quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Capítulo dois


“Este é o aquecedor”, disse tia Josephine, apontando com um dedo pálido e magricela para um aquecedor. “Por favor, nem cheguem perto. Pode ser que vocês sintam muito frio aqui dentro de casa. Eu nunca ligo o aquecedor porque tenho medo de que aconteça uma explosão, de modo que de noite, às vezes, fica meio gelado.”
Violet e Klaus se entreolharam por um breve instante, e Sunny olhou para os dois. Tia Josephine estava mostrando para eles sua nova casa, e a impressão que dava era de que tinha medo de tudo lá dentro, desde o capacho da entrada – no qual, tia Josephine explicou, alguém podia tropeçar, e em seguida levar um tombo e quebrar o pescoço – até o sofá na sala de estar, que, segundo ela, podia cair para trás e jogá-los no chão.
“Este é o telefone”, disse tia Josephine, indicando com um gesto o telefone. “É para ser usado somente em emergências, porque a pessoa que o usa corre o risco de ser eletrocutada.”
“Eu li muito sobre eletricidade”, disse Klaus. “E tenho certeza absoluta de que o telefone é perfeitamente seguro.”
As mãos de tia Josephine se agitaram em torno dos cabelos como se alguma coisa tivesse saltado sobre sua cabeça. “Não dá para acreditar em tudo o que se lê”, observou ela.
“Eu montei um telefone inteirinho, peça por peça”, disse Violet. “Se você quiser, posso desmontar o seu telefone e lhe mostrar como ele funciona. Talvez com isso você se sinta mais tranquila.”
“Não sei não”, disse tia Josephine, franzindo a testa.
“Delmo!”, exclamou Sunny, o que provavelmente significava: “Se quiser, eu mordo o telefone para provar que é inofensivo”, ou algo do gênero.
“Delmo?”, perguntou tia Josephine, curvando-se para apanhar um fiapo de tecido no desbotado tapete decorado com motivos florais. “O que você quer dizer com ‘delmo’? Considero-me uma especialista em nossa língua e não faço ideia do que signifique a palavra delmo. Ela está falando alguma outra língua?”
“É que Sunny ainda não fala fluentemente”, disse Klaus, pegando a irmãzinha no colo. “A maior parte do que diz é em língua de bebê.”
“Grum!”, gritou Sunny, o que queria dizer mais ou menos: “Protesto! Você não tem o direito de chamar a minha fala de língua de bebê!”.
“Bem, eu vou ter que ensinar a ela o idioma correto”, disse tia Josephine em tom severo. “Tenho certeza de que todos vocês estão precisando dar uma retocada na sua gramática, forçosamente. A gramática é a maior alegria da vida, não acham?”
Os três irmãos se entreolharam. Era mais provável que Violet achasse que a maior alegria da vida era inventar, Klaus diria que era ler, e Sunny, é claro, não sabia de prazer maior que o de morder coisas. O que os Baudelaire pensavam sobre gramática – todas aquelas regras sobre como escrever e falar a língua – era o mesmo que pensavam sobre, por exemplo, pudim de pão: legal, mas nada que merecesse muito estardalhaço. De qualquer modo, seria uma grosseria contradizer tia Josephine.
“Sim”, disse Violet, finalmente. “Nós sempre adoramos gramática.”
Tia Josephine assentiu com a cabeça e deu um sorrisinho para os Baudelaire. “Bem, vou levá-los para o seu quarto, e percorreremos o resto da casa após o jantar. Quando forem abrir a porta, basta que deem um empurrãozinho na madeira, aqui. Nunca usem a maçaneta. Sempre fico com medo de que ela se parta em milhões de pedaços e um deles atinja o meu olho.”
Os Baudelaire começavam a achar que não lhes seria permitido tocar em nenhum dos objetos da casa, mas sorriram para tia Josephine, empurraram a madeira, e a porta se abriu, revelando um quarto espaçoso e bem iluminado, com paredes brancas e um tapete liso azul no chão. Dentro havia duas camas de bom tamanho e um berço também de bom tamanho, obviamente para Sunny, cobertos, cada qual, por uma colcha lisa azul, e ao pé de cada cama havia um baú para guardar objetos pessoais. No outro extremo do quarto, havia um armário grande para as roupas de todos eles, uma janelinha para olhar para fora e uma pilha não muito grande de latas sem finalidade aparente.
