quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo doze


Estou sozinho esta noite, e estou sozinho devido a um cruel capricho do destino, uma frase que aqui significa que nada aconteceu do modo como pensei que aconteceria. Antes eu era um homem contente, com um lar confortável, uma carreira bem-sucedida, ao lado de uma pessoa que eu amava muito e com uma máquina de escrever extremamente confiável, mas todas essas coisas me foram tiradas, e agora o único vestígio que tenho daqueles dias felizes é a tatuagem no meu tornozelo esquerdo. Sentado nesta salinha minúscula, escrevendo estas palavras em letra de imprensa, com este lápis muito grande, sinto-me como se a minha vida inteira não tivesse sido nada mais que uma peça deprimente, apresentada apenas para a diversão de alguma outra pessoa, e que o dramaturgo que inventou a minha cruel reviravolta do destino está em algum lugar muito acima de mim, rindo a mais não poder com a sua criação.
Não é agradável se sentir assim, e é duplamente desagradável se a cruel reviravolta do destino acontece justamente quando você está realmente em pé no meio de um palco e realmente há alguém, muito acima de você, rindo a mais não poder, como aconteceu com as crianças Baudelaire no anfiteatro cirúrgico do Hospital Heimlich. As crianças mal tinham acabado de ouvir Hal acusá-las de ter incendiado a Biblioteca de Registros, quando ouviram um riso áspero e familiar vindo do alto-falante de intercomunicador acima delas. Os irmãos tinham ouvido aquele riso quando Mattathias capturou os trigêmeos Quagmire e quando ele aprisionou os Baudelaire em uma Cela de Luxo trancada. Era o riso triunfal de alguém que maquinou um plano demoníaco e teve sucesso, muito embora sempre soasse como o riso de alguém que acabou de contar uma excelente piada. Como ele estava rindo pelo intercomunicador estridente, Mattathias soava como se tivesse um pedaço de folha de alumínio por cima da boca, mas o riso ainda foi suficientemente alto para ajudar a fazer passar a anestesia, e Violet murmurou alguma coisa e mexeu os braços.
Ops”, disse Mattathias, interrompendo o riso ao perceber que o intercomunicador estava ligado. “Aqui é Mattathias, o diretor de Recursos Humanos, com uma comunicação importante. Está havendo um terrível incêndio no Hospital Heimlich. O fogo foi ateado na Biblioteca de Registros pelos assassinos Baudelaire, e se espalhou para a Ala das Gargantas Inflamadas, a Ala dos Dedões Topados e a Ala dos que Engoliram por Acidente Alguma Coisa que Não Deviam Ter Engolido. Os órfãos ainda estão à solta, portanto façam tudo o que puderem para encontrá-los. Depois que os incendiados assassinos forem capturados, talvez vocês queiram salvar alguns dos pacientes que ficaram presos no incêndio. Isso é tudo.”
“Já posso ver a manchete”, disse a repórter. “‘ASSASSINOS BAUDELAIRE TOCAM FOGO NA PAPELADA.’ Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!”
“Alguém conte a Mattathias que nós capturamos as crianças”, exclamou uma enfermeira, triunfante. “Vocês três, fedelhos, estão numa grande enrascada. Vocês são assassinos, incendiários e médicos espúrios.”
“Isso não é verdade”, disse Klaus, mas olhando em volta, ficou com medo de que ninguém acreditasse. Ele olhou para o molho de chaves espúrio nas mãos de Hal, que ele e seus irmãos tinham usado para se infiltrar na Biblioteca de Registros. Olhou para o seu avental médico, que usara para disfarçar-se de médico. E olhou para a faca enferrujada em suas próprias mãos, que estivera agora mesmo segurando sobre a irmã. Klaus lembrou-se de quando ele e as irmãs estavam morando com o tio Monty e levaram diversos objetos para o sr. Poe, como prova do plano traiçoeiro de Olaf. Por causa daqueles pequenos objetos, Olaf fora preso, e agora Klaus estava com medo de que a mesma coisa acontecesse com os Baudelaire.
“Cerquem-nos!”, bradou o homem de mãos de gancho, apontando para as crianças com uma luva recurva. “Mas tenham cuidado. O rato de biblioteca ainda está com o facão!”
Os parceiros de Olaf se espalharam em círculo e lentamente começaram a se aproximar dos jovens por todos os ângulos. Sunny choramingou de medo e Klaus a pegou no colo e colocou em cima da maca.
“Prendam os Baudelaire!”, gritou um médico.
“É o que estamos fazendo, seu idiota!”, retrucou Esmé, impaciente, mas quando ela voltou a cabeça para os Baudelaire, eles a viram dar uma piscadela por cima da máscara cirúrgica.
