domingo, 21 de agosto de 2016

Capítulo dois


Quando você viaja de ônibus, é sempre difícil decidir se é melhor sentar no assento perto da janela, no assento da passagem ou no assento do meio. Se você escolhe um assento da passagem, tem a vantagem de poder esticar as pernas sempre que tiver vontade, mas tem a desvantagem de ter pessoas passando ao seu lado, as quais podem acidentalmente pisar no seu pé ou derramar alguma coisa na sua roupa. Se você escolhe um assento na janela, tem a vantagem de ter uma visão clara do panorama, mas tem a desvantagem de ficar vendo insetos morrerem ao bater no vidro. Se você escolhe um assento do meio, não tem nenhuma dessas vantagens e ainda tem a desvantagem adicional de ter pessoas se encostando em você de todos os lados quando adormecem. Você vê logo de cara por que deve sempre contratar os serviços de uma limusine, ou então alugar uma mula, em vez de pegar o ônibus para o seu destino.
Os órfãos Baudelaire, no entanto, não tinham dinheiro para contratar os serviços de uma limusine, e levariam várias semanas para chegar a C.S.C. em lombo de mula, portanto eles estavam viajando para o seu novo lar de ônibus. As crianças tinham pensado que precisariam se esforçar muito para convencer o sr. Poe a escolher C.S.C. como a sua nova cidade-tutora, porém, bem no momento em que viram as três iniciais no folheto, tocou um dos telefones do sr. Poe, e quando ele terminou de falar estava ocupado demais para discutir. Ele só teve tempo de fazer os arranjos com a Prefeitura e levá-los para a estação rodoviária. No bota-fora deles – uma expressão que aqui significa “pôr os Baudelaire no ônibus em vez de fazer a coisa bem-educada que seria levá-los pessoalmente ao novo lar” – ele os instruiu a se apresentarem na Prefeitura de C.S.C., e os fez prometer que não fariam nada que pudesse arruinar a reputação do seu banco. Antes que eles se dessem conta, Violet estava aboletada em um assento da passagem tirando o pó do casaco e massageando os pés doloridos, e Klaus estava sentado em um assento da janela olhando para o panorama através de uma camada de insetos mortos. Sunny sentou-se entre eles, mascando o descanso de braço.
“Noencosta!”, disse ela severamente, e o irmão sorriu.
“Não se preocupe, Sunny”, disse ele. “Vamos tomar cuidado para não encostar em você se adormecermos. De qualquer jeito, não temos muito tempo para cochilos. Devemos chegar a C.S.C. a qualquer minuto agora.”
“O que você acha que significa?”, perguntou Violet. “Nem o folheto, nem o mapa da rodoviária mostravam nada além das três iniciais.”
“Não sei”, disse Klaus. “Você acha que devíamos ter contado ao sr. Poe sobre o segredo de C.S.C.? Talvez ele pudesse ter nos ajudado.”
“Duvido”, disse Violet. “Ele não foi de grande ajuda antes. Gostaria que os Quagmire estivessem aqui. Aposto que poderiam nos ajudar.”
“Eu gostaria que os Quagmire estivessem aqui mesmo se não pudessem nos ajudar”, disse Klaus, e as suas irmãs balançaram a cabeça concordando. Nenhum Baudelaire tinha mais nada a dizer sobre o quão preocupados estavam com os trigêmeos, e eles ficaram sentados em silêncio durante o resto do percurso, esperando que a chegada a C.S.C. os trouxesse mais para perto da salvação dos seus amigos.
“C.S.C.!”, gritou afinal o motorista do ônibus. “Próxima parada, C.S.C.! Se olharem pela janela, poderão ver a cidade se aproximando, pessoal!”
“Que cara tem?”, perguntou Violet a Klaus.
Klaus olhou pela janela através da camada de insetos mortos. “Achatada”, disse ele.