“Sinto muito que vocês três tenham que partilhar o quarto”, disse tia Josephine, “mas esta casa não é das maiores. Fiz o possível para provê-los de tudo o que pudessem necessitar, e espero sinceramente que se sintam bem instalados.”
“Tenho certeza que sim”, disse Violet, levando sua mala para o quarto. “Muito obrigada, tia Josephine.”
“Dentro de cada baú”, disse tia Josephine, “há um presente.”
Presentes? Os Baudelaire não recebiam presentes fazia muito, muito tempo. Sorrindo, tia Josephine foi até o primeiro baú e o abriu. “Para Violet”, disse, “uma bela boneca com sua coleção de roupas e adereços.” Tia Josephine puxou do fundo do baú uma boneca de plástico com boquinha pequena e olhos desmesuradamente abertos. “Não é adorável? Chama-se Perfeita Fortuna.”
“Oh, obrigada”, disse Violet, que, aos catorze anos, tinha passado da idade de brincar com bonecas e que, aliás, nunca fora muito ligada em bonecas. Com um sorriso forçado, pegou Perfeita Fortuna dos braços de tia Josephine e acariciou sua cabecinha de plástico.
“E para Klaus”, disse tia Josephine, “um trem de montar.” Abriu o segundo baú e tirou dali um trenzinho em miniatura. “Você pode armar os trilhos naquele canto vazio do quarto.”
“Que divertido”, disse Klaus, tentando parecer fascinado. Klaus nunca se interessara por trens de montar, por causa do trabalho que dava juntar todas as partes e que, no fim, era compensado apenas por uma coisa que dava voltas e mais voltas em círculos intermináveis.
“E para a pequena Sunny”, disse tia Josephine, procurando com o braço esticado dentro do baú menor, que ficava ao pé do berço, “um chocalho. Veja, Sunny, faz um barulhinho.”
Sunny sorriu para tia Josephine, mostrando os quatro dentes afiados, mas seus irmãos mais velhos sabiam que Sunny desprezava chocalhos e os sons irritantes que eles produziam ao ser agitados. Sunny havia recebido de presente um chocalho quando era bem pequena, e foi a única coisa que ela não lamentou ter perdido no incêndio devastador que destruiu a casa dos Baudelaire.
“Você é tão generosa”, disse Violet, “em nos dar todas essas coisas.” Porque era bem-educada, não acrescentou que aquelas coisas estavam longe de ser do agrado deles.
“Bem, estou muito feliz por tê-los aqui”, disse tia Josephine. “Tenho um amor tão grande pela gramática! Fico radiante de poder partilhar meu amor pela gramática com três crianças tão interessantes como vocês. Bem, vocês dispõem de alguns minutos para se instalar e depois vamos jantar. Até daqui a pouco.”
“Tia Josephine”, perguntou Klaus, “essas latas servem para quê?”
“Essas latas? Para assaltantes, naturalmente”, disse tia Josephine, ajeitando o coque no alto da cabeça. “Vocês devem ter tanto medo de assaltantes quanto eu. Assim, é só pôr essas latas bem perto da porta, todas as noites, que os assaltantes, ao entrar, vão tropeçar nas latas e vocês vão acordar.”
“E o que vamos fazer, quando acordarmos num quarto com um assaltante furioso?”, perguntou Violet. “Eu preferiria dormir durante o assalto.”
Tia Josephine esgazeou os olhos de medo. “Assaltantes furiosos?”, repetiu ela. “Assaltantes furiosos? Por que você está falando em assaltantes furiosos? Está tentando apavorar mais ainda todos nós?”
“Claro que não”, gaguejou Violet, sem sequer mencionar que tia Josephine é que havia puxado o assunto. “Desculpe-me. Não tive intenção de apavorá-la.”
“Bom, nem mais uma palavra sobre isso”, disse tia Josephine, olhando nervosamente para as latas como se um assaltante estivesse tropeçando nelas naquele exato momento. “Vejo-os no jantar daqui a alguns minutos.”
A nova tutora fechou a porta, e os órfãos Baudelaire ouviram seus passos se afastando rapidamente no corredor antes de eles falarem.
“Sunny pode ficar com Perfeita Fortuna”, disse Violet, passando a boneca para a irmã. “O plástico é duro o bastante para ser mordido, acho eu.”
“E você pode ficar com o trem de montar, Violet”, disse Klaus. “Talvez você possa aproveitar as locomotivas e inventar alguma coisa.”
