terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo doze


Na cidade sueca de Estocolmo, há pouco tempo, uma quadrilha assaltou um banco e fez alguns funcionários prisioneiros. Durante vários dias, assaltantes e prisioneiros viveram em íntima proximidade, expressão que aqui significa “permaneceram juntos durante todo o tempo até que a polícia invadisse o banco e prendesse os assaltantes”. No entanto, quando os prisioneiros foram libertados, as autoridades descobriram que uma amizade havia florescido ente eles e os assaltantes, e desde então a expressão “Síndrome de Estocolmo” é usada para descrever essa estranha simpatia que se desenvolve entre vítima e algoz.
Outra expressão, contudo, descreve uma situação mais comum. É a chamada “Síndrome do Monte Fraught”, e se aplica nos casos em que um prisioneiro não fica amigo de seus algozes; ao contrário, despreza-os mais a cada momento que passa e não vê a hora de escapar de suas garras. Era essa a sensação que Sunny Baudelaire experimentava ali, em pé na beira do Monte Fraught, enquanto olhava fixamente para a queda d’água congelada e pensava na sua situação.
A menininha passara outra noite em claro no prato coberto, depois de lavar os restos de salmão com punhados de neve derretida. Era gelado, é claro, com os ventos das Montanhas de Mão-Morta soprando através dos buracos na tampa, e era doloroso, porque seus dentes começaram a bater de frio, causando pequenos cortes nos lábios. Porém havia mais uma razão para Sunny não ter dormido bem: ela estava frustrada. A despeito de todo o seu esforço, ela não conseguira descobrir a localização do último santuário onde C.S.C., iria se reunir, nem em que consistia o plano de recrutamento a que se referiram o homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba. Quando os vilões se reuniram em volta da pedra chata para o jantar, discutiram esses assuntos, mas toda vez que Sunny se aproximava eles a fulminavam com o olhar e mudavam rapidamente de assunto. Tudo o que conseguiu foi preparar um bom jantar para a trupe. Nenhuma das vilanescas figuras reclamou de seus rolinhos Falsa Primavera, e até repetiram quando Sunny voltou com a bandeja.
Mas algo crucial escapara à atenção do conde Olaf e seus comparsas, e Sunny estava muito grata por isso. Em homenagem à Falsa Primavera, a jovem Baudelaire preparara legumes sortidos enrolados em folhas de espinafre. Isso consumira o saco de cogumelos, a lata de tremoços e o bloco de espinafre congelado. Mas no último minuto Sunny decidira não usar a enorme berinjela. Quando Violet mencionou que a berinjela devia pesar quase tanto quanto Sunny, a mais jovem dos Baudelaire teve uma ideia. Em vez de picar o legume em tiras, ela o esconderia atrás do pneu murcho do carro do conde Olaf. Agora que o sol despontava no céu e o grupo de vilões logo começaria a costumeira briguinha matinal, Sunny resgatou a berinjela e a levou, rolando, para junto do prato de forno. Ao passar ao lado do carro com o enorme legume, olhou para a queda d’água congelada e notou que ela parecia menos congelada. Sabia que seus irmãos estavam lá embaixo com Quigley, e, embora não pudesse vê-los, sentia-se melhor por saber que estavam por perto e que logo estaria com eles.
“O que você está fazendo, bebê?” Sunny acabara de escamotear a berinjela dentro do prato de forno quando ouviu a voz de uma das comparsas de Olaf. As duas mulheres de cara branca estavam se espreguiçando na frente da barraca.
“Aubergine”, respondeu Sunny, o que queria dizer: “Tenho planos para essa berinjela, e mesmo que conte do que se trata vocês não entenderão uma só palavra”.
“Mais tatibitate”, disse uma mulher de cara branca com um suspiro. “Estou começando a achar que Sunny é um bebê indefeso, e não uma espiã.”
