terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo nove


Os dois Baudelaire ficaram ao lado de Quigley, olhando para o pequeno penacho de fumaça, uma expressão que aqui significa “uma nuvem misteriosa de fumaça verde”. Depois da longa história que ele contara sobre como sobrevivera ao incêndio e o que tinha aprendido a respeito de C.S.C, os Baudelaire mal podiam acreditar que estavam diante de mais um mistério. “É um Cilindro Sempre-verde Combustível”, disse Quigley. “Alguém no topo da queda d’água está enviando um sinal.”
“Sim”, disse Violet, “mas quem?”
“Talvez seja um voluntário que escapou do incêndio”, disse Klaus. “Está sinalizando para algum outro voluntário que por acaso esteja por perto.”
“Mas pode ser uma armadilha”, disse Quigley. “Alguém pode estar atraindo voluntários para o pico a fim de emboscá-los. Lembrem-se, os códigos de C.S.C., são usados por ambos os lados da cisão.”
“Isso não devia se chamar código”, disse Violet. “Alguém está tentando se comunicar, mas não temos a menor ideia de quem seja nem o que está dizendo.”
“É isso o que Sunny deve sentir quando fala com pessoas que não a conhecem muito bem”, disse Klaus, pensativo.
A menção do nome de Sunny, os Baudelaire se lembraram do quanto sentiam sua falta. “Seja um voluntário ou uma armadilha”, disse Violet, “pode ser a nossa única oportunidade de encontrar nossa irmãzinha.”
“E meus irmãos”, completou Quigley.
“Vamos mandar uma resposta”, disse Klaus. “Você ainda tem aqueles Cilindros Sempre-verdes Combustíveis?”
“É claro”, disse Quigley, tirando-os da mochila, “mas Bruce confiscou os meus fósforos, disse que não são seguros para crianças.”
“Você acha que ele é inimigo de C.S.C.?”, perguntou Klaus.
“Se todas as pessoas que advertem crianças sobre o perigo dos fósforos são inimigas de C.S.C.”, disse Violet com um sorriso, “então não temos a menor chance de sobreviver.”
“Mas como vamos acender o Cilindro sem fósforos?”, perguntou Quigley.
Violet enfiou a mão no bolso. Os quatro ventos do Vale das Correntezas que Sopram Constantes não permitiam que Violet prendesse seu cabelo, mas ela acabou conseguindo tirar o cabelo dos olhos, e as engrenagens da sua mente inventiva começaram a se mover.
O sinal no céu não era nem enviado por um voluntário nem uma armadilha. Era uma fumaça produzida por um bebê de dentes muito compridos e um jeito confuso de falar. Quando Sunny Baudelaire disse “Lox”, os comparsas do conde Olaf interpretaram sua fala como um simples tatibitate, e não uma explicação de como iria cozinhar o salmão que o homem de mãos de gancho pescara. “Lox” é uma palavra que se refere a salmão defumado, e é um jeito delicioso de apreciar um peixe fresco, especialmente se tiver à mão os equipamentos e ingredientes adequados, uma frase que aqui significa “pães especiais, queijo cremoso, pepino fatiado, pimenta-do-reino e alcaparras”. O lox tem a qualidade adicional de produzir um bocado de fumaça durante a preparação, e essa é a razão por que Sunny escolheu esse método de preparar o peixe, e não o gravlax – que é salmão marinado durante vários dias numa mistura de especiarias – ou o sashimi – que é o salmão fatiado e servido cru. Quando ela se lembrou do que o conde Olaf dissera sobre ser capaz de ver tudo e todos de cima do pico onde estavam, a jovem Baudelaire percebeu que a frase “onde há fumaça, há fogo” poderia ajudá-la. Enquanto Violet e Klaus ouviam a extraordinária narrativa ao pé da queda d’água congelada, Sunny tratou de preparar o lox e enviar um sinal aos irmãos que deviam estar por perto. Primeiro ela enfiou o Cilindro Sempre-verde Combustível – que ela acreditava ser um cigarro – em um pequeno canteiro de ervas, para aumentar a fumaça. Então pôs o salmão dentro do prato de forno coberto que usara como cama. Em questão de segundos, o peixe pescado pelo homem de mãos de gancho estava absorvendo o calor e a fumaça do efervescente tubinho verde, e um grande penacho de fumaça verde se elevava para os céus do Monte Fraught. Sunny ergueu os olhos para o sinal que enviara e não pôde deixar de sorrir. Na última vez em que fora separada dos irmãos ela ficara aguardando em uma gaiola até que eles viessem salvá-la, mas agora estava crescida, e já era capaz de participar ativamente na derrota do conde Olaf.
