quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo dois


Entre todas as expressões ridículas que as pessoas usam – e as pessoas usam uma enorme quantidade de expressões ridículas –, uma das mais ridículas é “A falta de notícias é uma boa notícia”. “A falta de notícias é uma boa notícia” quer dizer apenas que, se você não ouve contar nada de alguém, é porque provavelmente está tudo ótimo. E dá para ver imediatamente por que essa expressão faz tão pouco sentido, pois o fato de estar tudo ótimo é só uma de muitas e muitas razões pelas quais alguém pode não entrar em contato com você. Vai ver, a pessoa está amarrada. Talvez esteja cercada por doninhas ferozes, ou quiçá prensada entre duas geladeiras sem conseguir se safar. A expressão pode muito bem ser mudada para “A falta de notícias é má notícia”, a não ser no caso de pessoas que podem não conseguir entrar em contato com você porque acabaram de ser coroadas reis e rainhas, ou estão competindo em um torneio de ginástica. A questão é que não existe meio de saber por que alguém não entrou em contato com você, até que entre em contato com você e se explique. Por essa razão, o sensato seria dizer: “A falta de notícias não é notícia”, a não ser pelo fato de que a expressão é tão óbvia que dificilmente se poderia chamá-la de expressão.
Óbvio ou não, contudo, é o modo apropriado de descrever o que aconteceu com os Baudelaire depois que eles enviaram o desesperado telegrama ao sr. Poe. Violet, Klaus e Sunny ficaram sentados olhando para o dispositivo telegráfico durante horas a fio, aguardando por algum sinal de alguma resposta do banqueiro. À medida que ia ficando cada vez mais tarde, eles se revezavam para cochilar recostados na mercadoria do Armazém Geral Última Chance, esperando por alguma resposta do homem que estava encarregado dos assuntos dos órfãos. E quando os primeiros raios da alvorada luziram através da janela, iluminando todas as etiquetas de preço da loja, a única notícia que as crianças tinham recebido era que o dono da loja tinha acabado de fazer bolinhos de uva-do-mato.
“Fiz bolinhos de uva-do-mato fresquinhos”, disse o dono do armazém, espiando por trás de uma pilha de peneiras de farinha. Estava usando pelo menos dois pegadores de panela em cada mão e transportava os bolinhos em uma pilha de bandejas de cores diferentes. “Normalmente eu os poria à venda, entre os discos de vitrola e os ancinhos de jardim, mas detesto pensar que vocês, três crianças, estão sem café-da-manhã quando há tantos assassinos cruéis à solta, portanto sirvam-se de alguns, de graça.”
“É muito gentil da sua parte”, disse Violet, enquanto ela e os irmãos pegavam bolinhos da bandeja. Os Baudelaire não tinham comido nada desde que saíram da cidade, e caíram matando, uma expressão que aqui significa “comeram até a última migalha” dos bolinhos.
“Céus, vocês estão mesmo com fome”, disse o sujeito. “Deu tudo certo com o telegrama? Vocês receberam alguma resposta?”
“Ainda não”, disse Klaus.
“Bem, não esquentem as suas cabecinhas com isso”, retrucou o homem. “Lembrem-se: a falta de notícias é uma boa notícia.”
“A falta de notícias é uma boa notícia?”, exclamou uma voz em algum lugar na loja. “Eu tenho notícias para você, Milt. Tudo sobre aqueles assassinos.”
“Lou!”, exclamou o vendedor, deliciado, e então voltou-se para as crianças. “Com licença”, disse ele. “Lou está aqui com O Pundonor Diário.”
O dono do armazém saiu abrindo espaço por uma série de tapetes pendurados no teto, e os Baudelaire se entreolharam desalentados.
“O que vamos fazer?”, sussurrou Klaus para as irmãs. “Se o jornal chegou, o dono do armazém vai ler que nós somos assassinos. É melhor fugir.”
“Mas se nós fugirmos”, disse Violet, “o sr. Poe não conseguirá entrar em contato conosco.”
“Gicri!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Ele teve a noite inteira para entrar em contato conosco, e nem sinal dele”.
“Lou?”, eles ouviram o homem gritar. “Lou, onde você está?”
“Estou aqui, perto dos moedores de pimenta”, gritou o entregador em resposta. “Espere só até você ler esta matéria sobre os três assassinos daquele conde. Tem fotografias e tudo. Eu vi a polícia a caminho daqui, e eles disseram que estão fechando o cerco. As únicas pessoas autorizadas a entrar nessa área fomos eu e aquele pessoal voluntário. Eles vão capturar aquelas crianças e mandá-las diretamente para a cadeia.”
“Crianças?”, disse o dono do armazém. “Os assassinos são crianças?”