“Vamos capturar só um de vocês”, disse ela em voz baixa para não ser ouvida pela plateia. Ela curvou-se e esticou as duas mãos de unhas compridas para os sapatos de salto de estilete. “Este calçado in é muito útil, e não apenas para me fazer parecer glamorosa e feminina”, disse ela, tirando os sapatos e apontando-os para as crianças. “Estes estiletes são perfeitos para cortar gargantas de crianças. Dois pirralhinhos Baudelaire serão mortos ao tentar escapar da justiça, deixando um pirralhinho Baudelaire para nos garantir a fortuna.”
“Você nunca vai pôr as mãos na nossa fortuna”, disse Klaus, “e nem os seus sapatos nas nossas gargantas.”
“É o que veremos”, disse Esmé, e desfechou um golpe na direção de Klaus com o sapato esquerdo, como se fosse uma espada. Klaus esquivou-se ligeiro e sentiu o vupt! do ar quando a lâmina passou por cima dele.
“Ela está tentando nos matar!”, gritou Klaus para a plateia. “Vocês não estão vendo? São eles os verdadeiros assassinos!”
“Ninguém vai acreditar em você, jamais!”, disse Esmé em um sussurro sinistro, e desfechou um golpe com o sapato direito contra Sunny, que se desviou bem a tempo.
“Eu não acredito em você!”, berrou Hal. “A minha vista pode não ser mais o que era, mas posso ver o seu falso avental de médico.”
“Eu também não acredito em você!”, gritou uma enfermeira. “Posso ver aquele facão enferrujado!”
Esmé golpeou com os dois sapatos ao mesmo tempo, mas eles colidiram no ar em vez de atingir as crianças.
“Por que vocês não se rendem?”, sibilou ela. “Nós finalmente pegamos vocês na armadilha, assim como vocês pegaram Olaf todas aquelas vezes.”
“Agora vocês sabem como se sente um vilão”, disse o careca com uma risadinha. “Cheguem mais perto, todos vocês! Mattathias me disse que aquele que os agarrar primeiro ganha o direito de escolher onde jantar esta noite!”
“É mesmo?”, perguntou o homem de mãos de gancho. “Bem, eu estou com vontade de comer pizza.” Ele deu um golpe com um gancho enluvado na direção de Klaus, que recuou, batendo na maca e fazendo-a sair do alcance do homem mau.
“Eu prefiro comida chinesa”, disse uma das mulheres de cara empoada. “Vamos para aquele lugar onde comemoramos o rapto dos Quagmire.”
“Eu quero ir ao Café Salmonela”, rosnou Esmé, desenganchando os sapatos.
Klaus empurrou a maca de novo, fazendo-a rodar na outra direção enquanto o círculo se fechava. Ele ergueu o facão enferrujado para se defender, mas o Baudelaire do meio não achava que seria capaz de usar uma arma, mesmo contra pessoas perversas como aquelas. Se o conde Olaf tivesse sido pego naquela armadilha, não teria hesitado em brandir a lâmina enferrujada contra as pessoas que o cercavam, mas a despeito do que o careca tinha dito, Klaus não se sentia como um vilão. Ele se sentia como alguém que precisava escapar e, enquanto empurrava a maca mais uma vez, soube como ia fazer isso.
“Recuem!”, gritou Klaus. “Este facão é muito afiado!”
“Você não pode matar todos nós”, retrucou o homem de mãos de gancho. “De fato, duvido que você tenha coragem de matar alguém.”
“Não é preciso coragem para matar alguém”, disse Klaus. “É preciso uma carência severa de fibra moral.”
À menção da frase “uma carência severa de fibra moral”, que aqui significa “egoísmo cruel combinado com amor pela violência”, os parceiros de Olaf riram, deliciados.
“As suas palavras difíceis não vão salvá-lo agora, seu enxerido”, disse Esmé.
“É verdade”, admitiu Klaus. “O que vai me salvar agora é uma cama sobre rodas utilizada para transportar pacientes hospitalares.”
Sem mais palavra, Klaus atirou ao chão o facão enferrujado, deixando os parceiros de Olaf tão perplexos que deram um passo atrás. O círculo de pessoas com uma carência severa de fibra moral ficou um pouco mais espalhado, só por um momento, mas um momento era tudo o que os Baudelaire precisavam. Klaus pulou para cima da maca, que começou a rodar rapidamente na direção da porta quadrada de metal pela qual eles tinham entrado. Um clamor ergueu-se da plateia quando os Baudelaire passaram velozmente pelos parceiros de Olaf.