“Alguma coisa está cheirando bem”, disse uma das mulheres de cara branca, indo até a bandeja coberta. “Devo admitir que duvidava que uma criança pudesse ficar encarregada da cozinha, mas sua receita parece deliciosa.”
“Existe uma palavra para esse tipo de cozimento do peixe”, disse o homem de mãos de gancho, “mas não me lembro qual é.”
“Lox”, disse Sunny, mas ninguém a ouviu, pois o conde Olaf estava fazendo bastante barulho ao sair da sua barraca acompanhado por Esmé e os sinistros visitantes. Olaf estava com o dossiê Snicket nas mãos e fulminou Sunny com os olhos brilhantes, muito brilhantes.
“Acabe com esta fumaça imediatamente^’, ele ordenou. “Pensei que você não passasse de uma prisioneira aterrorizada, mas começo a pensar que você é uma espiã!”
“Como assim, Olaf?”, perguntou a outra mulher de cara branca. “Ela está usando o cigarro de Esmé para cozinhar o nosso peixe.”
“Alguém pode ver a fumaça”, rosnou Esmé, como se há alguns momentos antes ela não tivesse fumado. “Onde há fumaça, há fogo.”
O homem com barba mas sem cabelo catou um punhado de neve e jogou em cima das ervas, apagando o Cilindro Sempre-verde Combustível. “Para quem você está mandando sinais, bebê?”, perguntou com sua voz rouca. “Se você é uma espiã, vamos atirá-la de cima dessa montanha.”
“Gugu”, disse Sunny, o que queria dizer algo do tipo: “Vou fazer de conta que sou um bebê inocente, em vez de responder a essa pergunta”.
“Estão vendo?”, disse a mulher de cara branca, olhando para o homem com barba mas sem cabelo. “Ela é apenas um bebê inocente.”
“Talvez”, disse a mulher com cabelo mas sem barba. “Não se atira um bebê de cima de uma montanha, a não ser que seja absolutamente necessário.”
“Bebês podem ser úteis”, concordou o conde Olaf. “Estou pensando em recrutar mais gente jovem para a minha trupe. Reclamam menos quando têm de fazer o que eu mando.”
“Mas nós nunca reclamamos”, disse o homem de mãos de gancho. “Tento ser o mais obediente possível.”
“Chega de papo furado”, disse o homem com barba mas sem cabelo. “Temos um monte de esquemas para planejar. Tenho algumas informações que podem ajudá-lo com a sua ideia de recrutamento, e, de acordo com o dossiê Snicket, existe mais um lugar onde os voluntários se reúnem.”
“O último lugar seguro”, disse a mulher sinistra. “Temos de encontrá-lo e queimá-lo.”
“E quando fizermos isso”, disse o conde Olaf, “a última prova dos nossos crimes será destruída. Nunca mais teremos de nos preocupar com as autoridades.”
“Onde fica esse lugar?”, perguntou Kevin.
Olaf abriu a boca para responder, porém a mulher com cabelo mas sem barba o impediu com um gesto brusco e um olhar desconfiado para Sunny. “Não na frente da dentuça”, disse ela com sua voz muito, muito profunda. “Se ela souber o que estamos prestes a fazer não vai conseguir dormir, e você precisa da sua empregada bebê cheia de energia. Mande-a embora, então faremos os nossos planos.”
“É claro”, disse Olaf, sorrindo nervoso para os sinistros visitantes. “Órfã, vá até o carro e remova todas as migalhas de batatinha frita.”
“Fútil”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Essa é uma tarefa impossível”, mas ela teve de ir mesmo assim, e a trupe de Olaf foi se reunir em volta da pedra chata para ouvir o novo plano. Passando pelo fogo apagado e pela panela onde iria dormir aquela noite, Sunny suspirou com tristeza, pensando que o seu plano tinha dado errado. Mas quando chegou ao carro de Olaf e baixou os olhos para a queda d’água congelada, viu uma coisa bastante animadora, uma expressão que aqui significa “um penacho de fumaça verde idêntico ao que ela tinha liberado no céu, vindo do final do escorregador de gelo”. A mais jovem Baudelaire sorriu. “Manos”, disse consigo mesma. Sunny, é claro, não podia ter certeza de que eram Violet e Klaus que estavam sinalizando, mas tinha esperanças de que fossem eles, e as esperanças foram suficientes para alegrá-la quando abriu a porta do carro e começou a soprar as migalhas de batata frita que Olaf e sua trupe espalharam pelo estofamento.
