quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Capítulo doze


Suposições são coisas perigosas de fazer e, como em todas as coisas perigosas de fazer – bombas, por exemplo, ou certas sobremesas complicadas –, basta cometer um pequeno engano para dar um problema dos diabos. Fazer suposições consiste simplesmente em acreditar que as coisas são desta ou daquela maneira, sem haver prova alguma ou prova suficiente de que a crença esteja correta, e você bem pode imaginar como isso é capaz de causar um problema dos diabos. Por exemplo: certa manhã você poderia acordar e supor que sua cama está no mesmo lugar em que sempre esteve, embora você não tivesse nenhuma prova real. Mas, quando saísse da cama, poderia descobrir que ela havia sido levada pelas águas e transportada para o mar, e imagine só o problema dos diabos em que estaria metido, tudo por causa de uma suposição incorreta. Dá para ver que é melhor não fazer muitas suposições, especialmente pela manhã.
Na manhã dos exames rigorosos, entretanto, os órfãos Baudelaire estavam tão cansados – não apenas por terem ficado acordados a noite inteira estudando e fazendo grampos, mas também pelas nove noites consecutivas de corrida no gramado – que fizeram uma porção de suposições, todas elas, da primeira à última, incorretas.
“Bom, chegamos ao último grampo”, disse Violet, estirando os músculos fatigados. “Acho que podemos supor com razoável certeza que Sunny não perderá o emprego.”
“E você parece saber todos os detalhes das histórias do sr. Remora tanto quanto eu sei todas as medidas das aulas da sra. Bass”, disse Klaus esfregando os olhos fatigados. “Assim acho que podemos supor com razoável certeza que não seremos expulsos.”
“Nilicô”, disse Sunny, soltando um bocejo de sua boca fatigada. Queria dizer mais ou menos: “E não vimos os trigêmeos Quagmire, nem um nem o outro, assim acho que podemos supor com razoável certeza que uma parte do plano correu bem”.
“É mesmo”, disse Klaus. “Suponho que se tivessem sido apanhados já saberíamos.”
“É o que eu suponho também”, disse Violet.
“É o que eu suponho também”, arremedou em falsete uma voz hostil e debochada, e as crianças se surpreenderam ao ver atrás delas o vice-diretor Nero segurando um enorme maço de papéis. Além das suposições formuladas em voz alta, os Baudelaire haviam partido da suposição de estarem sós, e qual não foi a surpresa ao verificarem que não apenas o vice-diretor Nero como também o sr. Remora e a sra. Bass aguardavam à soleira da porta do Barraco dos Órfãos. “Espero que tenham ficado estudando a noite inteira”, disse Nero, “porque eu disse aos professores de vocês que preparassem exames ultra-rigorosos, e as folhas de papel que o bebê vai ter que grampear são bastante grossas. Bem, vamos começar. O sr. Remora e a sra. Bass vão revezar-se nas perguntas até que um de vocês dê a resposta errada, e nesse caso serão reprovados. Você, Sunny, ficará sentada aí atrás e grampeará esses papéis em bloquinhos de cinco páginas, e se os grampos caseiros não funcionarem, você será reprovada. Bem, um gênio musical como eu não dispõe de um dia todo para supervisionar exames. Já perdi um tempão que deveria dedicar aos meus ensaios. Comecemos logo!”
Nero jogou a grossa papelada sobre um dos montes de feno, e logo em seguida o grampeador. Sunny engatinhou o mais rápido possível e começou a colocar os grampos no grampeador, enquanto Klaus se levantava ainda agarrado aos cadernos dos Quagmire, Violet calçava os sapatos barulhentos e o sr. Remora engolia um pedaço de banana para em seguida fazer a primeira pergunta.
“Em minha história sobre o jumento”, disse ele, “quantos quilômetros o jumento correu?”
“Dez”, respondeu Violet prontamente.
“Dez”, Nero arremedou em falsete. “Isso não pode estar certo, pode, sr. Remora?”
“Ehh... sim, está certo”, disse o sr. Remora, traçando outro pedaço de banana.
“Qual a largura”, perguntou a sra. Bass a Klaus, “do livro com a capa amarela?”
“Dezenove centímetros”, respondeu imediatamente Klaus.
“Dezenove centímetros”, debochou Nero. “Está errado, não está, sra. Bass?”
“Não”, admitiu a sra. Bass. “É a resposta certa.”
“Bem, tente outra pergunta, sr. Remora”, disse Nero.
“Na minha história sobre o cogumelo”, o sr. Remora perguntou a Violet, “como se chamava o cozinheiro?”
“Maurice”, respondeu Violet.
“Maurice”, arremedou Nero.
“Certo”, disse o sr. Remora.
“Qual o comprimento do peito da galinha número sete?”, perguntou a sra. Bass.
“Catorze centímetros e cinco milímetros”, disse Klaus.
“Catorze centímetros e cinco milímetros', arremedou Nero.
“Está certo”, disse a sra. Bass. “Vocês dois na verdade são estudantes muito bons, apesar de ultimamente terem dormido nas aulas.”