Violet e Sunny se debruçaram para olhar e viram que o seu irmão havia dito a verdade. A paisagem era como se alguém tivesse traçado a linha do horizonte – a palavra horizonte aqui significa “a fronteira onde o céu termina e o mundo começa” – e depois esquecido de desenhar qualquer outra coisa. A terra se estendia até onde o olho podia alcançar, mas não havia nada para o olho ver além de terra plana e seca e uma ocasional folha de jornal estremecendo com a passagem do ônibus.
“Não estou vendo nenhuma cidade”, disse Klaus. “Vocês acham que fica debaixo da terra?”
“Novedri!”, disse Sunny, o que queria dizer “Viver debaixo da terra não deve ser nada divertido!”.
“Talvez aquilo lá adiante seja a cidade”, disse Violet, apertando os olhos para ver o mais longe possível. “Lá longe, perto da linha do horizonte, tem um borrão preto meio indistinto. Parece fumaça, mas talvez seja apenas alguns edifícios vistos de longe.”
“Não consigo ver”, disse Klaus. “Acho que aquela mariposa esmagada está bloqueando a visão. Mas um borrão indistinto poderia ser apenas fata-morgana.”
“Fata?”, perguntou Sunny.
“Fata-morgana é quando os seus olhos pregam peças em você, especialmente quando faz muito calor”, explicou Klaus. “É causada pela distorção da luz através de camadas alternadas de ar quente e frio. Normalmente o fenômeno é chamado de miragem, mas eu gosto mais do nome ‘fata-morgana’.”
“Eu também”, concordou Violet, “mas esperemos que não seja uma miragem ou fata-morgana. Esperemos que seja C.S.C.”
“C.S.C.!”, gritou o motorista, e o ônibus parou. “C.S.C.! Passageiros para C. S. C. queiram desembarcar!”
Os Baudelaire se levantaram, recolheram seus pertences e seguiram pela passagem, mas quando chegaram à porta aberta do ônibus eles pararam e perscrutaram, hesitantes, a paisagem achatada e vazia.
“Esta é realmente a parada de C.S.C.?”, perguntou Violet ao motorista. “Eu pensei que C.S.C. fosse uma cidadezinha.”
“E é”, retrucou o motorista. “Apenas siga na direção daquele borrão preto indistinto lá no horizonte. Sei que parece uma... bem, não me lembro da expressão para quando os seus olhos pregam peças em você. Mas é realmente a cidade.”
“Não daria para nos deixar um pouco mais perto?”, perguntou Violet timidamente. “Temos um bebê conosco, e a distância parece ser muito grande para ir andando.”
“Gostaria de poder ajudá-los”, disse o motorista gentilmente, baixando os olhos para Sunny, “mas o Conselho dos Anciãos tem regras muito estritas. Tenho de desembarcar os passageiros bem aqui; caso contrário, poderia ser severamente punido.”
“O que é o Conselho dos Anciãos?”, perguntou Klaus.
“Ei!”, gritou uma voz do fundo do ônibus. “Diga a essas crianças para andarem logo e saírem do ônibus! A porta aberta está deixando os insetos entrarem!”
“É melhor saírem, crianças”, disse o motorista do ônibus, e os Baudelaire desceram do ônibus para as terras achatadas de C.S.C. As portas se fecharam e, com um pequeno aceno, o motorista arrancou, deixando as crianças sozinhas na paisagem desolada. Os irmãos ficaram olhando enquanto o ônibus ia ficando cada vez menor na distância e então se voltaram na direção do borrão preto indistinto do seu novo lar.
“Bem, agora posso ver”, disse Klaus, apertando os olhos atrás dos óculos, “mas não posso acreditar. Vai levar o resto da tarde para caminharmos toda essa distância.”
“Então é melhor ir andando”, disse Violet, içando Sunny para cima da sua mala. “Esta mala tem rodinhas”, disse ela para a irmã, “portanto você pode ficar sentada em cima enquanto eu vou puxando.”