“Agarrem-nos!”, gritou o homem de mãos de gancho. “Eles estão fugindo!”
“Eles não vão fugir de mim!”, prometeu Hal, e agarrou a maca bem no instante em que ela chegou à porta. A maca perdeu velocidade até parar e, por um segundo, Sunny se viu cara a cara com o velho. Borboletas adejaram no estômago da mais jovem dos Baudelaire quando ele a olhou ferozmente através dos óculos minúsculos. Diferentemente dos parceiros de Olaf, Hal não era uma pessoa má, é claro. Era apenas alguém que amava a Biblioteca de Registros e estava tentando capturar as pessoas que, acreditava ele, tinham ateado fogo a ela, e para Sunny era doloroso ver que ele a via como uma criminosa perversa, em vez de um bebê azarado. Mas sabia que não tinha tempo para explicar a Hal o que realmente acontecera. Ela mal tinha tempo de dizer uma única palavra, e no entanto foi precisamente isso que a mais jovem dos Baudelaire fez.
“Desculpe”, disse Sunny para Hal, e deu-lhe um pequeno sorriso. Ela então abriu a boca um pouco mais e mordeu a mão de Hal o mais delicadamente que pôde, para que ele soltasse a maca sem se machucar.
“Ai!”, disse Hal, e soltou a maca. “O bebê me mordeu!”, gritou ele para a multidão.
“Você está ferido?”, perguntou uma enfermeira.
“Não”, respondeu Hal, “mas eu deixei escapar a maca. Eles estão rodando pela porta afora!”
Os Baudelaire rodaram pela porta afora, com os olhos de Violet piscando e se abrindo, Klaus pilotando a maca e Sunny agarrando-se com todas as forças para continuar viva. As crianças rodaram pelos corredores da Ala Cirúrgica abaixo, se esquivando de surpresos doutores e outros profissionais médicos.
Atenção!”, anunciou a voz de Mattathias pelo intercomunicador. “Aqui é Mattathias, o diretor de Recursos Humanos! Os assassinos e incendiários Baudelaire estão fugindo em uma maca! Capturem-nos imediatamente! E também: o fogo está se espalhando pelo hospital! Vocês podem querer evacuar!
“Noriz!”, gritou Sunny.
“Estou indo o mais rápido que posso!”, gritou Klaus, com as pernas penduradas do lado da maca para ir dando impulso. “Violet, acorde, por favor! Você pode ajudar a empurrar!”
“Eu estou... ten... tando...”, murmurou Violet, olhando em volta com os olhos apertados. A anestesia fazia tudo parecer indistinto e nebuloso, e era quase impossível falar, que dirá se mexer.
“Porta!”, berrou Sunny, apontando para a porta de saída da Ala Cirúrgica. Klaus fez a maca virar naquela direção e passou velozmente pelo parceiro gordo de Olaf que não parecia nem homem nem mulher e ainda estava vestido de guarda espúrio. Com um rugido terrível, ele começou a perseguir a maca a passos enormes e desajeitados, enquanto os Baudelaire disparavam na direção de um pequeno grupo de Combatentes pela Saúde do Cidadão. O voluntário barbudo, que estava tirando alguns acordes muito familiares no seu violão, ergueu os olhos para ver a maca passar rodando por ele.
“Aqueles devem ser os assassinos de que Mattathias estava falando!”, disse ele. “Vamos, pessoal, vamos ajudar aquele guarda a capturá-los!”
“Me parece bom”, concordou outro voluntário. “Se quer saber a verdade, já estou um pouco cansado de cantar aquela canção.”
Klaus manobrou a maca para fazer uma curva enquanto os voluntários se juntavam ao comparsa obeso na perseguição.
“Acorde”, implorou ele a Violet, que olhava em volta com um jeito confuso. “Por favor, Violet!”
“Escada!”, disse Sunny, apontando para uma escadaria. Klaus virou a maca na direção que a irmã indicara, e as crianças começaram a rodar pelas escadas abaixo, o tranco fazendo-as subir e descer a cada degrau. Foi um trajeto veloz e escorregadio que lembrou as crianças de quando desciam escorregando pelo corrimão da Avenida Sombria 667, ou de quando colidiram com o automóvel do sr. Poe na época em que estavam morando com o tio Monty. Em uma curva da escadaria, Klaus raspou os sapatos contra o chão para fazer parar a maca e depois se inclinou para examinar um dos confusos mapas do hospital.
“Estou tentando descobrir se devemos passar por aquela porta”, disse ele, apontando para uma porta onde estava escrito “Ala para Pessoas com Brotoejas Graves”, “ou continuar descendo as escadas”.