E embora Sunny tivesse mais esperanças agora, no final da queda d’água congelada os dois Baudelaire mais velhos não se sentiam nem um pouco esperançosos notando, ao lado de Quigley, que a fumaça verde desaparecia do pico mais alto.
“Alguém apagou o Cilindro Sempre-verde Combustível”, disse Quigley, com um tubinho verde na mão. “O que vocês acham que isso significa?”
“Não sei”, disse Violet, e suspirou. “Talvez nosso esquema não esteja funcionando.”
“É claro que está”, disse Klaus. “Você notou que o sol da tarde estava refletido na queda d’água congelada, o que lhe deu a ideia de usar os princípios científicos da convergência e da refração da luz, como você fez no Lago Lacrimoso contra as sanguessugas. Você usou o espelho de Colette para captar os raios de sol e direcioná-los para a ponta do Cilindro Sempre-verde Combustível, fazendo com que o calor da luz solar o acendesse.”
“Klaus tem razão”, disse Quigley. “Não poderia ter funcionado melhor.”
“Obrigada”, disse Violet, “mas não foi isso que eu quis dizer. O código é que não está funcionando. Ainda não sabemos quem está em cima do pico, nem quem estava nos mandando o sinal. Agora ele se dissipou, mas ainda não sabemos o que significava.”
“Talvez seja o caso de apagar o nosso Cilindro Sempre-verde Combustível”, disse Klaus.
“Talvez”, concordou Violet, “ou talvez devamos subir até o topo da queda d’água e descobrir quem está lá.”
Quigley franziu a testa e pegou o seu livro de lugar-comum. “O único caminho para o pico mais alto”, disse, “é o que os Escoteiros da Neve estão seguindo. Teríamos de voltar pela porta com Cerramento Supravernacular Complexo, retroceder pelo Caminho Secundário das Chamas, retornar à caverna dos Caçadores de Segredos Criminais, nos juntarmos outra vez aos escoteiros e escalar durante um longo tempo.”
“Esse não é o único caminho para o pico”, disse Violet com um sorriso.
“É, sim”, insistiu Quigley. “Olhe o mapa.”
“Olhe a queda d’água”, retrucou Violet, e as três crianças ergueram os olhos para o reluzente escorregador de gelo.
“Você quer dizer”, disse Klaus, “que pode inventar alguma coisa que nos leve até o topo de uma queda d’água congelada?”
Mas Violet já estava amarrando o cabelo e estudando as ruínas da base de operações de C.S.C. “Vou precisar daquele uquelele que você pegou no trailer”, disse para Klaus, “e daquele candelabro meio derretido que está perto da mesa de jantar.”
Klaus tirou o uquelele do bolso do casaco e entregou-o à irmã, depois foi até a mesa e pegou o estranho objeto derretido. “A não ser que você precise de alguma outra ajuda”, disse ele, “vou examinar os destroços da biblioteca e ver se há algum documento. Poderíamos aproveitar para aprender o máximo possível sobre essa base de operações.”
“Boa ideia”, disse Quigley, e enfiou a mão na mochila. De lá tirou um caderno muito parecido com o que usava, mas com a capa azul-escura. “Tenho um caderno de reserva”, disse. “Vocês podem estar interessados em começar seu próprio livro de lugar-comum.”
“Muito obrigado”, disse Klaus. “Vou anotar tudo o que encontrar. Quer participar da busca?”
“Acho que vou ficar por aqui”, disse Quigley, olhando para Violet. “Já ouvi falar muito das invenções de Violet Baudelaire, e gostaria de vê-la trabalhar.”
Klaus concordou e foi para a biblioteca destruída, enquanto Violet, sem graça por causa do comentário de Quigley, se inclinava para recolher um garfo que sobrevivera ao incêndio.