“Bigada!”, disse Sunny, o que queria dizer “É muito gentil da sua parte!”, e os Baudelaire começaram a sua longa caminhada rumo ao borrão preto e indistinto no horizonte. Mal tinham dado os primeiros passos, as desvantagens da viagem de ônibus ficaram parecendo batatinhas. Batatinhas é uma expressão que não tem nada a ver com tubérculos que são muito pequenos em tamanho. Em vez disso, refere-se à mudança dos sentimentos de uma pessoa em relação a alguma coisa, quando comparada com outra coisa. Há quem prefira dizer “café pequeno”. Se você estivesse caminhando na chuva, por exemplo, poderia ficar preocupado com a possibilidade de se molhar, mas se dobrasse uma esquina e visse uma matilha de cães ferozes, a possibilidade de se molhar se transformaria repentinamente em batatinhas ou café pequeno, se comparada com a possibilidade de ser perseguido numa rua sem saída por cães ferozes que vão latir para você e, possivelmente, devorá-lo. Quando os Baudelaire começaram a sua longa jornada rumo a C.S.C., os insetos mortos, os pés pisados e a possibilidade de alguém se encostar neles para dormir se transformaram em batatinhas em comparação com as coisas muito mais desagradáveis que estavam encontrando.
Sem ter mais nada naquela terra plana contra o que soprar, o vento concentrou seus esforços em Violet, uma expressão que aqui significa que em pouco tempo os cabelos dela ficaram tão desvairadamente emaranhados que até parecia que nunca tinham visto um pente na vida. Como Klaus estava atrás de Violet, o vento não soprou muito nele, mas sem ter mais nada naquela paisagem vazia a que se pegar, a poeira da terra concentrou seus esforços no Baudelaire do meio, e logo ele estava empoeirado dos pés à cabeça, como se anos se tivessem passado desde a última vez em que tomara uma ducha. Empoleirada em cima da bagagem de Violet, Sunny estava fora do caminho da poeira, mas sem ter mais nada naquelas terras desoladas sobre o que brilhar, o sol concentrou seus esforços nela, o que significava que logo ela ficou tão queimada de sol quanto um bebê que passara seis meses na praia, em vez de umas poucas horas em cima de uma mala.
Porém, até mesmo enquanto eles se aproximavam cada vez mais da cidade, C.S.C. continuava parecendo um borrão tão indistinto quando parecera de longe. À medida que as crianças iam chegando cada vez mais perto do seu novo lar, começaram a ver alguns edifícios de diferentes alturas e larguras, separados por ruas estreitas e largas, e os Baudelaire puderam ver até as formas altas e magricelas dos postes de luz e mastros de bandeira se estendendo na direção do céu. Mas tudo o que eles viam – da ponta do edifício mais alto até a curva da rua mais estreita – era preto como azeviche, e parecia estar tremendo ligeiramente, como se a cidade inteira tivesse sido pintada em um pedaço de pano que tremulava ao vento. Os edifícios tremulavam, e os postes tremulavam, e até mesmo as ruas tremiam muito de leve; aquilo não se parecia com nenhuma cidade que os Baudelaire já tivessem conhecido. Era um mistério, mas, diferentemente de todos os mistérios, depois que as crianças chegaram aos arredores de C.S.C. e ficaram sabendo o que causava o efeito tremulante, não se sentiram nem um pouco melhor por ver o mistério esclarecido.
