quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Capítulo dois


Quando se achavam diante da porta da sala do vice-diretor Nero, os órfãos lembraram-se de algo que seu pai lhes havia dito poucos meses antes de morrer. Certa noite os Baudelaire pais saíram para assistir a um concerto sinfônico, e os três filhos ficaram sozinhos na mansão da família. Os Baudelaire seguiam uma rotina mais ou menos preestabelecida em noites como aquela. Primeiro, Violet e Klaus jogavam algumas partidas de damas enquanto Sunny se divertia rasgando jornais antigos, depois as três crianças liam na biblioteca até adormecer em confortáveis sofás. Quando os pais voltavam para casa, despertavam os filhos adormecidos, conversavam um pouco com eles sobre como tinha sido a noite e mandavam-nos para a cama. Mas naquela noite em particular os Baudelaire pais voltaram para casa mais cedo e os filhos ainda estavam acordados lendo – ou, no caso de Sunny, vendo figuras. O pai foi até a porta da biblioteca e disse algo que eles nunca esqueceram. “Meus filhos”, disse ele, “não há pior som no mundo do que o de alguém que não sabe tocar violino mas insiste em tocar, seja como for.”
Na ocasião os Baudelaire simplesmente soltaram uns risinhos, contudo, ao escutar o som que atravessava a porta do vice-diretor, compreenderam que o pai estava coberto de razão. Quando chegaram perto da pesada porta de madeira, o som lhes pareceu o de um animalzinho tendo um acesso de raiva. Porém, depois de escutar com maior atenção, as crianças perceberam que se tratava de alguém que não sabia tocar violino mas insistia em tocá-lo, fosse como fosse. Os sons esganiçavam, silvavam, gemiam e percorriam toda uma gama de horríveis matizes, impossíveis de descrever. Enfim, Violet não aguentou mais e bateu à porta. Bateu com toda a força e com insistência, para ser ouvida sobre o atroz recital de violino que se realizava lá dentro. Afinal, a porta se abriu com um rangido e surgiu à frente da menina a figura de um homem alto com um violino sob o queixo e um brilho colérico nos olhos.
“Quem ousa interromper o ensaio de um gênio?”, perguntou o homem, fazendo retumbar a voz num tal volume que bastava para qualquer pessoa voltar a enfiar-se em sua concha de timidez.
“Os Baudelaire”, disse Klaus baixinho, encarando o chão. “O sr. Poe disse que era para virmos imediatamente ao gabinete do vice-diretor Nero.”
“O sr. Poe disse para virmos imediatamente ao gabinete do vice-diretor Nero”, arremedou o homem em tom de falsete esganiçado. “Bem, entrem, entrem, não tenho a tarde inteira à disposição.”
As crianças entraram na sala e puderam ver melhor o homem que havia debochado delas. Ele vestia um terno marrom um pouco amarrotado, com algo preso ao paletó, e usava uma gravata estampada com cobras. Seu nariz era bem pequeno e muito vermelho, parecia até que alguém tinha pespegado um tomate cereja bem no centro daquele rosto manchado. Era quase todo careca, a não ser por quatro tufos esparsos presos com uns elásticos velhos formando rabichos-de-cavalo. Os Baudelaire jamais tinham visto alguém parecido com aquele homem estranho, e não estavam particularmente interessados em continuar a olhá-lo, mas o gabinete era tão exíguo e tão vazio que ficava difícil olhar para qualquer outra coisa. Havia uma pequena escrivaninha metálica com uma pequena cadeira metálica atrás, e uma pequena lâmpada metálica de um dos lados. Havia uma única janela, decorada com cortinas que combinavam com a gravata do homem. Além desses móveis, viram apenas mais um objeto na sala, um reluzente computador acocorado a um canto como um sapo. O computador tinha um monitor cinza e alguns botões tão vermelhos como o nariz da figura que ostentava rabichos-de-cavalo.
“Senhoras e senhores”, anunciou o homem alteando a voz, “o vice-diretor Nero!”
Houve uma pausa, e as três crianças olharam à sua volta na saleta exígua, especulando, intrigados, onde Nero poderia ter se escondido todo aquele tempo. Tornaram a olhar, então, para o homem dos tufos esparsos de cabelo, que mantinha ambas as mãos para o alto, com o violino e o arco quase tocando o teto, e compreenderam que a pessoa que ele acabara de apresentar em termos tão solenes não era outro senão ele próprio. Nero fez uma pausa e baixou os olhos para os Baudelaire.