Uma das tristezas do caso Baudelaire é que Violet jamais conheceu um homem chamado CM. Kornbluth, um dos meus associados, que passou a maior parte da vida no Vale das Correntes que Sopram Constantes como instrutor de mecânica na base de operações de C.S.C. O sr. Kornbluth era um homem tão cheio de segredos que ninguém jamais soube de onde viera nem o que significavam o C e o M de seu nome. Passava grande parte do tempo enfurnado no quarto, escrevendo histórias estranhas ou olhando pelas janelas da cozinha. A única coisa que deixava o sr. Kornbluth de bom humor era um estudante de mecânica especialmente promissor. Se um rapaz demonstrasse interesse em radares de mares profundos, o sr. Kornbluth tirava os óculos e sorria. Se uma moça levasse a ele uma pistola grampeadora que construíra, o sr. Kornbluth batia palmas. E se um par de gêmeos lhe perguntasse como redirecionar uma determinada fiação de cobre, ele tirava do bolso um saquinho de papel e oferecia pistaches a todos os que estivessem em volta. Portanto, quando penso em Violet Baudelaire no meio dos destroços da base de operações de C.S.C., removendo cuidadosamente as cordas do uquelele e dobrando ao meio alguns garfos, posso imaginar o sr. Kornbluth voltando as costas para a janela, sorrindo para a inventora Baudelaire e dizendo: “Beatrice, venha até aqui! Veja o que esta menina está fazendo!”. Mas ele e seus pistaches já partiram há muito tempo.
“O que você está fazendo?”, perguntou Quigley.
“Uma coisa que nos fará subir por aquela queda d’água”, respondeu Violet. “Eu só queria que Sunny estivesse aqui. Seus dentes seriam perfeitos para cortar essas cordas de uquelele.”
“Talvez eu tenha algo que possa ajudar”, disse Quigley, vasculhando a mochila. “Quando eu estava no consultório da dra. Orwell, encontrei estas unhas cor-de-rosa postiças. São horrorosas, mas são bem afiadas.”
Violet pegou uma das unhas e olhou atentamente para ela. “Acho que o conde Olaf estava usando uma dessas”, disse ela, “como parte do seu disfarce de recepcionista. É tão estranho você ter seguido nossos passos por todo esse tempo e nós não sabermos nem que você estava vivo.”
“Eu sabia que vocês estavam vivos”, disse Quigley. “Jacques Snicket me contou tudo sobre sua família. Ele os conhecia desde antes de vocês nascerem.”
“Imaginei”, disse Violet cortando as cordas do uquelele. “Na fotografia que encontramos, meus pais estão em pé ao lado de Jacques Snicket e um outro homem.”
“Provavelmente é o irmão de Jacques”, disse Quigley. “Jacques me contou que ele e seus dois irmãos estavam trabalhando em um dossiê importante.”
“O dossiê Snicket”, disse Violet. “Esperávamos encontrá-lo aqui.”
Quigley ergueu os olhos para a queda d’água congelada. “Talvez a pessoa que nos enviou o sinal saiba onde ele está”, disse.
“Vamos descobrir num instante”, disse Violet. “Por favor, tire os sapatos.”
“Os sapatos?”, perguntou Quigley.
“A queda d’água congelada deve estar muito escorregadia”, explicou Violet, “por isso vou amarrar estes garfos com as cordas do uquelele nos dedos dos nossos pés. Com a ajuda dos garfos teremos sapatos de alpinismo. E nas mãos vamos segurar mais dois garfos. Como os talheres são quase tão pontudos quanto os dentes de Sunny, os sapatos de alpinismo vão se cravar no gelo, e nós poderemos andar sem perder o equilíbrio.”
“Mas para que o candelabro?”, perguntou Quigley, desamarrando os sapatos.
“Vou usá-lo para testar o gelo”, disse Violet. “É raro uma queda d’água congelar de maneira uniforme, ainda mais se o tempo está esquentando, e nós estamos perto da Falsa Primavera. Deve haver lugares no escorregador em que o gelo é só uma fina camada. Se cravarmos os nossos garfos no gelo fino, cairemos lá de cima. O candelabro servirá para que, antes de cada passo, testemos os lugares onde vamos pisar.”
“Parece que vai ser uma jornada difícil”, disse Quigley.