“Mas aí a única coisa que sobra para você é o chocalho”, disse Violet. “Não me parece justo.”
“Chu!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer algo como: “Faz muito tempo que nada em nossas vidas tem sabor de justiça”.
Os Baudelaire se entreolharam com sorrisos amargos. Sunny tinha razão. Não era justo que seus pais tivessem sido arrebatados deles. Não era justo que o perverso e revoltante conde Olaf os perseguisse aonde quer que fossem, movido unicamente pelo interesse em sua fortuna. Não era justo que eles se mudassem da casa de um parente para a de outro, com coisas terríveis acontecendo em cada um de seus novos lares, como se os Baudelaire viajassem em algum ônibus macabro que só parasse em estações de injustiça e desgraça. E, é claro, certamente não era justo que Klaus só tivesse um chocalho para brincar em sua nova casa.
“Tia Josephine deve ter feito um esforço danado para preparar este quarto para nós”, disse Violet com tristeza. “Ela parece ser uma boa pessoa. Não deveríamos nos queixar, nem mesmo entre nós.”
“Certo, Violet”, disse Klaus, pegando seu chocalho e agitando-o sem muita convicção. “Não deveríamos nos queixar.”
“Tuí!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer algo como: “Vocês dois têm razão. Não deveríamos nos queixar”.
Klaus foi até a janela e olhou para a paisagem; escurecia. O sol se punha nas sombrias profundezas do Lago Lacrimoso, e um frio vento noturno começava a soprar. Mesmo estando do lado protegido da vidraça, Klaus se sentiu tomado por um calafrio. “Quero me queixar, não importa!”, disse.
“O jantar está pronto!”, disse tia Josephine, chamando-os da cozinha. “Por favor, venham para a mesa!”
Violet pousou a mão no ombro de Klaus e lhe deu um apertãozinho em sinal de consolo; sem dizer mais nada, os três Baudelaire percorreram de volta o corredor e foram para a sala de jantar. Tia Josephine arrumara a mesa para quatro, providenciando um almofadão para Sunny e outra pilha de latas no canto da sala, para o caso de assaltantes tentarem roubar o jantar deles.
“Hoje teremos sopa”, disse tia Josephine.
“Ótimo!”, exclamou Violet. “Nada como uma sopa bem quentinha numa noite gelada.”
“Na verdade, não é uma sopa quente”, disse tia Josephine. “Nunca preparo nada quente porque tenho medo de acender o fogão; ele pode explodir e pegar fogo. Fiz um caldo frio de pepinos.”
Os Baudelaire se entreolharam e tentaram disfarçar sua decepção. Como vocês provavelmente sabem, caldo frio de pepinos é um prato que cai muito bem num dia de extremo calor. Eu mesmo adorei uma vez em que tomei esse caldo no Egito, quando visitei um amigo que trabalha como encantador de serpentes. Se bem preparado, o caldo frio de pepinos tem um delicioso sabor de menta, que refresca como se fosse uma bebida. Mas num dia de temperatura baixa, numa sala varrida por correntes de ar, o efeito era tal qual o de um enxame de vespas empestando uma festa de aniversário. As três crianças, em silêncio mortal, permaneceram sentadas à mesa com tia Josephine e se esforçaram ao máximo para empurrar goela abaixo a receita fria e viscosa. O único som era o dos quatro dentes de Sunny trepidando na colher de sopa enquanto ela tomava o jantar gélido. Como vocês bem sabem, quando ninguém fala à mesa de jantar, a refeição parece durar horas, e, por assim dizer, uma eternidade de tempo havia passado quando tia Josephine finalmente rompeu o silêncio.
“Meu adorado marido e eu nunca tivemos filhos”, disse ela, “porque era uma ideia que nos dava medo. Mas quero que saibam que fico muito feliz por vocês estarem aqui. Às vezes me sinto muito só no alto deste morro sem nenhuma companhia, e quando o sr. Poe me escreveu contando os desgostos por que vocês passaram, desejei que não se sentissem tão sós como eu me senti quando perdi meu adorado Belo.”
“O nome do seu marido era Belo?”, perguntou Violet.
Tia Josephine sorriu, mas não olhava para Violet; era como se falasse mais para si própria do que para os Baudelaire. “Sim”, disse com uma voz distante. “Belo era meu marido, mas era muito mais que isso. Era o meu melhor amigo, meu parceiro na gramática, e a única pessoa que conheci capaz de assobiar com bolachas na boca.”