A cidade estava coberta de corvos. Praticamente cada centímetro de praticamente cada objeto tinha um grande pássaro preto empoleirado, lançando olhares desconfiados para as crianças ali paradas bem no limite da cidade. Havia corvos encarapitados nos telhados de todos os edifícios, empoleirados nos peitoris das janelas, e pousados nos degraus e nas calçadas. Corvos cobriam todas as árvores, desde os galhos mais altos até as raízes que se sobressaíam na terra atapetada de corvos, reunidos nas ruas em grandes números, entretidos em conversas de corvo. Corvos recobriam os postes e mastros de bandeira, e havia corvos deitados nos bueiros e descansando entre mourões de cercas. Havia até seis corvos amontoados sobre a placa que dizia “Prefeitura”, com uma seta indicando uma rua forrada de corvos. Os corvos não estavam crocitando ou grasnando, que é o que os corvos costumam fazer com frequência, ou tocando cometa, coisa que os corvos praticamente nunca fazem, mas a cidade estava longe de estar em silêncio. O ar estava repleto de sons que os corvos faziam ao se mover de um lado para outro. Às vezes um corvo voava de um poleiro para outro, como se de repente tivesse se entediado de ficar pousado na caixa de correio e achasse que seria mais divertido se empoleirar na maçaneta da porta de um edifício. De vez em quando, vários corvos começavam a agitar as asas, como se tivessem ficado enrijecidos de tanto permanecer parados em cima de um banco e quisessem se espreguiçar um pouco. E quase constantemente os corvos mudavam de posição sem sair do lugar, tentando se acomodar o melhor possível em um espaço tão apertado. Todo esse movimento explicava por que a cidade parecera tão tremulante à distância, mas isto certamente não fez com que os Baudelaire se sentissem melhor, e eles ficaram parados em silêncio por um bom tempo, tentando encontrar coragem para avançar por entre todos aqueles pássaros negros e palpitantes.
“Já li três livros sobre corvos”, disse Klaus. “Eles são totalmente inofensivos.”
“Sim, eu sei”, disse Violet. “Não é comum ver tantos corvos em um só lugar, mas eles não são motivo de preocupação. São batatinhas.”
“Zimuster”, concordou Sunny, mas as três crianças ainda assim não deram nenhum passo mais para perto da cidade coberta de corvos. A despeito do que haviam dito uns para os outros – que os corvos eram aves inofensivas, que não tinham nada com que se preocupar, e “Zimuster”, que significava algo como “Seria tolice ter medo de um bando de pássaros”, ou coisa do gênero –, os Baudelaire sentiram que estavam encontrando algumas batatas grandes para valer.
Se eu mesmo fosse um dos Baudelaire, teria ficado parado no limite da cidade pelo resto da minha vida, choramingando de medo, em vez de dar um passo que fosse para dentro das ruas cobertas de corvos, mas os Baudelaire só precisaram de uns poucos minutos para reunir coragem e avançar por entre todos aqueles pássaros crocitantes e semoventes até a Prefeitura.
“Isto não é tão difícil quanto eu imaginei que fosse”, disse Violet em voz baixa para não perturbar os corvos mais próximos. “Não são exatamente batatinhas, mas há espaço suficiente para andar entre os grupos de corvos.”
“É verdade”, disse Klaus, de olho na calçada para não pisar em nenhum rabo de corvo. “E eles tendem a se afastar para o lado, um pouquinho de nada, quando passamos.”
“Racá”, disse Sunny, engatinhando o mais cautelosamente que podia. Ela queria dizer alguma coisa na linha de “É quase como andar no meio de uma silenciosa, porém educada, multidão de pessoas muito baixinhas”, e os irmãos dela sorriram concordando. Em pouco tempo, já tinham andado um quarteirão inteiro da rua forrada de corvos, e lá na outra esquina havia um edifício alto e imponente que parecia ser feito de mármore branco – pelo menos, até onde os Baudelaire podiam ver, pois estava coberto de corvos como o resto das vizinhanças. Até na placa que dizia “Prefeitura” parecia estar escrito “ef tur”, porque três corvos enormes estavam empoleirados ali, fitando os Baudelaire com os seus olhinhos de contas. Violet ergueu a mão como quem vai bater à porta, mas parou.
“O que foi?”, disse Klaus.