“Gugu-ga...”, começou Sunny, mas a aba da barraca do conde Olaf se abriu antes que ela pudesse emitir o último “ga”. O vilão e a sua namorada apareceram, e ficou claro que eles esperavam que o sábado fosse um grande dia, pois estavam paramentados para a ocasião, uma expressão que aqui significa “usando roupas tão estranhas que a mais jovem dos Baudelaire perdeu a fala quando os viu”. Parecia que o conde Olaf tinha lavado a cara, o que era incrível, e estava vestindo um terno novo de um material que, à primeira vista, parecia ter estampa de bolinhas. Mas quando Sunny olhou com mais atenção, notou que cada bolinha era um pequeno olho, assim como a tatuagem de Olaf, a insígnia de C.S.C., e todos os outros olhos que vinham atormentando os Baudelaire desde aquele dia terrível na praia. Por isso, a visão do terno novo do conde Olaf produziu em Sunny a sensação de ser espionada não por um, mas por uma multidão de vilões. Mas não importa quão absurda fosse a indumentária de Olaf, a de Esmé Squalor era ainda pior. Sunny não conseguiu se lembrar de nenhum vestido tão enorme, e ficou surpresa por ele ter cabido na barraca, deixando ainda espaço suficiente para os vilões dormirem. O vestido era feito de camadas e camadas de tecido brilhante, amarelo, laranja e vermelho, cortadas em formas triangulares de tal modo que cada camada parecia penetrar na seguinte. Erguendo-se acima dos ombros, pilhas enormes de renda preta enrolavam-se no ar como estranhas volutas. O vestido parecia tão imenso e esquisito que Sunny não pôde imaginar por que alguém usaria aquilo, mas quando a malfazeja namorada avançou para fora da barraca, tudo ficou claro: Esmé Squalor estava fantasiada de um enorme incêndio.
“Que manhã maravilhosa!”, exultou o conde Olaf. “Pense só, no final do dia terei mais novos membros na minha trupe do que jamais tive!”
“E nós precisamos deles”, concordou Esmé. “Temos que trabalhar juntos pela causa maior, que é tocar fogo no último santuário!”
“Só de pensar em ver o Hotel Desenlace em chamas eu já fico excitado! Vou abrir uma garrafa de vinho!”, anunciou o conde Olaf, e Sunny cobriu a boca com as mãos para que os vilões não ouvissem seu gritinho de susto. O Hotel Desenlace devia ser o último santuário para o encontro dos voluntários, e Olaf estava tão excitado que pronunciara o nome inadvertidamente, uma palavra que aqui significa “sem perceber que a mais jovem dos Baudelaire estava por perto”.
“A ideia de todas aquelas águias encobrindo o céu me deixa tão excitada que vou fumar um daqueles cigarros verdes!”, anunciou Esmé, e em seguida fechou a cara. “Só que não tenho nenhum. Droga!”
“Mil perdões, vossa Esmecelência”, disse uma das mulheres de cara branca, “mas vejo aquela fumaça verde no pé da queda d’água.”
“É mesmo?”, disse Esmé, ansiosa, e olhou na direção em que a empregada de Olaf apontava. Sunny também olhou, e reconheceu o penacho de fumaça verde no fundo do declive. A mais jovem dos Baudelaire se perguntou por que seus irmãos estariam sinalizando e o que estariam tentando dizer.
“É estranho”, disse Olaf. “Não devia ter sobrado nada por queimar na base de operações.”
“Olhe só a quantidade de fumaça”, disse Esmé, gulosa. “Deve haver um maço inteiro de cigarros lá embaixo. O dia está ficando cada vez melhor!”
Olaf sorriu, depois desviou os olhos da queda d’água e notou a presença de Sunny. “Vou mandar o bebê descer e buscar os cigarros para você”, disse o conde Olaf.
Ye-sss!”, disse Sunny, entusiasmada.
“O bebê roubaria todos os cigarros”, disse Esmé, lançando um olhar feroz para a menininha. “Vou eu mesma.”
“Mas essa descida pode levar horas”, disse Olaf.
“Você não quer estar presente para o recrutamento? Eu amo pegar pessoas em armadilhas.”
“Eu também”, concordou Esmé, “mas não se preocupe, estarei de volta em instantes. Não vou andando. Um dos tobogãs me levará até lá num minuto.”
“Droga!”, Sunny não pôde deixar de exclamar. Ela queria dizer algo no gênero de: “Era o que eu planejava fazer”, porém ninguém entendeu.