“Nossa mãe sabia fazer isso”, disse Klaus, sorrindo. “Sua especialidade era a Sinfonia nº 14 de Mozart.”
“A de Belo era o Quarteto nº 4 de Beethoven”, replicou tia Josephine. “Pelo visto, é uma característica da família.”
“Pena que nós não o conhecemos”, disse Violet. “Parece que era uma pessoa maravilhosa.”
“Ele era maravilhoso”, disse tia Josephine, mexendo sua sopa e soprando-a apesar de estar gelada. “Fiquei tão triste quando ele morreu. Tive a sensação de perder as duas coisas mais especiais da minha vida.”
“Duas?”, perguntou Violet. “Como assim?”
“Perdi Belo”, disse tia Josephine, “e perdi o Lago Lacrimoso. Quer dizer, claro que não perdi realmente o lago. Ele continua lá embaixo, no vale. Mas cresci nas suas margens, costumava nadar ali todos os dias. Sabia quais praias eram arenosas e quais eram rochosas. Conhecia todas as ilhas em meio às suas águas e todas as grutas ao longo de suas margens. Era como se o Lago Lacrimoso fosse um amigo meu. Mas quando arrebatou Belo de mim, senti muito medo de me aproximar dele novamente. Parei de nadar. Nunca mais voltei à praia. Cheguei até a evitar os livros que tratavam do lago. O único lugar de onde suporto olhar para ele é a janela ampla da biblioteca.”
“Biblioteca?”, perguntou Klaus, animando-se. “Você tem uma biblioteca?”
“Claro”, disse tia Josephine. “Onde mais poderia guardar todos os meus livros de gramática? Se todos acabaram de tomar a sopa, vou mostrar-lhes a biblioteca.”
“Não consigo tomar nem mais uma colherada”, disse Violet, sem faltar à verdade.
“Irm!”, gritou Sunny, concordando.
“Não, não, Sunny”, disse tia Josephine. “‘Irm’ não é gramaticalmente correto. O que você quer dizer é: ‘Eu também terminei minha sopa’.”
“Irm”, insistiu Sunny.
“Minha nossa, você de fato precisa de umas aulas de gramática”, disse tia Josephine. “Mais uma razão para irmos à biblioteca. Vamos, crianças.”
Deixando para trás suas tigelas cheias pela metade, os Baudelaire seguiram tia Josephine pelo corredor, tendo o cuidado de não tocar em nenhuma das maçanetas pelas quais passavam. No final do corredor, tia Josephine se deteve e abriu uma porta que parecia das mais comuns, mas quando as crianças a transpuseram, entraram numa sala que era tudo menos comum.
A biblioteca não era quadrada nem retangular, como a maioria das salas, mas curva, num formato oval. Uma das paredes dessa sala oval estava dedicada a livros – fileiras e fileiras e fileiras deles, e não havia um só que não fosse de gramática. Havia uma enciclopédia de substantivos colocada numa série de estantes simples de madeira, curvas para se amoldar à parede. Havia volumes muito grossos sobre a história dos verbos, alinhados numa estante metálica que brilhava de tão bem polida. E havia estantes envidraçadas que continham manuais de adjetivos dispostos como se estivessem à venda na vitrine de uma loja e não na casa de alguém. No meio da sala achavam-se poltronas de aparência muito confortável, cada qual com seu respectivo pufe, de modo a permitir que a pessoa esticasse as pernas enquanto lia.
Mas foi a outra parede, ao fundo da sala oval, que despertou a atenção das crianças. Do chão ao teto a parede era uma janela, uma enorme vidraça em curva, e, além da vidraça, tinha-se uma vista espetacular do Lago Lacrimoso. Quando as crianças avançaram para ver mais de perto, sentiram-se como se estivessem voando muito acima do lago, e não apenas olhando para ele de dentro da casa.
“Este é o único lugar de onde suporto olhar para o lago”, disse tia Josephine em voz baixa. “Daqui, de longe. Se chego muito mais perto, lembro-me do último piquenique na praia com meu adorado Belo. Avisei-o de que devia esperar uma hora depois de comer para entrar no lago, mas ele só esperou quarenta e cinco minutos. Achou que era o suficiente.”
“Ele teve cãibras?”, perguntou Klaus. “É o que pode acontecer quando não se espera uma hora para nadar.”