“Nada”, replicou Violet, ainda com a mão suspensa no ar. “Acho que estou só um pouquinho desassossegada. Afinal, esta é a Prefeitura de C.S.C. Até onde sabemos, atrás desta porta pode estar o segredo que estamos procurando desvendar desde que os Quagmire foram raptados pela primeira vez.”
“Talvez não devêssemos alimentar esperanças”, disse Klaus. “Lembrem-se, quando moramos com os Squalor pensamos que tínhamos resolvido o mistério de C.S.C., mas estávamos errados. Podemos estar errados também desta vez.”
“Mas também podemos estar certos”, disse Violet, “e se estivermos certos, devemos estar preparados para qualquer coisa terrível que esteja atrás desta porta.”
“A não ser que estejamos errados”, ressaltou Klaus.
“Neste caso, não temos de estar preparados para nada.”
“Gacsú!”, disse Sunny. Ela queria dizer algo na linha de “Não vejo por que discutir, porque nunca saberemos se estamos certos ou errados a não ser que batamos à porta”, e antes que seus irmãos pudessem reagir ela engatinhou em volta das pernas de Klaus e meteu a cara, uma expressão que aqui quer dizer “bateu decididamente à porta com os pequeninos nós dos seus dedos”.
“Entre!”, bradou uma voz imponente, e os Baudelaire abriram a porta e se viram em uma grande sala com teto muito alto, chão muito lustroso e um banco muito grande, com retratos muito detalhados de corvos pendurados nas paredes. Na frente do banco havia uma pequena plataforma onde estava uma mulher, em pé, usando um capacete de motociclista, e atrás da plataforma havia talvez uma centena de cadeiras de dobrar, a maioria das quais tinha uma pessoa sentada em cima, olhando fixamente para os órfãos Baudelaire. Mas os órfãos Baudelaire não tinham os olhos fixos nessas pessoas. As três crianças estavam olhando para as pessoas sentadas no banco, tão fixamente que mal chegaram a relancear o olhar para as cadeiras de dobrar.
No banco, rigidamente sentadas lado a lado, estavam vinte e cinco pessoas que tinham duas coisas em comum. A primeira coisa era que eram todas bastante velhas – a pessoa mais jovem no banco, uma mulher sentada na ponta mais distante, parecia ter por volta de oitenta e um anos de idade, e todas as outras pareciam ser bem mais velhas. Mas a segunda coisa que elas tinham em comum era muito mais interessante. A primeira vista, parecia que alguns corvos tinham voado das ruas lá para dentro e se empoleirado nas cabeças das pessoas sentadas no banco, mas quando os Baudelaire olharam mais atentamente, viram que os corvos não piscavam os olhos, nem agitavam as asas, nem faziam movimento de nenhum tipo, e as crianças se deram conta de que aqueles nada mais eram senão chapéus pretos, feitos de modo a parecer corvos de verdade. Era um tipo de chapéu tão esquisito para usar que as crianças ficaram olhando fixamente durante um considerável número de minutos sem se dar conta de mais coisa nenhuma.
“Vocês são os órfãos Baudelaire?”, perguntou em voz áspera um dos velhos que estavam sentados no banco. Enquanto ele falava, a cabeça do seu corvo bamboleava de leve, o que só servia para fazer o chapéu parecer ainda mais ridículo. “Estávamos esperando por vocês, embora ninguém tenha me contado que teriam uma aparência tão horrível. Vocês três são as crianças mais descabeladas pelo vento, empoeiradas e queimadas de sol que já vi. Vocês têm certeza de que são as crianças que estávamos esperando?”
“Sim”, respondeu Violet. “Eu sou Violet Baudelaire, e estes são meu irmão Klaus, e minha irmã, Sunny, e a razão por que nós...”
“Psiu”, fez um dos outros velhos. “Neste momento, não estamos discutindo vocês. A Regra nº 492 reza claramente que o Conselho dos Anciãos só discutirá coisas que estão em cima da plataforma. Neste momento estamos discutindo a nossa nova chefe de polícia. Alguma pergunta dos cidadãos com respeito à oficial Luciana?”