“Acabem com esse lero-lero e tratem de reprová-los”, disse Nero. “Nunca expulsei nenhum estudante, e estou realmente a fim de expulsar um agora.”
“Na minha história sobre o caminhão basculante”, disse o sr. Remora, enquanto Sunny começava a grampear a pilha de papéis, “de que cor eram as pedras que ele carregava?”
“Cinza e marrom.”
“Cinza e marrom.”
“Certo.”
“Que profundidade tem a panela de minha mãe?”
“Seis centímetros.”
“Seis centímetros.”
“Certo.”
“Na história sobre a toupeira, qual era a cor favorita dela?”
Os exames rigorosos prosseguiram e pareciam não acabar nunca. Se eu fosse repetir todas as tediosas e inúteis perguntas feitas pelo sr. Remora e pela sra. Bass, vocês seriam capazes de se chatear tanto que talvez caíssem no sono imediatamente, usando este livro como travesseiro em vez de encará-lo como divertimento e como história instrutiva para benefício da mente. Na verdade, os exames foram tão chatos que os órfãos Baudelaire poderiam ter cochilado durante as perguntas. Mas não ousaram fazer isso. Bastaria uma resposta errada ou uma folha que ficasse sem grampear para que Nero os expulsasse da Escola Preparatória Prufrock, mandando-os diretamente para as garras ansiosas do instrutor Genghis. Por isso as crianças se esforçaram ao máximo. Violet tentou recordar cada detalhe do que Klaus lhe ensinara, Klaus tentou recordar cada uma das medidas que ensinara a si próprio, e Sunny grampeou adoidado, expressão que aqui significa “rápido e com exatidão”. Por fim, o sr. Remora fez uma pausa quando estava no meio da oitava banana, e virou-se para o vice-diretor Nero.
“Nero”, disse, “não há por que continuarmos com esses exames. Violet é uma excelente estudante, e é óbvio que se preparou com afinco.”
A sra. Bass concordou. “Em todos os meus anos de magistério, nunca encontrei um garoto com senso tão agudo de medidas como o Klaus aqui. E parece que Sunny é uma excelente secretária também. Olhe só esses bloquinhos! Magníficos!”
“Pilso!”, gritou Sunny.
“Minha irmã está dizendo 'Muito obrigada'“, explicou Violet, embora na verdade Sunny tivesse dito: “A minha mão ficou machucada”, ou algo do gênero. “Isso significa que vamos continuar na Prep Prufrock?”
“Ora, vamos, deixe que eles continuem, Nero”, disse o sr. Remora. “Por que não expulsa aquela Carmelita Spats? Ela nunca estuda e, além do mais, é uma pessoa detestável.”
“Sem dúvida”, disse a sra. Bass. “Ela é que deveríamos submeter a exames ultra-rigorosos.”
“Não posso reprovar Carmelita Spats”, disse Nero com impaciência. “Ela é a Mensageira Especial do instrutor Genghis.”
“Quem?”, perguntou o sr. Remora.
“Você sabe”, explicou a sra. Bass. “O instrutor Genghis, o novo professor de ginástica.”
“Ah, sim!”, disse o sr. Remora. “Ouvi falar dele, mas não o conheço. Como ele é?”
“Ele é o mais perfeito professor de ginástica que o mundo já viu”, disse o vice-diretor Nero balançando entusiasmadíssimo seus quatro rabichos-de-cavalo. “Você não precisa se fiar na minha palavra. Veja você mesmo. Aí vem ele.”
Nero estendeu uma das mãos peludas e apontou para fora do Barraco dos Órfãos, e os órfãos Baudelaire viram com horror que o vice-diretor estava falando a verdade. Assobiando para si mesmo uma melodiazinha irritante, o instrutor Genghis caminhava em linha reta na direção deles, e as crianças na mesma hora puderam ver que haviam se enganado em uma das suposições. Não se tratava da suposição de que Sunny escaparia de perder o emprego, se bem que essa, também, acabaria se revelando enganosa. Nem se tratava da suposição de que Violet e Klaus escapariam de ser expulsos, se bem que também essa acabaria se revelando enganosa. Era a suposição sobre os trigêmeos Quagmire e uma parte do plano haver corrido bem. À medida que o instrutor Genghis chegava mais perto, deu para os Baudelaire perceberem que ele tinha numa das mãos peludas a fita de cabelo de Violet e na outra os óculos de Klaus, e que a cada passo dos caríssimos tênis de corrida o instrutor levantava uma nuvenzinha branca, logo identificada como a farinha do saco roubado do refeitório. Mais denunciante, porém, do que a fita ou os óculos ou as nuvenzinhas de farinha era a expressão nos olhos de Genghis. Quando Genghis chegou ao Barraco dos Órfãos, seus olhos brilhavam de triunfo, como se enfim tivesse ganhado uma partida que vinha jogando desde muito, muito tempo. Foi quando os órfãos Baudelaire se deram conta de que a suposição que haviam feito sobre os trigêmeos Quagmire fora, na verdade, inteiramente enganosa.

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