“Cale a boca, dentuça”, disse Esmé, “e saia da minha frente.” Ela passou em disparada pela mais jovem dos Baudelaire, e Sunny percebeu que havia alguma coisa costurada na barra do vestido que produzia um som crepitante, como o barulho de um incêndio. Jogando um beijo para o conde Olaf, Esmé pegou o tobogã dos vilões sinistros. “Volto já, querido”, disse ela. “Mande esse bebê tirar um cochilo antes que veja o que estamos armando.”
“Esmé tem razão”, disse Olaf, dirigindo a Sunny um sorriso cruel. “Já para o prato. Uma criatura tão feia e indefesa como você tem que ficar longe das minhas vistas.”
“Falou e disse, bonitão”, disse Esmé, e deu uma risadinha malvada, enquanto se preparava para escorregar pela queda d’água. As duas mulheres de cara branca saíram correndo para empurrar o tobogã enquanto Sunny desaparecia das vistas de Olaf.
Como você pode imaginar, a visão de uma mulher adulta, usando um enorme vestido que imitava chamas, descendo de tobogã da nascente do Arroio Enamorado para os dois afluentes e a lagoa semicongelada ao pé da queda d’água não é o tipo de coisa que passe despercebida. Violet foi a primeira a reparar no borrão colorido descendo em disparada, e guardou o espelho de Colette que usara para acender os Cilindros Sempre-verdes Combustíveis empilhados na frente do buraco. Franzindo o nariz por causa do cheiro de fumaça, Violet se voltou para Klaus e Quigley, que terminavam de colocar os últimos pedaços de madeira sobre a armadilha.
“Vejam”, disse Violet, apontando para o vulto.
“Você acha que é Esmé?”, perguntou Klaus.
Violet apertou os olhos. “Acho que sim”, disse. “Ninguém, a não ser Esmé, usaria uma roupa dessas.”
“É melhor nos escondermos”, disse Quigley, “antes que ela nos veja.”
Os dois Baudelaire concordaram, e foram andando até a entrada da biblioteca.
“Fico feliz em não enxergar mais o buraco”, disse Klaus. “Olhar para aquela escuridão me lembrou a horrível passagem secreta na Avenida Sombria 667.”
“Foi lá que Esmé capturou os seus irmãos”, disse Violet para Quigley, “e depois nos capturou.”
“E agora que estamos combatendo fogo com fogo, nós é que vamos raptá-la”, disse Quigley, incomodado.
“É melhor não pensar nisso”, disse Violet, embora ela mesma não tivesse parado de pensar na armadilha. “Logo teremos Sunny de volta, e é isso que importa.”
“Talvez isso também importe”, disse Klaus, e apontou para a arcada. “Eu nunca tinha notado, até agora.”
Violet e Quigley ergueram os olhos para ver ao que ele se referia, e viram quatro palavrinhas acima das suas cabeças, gravadas logo abaixo do grande letreiro que dizia “Biblioteca C.S.C.”
“O mundo aqui silencia’’, leu Quigley. “O que vocês acham que isso significa?”
“Parece um lema”, disse Klaus. “Na Escola Preparatória Prufrock eles tinham um gravado perto da entrada, para que todos se lembrassem dele quando entrassem lá.”
Violet sacudiu a cabeça. “Não era nisso que eu estava pensando”, disse. “Lembro vagamente de alguma coisa a respeito dessa frase.”
“O mundo parece mesmo silencioso por aqui”, disse Klaus. “Não ouvimos o zumbido de um só mosquito da neve desde que chegamos.”
“O cheiro da fumaça os espanta, lembra?”, disse Quigley.
“É claro”, disse Klaus, e deu uma espiada pelo canto da arcada para conferir o progresso de Esmé. O borrão colorido estava mais ou menos a meio caminho da queda d’água, indo diretamente para a armadilha. “Havia tanta fumaça aqui na base de operações que os mosquitos podem nunca mais voltar.”