“Sim”, respondeu o entregador. “Veja você mesmo.”
As crianças se entreolharam, e Sunny soluçou baixinho de medo. Elas puderam ouvir o ruído de papel e, em seguida, a voz alvoroçada do sujeito, que vinha do outro lado do armazém.
“Eu conheço essas crianças!”, gritou ele. “Estão na minha venda neste momento! Acabei de dar bolinhos a elas!”
“Você deu bolinhos a assassinos?”, disse Lou. “Isso não está certo, Milt. Criminosos devem ser punidos, e não alimentados com bolinhos.”
“Eu ainda não sabia que eles eram assassinos”, explicou o sujeito, “mas certamente agora sei. Está bem aqui, n’O Pundonor Diário. Chame a polícia, Lou! Vou agarrar aqueles assassinos e cuidar para que não escapem.”
Os Baudelaire não perderam mais tempo e começaram a correr na direção oposta à das vozes, por um corredor de alfinetes de segurança e pirulitos.
“Vamos na direção daqueles cinzeiros de cerâmica”, sussurrou Violet. “Acho que podemos sair por lá.”
“Mas o que acontece depois que sairmos?”, sussurrou Klaus de volta. “O entregador disse que a polícia estava fechando o cerco.”
“Mulic!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Vamos discutir esse assunto mais tarde!”.
“Céus!” As crianças conseguiram ouvir a voz surpresa do homem, a vários corredores de distância. “Lou, as crianças não estão aqui! Fique de olho.”
“Como é que elas são?”, gritou de volta o entregador.
“Parecem três crianças inocentes”, disse o vendedor, “mas na verdade são facínoras perversos. Tenha cuidado.”
As crianças contornaram uma prateleira na disparada e esquivaram-se no corredor seguinte, e ao ouvir os passos apressados do entregador colaram as costas contra uma estante de papel de parede e ervilhas enlatadas.
“Onde quer que estejam, seus assassinos”, gritou ele, “é melhor desistirem!”
“Nós não somos assassinos!”, gritou Violet, frustrada.
“É claro que vocês são assassinos!”, respondeu o dono da venda. “Está escrito no jornal!”
“E mais”, disse o entregador em um tom sarcástico, “se vocês não são assassinos, então por que estão se escondendo e fugindo?”
Violet começou a responder, mas Klaus tampou-lhe a boca com a mão antes que pudesse dizer mais alguma coisa.
“Eles vão saber onde estamos pelas vozes”, sussurrou ele. “Deixe-os falar, e talvez a gente consiga escapar.”
“Lou, você está vendo as crianças?”, gritou o dono do armazém.
“Não, mas elas não podem ficar escondidas para sempre”, disse o entregador. “Vou dar uma olhada perto das camisetas!”
Os Baudelaire olharam para a frente e viram uma pilha de camisetas brancas em oferta. As crianças engoliram em seco, fizeram meia-volta e dispararam por um corredor forrado de relógios tiquetaqueantes.
“Vou tentar o corredor dos relógios!”, gritou o dono da venda. “Elas não podem ficar escondidas para sempre!”
As crianças dispararam pelo corredor, passaram correndo por uma prateleira de porta-toalhas e corres de porquinho e chisparam em volta de um mostruário de sensatas saias xadrezes. Afinal, por cima da prateleira do alto de um corredor que não continha nada, a não ser vários tipos de chinelos, Violet teve um vislumbre da saída e, silenciosamente, apontou o caminho para os irmãos.
“Aposto que eles estão no corredor dos molhos!”, gritou o dono do armazém.
“Aposto que eles estão no corredor das banheiras!”, gritou o entregador.
“Eles não podem ficar escondidos para sempre!”, gritou o dono do armazém.
Os Baudelaire respiraram fundo e então dispararam para a saída do Armazém Geral Última Chance, mas assim que se viram do lado de fora perceberam que o vendedor tinha razão. O sol estava subindo no horizonte, revelando a paisagem achatada e desolada através da qual as crianças tinham caminhado a noite inteira. Em poucas horas, os campos estariam cobertos de luz do sol, e a terra era tão plana que os órfãos seriam vistos de longe, muito longe. Não podiam ficar escondidos para sempre, e parecia que ali, plantados na frente do Armazém Geral Última Chance, Violet, Klaus e Sunny não podiam ficar escondidos nem mais um instante.
“Olhem!”, disse Klaus, e apontou na direção do sol nascente. Estacionada a uma certa distância do armazém, havia uma perua cinzenta e quadrada, com as letras C.S.C. pintadas na lateral.
“Devem ser os Combatentes pela Saúde do Cidadão”, disse Violet. “O entregador disse que só ele e os voluntários tinham permissão para entrar na área.”