“Não mais difícil do que escalar o Caminho Secundário das Chamas”, disse Violet, amarrando um garfo no sapato de Quigley. “Vou usar o nó Sumac para ficar bem seguro. Agora só precisamos dos sapatos de Klaus e...”
“Desculpe interromper, mas acho que isso pode ser importante”, disse Klaus, retornando da biblioteca. Ele segurava o caderno azul-escuro em uma das mãos e um pequeno pedaço de papel chamuscado na outra. “Encontrei este pedaço de papel em uma pilha de cinzas”, disse ele. “É de algum livro de códigos.”
“O que está escrito?”, perguntou Violet.
‘“No e flagração resultando na destruição de um sant’“, leu Klaus, “‘tários devem valer-se do Colóquio Secreto Cri, o qual está encoberto de acordo’.”
“Isso não faz nenhum sentido”, disse Quigley. “Você acha que está escrito em código?”
“Como se fosse um código”, disse Klaus. “Algumas partes da frase foram queimadas, por isso teremos de decifrá-la como se estivesse em código. ‘Flagração’ é provavelmente a última parte da palavra ‘conflagração’, uma palavra difícil para ‘incêndio’, e ‘sant’ é provavelmente o começo da palavra ‘santuário’, que significa um lugar seguro. Portanto a sentença deve começar mais ou menos assim: “No evento de uma conflagração resultando na destruição de um santuário’.”
Violet levantou-se e olhou por cima do ombro dele. “Tários”, disse ela, “é provavelmente ‘voluntários’, mas não sei o que significa ‘devem valer-se’.”
“Significa ‘fazer uso de’“, disse Klaus, “como você está se valendo do uquelele e daqueles garfos. Entendeu? Isso quer dizer que no caso de um lugar seguro ser incendiado, eles vão deixar algum tipo de mensagem – ‘Colóquio Secreto Cri.”
“Mas o que poderia significar ‘Colóquio Secreto Cri’?”, perguntou Quigley. “Criminal? Crítico?”
“Criterioso?”, tentou adivinhar Violet. “Cristalino?”
“Mas aqui diz que está ‘encoberto de acordo’“, salientou Klaus, “Isso significa que o colóquio, que quer dizer ‘diálogo’, ou ‘conversa’, está escondido de uma maneira lógica. Se fosse um Colóquio Secreto Subaquático, estaria escondido embaixo da queda d’água ou da lagoa. Portanto nenhuma dessas palavras é a certa. Onde alguém deixaria uma mensagem para não ser destruída pelo fogo?”
“Mas o fogo destrói tudo”, disse Violet. “Olhe para a base de operações. Não sobrou nada, a não ser a entrada da biblioteca e...”
“... e a geladeira”, completou Klaus. “Que em uma linguagem pedante poderia ser chamada de máquina criostática – que serve para manter baixas temperaturas.”
“Colóquio Secreto Criostático!”, disse Quigley.
“Os voluntários deixaram uma mensagem”, disse Klaus, a meio caminho da geladeira, “no único lugar que eles sabiam que não seria afetado pelo fogo.”
“E o único lugar onde os inimigos não pensariam em procurar”, completou Quigley. “Afinal, nunca se guarda nada tão importante na geladeira.”
O que Quigley disse, é claro, não é de todo verdade. Como um envelope, uma estatueta oca e um caixão de defunto, uma geladeira pode conter toda sorte de coisas, inclusive as muito importantes, dependendo de como estiver o seu dia. Por exemplo, uma geladeira pode conter um saco de gelo, que seria muito importante se você estivesse ferido. Uma geladeira pode conter uma garrafa d’água, que seria importante se você estivesse com sede. E uma geladeira pode conter uma cestinha de morangos, que seria importante se algum maníaco lhe dissesse: “Se você não me der uma cestinha de morangos vou cutucar você com esta bengala”. Mas quando os dois Baudelaire mais velhos e Quigley Quagmire abriram a geladeira, não encontraram nada que pudesse ajudar uma pessoa ferida, morrendo de sede ou sendo ameaçada por um maníaco de bengala que adora morangos, nem nada que parecesse importante. A geladeira estava quase vazia. Lá dentro havia apenas algumas daquelas coisas que as pessoas guardam em geladeiras e quase não usam, inclusive um pote de mostarda, um vidro de azeitonas, três vidros de geleia de sabores diferentes, uma garrafa de suco de limão e um único pepino em conserva, solitário em um pequeno recipiente de vidro.