“Dlim!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Não podemos continuar descendo as escadas. Olhem!”.
Klaus olhou, e até Violet conseguiu focalizar a vista e olhar para baixo, na direção em que Sunny estava apontando. Mais abaixo na escadaria, logo além do próximo patamar, havia um brilho alaranjado, tremeluzente, como se o sol estivesse nascendo no porão do hospital, e pequenas espirais de fumaça preta voluteavam escada acima, como os tentáculos de algum animal fantasmagórico. Era uma visão tétrica que perseguia os Baudelaire em seus sonhos desde aquele dia fatídico na praia, quando todos os seus problemas começaram. Por um momento, as três crianças ficaram paralisadas, incapazes de fazer qualquer coisa que não fosse olhar fixamente para baixo, para o brilho alaranjado e os tentáculos de fumaça, e pensar em tudo o que tinham perdido por causa daquilo que contemplavam.
“Incêndio”, disse Violet com voz débil.
“Sim”, disse Klaus. “Está se propagando por esta escadaria. Temos de dar meia-volta e ir para cima de novo.”
Os Baudelaire ouviram o comparsa rugir de novo lá em cima, e ouviram o voluntário barbudo responder: “Vamos ajudá-lo a capturá-los”, disse ele. “Siga na frente, senhor – ou é senhora? Não consigo distinguir.”
“Cima não”, disse Sunny.
“Eu sei”, disse Klaus. “Não podemos subir as escadas, e não podemos descer. Temos de entrar na Ala para Pessoas com Brotoejas Graves.”
Tendo tomado essa dura decisão, Klaus virou a maca e a empurrou porta adentro, bem no momento em que a voz de Mattathias se fez ouvir pelo intercomunicador.
Aqui é Mattathias, o diretor de Recursos Humanos”, disse ele apressadamente. “Todos os parceiros do dr. Flacutono, continuem a procurar as crianças! Todos os demais, reúnam-se na frente do hospital. Ou agarramos os assassinos quando tentarem escapar, ou eles vão queimar até virar torresmo!”
As crianças rodaram para dentro da Ala para Pessoas com Brotoejas Graves e viram que Mattathias estava certo. A maca precipitava-se por um corredor, e as crianças podiam ver mais um brilho alaranjado no final dele. Os Baudelaire ouviram mais um rugido atrás de si, quando o comparsa obeso começou a descer pesadamente as escadas. Os irmãos tinham caído numa armadilha, no meio de um corredor que só levava à morte ardente, ou às garras de Olaf.
Klaus inclinou-se para baixo e fez parar a maca.
“É melhor a gente se esconder”, disse ele, pulando para o chão. “É perigoso demais ficar rodando de um lado para outro desse jeito.”
“Onde?”, perguntou Sunny quando Klaus foi ajudá-la a descer.
“Em algum lugar aqui por perto”, disse Klaus, agarrando o braço de Violet. “A anestesia ainda não passou, portanto Violet não vai poder andar muito.”
“Eu vou... tentar...”, murmurou Violet, descendo vacilante da maca e se apoiando em Klaus.
As crianças olharam em volta e viram que a porta mais próxima dizia “Closet de Suprimentos”.
“Gleinop?”, perguntou Sunny.
“Acho que sim”, disse Klaus meio em dúvida, abrindo a porta com uma das mãos enquanto apoiava Violet com a outra. “Não sei o que podemos fazer em um closet de suprimentos, mas pelo menos vai nos esconder por alguns instantes.”
Klaus e Sunny ajudaram a irmã a passar pela porta e a trancaram atrás deles. Com exceção de uma pequena janela no canto, o closet parecia idêntico àquele em que Klaus e Sunny tinham se escondido para decifrar o anagrama na lista de pacientes. Era uma salinha com uma única lâmpada de luz vacilante pendurada no teto, e havia uma fileira de aventais brancos de médico pendurados em ganchos, uma pia enferrujada, enormes latas de sopa de letrinhas e caixinhas de elásticos. Mas quando os dois Baudelaire mais jovens olharam para aqueles suprimentos, não os acharam parecidos com dispositivos para traduzir anagramas e personificar profissionais médicos. Klaus e Sunny olharam para todos aqueles objetos, e depois para a irmã mais velha. Para alívio deles, o rosto de Violet estava um pouquinho menos pálido, e seus olhos pareciam um pouquinho menos confusos, o que era muito bom sinal.
A Baudelaire mais velha precisava estar o mais desperta possível, porque os itens no closet estavam cada vez menos parecidos com suprimentos, e cada vez mais com materiais para uma invenção.

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