“Esse é um dos riscos”, disse tia Josephine, “mas no Lago Lacrimoso há outro. Se você não espera uma hora depois de comer, as sanguessugas do lago sentem o cheiro da comida em você e atacam.”
“Sanguessugas?”, perguntou Violet.
“Sanguessugas”, explicou Klaus, “são algo assim como vermes. São cegas, vivem em meios aquáticos, e para se alimentar, grudam-se na pessoa e sugam seu sangue.”
Violet estremeceu. “Que horrível.”
“Suó!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer algo como: “Por que cargas-d’água alguém iria nadar num lago repleto de sanguessugas?”.
“As sanguessugas do Lago Lacrimoso”, disse tia Josephine, “são muito diferentes das sanguessugas comuns. Cada uma tem seis fileiras de dentes muito afiados, e um nariz com olfato apuradíssimo – conseguem sentir a presença de um pedacinho de comida a grandes distâncias. As sanguessugas do lago são em geral bastante inofensivas, atacando somente peixes miúdos. Mas se elas sentem cheiro de comida num humano, juntam-se em volta dele e... e...” Os olhos de tia Josephine se encheram de lágrimas; ela puxou um lenço rosa-claro e as enxugou. “Desculpem-me, crianças. Não é gramaticalmente correto terminar uma frase com a palavra e, mas fico tão transtornada quando penso em Belo que não consigo falar na morte dele.”
“Sentimos muito ter puxado o assunto”, disse Klaus na mesma hora. “Não era nossa intenção transtorná-la.”
“Tudo bem”, disse tia Josephine, assoando o nariz. “Só que eu prefiro pensar em Belo de outras maneiras. Belo sempre adorou os raios do sol, e eu gosto de imaginar que onde ele está agora, seja onde for, é o lugar mais ensolarado possível. É claro que ninguém sabe o que acontece conosco depois que morremos, mas é lindo pensar que o meu marido está num lugar muito, muito quente, vocês não acham?”
“Eu acho sim”, disse Violet. “É lindo, sem dúvida nenhuma.” Ela ia dizer mais alguma coisa para tia Josephine, mas engoliu em seco: quando acabamos de conhecer alguém, é difícil saber o que essa pessoa gostaria de ouvir. “Tia Josephine”, disse ela timidamente, “você já pensou em se mudar para algum outro lugar? Se você morasse longe do Lago Lacrimoso, quem sabe não se sentiria melhor?”
“Nós iríamos com você”, disse Klaus de repente.
“Oh, eu jamais conseguiria vender esta casa”, disse tia Josephine. “Morro de medo de corretores.”
Os três jovens Baudelaire se entreolharam sub-repticiamente, palavra que aqui significa “enquanto tia Josephine não estava olhando”. Nenhum deles nunca ouvira falar de alguém que tivesse medo de corretores.
Há dois tipos de medo: racional e irracional – ou, em termos mais simples, medos que têm sentido e medos que não têm sentido. Por exemplo, o medo que os órfãos Baudelaire sentem do conde Olaf tem todo o sentido, porque ele é um homem perverso que quer destruí-los. Mas se eles tivessem medo de torta de limão, esse seria um medo irracional, porque torta de limão é uma delícia e nunca feriu ninguém. Ter medo de que haja um monstro debaixo da cama é perfeitamente racional, porque de fato um monstro pode ir parar um dia debaixo da sua cama e estar pronto para devorá-lo, mas ter medo de corretores é um medo irracional. Corretores, como vocês bem sabem, são pessoas que dão assistência na compra e venda de casas. Além de às vezes se apresentar com um feio paletó amarelo, um corretor pode, na pior das hipóteses, mostrar-lhe uma casa de que você não goste, de modo que é inteiramente irracional morrer de medo de corretores. Enquanto Violet, Klaus e Sunny olhavam para o lago escuro e pensavam em sua nova vida com tia Josephine, sentiram-se invadidos, eles próprios, por um certo medo, e mesmo para um especialista mundial em medo seria difícil determinar se esse era um medo racional ou irracional. O medo dos Baudelaire era que a desgraça não tardaria a atingi-los. Por um lado, esse era um medo irracional, uma vez que tia Josephine parecia uma boa pessoa e o conde Olaf não estava visível em parte alguma. Mas, por outro, os Baudelaire haviam passado por tantas coisas terríveis que parecia racional pensar que outra catástrofe estava a caminho.

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