“Então eles são o único jeito que a gente tem de se esconder”, disse Klaus. “Se conseguirmos entrar naquela perua sem sermos vistos, poderemos escapar da polícia, pelo menos por enquanto.”
“Mas é possível que este seja o verdadeiro C.S.C.”, disse Violet. “Se esses voluntários são parte do segredo sinistro sobre o qual os trigêmeos Quagmire tentaram nos avisar, poderíamos estar saindo de uma situação ruim para cair noutra ainda pior.”
“Ou então”, disse Klaus, “poderíamos estar chegando mais perto de resolver o mistério de Jacques Snicket. Lembre-se, logo antes de ser assassinado ele disse que tinha trabalhado como voluntário.”
“Resolver o mistério de Jacques Snicket não vai adiantar nada”, disse Violet, “se estivermos na cadeia.”
“Blusin”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa como: “Nós não temos muita escolha”, e, em passinhos vacilantes, seguiu na frente dos irmãos para a perua dos C.S.C.
“Mas como vamos entrar na perua?”, perguntou Violet, caminhando ao lado da irmã.
“O que vamos dizer aos voluntários?”, perguntou Klaus, apressando o passo para alcançá-la.
“Improv”, disse Sunny, o que queria dizer: “Pensaremos em alguma coisa”, mas dessa vez as três crianças não tiveram de pensar em alguma coisa. Quando os jovens chegaram à perua, um homem de jeito amistoso, com um violão nas mãos e uma barba no rosto, inclinou-se para fora de uma das janelas e gritou para eles:
“Quase deixamos vocês para trás, irmão e irmãs!”, disse ele. “Enchemos o tanque da perua de graça e agora estamos de partida para o hospital.” Com um sorriso, o homem destravou e abriu a porta da perua, acenando para as três crianças. “Embarquem”, disse ele. “Não queremos que os nossos voluntários se percam por aí antes de termos cantado sequer a primeira estrofe. Ouvi dizer alguma coisa sobre assassinos à espreita nesta área.”
“Vocês leram no jornal?”, perguntou Klaus, nervoso.
O homem barbudo riu e dedilhou um acorde alegre no seu violão.
“Oh, não”, disse ele. “Nós não lemos o jornal. É muito deprimente. Nosso lema é: ‘A falta de notícias é uma boa notícia’. Vocês devem ser voluntários novos, se ainda não sabem isso. Bem, pulem para dentro.”
Os Baudelaire hesitaram. Tenho certeza de que vocês sabem que são muito raras as vezes em que é uma boa ideia entrar num automóvel com alguém que você nunca viu antes, especialmente se a pessoa acredita em disparates como: “A falta de notícias é uma boa notícia”. Porém, nunca é uma boa ideia ficar andando a esmo por uma paisagem plana e vazia, enquanto a polícia está fechando o cerco para prendê-lo por um crime que você não cometeu, e as três crianças fizeram uma breve pausa para decidir entre fazer uma coisa que só raras vezes é uma boa ideia, e uma coisa que nunca é uma boa ideia. Elas se entreolharam. E então olharam para o Armazém Geral Última Chance atrás delas, onde viram o dono da loja saindo pela porta da frente e correndo na direção da perua.
“O.K.”, disse Violet por fim. “Vamos pular para dentro.”
O barbudo sorriu, e as crianças entraram na perua C.S.C., fechando a porta atrás delas. Elas não pularam, muito embora o homem as tivesse mandado “pular para dentro”, porque pular é algo que se faz nos momentos felizes da vida. Um encanador, por exemplo, poderia pular se finalmente conseguisse consertar um vazamento especialmente difícil no chuveiro de alguém. Um escultor pularia se tivesse finalmente terminado a sua escultura de quatro cachorros bassê jogando cartas. E eu pularia como ninguém jamais pulou antes se pudesse, de algum modo, voltar àquela quinta-feira fatídica e impedir Beatrice de comparecer àquele chá vespertino em que se encontrou com Esmé Squalor pela primeira vez.
Mas Violet, Klaus e Sunny não pularam, porque eles não eram encanadores consertando vazamentos, nem escultores terminando obras de arte, nem autores apagando magicamente uma série de desventuras. Eram três crianças desesperadas, falsamente acusadas de assassinato, forçadas a fugir de um armazém para o automóvel de um estranho a fim de evitar a captura pela polícia. Os Baudelaire não estavam pulando, nem mesmo quando foi dada a partida no motor da perua e ela começou a se afastar do Armazém Geral Última Chance, ignorando os sinais desesperados do patrão, enquanto corria para tentar detê-los. Quando a perua C.S.C. começou a rodar pela paisagem desolada, os órfãos Baudelaire não tinham certeza de que voltariam a pular algum dia.

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