“Sem mosquitos da neve”, disse Quigley, “os salmões do Arroio Enamorado vão ficar com fome. Eles comem mosquitos da neve.” Ele tirou do bolso o seu livro de lugar-comum. “E sem salmões”, completou, “as águias das Montanhas de Mão-Morta vão ficar com fome. A destruição da sede de operações de C.S.C, causou danos ainda maiores do que eu imaginava.”
Klaus concordou. “Quando caminhávamos ao longo do Arroio Enamorado”, disse, “os peixes estavam tossindo por causa das cinzas na água. Lembra, Violet?”
Ele voltou-se para a irmã, mas Violet não estava ouvindo. Ela ainda tentava se lembrar onde tinha ouvido as palavras inscritas na arcada. “As únicas palavras que consigo ouvir agora”, disse ela, “são O mundo aqui silencia.” Ela fechou os olhos. “Acho que foi há muito tempo, Klaus, antes de você nascer.”
“Talvez alguém as tenha dito para você”, disse Quigley.
Violet tentou se remeter ao passado mais remoto de que se lembrava, mas tudo parecia tão nebuloso quanto as montanhas. Podia ver o rosto de sua mãe, seu pai em pé ao lado dela, usando um terno preto como as cinzas da base de operações. Sabia que eles tinham dito alguma coisa, mas não conseguia se lembrar o que era. Não importava o quanto tentasse, a memória continuava silenciosa como uma tumba. “Ninguém falou isso para mim”, disse ela, afinal. “Alguém cantou. Acho que os meus pais cantaram as palavras ‘o mundo aqui silencia’ muito tempo atrás, mas não sei por quê.” Ela abriu os olhos e encarou os dois meninos. “Talvez estejamos fazendo a coisa errada”, disse.
“Mas nós tínhamos concordado”, disse Quigley, “em combater fogo com fogo.”
Violet assentiu, e ao enfiar as mãos nos bolsos esbarrou de novo na faca de pão. Pensou na escuridão do buraco e no grito que Esmé daria ao cair dentro dele. “Sei que tínhamos concordado”, disse Violet, “mas se C.S.C., de fato significa, como já nos ocorreu, Corporação pelo Salvamento das Chamas, então se trata de uma organização que extingue incêndios. Se todo mundo combatesse fogo com fogo, o mundo inteiro se acabaria em fumaça.”
“Entendo o que você quer dizer”, disse Quigley. “Se o lema de C.S.C, é O mundo aqui silencia, devíamos fazer alguma coisa menos barulhenta e violenta do que pegar alguém em uma armadilha.”
“Quando eu estava olhando para dentro do buraco”, disse Klaus mansamente, “lembrei de um livro escrito por um filósofo famoso. Ele disse: ‘Quem enfrenta monstros deve cuidar para que, no processo, não se transforme em monstro também. Quando você olha longamente para o abismo, o abismo também olha para você’.” Klaus olhou para a irmã, depois para Esmé, que já se aproximava, e por fim para a madeira que cobria o buraco. “Um ‘abismo’ é, de fato, um ‘buraco’“, disse ele. “Nós construímos um abismo para Esmé. Isso é algo que só um monstro faria.”
Quigley estava copiando as palavras de Klaus no seu livro de lugar-comum. “O que aconteceu com esse filósofo?”, perguntou.
“Está morto”, disse Klaus. “Acho que você tem razão, Violet. Nós não queremos ser tão vilanescos e monstruosos quanto o conde Olaf.”
“Mas o que vamos fazer?”, perguntou Quigley. “Sunny ainda é prisioneira de Olaf, e Esmé estará aqui em pouco tempo. Se não pensarmos na coisa certa agora, será tarde demais.”
Assim que o trigêmeo terminou de falar, as três crianças ouviram algo que as fez perceber que já poderia ser tarde demais. Detrás da arcada, Violet, Klaus e Quigley ouviram o ruído áspero do tobogã chegando ao pé da queda d’água, e a risadinha triunfante de Esmé Squalor. Os voluntários espiaram por detrás da arcada e viram a traiçoeira namorada sair do tobogã com um sorriso no rosto. Quando Esmé ajeitou o seu enorme vestido de chamas e deu um passo na direção dos Cilindros Sempre-verdes Combustíveis, Violet não estava mais olhando para ela. Olhava para o chão, a uns poucos passos de onde estava. As três máscaras contra mosquitos da neve que eles tinham dispensado logo que chegaram às ruínas estavam empilhadas. Tinham presumido que não precisariam mais delas, mas Violet se deu conta de que tinham se enganado. Quando Esmé deu mais um passo na direção da armadilha, Violet correu até as máscaras, colocou uma delas no rosto e saiu do esconderijo.