“Sim, eu tenho uma pergunta”, falou um homem de calças axadrezadas. “Quero saber o que aconteceu com o nosso antigo chefe de polícia. Eu gostava daquele sujeito.”
A mulher na plataforma ergueu a mão enluvada de branco e os Baudelaire se voltaram para olhar para ela pela primeira vez. A oficial Luciana era uma mulher muito alta, usando grandes botas pretas, um casaco azul com uma insígnia reluzente e um capacete de motociclista com o visor puxado para baixo, cobrindo os olhos. Os Baudelaire podiam ver a sua boca debaixo do visor, coberta de batom vermelho-brilhante.
“O antigo chefe de polícia está com a garganta inflamada”, disse ela, voltando o capacete para o homem que tinha feito a pergunta. “Ele engoliu acidentalmente uma caixa de percevejos. Mas não vamos perder tempo falando dele. Sou a sua nova chefe de polícia e vou garantir que todos os violadores de regras da cidade sejam adequadamente punidos. Não vejo o que mais pode haver para discutir.”
“Concordo plenamente”, disse o Ancião que tinha sido o primeiro a falar, e as pessoas sentadas nas cadeiras de dobrar concordaram. “O Conselho dos Anciãos encerra aqui a discussão da oficial Luciana. Hector, por favor traga os órfãos para a plataforma, para que sejam discutidos.”
Um homem alto e muito magro, de macacão amarrotado, ergueu-se de uma das cadeiras de dobrar assim que a chefe de polícia desceu da plataforma com um sorriso de batom. Olhos no chão, o homem foi até os Baudelaire e apontou primeiro para o Conselho dos Anciãos sentado no banco, e depois para a plataforma vazia. Embora tivessem preferido um método mais polido de comunicação, as crianças entenderam imediatamente; Violet e Klaus subiram à plataforma e depois ergueram Sunny para juntar-se a eles.
Uma das mulheres no Conselho dos Anciãos falou. “Estamos agora discutindo a tutela dos órfãos Baudelaire. Sob o novo programa governamental, toda a cidade de C.S.C. atuará como tutora destas três crianças porque é preciso uma cidade para educar uma criança. Alguma pergunta?”
“Estes são os mesmos Baudelaire”, veio uma voz do fundo da sala, “que estiveram envolvidos no rapto dos gêmeos Quagmire pelo conde Omar?” Os Baudelaire se voltaram para ver uma mulher usando um robe cor-de-rosa-claro e segurando um exemplar d’O Pundonor Diário. “Diz aqui no jornal que um conde malfazejo está atrás dessas crianças. Não quero uma coisa assim na nossa cidade!”
“Nós já cuidamos desse assunto, sra. Morrow”, retrucou um outro membro do Conselho em tom tranquilizador. “Explicaremos em um momento. Agora, quando crianças têm um tutor, o tutor as obriga a fazer tarefas domésticas, portanto segue-se que vocês, crianças Baudelaire, farão todas as tarefas domésticas para a cidade inteira. A começar de amanhã, vocês três serão responsáveis por qualquer coisa que qualquer pessoa lhes peça para fazer.”
As crianças se entreolharam incrédulas.
“A senhora me perdoe”, disse Klaus timidamente, “mas só há vinte e quatro horas em um dia, e parece que há várias centenas de cidadãos. Como vamos encontrar o tempo necessário para fazer as tarefas domésticas de todo mundo?”
