segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo dez


Violet leu o memorando em voz alta para seus irmãos, e não sabia dizer que reação fora mais aflitiva. Quando Sunny ouviu a notícia, mordeu o lábio, de preocupação. Seu dente era tão afiado que na mesma hora começaram a escorrer gotas de sangue queixo abaixo. E isso foi, não resta a menor dúvida, aflitivo. Mas parece que Klaus não escutou o memorando. Ficou só contemplando o espaço com o olhar perdido, e isso foi igualmente aflitivo. Violet pôs o memorando dentro do envelope, sentou-se na parte de baixo do beliche e ficou quebrando a cabeça para descobrir o que poderia fazer.
“Más notícias?”, disse Phil, querendo se mostrar solidário. “Lembre-se de que às vezes algo que pode parecer uma má notícia depois se revela uma bênção disfarçada.”
Violet tentou sorrir para Phil, porém os músculos do rosto estavam simplesmente travados. Ela sabia – ou pensava que sabia, porque na verdade estava enganada – que o único disfarçado naquela história era o conde Olaf. “Temos que ir falar com Senhor”, disse, enfim, Violet. “Temos que explicar o que aconteceu.”
“Para falar com Senhor tem que ser com hora marcada”, disse Phil.
“Mas trata-se de uma emergência”, disse Violet. “Vem, Sunny. Vamos...”
Ela virou-se para o irmão, que por sua vez encarou a irmã mais velha com os olhos arregalados. Violet recordou o acidente que ele causara, e desfilaram em sua lembrança todas as pessoas que ficaram com a guarda deles e que tinham sido destruídas. Ela não podia imaginar que Klaus fosse capaz de cometer crimes hediondos como os que o conde Olaf cometera, mas não podia ter certeza. Não enquanto ele estivesse hipnotizado.
“Dinel”, disse Sunny.
“Klaus não tem condição de ir”, decidiu Violet. “Phil, você pode por favor dar uma olhada em nosso irmão enquanto vamos fazer uma visita a Senhor?”
“Pode deixar”, disse Phil.
“Uma olhada com a máxima atenção”, enfatizou ela, levando Klaus para o beliche dos Baudelaire. “Ele não... ultimamente, ele não está como costuma ser, você já deve ter notado. Por favor, fique atento para que ele fique longe de problemas.”
“Ficarei”, prometeu Phil.
“E você, Klaus”, disse Violet, “trate de dormir um bom sono, e espero que amanhã se sinta melhor.”
“Uab”, disse Sunny, o que significava: “Eu também espero”.
Klaus deitou-se no beliche, e suas irmãs olharam para seus pés descalços, imundos por ele ter circulado o dia todo sem sapatos.
“Boa noite, Violet”, disse Klaus. “Boa noite, Susan.”
“O nome dela é Sunny”, disse Violet.
“Desculpe”, disse Klaus. “Estou tão exausto. Vocês acham mesmo que amanhã de manhã estarei me sentindo melhor?”
“Se formos sortudos, sim”, disse Violet. “Agora, trate de dormir.”
Klaus dirigiu um olhar para a irmã mais velha. “Sim, senhor”, disse em voz baixa. Fechou os olhos e adormeceu na mesma hora. Violet aconchegou o irmão no cobertor e por algum tempo ficou olhando para ele, preocupada. Depois pegou Sunny pela mão e, com um sorriso para Phil, caminhou para fora do dormitório, atravessou o pátio e dirigiu-se às dependências do escritório. Uma vez lá dentro, as duas Baudelaire continuaram andando, passaram pelo espelho sem sequer dar uma olhada nas suas imagens refletidas, e bateram à porta.
“Entrem!” As crianças reconheceram a voz retumbante de Senhor, e abriram nervosas a porta do escritório. Senhor estava sentado a uma enorme escrivaninha de madeira muito escura, ainda fumando – como sempre – o charuto de tal maneira que não dava para ver o seu rosto por detrás da nuvem de fumaça. A escrivaninha achava-se coberta de papéis e pastas, e havia uma placa onde se lia “Chefe” em letras feitas de chiclete mascado, exatamente como a placa do portão da serraria. Era difícil enxergar o restante da sala, porque a única luz que havia no recinto ficava na escrivaninha de Senhor. Junto a Senhor achava-se Charles, que deu um sorriso tímido para as crianças quando elas se aproximaram para falar com o seu tutor.
“Vocês marcaram uma reunião?”, perguntou Senhor.
“Não”, disse Violet, “mas preciso muito falar com o senhor, é muito importante.”
“Quem decide se uma coisa é muito importante sou eu!”, rugiu Senhor. “Está vendo essa placa aqui na mesa? Está escrito: “Chefe”; é isso que sou: o chefe! Muito importante é quando eu digo que é muito importante, entendeu?”
“Sim, Senhor”, disse Violet, “mas acho que o senhor concordará comigo quando eu lhe explicar o que está acontecendo.”
“Eu sei o que está acontecendo”, disse Senhor. “Eu sou o chefe! Claro que sei! Você não recebeu meu memorando sobre o acidente?”
Violet respirou fundo e encarou Senhor olho no olho, ou pelo menos a parte da nuvem de fumaça onde ela supôs que os olhos se encontravam. “O acidente”, ela disse finalmente, “aconteceu porque Klaus estava hipnotizado.”
“O que seu irmão faz como hobby não me interessa”, disse Senhor, “e não vale como justificativa de acidentes.”
“O senhor não está entendendo, Senhor”, disse Violet. “Klaus foi hipnotizado pela dra. Orwell, que está mancomunada com o conde Olaf.”