“Pare, Esmé!”, gritou ela. “É uma armadilha!”
Esmé se deteve e olhou com curiosidade para Violet. “Quem é você?”, perguntou ela. “Você não devia aparecer de repente na frente das pessoas desse jeito. E uma coisa vilanesca.”
“Sou uma voluntária”, disse Violet.
A boca de Esmé, pintada de batom cor de laranja para combinar com o vestido, se abriu em um sorriso de escárnio. “Não há mais voluntários aqui”, disse ela. “A base de operações está destruída!”
Klaus foi o seguinte a pegar uma máscara e confrontar a pérfida companheira de Olaf. “A nossa base de operações pode estar destruída”, disse, “mas C.S.C, está firme e forte como sempre!”
Esmé franziu o cenho para os dois irmãos como se não conseguisse decidir se deveria ou não ficar assustada. “Vocês podem ser fortes”, disse ela, nervosa, “mas são baixinhos.” Seu vestido crepitou quando ela fez menção de dar mais um passo na direção do buraco. “Quando eu puser as mãos em vocês...”
“Não!”, gritou Quigley, e saiu de trás da arcada com a sua máscara. “Não chegue perto, Esmé. Se der mais um passo, cairá na nossa armadilha.”
“Você está inventando essa história”, disse Esmé, mas não se mexeu. “Você está tentando ficar com os cigarros para você.”
“Não são cigarros”, disse Klaus, “e nós não somos mentirosos. Embaixo daquela madeira há um buraco muito fundo.”
Esmé olhou desconfiada para eles. Precavida, uma palavra que aqui significa “sem cair em um buraco fundo”, ela se inclinou, puxou um pedaço de madeira e olhou para dentro da armadilha. “Bem, bem, bem...”, disse. “Vocês construíram mesmo uma armadilha. Eu jamais teria caído nela, é claro, mas devo admitir que vocês cavaram um buraco e tanto.”
“Queríamos pegá-la”, disse Violet, “para podermos trocá-la por Sunny Baudelaire. Mas...”
“Mas não tiveram coragem de ir até o fim”, disse Esmé com um sorriso zombeteiro. “Voluntários não são corajosos o bastante para fazer algo por uma causa maior.”
“Atirar pessoas em buracos não é uma causa maior!”, exclamou Quigley. “É uma traição.”
“Se você não fosse tamanho idiota”, disse Esmé, “perceberia que as duas coisas são mais ou menos a mesma.”
“Ele não é um idiota”, disse Violet, furiosa. Ela sabia, é claro, que não valia a pena se aborrecer com os insultos de uma pessoa tão ridícula, mas gostava demais de Quigley para permitir que o xingassem. “Ele nos trouxe até a base de operações usando um mapa que ele mesmo desenhou.”
“Ele é muito lido”, disse Klaus.
Ao ouvir as palavras de Klaus, Esmé jogou a cabeça para trás e gargalhou, sacudindo as camadas crepitantes do enorme vestido. “Muito lido!”, repetiu ela em um tom de voz desagradável. “Ser muito lido não vai ajudá-lo em nada. Muitos anos atrás, queriam que eu desperdiçasse o verão inteiro lendo Ana Karenina, mas eu sabia que aquele livro bobo nunca iria me ajudar, portanto o joguei na lareira.” Ela esticou o braço e recolheu mais alguns pedaços de madeira, que atirou longe com uma risadinha abafada. “Olhem para a sua preciosa base de operações, voluntários! Virou cinzas, assim como aquele livro. E olhem para mim. Sou bonita, elegante, e fumo cigarros!” Gargalhou de novo e apontou para as crianças. “Se vocês não ficassem o tempo todo de cabeça enfiada em livros, já teriam de volta aquele precioso bebê.”