“Silêncio!”, disseram em uníssono vários membros do Conselho, e então a mulher que parecia ser a mais jovem falou. “A Regra nº 920 reza claramente que ninguém pode falar enquanto está na plataforma a não ser que seja um oficial de polícia. Vocês são órfãos e não oficiais de polícia, portanto calem-se. Agora, devido aos corvos de C.S.C., vocês terão de programar as suas tarefas domésticas como se segue: na parte da manhã, os corvos pousam na cidade alta, portanto é nesse período que vocês farão as suas tarefas na cidade baixa, para que os corvos não fiquem no seu caminho. Na parte da tarde, como podem ver, os corvos pousam na cidade baixa, portanto vocês farão as suas tarefas na cidade alta. Por favor, deem uma atenção especial ao nosso novo chafariz, que acabou de ser instalado esta manhã. É um chafariz muito bonito e precisa ser mantido o mais limpo possível. À noite, os corvos se empoleiram na Árvore do Nunca Mais, que fica nos arredores da cidade, portanto não há problemas aqui. Alguma pergunta?”
“Eu tenho uma pergunta”, disse o homem de calças axadrezadas. Ele ergueu-se da sua cadeira de dobrar e apontou para os Baudelaire. “Onde eles vão morar? Pode ser que seja preciso uma cidade para educar uma criança, mas isto não significa que os nossos lares precisam ser perturbados por crianças barulhentas, ou será que sim?”
“Isso mesmo”, concordou a sra. Morrow. “Sou totalmente a favor de os órfãos fazerem as nossas tarefas domésticas, mas não quero que eles fiquem fazendo algazarra na minha casa.”
Diversos outros cidadãos se manifestaram. “Ouçam, ouçam!”, disseram eles, usando uma expressão que aqui significa “Também não quero Violet, Klaus e Sunny Baudelaire morando comigo!”.
Um dos Anciãos, que parecia estar entre os mais velhos, ergueu as duas mãos no ar. “Por favor”, disse ele. “Não há razão para todo esse tumulto. As crianças vão morar com Hector, o nosso factótum. Ele lhes dará de comer, as vestirá e cuidará para que façam todas as tarefas, e é responsável por ensinar-lhes todas as regras de C.S.C., para que não façam mais coisas horríveis tais como falar enquanto estão sobre a plataforma.”
“Graças a Deus”, murmurou o homem de calças axadrezadas.
“Escutem uma coisa, Baudelaires”, disse uma outra mulher do Conselho. Ela estava sentada tão longe da plataforma que teve de esticar o pescoço para olhar para as crianças, e parecia que o seu chapéu ia cair da cabeça. “Antes que Hector os leve para a casa dele, estou certa de que vocês têm as suas próprias preocupações. É uma pena que não possam falar nada neste momento, do contrário poderiam nos contar quais são elas. Mas o sr. Poe nos mandou algum material com relação a esse tal de conde Olaf.”
“Omar”, corrigiu a sra. Morrow, apontando para a manchete no jornal.
“Silêncio!”, disse a Anciã, ao ser interrompida. “Escutem uma coisa, Baudelaires, estou certa de que vocês estão preocupados com esse tal de Olaf, mas, como sua tutora, a cidade os protegerá. É por isso que criamos recentemente uma nova regra, a Regra nº 19833. Ela reza claramente que nenhum vilão será permitido dentro dos limites da cidade.”
“Ouçam, ouçam!”, gritaram os cidadãos, e o Conselho dos Anciãos balançou a cabeça em aprovação, com os chapéus de corvo bamboleando.
“Agora, se não há mais perguntas”, concluiu um Ancião, “Hector, por favor, leve-os para a sua casa.”
Ainda de olhos fixos no chão, o homem de macacão marchou em silêncio até a plataforma e levou-os para fora da sala. As crianças se apressaram para acompanhar o passo do factótum, que não pronunciara uma só palavra esse tempo todo. Estaria infeliz por ter de cuidar das três crianças? Estaria zangado com o Conselho dos Anciãos? Seria totalmente incapaz de falar? Aquilo fez os Baudelaire lembrar de um dos associados do conde Olaf, aquele que não parecia nem homem nem mulher e que dava a impressão de nunca falar. As crianças se mantiveram alguns passos atrás de Hector enquanto ele caminhava para sair do edifício, quase com medo de chegar mais perto de um homem tão esquisito e calado.