“Meu Deus!”, disse Charles. “Pobres crianças! Senhor, temos que acabar com isso!”
“Estamos tratando de acabar com isso!”, disse Senhor. “É só vocês crianças não provocarem mais acidentes, e ficarão empregadas aqui na serraria em total segurança. Do contrário, rua!”
“Senhor!”, exclamou Charles. “O senhor não jogaria as crianças na rua!”
“Claro que não”, disse Senhor. “Como expliquei no memorando, conheci uma senhorita muito simpática que trabalha como recepcionista. Quando mencionei que tinha três crianças aos meus cuidados, ela foi logo dizendo que, se algum dia vocês se vissem numa situação difícil, ela ficaria com vocês, porque sempre quis ter filhos para criar.”
“Palsh!”, exclamou Sunny.
“Ela é o conde Olaf!”, exclamou Violet.
“Está me achando com cara de idiota?”, perguntou Senhor, apontando para a nuvem que cobria seu rosto. “Tenho uma descrição completa do conde Olaf que me foi dada pelo sr. Poe, e essa recepcionista não se parece nada com ele. E uma senhorita muito simpática.”
“O senhor verificou a tatuagem?”, perguntou Charles. “O conde Olaf tem uma tatuagem no tornozelo, lembra-se?”
“Claro que não verifiquei a tatuagem”, disse Senhor com impaciência. “Não é educado olhar para as pernas de uma mulher.”
“Mas ela não é uma mulher!”, explodiu Violet. “Quero dizer: ele não é mulher! Ele é o conde Olaf!”
“Vi na escrivaninha dela a placa de identificação”, disse Senhor. “Não estava escrito 'conde Olaf’. Estava escrito 'Shirley'.”
“Fiti!”, gritou Sunny estridentemente, e vocês já sabem o que ela queria dizer: “Essa placa não prova absolutamente nada, é claro!”. Contudo Violet não teve tempo de traduzir, porque Senhor estava dando socos na escrivaninha.
“Hipnose! Conde Olaf! Fiti! Para mim chega dessas desculpas!”, gritou ele. “O que vocês têm a fazer é trabalhar pesado na serraria, e não causar acidentes! Já vivo atarefado demais para ainda ter que lidar com crianças desastradas!”
Mais que depressa, Violet teve outra ideia. “Bem, podemos telefonar para o sr. Poe?”, perguntou. “Ele sabe tudo a respeito do conde Olaf, e talvez possa ajudar.” Ela só não disse que o sr. Poe não era habitualmente uma pessoa com capacidade de ajudar.
“Você quer acrescentar o custo de um telefonema interurbano ao fardo de ter que cuidar de vocês?”, perguntou Senhor. “Minha resposta é NÃO. Vou deixar claro para vocês, e da maneira mais simples, como eu encaro essa questão: se pisarem na bola mais uma vez, entregarei vocês a Shirley.”
“Pense bem, Senhor”, disse Charles. “Afinal, são crianças. O senhor não deveria falar com elas dessa maneira. Como há de estar lembrado, nunca achei uma boa ideia que os Baudelaire trabalhassem na serraria. Eles deveriam ser tratados como membros da família.”
“Eles estão sendo tratados como membros da família”, disse Senhor. “Muitos de meus primos vivem lá no dormitório. Recuso-me a discutir com você, Charles! Você é meu sócio! Sua função é passar a ferro minhas camisas e preparar minhas omeletes, nada disso de ficar querendo mandar em mim!”
“É claro, você tem razão”, disse Charles, conciliador. “Desculpe-me.”
“Agora, saiam daqui, todos vocês!”, esbravejou Senhor. “Tenho muito o que fazer!”
Sunny abriu a boca para dizer algo, mas viu que não adiantaria nada. Violet teve outra ideia, mas viu que não adiantaria nada. E Charles começou a levantar a mão para tecer novas considerações, mas viu que não adiantaria nada vezes nada. Assim, Charles e as duas Baudelaire saíram do sombrio escritório sem dizer mais nenhuma palavra, e por um instante os três ficaram parados no corredor.
“Não se preocupem”, sussurrou Charles. “Eu ajudarei vocês.”
“Como?”, sussurrou também Violet. “O senhor telefonará para o sr. Poe e lhe dirá que o conde Olaf está aqui?”
“Ulo?”, perguntou Sunny, querendo dizer: “O senhor mandará prender a dra. Orwell?”.
“O senhor nos esconderá de Shirley?”, perguntou Violet.
“Henipul?”, perguntou Sunny, querendo dizer: “O senhor acabará com a hipnose de Klaus?”.
“Não”, admitiu Charles. “Não posso fazer nenhuma dessas coisas. Senhor ficaria uma fera comigo; não dá. Mas amanhã vou tentar conseguir umas uvas passas na hora do almoço. Certo?”
Claro que não estava certo, de modo nenhum. Uvas passas são saudáveis, não custam caro, e muita gente até acha que são deliciosas. No entanto, daí a considerar que sejam uma ajuda... Na verdade, era difícil imaginar uma ajuda mais inútil, se é que Charles realmente tinha o propósito de ajudar. Mas Violet não lhe respondeu. Estava olhando para o fundo do corredor, pensativa. Sunny também não deu resposta, porque já começava a engatinhar em direção à porta da biblioteca. As irmãs Baudelaire não podiam perder tempo conversando com Charles. Tinham que traçar um plano, tinham que traçá-lo o quanto antes. As irmãs Baudelaire achavam-se numa situação muito difícil, e cada momento era precioso para que descobrissem a tempo algo que fosse uma ajuda bem mais substancial do que meras uvas passas.

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