“Nós vamos tê-la de volta”, disse Violet, com firmeza.
“É mesmo?”, zombou Esmé. “E como vocês pretendem fazer isso?”
“Vou falar com o conde Olaf”, disse Violet, “e ele vai entregá-la de volta para mim.”
Esmé começou a rir, embora sem o mesmo entusiasmo de antes. “O que você quer dizer com isso?”, disse ela.
“Exatamente o que eu disse”, respondeu Violet.
“Hum...”, desconfiou Esmé. “Deixe-me pensar.” A perversa namorada começou a andar de um lado para outro sobre a lagoa congelada, fazendo crepitar seu enorme vestido.
Klaus se inclinou para cochichar com a irmã. “O que você está fazendo?”, perguntou. “Acha mesmo que podemos tirar Sunny do conde Olaf com uma simples conversa?”
“Não sei”, Violet cochichou de volta, “mas é melhor do que atrair alguém para uma armadilha.”
“Eu estava errado em cavar aquele buraco”, concordou Quigley, “mas não estou seguro de que ir diretamente para as garras de Olaf seja a coisa certa a fazer.”
“Vai levar algum tempo para chegar ao Cume das Aflições de novo”, disse Violet. “Pensaremos em alguma coisa durante a escalada.”
“Assim espero”, disse Klaus, “mas se não conseguirmos pensar em alguma coisa...”
Klaus não teve chance de completar a frase, pois Esmé bateu palmas para chamar a atenção das crianças.
“Se vocês querem falar com o meu namorado”, disse, “acho que posso levá-los até lá. Se não fossem tão bocós, saberiam que ele está muito perto.”
“Eu sei onde ele está, Esmé”, disse Klaus. “Está no topo da queda d’água, na nascente do Arroio Enamorado.”
“Então imagino que vocês saibam chegar lá”, disse Esmé, parecendo um pouco tola. “O tobogã não sobe ladeiras, portanto eu não tenho ideia de como poderíamos chegar até o pico.”
“Ela dará um jeito”, disse Quigley, apontando para Violet.
Violet sorriu para o seu amigo, grata pelo apoio, e fechou os olhos por trás da máscara. Mais uma vez pensava em uma música que alguém cantara quando ela era muito pequena. Violet já sabia o que fazer para levar Esmé com eles na escalada, mas pensar na complicada expedição trouxe à sua mente uma canção muito antiga. E possível que quando você era muito jovem alguém tenha cantado essa canção para fazê-lo dormir, distraí-lo durante uma longa viagem de carro ou a fim de transmitir um código secreto. A canção se chama “A aranhinha tão pequenininha”, e é muito triste. Conta a história de uma pequena aranha que estava tentando escalar um chafariz, mas sempre que estava prestes a concluir sua jornada, um jato de água, seja da chuva, seja da mangueira do jardim, acabava jogando-a para baixo, até que no final da canção a aranha decide tentar mais uma vez alcançar o topo do chafariz, de onde, provavelmente, voltará a cair.
Violet Baudelaire não podia evitar sentir-se como aquela pobre aranha enquanto escalava a queda d’água pela última vez, acompanhada de Quigley, Klaus e Esmé Squalor, sentada no seu tobogã. Depois de afixar os dois últimos garfos aos sapatos de Klaus, Violet dissera aos companheiros que amarrassem as correias do tobogã em volta da cintura, para que pudessem puxar a namorada de Olaf atrás de si. Chegar desse modo ao Cume das Aflições era exaustivo, especialmente depois de passar a noite inteira cavando um buraco, e a sensação era de que podiam ser arrastados de volta para baixo a qualquer momento, como a aranha da canção. O gelo do declive estava enfraquecido depois das garfadas de Violet e Quigley, a viagem de tobogã de Esmé e a elevação da temperatura com a iminente chegada da Falsa Primavera. A cada passo da invenção de Violet, o gelo parecia se mover ligeiramente. O escorregador de gelo estava quase tão exausto quanto eles, e logo o gelo iria se derreter por completo.
