achar que era um absurdo pensar que Senhor simplesmente passaria os órfãos Baudelaire para Shirley, Violet tinha suas dúvidas. Metade dela tinha dúvidas, e assim deteve-se na primeira sílaba da palavra.
“Ab?”, disse uma voz por trás dela. “Mas o que significa essa palavra 'ab'?”
Violet e Sunny viraram-se e deram com a dra. Orwell vindo com Klaus para a sala de espera. Ele usava um novo par de óculos e parecia confuso.
“Klaus!”, gritou Violet. “Estávamos ficando preo...” Ela interrompeu-se e não chegou a pronunciar “... cupadas” quando viu a expressão do irmão. Era a mesma expressão que ele tinha na noite anterior, quando finalmente voltou de sua primeira consulta com a dra. Orwell. Por trás do seu mais novo par de óculos, os olhos de Klaus estavam arregalados e ele sorria com um ar distante e atônito, como se suas irmãs fossem pessoas que ele não conhecesse tão bem.
“Lá vem você com essas palavras estranhas”, disse a dra. Orwell. “Primeiro, 'ab'. Agora, 'preo'. 'Preo' quer dizer o quê, pelo amor de Deus?!”
“É claro que 'ab' e 'preo' não são palavras”, disse Shirley. “Só uma pessoa idiota diria palavras como ab ou preo.
“Elas são idiotas, não são?”, concordou a dra. Orwell, como se eles estivessem comentando sobre o tempo, e não insultando crianças pequenas. “Elas devem ter uma autoestima muito baixa.”
“Concordo inteiramente, dra. Orwell”, disse Shirley.
“Pode me chamar de Georgina”, respondeu a horrível oftalmologista, com um piscar de olho. “Bem, garotas, aqui está o seu irmão. Hoje um pouco cansado por causa da consulta, mas amanhã de manhã estará ótimo. Mais do que ótimo, na verdade. Muito mais.” Ela virou-se e apontou para a porta com sua bengala com castão de rubi. “Acho que vocês três conhecem o caminho da saída.”
“Eu não”, disse Klaus com uma voz que quase não dava para ouvir. “Não me lembro de ter entrado aqui.”
“Isso é comum acontecer depois de consultas de oftalmologia”, disse a dra. Orwell polidamente. “Vamos logo, órfãos.”
Violet deu a mão para Klaus e começou a levá-lo para fora da sala de espera. “Podemos mesmo ir, sem problema?”, perguntou ela, em dúvida por um momento.
“Claro”, disse a dra. Orwell. “Mas estou certa de que minha recepcionista e eu não tardaremos a vê-los. Afinal de contas, parece que Klaus se tornou muito desastrado ultimamente. Está sempre provocando acidentes.
“Rupish!”, gritou Sunny estridentemente. Com a intenção de dizer: “Não foram acidentes! Foram resultados da hipnose!”. Entretanto, os adultos não lhe deram atenção. A dra. Orwell simplesmente afastou-se da porta para abrir passagem, e Shirley fez um aceno para os garotos, tamborilando o ar com seus dedos ossudos de unhas cor-de-rosa.
“Até mais, órfãos!”, disse Shirley.
Klaus olhou para ela e retribuiu o aceno enquanto Violet e Sunny davam-lhe um puxão para fora da sala de espera.
“Como foi capaz de acenar para ela?”, Violet sussurrou, ríspida, para seu irmão, no corredor de saída.
“Ela parece uma senhora simpática”, disse Klaus, e franziu a testa num esforço de concentração. “Sei que já a encontrei em algum lugar antes.”
“Baliuot!”, gritou Sunny estridentemente, o que sem sombra de dúvida significava: “Ela é o conde Olaf disfarçado!”.
“Deve ser, se você está dizendo”, falou Klaus em tom vago.
“Oh, Klaus”, disse Violet, com imensa tristeza. “Sunny e eu perdemos um tempão discutindo com Shirley quando deveríamos tê-lo salvado. Você foi hipnotizado de novo; tenho certeza. Tente concentrar-se, Klaus. Tente se lembrar do que aconteceu.”
“Quebrei meus óculos”, disse Klaus bem devagar, “depois saímos da serraria... Estou muito cansado, Verônica. Posso ir para a cama?”
“Violet”, disse Violet. “Meu nome é Violet, e não Verônica.”
“Desculpe”, disse Klaus. “É que estou muito cansado.”
Violet abriu a porta da casa, e os três órfãos se viram do lado de fora, pisando a deprimente rua de Paltryville. Violet e Sunny estacaram; veio-lhes à lembrança o momento em que viram a casa em forma de olho pela primeira vez, logo depois de descerem do trem. Seus instintos lhe haviam dito que a casa era um mau presságio, mas não deram ouvidos aos seus instintos. Deram ouvidos ao sr. Poe.
“Melhor levarmos Klaus para o dormitório”, Violet disse para Sunny. “Não sei que outra coisa podemos fazer com ele nesse estado. Depois deveríamos contar a Senhor o que aconteceu. Espero que possa ajudar-nos.”
“Zizim”, concordou Sunny melancolicamente. As irmãs levaram Klaus até os portões de madeira da serraria, cruzaram o pátio de terra e chegaram ao dormitório. Estava quase na hora do jantar; quando as crianças entraram no aposento viram os outros empregados sentados em seus beliches conversando em voz baixa.
“Estou vendo que voltou”, disse um dos empregados. “Espanta-me que tenha coragem de mostrar a cara aqui, depois do que fez com Phil.”
“Ah! Deixe pra lá”, disse Phil, e os órfãos se voltaram para vê-lo deitado no beliche, com a perna engessada. “Klaus não fez de propósito, não foi, Klaus?”
“Fiz de propósito o quê?”, perguntou Klaus com perplexidade, palavra que aqui significa “espanto por não saber que causara o acidente que feriu a perna de Phil”.
“Nosso irmão está muito cansado”, Violet apressou-se em dizer. “Como está se sentindo, Phil?”
“Ah, muito bem”, disse Phil. “Minha perna dói, mas também é só o que dói. Na verdade, tive muita sorte. Mas chega de falar de mim mesmo. Deixaram aqui um memorando para vocês. O capataz Flacutono disse que é muito importante.”
Phil passou para Violet um envelope com a palavra “Baudelaire” datilografada, exatamente como o bilhete de boas-vindas que as crianças encontraram em seu primeiro dia na serraria. Dentro do envelope, um bilhete:

Memorando
Para: Órfãos Baudelaire
De: Senhor
Assunto: Acidente de hoje
Fui informado de que esta manhã vocês causaram na serraria um acidente que danificou um empregado e inutilizou o dia de trabalho.
Acidentes são causados por maus funcionários, e maus funcionários não são tolerados na Serraria Alto-Astral. Se continuarem a causar inconveniências serei forçado a despedi-los e providenciar outra residência para vocês. Já localizei uma simpática senhorita que mora na cidade e que ficaria muito feliz de adotar três crianças pequenas. Seu nome é Shirley e ela trabalha como recepcionista. Se vocês três continuarem a ser maus operários, providenciarei para que fiquem sob os cuidados dela.

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