Quando Hector abriu a porta da Prefeitura e saiu com as crianças para a calçada coberta de corvos, deixou escapar um grande suspiro – o primeiro som que as crianças ouviram partindo dele. Olhou, então, para cada um dos Baudelaire e ofereceu-lhes um sorriso gentil.
“Eu nunca fico verdadeiramente relaxado”, disse ele em uma voz agradável, “enquanto não saio da Prefeitura. O Conselho dos Anciãos faz com que eu me sinta muito desassossegado. Todas aquelas regras estritas! Me deixam tão desassossegado que jamais falo durante as reuniões deles. Mas sempre me sinto muito melhor depois que saio do edifício. Agora, parece que vamos passar um bocado de tempo juntos, portanto vamos deixar algumas coisas claras. Número um, me chamem de Hector. Número dois, espero que vocês gostem de comida mexicana, porque essa é a minha especialidade. E número três, quero que vocês vejam uma coisa maravilhosa, e está bem na hora. O sol está começando a se pôr.”
Era verdade. Os Baudelaire não tinham notado, quando saíram da Prefeitura, que a luz da tarde já tinha ido embora e que o sol estava começando a desaparecer no horizonte.
“É lindo”, disse Violet educadamente, muito embora jamais tivesse entendido o porquê de todo aquele alvoroço em volta de ficar em pé por aí admirando pores-do-sol.
“Psiu”, fez Hector. “Quem se importa com o pôr-do-sol? Apenas fiquem em silêncio por um minuto e observem os corvos. Deve acontecer a qualquer segundo.”
“O que deve acontecer?”, disse Klaus.
“Psiu”, fez Hector de novo, e então começou a acontecer.
O Conselho dos Anciãos já tinha contado aos Baudelaire sobre os hábitos de pouso dos corvos, mas as três crianças não tinham realmente pensado duas vezes no assunto, uma expressão que aqui significa “refletido por um segundo que fosse sobre como seria quando milhares de corvos saíssem voando juntos para um novo local”. Um dos corvos maiores, pousado em cima da caixa de correio, foi o primeiro a alçar voo e, com um ruflar de asas, ele – ou ela; era difícil distinguir de tão longe – começou a voar em um grande círculo acima das cabeças das crianças. Então um corvo de uma das janelas da Prefeitura subiu para juntar-se ao primeiro corvo, e depois um de um arbusto ali perto, depois três da rua, depois centenas de corvos começaram a subir ao mesmo tempo e a circular no ar, e foi como se uma enorme sombra se erguesse da cidade. Os Baudelaire podiam finalmente ver como eram todas as ruas da cidade, e podiam olhar atentamente para cada detalhe dos edifícios à medida que mais e mais corvos abandonavam os seus poleiros vespertinos. Mas as crianças mal olharam para a cidade. Em vez disso, olharam diretamente para cima, para a bela e misteriosa visão de todos aqueles pássaros formando um enorme círculo no céu.
“Não é maravilhoso?”, exclamou Hector. Seus braços compridos e magrelos estavam esticados, e ele teve de erguer a voz acima do som das asas farfalhantes. “Não é maravilhoso?”
Violet, Klaus e Sunny concordaram com a cabeça e ficaram olhando para os milhares de corvos circulando acima deles como uma massa de fumaça palpitante, ou como tinta fresca e preta – como a tinta que estou usando agora para descrever esses eventos – que, de algum modo, fora parar nos céus. O som das asas era como um milhão de páginas sendo folheadas, e o vento produzido por toda aquela agitação soprou em seus rostos sorridentes. Por um momento, com todo aquele ar passando por eles velozmente, os órfãos Baudelaire sentiram-se como se também eles pudessem alçar voo pelo ar, para longe do conde Olaf e de todos os seus problemas, e juntar-se ao círculo de corvos no céu do anoitecer.

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