“Mush!”, gritava Esmé. Essa era uma interjeição que os exploradores do Ártico costumavam gritar para os cães que puxavam seus trenós, e isso certamente não tornava a escalada mais fácil para os voluntários.
“Eu gostaria que ela parasse de dizer isso”, murmurou Violet por atrás da máscara. Ela bateu com o candelabro no gelo à sua frente, e um pequeno pedaço se destacou da queda d’água e despencou em direção às ruínas da base de operações. Violet ficou observando até ele desaparecer abaixo dela e suspirou. Jamais veria a base de operações em toda a sua glória. Nenhum dos Baudelaire veria. Violet jamais experimentaria a sensação de cozinhar contemplando os dois afluentes do Arroio Enamorado, enquanto batia papo com os outros voluntários. Klaus jamais saberia qual era a sensação de aprender todos os segredos de C.S.C, no conforto de uma das poltronas da biblioteca, com os pés sobre os escabelos C.S.C. Sunny jamais operaria o projetor da sala de projeção, praticaria a arte dos falsos bigodes na central de disfarces, ou relaxaria na sala de estar na hora do chá, comendo biscoitos de amêndoas feitos segundo a receita da minha avó. Violet jamais estudaria composições químicas em um dos seis laboratórios, e Klaus jamais utilizaria as barras fixas do ginásio, e Sunny jamais ficaria atrás do balcão da sorveteria preparando sundaes com calda de caramelo para as baratas nadadoras quando fosse o seu turno. E nenhum dos Baudelaire jamais chegaria a conhecer os voluntários mais amados: o instrutor de mecânica CM. Kornbluth, o dr. Isaac Anwhistle, conhecido como Ike, e o bravo voluntário que atirara o açucareiro pela janela da cozinha para que não fosse destruído no incêndio e ficara observando enquanto ele flutuava para longe em um dos afluentes do Arroio Enamorado. Os Baudelaire jamais conheceriam nenhuma dessas pessoas, assim como eu não voltarei jamais a ver minha bem-amada Beatrice ou recuperarei o meu pepino em conserva da geladeira, onde o deixei, para devolvê-lo ao seu devido lugar, um importante sanduíche codificado. Violet, é claro, não tinha consciência de todas as coisas que jamais faria, nem das pessoas que jamais conheceria, mas ao contemplar os vastos e cinéreos escombros da base de operações, sentiu-se como se toda a jornada pelas Montanhas de Mão-Morta tivesse sido tão inútil quanto a jornada da aranhinha na canção que ela jamais gostou de ouvir.
“Mush!”, gritou Esmé com uma risadinha cruel.
“Por favor, Esmé, pare de falar isso”, gritou Violet, impaciente. “Essa história de mush está atrasando a escalada.”
“Uma escalada lenta pode ser vantajosa para nós”, murmurou Klaus para a irmã. “Quanto mais tempo levarmos para chegar ao topo, mais tempo teremos para pensar no que dizer ao conde Olaf.”
“Podíamos dizer que ele está cercado”, sugeriu Quigley, “e que há voluntários por toda parte, prontos para prendê-lo caso ele não liberte Sunny.”
Violet sacudiu a máscara. “Ele não acreditaria nisso”, disse ela ao cravar seu sapato no gelo. “Do alto do Cume das Aflições ele pode ver tudo e todos. Verá que somos os únicos voluntários na área.”
“Deve haver alguma coisa que possamos fazer”, disse Klaus. “Não partimos para essa jornada para dar com os burros n’água.”
“É claro que não”, disse Quigley. “Encontramos um ao outro e resolvemos alguns mistérios.”
“Será que isso será suficiente”, perguntou Violet, “para derrotar todos aqueles vilões lá em cima?”
A pergunta de Violet era difícil, e nem Klaus nem Quigley tinham a resposta. Em vez de arriscar um palpite, uma expressão que aqui significa “continuar a gastar verbo com o assunto”, eles decidiram arriscar a escalada, uma expressão que aqui significa “continuar em silêncio até chegarem à nascente do Arroio Enamorado”. Ao chegar no cume achatado, sentaram-se na beirada e puxaram as correias com toda a força que tinham. Içar Esmé Squalor e o tobogã para cima do Monte Fraught foi uma tarefa tão difícil que as crianças nem notaram quem estava por perto. Mas acabaram por ouvir uma voz rascante e familiar bem atrás delas.