“Não há nada aqui”, disse Violet.
“Dê uma olhada na gaveta de legumes”, disse Quigley. Klaus abriu a gaveta e tirou de lá algumas folhinhas tubulares, compridas e verdes.
“Têm cheiro de cebola”, disse Klaus, “e estão meio duras, mas ainda não congelaram.”
“Cebolinhas Semicongeladas Cheirosas”, disse Quigley.
“Mais um mistério”, disse Violet, e seus olhos se encheram de lágrimas. “Não temos nada, a não ser mistérios. Não sabemos onde está Sunny; não sabemos onde está o conde Olaf; não sabemos quem está enviando sinais do topo da queda d’água nem o que está tentando dizer. E agora temos uma mensagem misteriosa em um código misterioso dentro de uma geladeira misteriosa e um maço de cebolinhas misteriosas na gaveta de legumes. Estou cansada de mistérios. Quero alguém que nos ajude.”
“Podemos ajudar um ao outro”, disse Klaus. “Temos as suas invenções, os mapas de Quigley e a minha pesquisa.”
“E somos muito lidos”, disse Quigley. “Isso deveria ser suficiente para resolver qualquer mistério.”
Violet suspirou e chutou alguma coisa caída no chão. Era uma pequena casca de pistache escurecida pelo fogo. “É como se já fôssemos membros de C.S.C.”, disse ela. “Estamos mandando sinais, decifrando códigos e descobrindo segredos nas ruínas de um incêndio.”
“Você acha que os nossos pais ficariam orgulhosos de nós”, perguntou Klaus, “por seguirmos a sua trilha?”
“Não sei”, disse Violet. “Afinal, eles mantinham C.S.C, em segredo.”
“Talvez eles fossem nos contar mais tarde”, disse Klaus.
“Ou talvez tivessem esperanças de que um dia descobríssemos”, disse Violet.
“Sempre me pergunto a mesma coisa”, disse Quigley. “Se eu pudesse voltar no tempo para o momento em que minha mãe me mostrou a passagem secreta embaixo da biblioteca, perguntaria por que ela guardava tantos segredos.”
“É mais um mistério”, disse Violet tristemente, e ergueu os olhos para o escorregador de gelo. Escurecia, e a queda d’água congelada parecia cada vez menos brilhante à luz do sol poente, como se aquela fosse a última chance de escalar o escorregador e checar quem lhes enviara os sinais. “Cada um de nós devia investigar o mistério que tem mais capacidade de resolver”, disse Violet. “Eu vou resolver o mistério do Cilindro Sempre-verde Combustível e descobrir quem está lá em cima e o que quer. Klaus, você devia ficar aqui embaixo resolvendo o mistério do Colóquio Secreto Criostático e decifrando o código para descobrirmos qual é a mensagem.”
“E eu ajudarei vocês dois”, disse Quigley, pegando o seu caderno roxo. “Vou deixar o meu livro de lugar-comum com Klaus e escalar a queda d’água com Violet, para o caso de precisar da minha ajuda.”
“Tem certeza?”, perguntou Violet. “Você já nos trouxe até aqui, Quigley. Não precisa se arriscar mais.”
“Nós entenderemos”, disse Klaus, “se você quiser ir embora e procurar seus irmãos.”
“Não diga absurdos”, disse Quigley. “Somos todos parte do mesmo mistério. É claro que vou ajudá-los.”
Os dois Baudelaire se entreolharam e sorriram. É muito raro conhecer uma pessoa digna de confiança que queira ajudar, e ao encontrá-la você pode se sentir reconfortado e seguro, mesmo que esteja no meio de um vale ventoso no topo das montanhas. Por um momento, enquanto seu amigo sorria de volta para eles, era como se todos os mistérios já estivessem resolvidos, mesmo que Sunny ainda estivesse longe, o conde Olaf à solta e a base de operações de C.S.C, abandonada às cinzas. Só de saber que tinham encontrado uma pessoa como Quigley Quagmire, Violet e Klaus se sentiram como se todos os códigos fizessem sentido e todas as pistas tivessem sido checadas.
Violet deu um passo à frente, seus sapatos de alpinismo assistidos por garfos produzindo pequenos ruídos sobre a terra gelada, e segurou a mão de Quigley. “Obrigada”, disse ela, “por se apresentar como voluntário.”

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