“Faz parte da tradição”, disse ele muito sério, “aplaudir quando um gênio é apresentado.”
O simples fato de um comportamento ser tradicional não justifica que se deva segui-lo, é claro. A pirataria, por exemplo, é uma tradição que foi seguida durante centenas de anos, mas isso não significa que todos nós devamos atacar navios e roubar ouro. O vice-diretor Nero, porém, estava com um ar tão feroz que as crianças sentiram que aquele era um momento de honrar a tradição, e por isso começaram a bater palmas e só pararam depois que Nero fez várias curvaturas e enfim sentou-se à cadeira.
“Muito obrigado, e sejam bem-vindos à Escola Preparatória Prufrock, patati, patatá”, disse ele, usando o patati, patatá com a intenção de dar a entender que estava entediado demais para concluir adequadamente sua frase. “Não resta dúvida, estou fazendo um imenso favor ao sr. Poe ao admitir três órfãos assim, de supetão. Ele me assegurou que vocês não vão criar nenhum problema, mas andei investigando por conta própria e constatei que vocês trocaram várias vezes de tutores legais, sempre por causa de alguma adversidade. 'Adversidade', vale lembrar, significa 'problemas'.”
“Em nosso caso”, disse Klaus, sem assinalar que já sabia o que significava “adversidade”, “'adversidade' significa conde Olaf. Ele foi a causa de todos os problemas com nossos tutores.”
“Ele foi a causa de todos os problemas com nossos tutores', repetiu Nero com seu jeito hostil de arremedar em falsete. “Não estou interessado nos problemas de vocês, para ser franco. Sou um gênio e não tenho tempo para outra coisa que não seja tocar violino. Já é bastante deprimente que eu tenha de aceitar este cargo de vice-diretor por não haver uma orquestra sequer que aprecie meu gênio. Não vou me deprimir ainda mais ouvindo os problemas de três crianças malcomportadas. De qualquer modo, aqui na Prep Prufrock não vai ser possível pôr a culpa de suas próprias fraquezas nesse tal de conde Olaf. Vejam só isso.”
O vice-diretor Nero foi até o computador e apertou dois botões repetida e insistentemente. A tela acendeu-se com um brilho esverdeado, como se estivesse se sentindo mareada. “Este é um computador de última geração”, disse Nero. “O sr. Poe deu-me toda a informação necessária sobre o homem que vocês chamam de conde Olaf, e programei tudo aqui no computador. Estão vendo?” Nero apertou outro botão e uma pequena imagem do conde Olaf apareceu na tela. “Agora que o computador de última geração sabe da existência dele, vocês não têm por que se preocupar.”
“E como um computador pode manter o conde Olaf à distância?”, perguntou Klaus. “Pouco importa a imagem na tela de um computador, ele poderia aparecer e causar problemas.”
“Eu não deveria ter me dado ao trabalho de tentar explicar isso para vocês”, disse o vice-diretor Nero. “É impossível que pessoas sem instrução como vocês entendam um gênio como eu. Bem, a Prep Prufrock vai dar um jeito nisso. Aqui vocês serão educados ainda que tenhamos de quebrar os dois braços de cada um para atingir nosso objetivo. Por falar nisso, é hora de mostrar as instalações para vocês. Venham aqui até a janela.”
Os órfãos Baudelaire caminharam até a janela e baixaram os olhos para a relva marrom. Do nono andar, onde se achavam, todas as crianças correndo lá embaixo pareciam formiguinhas, e o caminho de pedras parecia uma longa fita que alguém havia jogado fora. Nero colocara-se detrás dos irmãos e apontava as coisas com seu violino.
“O edifício em que vocês estão é o da administração. O acesso é inteiramente proibido aos estudantes. Hoje vocês têm uma licença especial por ser o primeiro dia, mas, se eu tornar a vê-los aqui, a punição é não usar talheres nas refeições. Aquele prédio cinzento lá adiante é onde ficam as salas de aula. Violet, você estudará com o sr. Remora, na Sala 1, e você, Klaus, estudará com a sra. Bass, na Sala 2. Dá para vocês se lembrarem disso – Sala 1 e Sala 2? Se acharem que não são capazes de se lembrar, posso escrever com um marca-texto na palma de suas mãos, a tinta não se apaga.”