“Quem vem aí?”, bradou o conde Olaf.
Sem fôlego, as três crianças se voltaram e deram de cara com o vilão e duas sinistras figuras plantadas junto ao seu comprido automóvel.
“Pensamos que vocês chegariam aqui pelo caminho normal”, disse o homem com barba mas sem cabelo, “e não pela queda d’água.”
“Não, não, não”, disse depressa Esmé. “Eles não são as pessoas que estávamos esperando. São voluntários que encontrei na base de operações.”
“Voluntários?”, disse a mulher com cabelo mas sem barba, mas sua voz não estava tão profunda como de costume. Os vilões franziram o cenho do mesmo jeito confuso que Esmé tinha franzido há pouco, como se não tivessem certeza se deviam ficar assustados ou não, e o homem de mãos de gancho, as duas mulheres de cara branca e os três ex-empregados do parque de diversões se reuniram em volta para ver o que fizera Olaf silenciar de repente. Embora exaustos, os Baudelaire desamarraram as correias do tobogã da cintura e plantaram-se ao lado de Quigley, para enfrentar juntos seus inimigos. Os órfãos estavam assustados, é claro, mas com os rostos ocultos podiam falar abertamente, uma expressão que aqui significa “confrontar o conde Olaf e seus comparsas como se não estivessem com medo deles”.
“Olaf, construímos uma armadilha para capturar sua namorada”, disse Violet, “mas não queríamos nos transformar em monstros como você.”
“Eles não passam de uns mentirosos imbecis!”, gritou Esmé. “Eu os encontrei metendo a mão nos cigarros. Eu é que os capturei e obriguei a me arrastar até aqui, como cães de trenó.”
O Baudelaire do meio ignorou a bobagem da namorada vilanesca. “Estamos aqui para levar Sunny Baudelaire”, disse Klaus, “e não vamos embora sem ela.”
Olaf fechou a cara e fitou-os com os seus olhos muito, muito brilhantes, como se tentasse enxergar através das máscaras. “E o que faz vocês terem tanta certeza”, disse ele, “de que vou entregar a minha prisioneira?”
Violet fez um esforço tremendo para pensar no que iria fazer. Estava claro que o conde Olaf acreditava que as três pessoas mascaradas na frente dele eram membros de C.S.C, e ela tinha a impressão de que, se pronunciasse as palavras certas, poderia derrotá-lo sem se tornar tão vilanesca quanto ele. Mas nem ela nem o seu irmão e o seu amigo sabiam o que dizer. As correntezas das Montanhas de Mão-Morta sopravam gélidas, e Violet enfiou as mãos nos bolsos para se proteger do frio, e então esbarrou pela terceira vez na grande faca de pão. Ela começou a pensar que talvez a coisa certa fosse ter capturado Esmé na armadilha. Com a demora da resposta de Violet, a carranca do conde Olaf começou pouco a pouco a se converter em um sorriso triunfante, mas assim que ele abriu a boca para falar, Violet viu duas coisas que a encheram de esperança. A primeira foi a visão de dois cadernos, um roxo e o outro azul, aparecendo para fora dos bolsos dos seus companheiros. Eram os livros de lugar-comum onde Klaus e Quigley tinham anotado as informações que encontraram na biblioteca devastada da base de operações de C.S.C. A outra foi uma coleção de pratos espalhados por cima da pedra chata onde a trupe de Olaf vinha tomando as refeições. Sunny fora forçada a lavar aqueles pratos, e usara punhados de neve derretida para isso. Agora os pratos estavam espalhados do lado de fora para secar sob o sol da Falsa Primavera. Violet viu a pilha de pratos, uma fileira de xícaras de chá e uma jarrinha de creme, todas as louças adornadas com desenhos de olhos. Mas o conjunto de chá não estava completo, e isso fez Violet sorrir quando se voltou novamente para o conde Olaf.
“Você vai libertar Sunny”, disse ela, “porque sabemos onde está o açucareiro.”

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