“Dá para lembrar”, disse Violet prontamente. “Mas qual é a sala de aula da Sunny?”
O vice-diretor Nero empertigou-se assumindo sua plena estatura – no caso, um metro e setenta e cinco. “A Escola Preparatória Prufrock é um colégio sério, não é um jardim-de-infância. Eu disse para o sr. Poe que teríamos lugar para o bebê aqui, mas não uma sala de aula. Sunny ficará empregada como minha secretária.”
“Aueg?”, perguntou Sunny incredulamente. Incredulamente é uma palavra que aqui significa “sem poder acreditar”, e “Aueg” é uma palavra que aqui significa “O quê? Não posso acreditar”.
“Mas Sunny é um bebê”, disse Klaus. “Onde já se viu dar emprego a bebês?”
“Onde já se viu dar emprego a bebês?”, Nero tornou a arremedar, e prosseguiu: “Bem, e onde já se viu bebês em colégio interno?”, perguntou. “Ninguém consegue ensinar coisa alguma a um bebê, de forma que ela trabalhará para mim. Tudo o que precisa fazer é atender o telefone e cuidar da papelada. Não vejo nenhuma dificuldade, sem falar que é uma honra trabalhar para um gênio, convenhamos. Bem, se algum de vocês chegar atrasado à sala de aula, ou se Sunny se atrasar para o trabalho, o castigo é ficar com as mãos amarradas nas costas durante as refeições. Vocês terão que se abaixar e abocanhar a comida no prato, como cachorros. É claro que Sunny sempre ficará sem os talheres, porque trabalhará no edifício da administração, onde é proibido entrar crianças.”
“Isso não é justo!”, gritou Violet.
“Isso não é justo!”, o vice-diretor rebateu em extremo falsete. “No edifício de mármore mais adiante fica o refeitório. As refeições são servidas pontualmente na hora do café, do almoço e do jantar. Quem se atrasar não tem direito a xícaras nem copos, e deverá beber os líquidos despejados em grandes poças na mesa. Aquela construção com o topo em arco, lá no fim, é o auditório. Todas as noites eu dou um recital de violino com duração de seis horas, aos quais os alunos são obrigados a assistir. A palavra obrigado significa que, se vocês não comparecerem, terão que comprar um grande saco de balas e ficar olhando enquanto eu como todas. O gramado serve como quadra de esportes. Nossa professora titular de ginástica, srta. Tench, sofreu um acidente; caiu de uma janela do terceiro andar alguns dias atrás. Mas já encontramos quem a substitua e logo, logo a nova professora chegará. Enquanto isso, dei ordens para que durante a aula de educação física as crianças corram o máximo que puderem. Bem, acho que era tudo o que eu tinha a dizer. Alguma pergunta?”
Será que pode haver alguma coisa pior do que isso?, era a pergunta que Sunny tinha na cabeça mas que, por educação, não seria capaz de fazer. O senhor está falando sério sobre todos esses castigos e todas essas regras ridículas?, era a pergunta que estava no pensamento de Klaus mas que ele calou porque sabia de antemão que a resposta seria “Sim”. Violet foi a única que pensou numa pergunta que valia a pena ser dita em voz alta.
“Eu tenho uma pergunta, vice-diretor Nero”, disse ela. “Onde vamos morar?”
A resposta de Nero era tão previsível que os órfãos Baudelaire poderiam tê-la formulado junto com o deplorável administrador.
“Onde vamos morar?”, disse ele no falsete debochado de sempre. Desta vez, porém, quando terminou de fazer troça das crianças, decidiu responder à pergunta. “Temos uma ala residencial magnífica aqui na Prep Prufrock”, começou. “Vocês precisam ver. É um prédio cinza, todo de mármore e tem a forma de um dedão do pé. Há uma sala de estar muito espaçosa com lareira de pedra, uma sala de jogos e uma biblioteca bem ampla. Cada estudante tem seu quarto e tem direito a frutas para o consumo individual, repostas todas as quartas-feiras. Não lhes parece ótimo?”
“De fato”, admitiu Klaus.
“Tib!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Eu gosto de fruta!”, ou algo do gênero.
“Fico contente de pensarem assim”, disse Nero, “contudo vocês não terão muita oportunidade de ver o lugar. Para morar na ala residencial, os alunos precisam de um documento de autorização com a assinatura de pai, mãe ou responsável. Seus pais morreram, e o sr. Poe me disse que os tutores que vocês tiveram ou foram mortos ou mandaram vocês embora.”
“Mas o sr. Poe com certeza pode assinar nosso passe de autorização”, disse Violet.
“Com certeza não pode”, respondeu Nero. “Ele não é nem pai nem tutor de vocês. É um executivo de banco que está encarregado de tratar da herança.”
“Mas é mais ou menos a mesma coisa”, protestou Klaus.
“Mas é mais ou menos a mesma coisa”, arremedou Nero, debochando. “Talvez depois de alguns semestres na Prep Prufrock vocês aprendam a diferença entre um pai e um executivo de banco. É pena, não há outro jeito senão vocês morarem num pequeno barraco de zinco. Não haverá sala de estar, nem sala de jogos, nem nada que se pareça com uma biblioteca. Cada um terá o seu montinho de feno para dormir, e nada de frutas. É um lugar desanimador, mas o sr. Poe me contou que vocês tiveram experiências das mais desconfortáveis, de modo que, imagino, já devem estar acostumados.”
“O senhor não poderia, por favor, abrir uma exceção?”, perguntou Violet.
“Sou um violinista!”, gritou Nero. “Não tenho tempo para abrir exceções! Vivo ocupado demais ensaiando. E agora, não me levem a mal, peço que se retirem do meu gabinete para que eu retome o trabalho.”
Klaus abriu a boca para dizer mais alguma coisa, no entanto, quando olhou para Nero, percebeu que não adiantaria nada dizer mais nenhuma palavra para um homem tão teimoso, e melancolicamente seguiu as irmãs e retirou-se do gabinete do vice-diretor. Quando, porém, a porta se fechou atrás deles, o vice-diretor Nero pronunciou mais uma palavra, e pronunciou-a três vezes. As três crianças escutaram essas três palavras e descobriram então, com toda a certeza, que ele não havia tido a menor, mas a menor pena deles. Pois assim que os Baudelaire saíram da sala e Nero pensou estar sozinho, disse para si próprio: “Hi, hi, hi”.
Bem, o vice-diretor da Escola Preparatória Prufrock não disse exatamente as sílabas “hi, hi, hi”, é claro. Sempre que vocês lerem num livro “hi, hi, hi” ou “ha, ha, ha” ou “ah, ah, ah” ou “eh, eh, eh” ou mesmo “ho, ho ho”, significa que alguém está rindo. Neste caso, entretanto, as palavras “hi, hi, hi” não conseguem descrever como soou o riso do vice-diretor Nero. Foi um riso que parecia um rangido, com um chiado e uns estalidos secos, como se Nero estivesse comendo latas enquanto ria das crianças. Mais que tudo, porém, o riso tinha um tom cruel. É sempre cruel rir das pessoas, não há dúvida, embora seja difícil controlar se estivermos diante de alguém com um chapéu ridículo, por exemplo. Mas os Baudelaire não estavam usando chapéus ridículos. Eram criancinhas que tinham acabado de receber más notícias, e, se o vice-diretor Nero realmente não tivesse como deixar de rir delas, pelo menos deveria ter sido capaz de controlar-se até os irmãos se afastarem e as risadas soarem longe dos ouvidos deles. Contudo Nero não deu a mínima para isso e, ao ouvir as risadas, os órfãos Baudelaire entenderam que não era verdade aquilo que seu pai lhes dissera na tal noite quando chegou do concerto. Havia, sim, um som pior que o de uma pessoa que não sabe tocar violino mas insiste em tocá-lo, seja como for. O som de um administrador soltando risadinhas cruéis, e ainda por cima rangentes, chiantes e pipocadas de estalidos secos, risadinhas por estar diante de crianças que vão ter de morar num barraco, é muito, mas muito pior. Assim, no momento em que me escondo nesta cabana na montanha e escrevo as palavras “hi, hi, hi”, e vocês, onde quer que estejam escondidos, leem as palavras “hi, hi, hi”, saibam que em toda a vida os Baudelaire jamais tinham escutado sons piores que aqueles “hi, hi, hi” do vice-diretor Nero.

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