domingo, 21 de agosto de 2016

Capítulo dez


Recusar-se a dar atenção a um pensamento, como recusar-se a entreter um primo bebê ou recusar-se a entreter uma alcateia de hienas, é coisa das mais perigosas. Se você se recusa a entreter um primo bebê, o primo bebê pode ficar entediado e se entreter sozinho perdendo-se ou caindo em um poço. Se você se recusa a entreter uma alcateia de hienas, elas podem ficar impacientes e se entreter devorando você. Mas quando se recusa a dar atenção a um pensamento – o que é apenas um modo afetado de dizer que você se recusa a pensar sobre uma determinada ideia –, você tem de ser muito mais valente do que alguém que está meramente enfrentando alguns animais sedentos de sangue, ou pais que ficaram aborrecidos por encontrar o seu queridinho no fundo de um poço, porque ninguém sabe o que uma ideia pode fazer quando sai para se entreter sozinha, especialmente se a ideia vem de um vilão sinistro.
“Não me importa o que diz aquele homem horrível”, disse Violet aos irmãos depois que os passos plásticos do detetive Dupin sumiram na distância. “Não vamos escolher qual de nós vai escapar e quem vai ficar para ser queimado na fogueira. Eu me recuso terminantemente a dar atenção a esse pensamento.”
“Mas o que vamos fazer?”, perguntou Klaus. “Tentar contatar o sr. Poe?”
“O sr. Poe não vai nos ajudar”, respondeu Violet. “Ele vai achar que estamos arruinando a reputação do banco dele. Nós vamos fugir.”
“Frulc!”, disse Sunny.
“Eu sei que é uma cela de cadeia”, disse Violet, “mas deve haver algum jeito de sair.” Ela tirou a fita do bolso e amarrou o cabelo com os dedos trêmulos. A Baudelaire mais velha tinha falado cheia de confiança, mas não se sentia tão confiante como dera a parecer. Uma cela é construída com o propósito específico de manter pessoas do lado de dentro, e ela não tinha certeza de poder fazer uma invenção que tirasse os Baudelaire da cadeia central. Mas depois que ela tirou o cabelo dos olhos, seu cérebro inventivo começou a funcionar a toda potência, e Violet deu uma boa olhada pela cela inteira à procura de ideias. Primeiro ela olhou para a porta da cela, examinando cada centímetro.
“Você acha que consegue fazer uma outra gazua?”, perguntou Klaus esperançoso. “Você fez uma excelente quando estávamos morando com o tio Monty.”
“Não desta vez”, respondeu Violet. “A porta é trancada pelo lado de fora, portanto a gazua seria inútil.” Ela fechou os olhos um instante, pensativa, depois ergueu os olhos para a minúscula janela gradeada. Os irmãos acompanharam o seu olhar, uma expressão que aqui significa “também olharam para a janela e tentaram pensar em alguma coisa que fosse de ajuda”.
“Boiclio?”, perguntou Sunny, o que queria dizer “Você acha que poderia fazer mais alguns dispositivos de solda para derreter as grades? Você fez alguns excelentes quando estávamos morando com os Squalor”.
“Não desta vez”, disse Violet. “Se eu subir no banco, e Klaus subir nos meus ombros, e você subir nos ombros de Klaus, provavelmente poderemos alcançar a janela, porém mesmo se derretermos as grades, a janela não é grande o bastante para nos esgueirarmos por ela, nem mesmo Sunny conseguiria.”
“Sunny poderia gritar pela janela”, disse Klaus, “e tentar chamar a atenção de alguém para vir nos salvar.”
“Graças à psicologia das turbas, todo cidadão de C.S.C. acha que somos criminosos”, salientou Violet. “Ninguém vai querer salvar uma pessoa acusada de assassinato e seus cúmplices.” Ela fechou os olhos e pensou novamente, depois ajoelhou-se para olhar o banco de madeira mais de perto. “Porcaria”, disse ela.
Klaus teve um leve sobressalto. “Onde?”, disse ele.
“Eu não quis dizer que o banco está cheio de porcaria”, disse ela, esperando estar dizendo a verdade. “Eu só quis dizer ‘Porcaria!’, porque tinha esperanças de que ele fosse feito de tábuas presas umas nas outras com parafusos ou pregos. Parafusos e pregos são sempre convenientes para invenções. Mas é apenas um bloco sólido de madeira esculpida, que não é nada conveniente.” Violet sentou-se no bloco sólido de madeira esculpida e suspirou. “Não sei o que posso fazer”, admitiu ela.
Klaus e Sunny se entreolharam, nervosos. “Estou certo de que você vai pensar em alguma coisa”, disse Klaus.
“Talvez você pense em alguma coisa”, retrucou Violet, olhando para o irmão. “Deve haver alguma coisa que leu que possa nos ajudar.”
Foi a vez de Klaus fechar os olhos pensativo. “Se você inclinasse o banco”, ele disse depois de uma pausa, “ele se transformaria em uma rampa. Os egípcios antigos usaram rampas para construir as pirâmides.”
“Mas nós não estamos tentando construir uma pirâmide!”, gritou Violet, exasperada. “Estamos tentando escapar da cadeia!”
“Eu só estava tentando ajudar!”, gritou Klaus. “Se não fosse por você e as suas ridículas fitas de cabelo, não teríamos sido presos, pra começo de conversa!”
“E se não fosse pelos seus óculos ridículos”, rosnou Violet em resposta, “não estaríamos aqui nesta cadeia!”
“Pára!”, gritou Sunny.
Violet e Klaus ficaram olhando ferozmente um para o outro por um momento, e depois suspiraram. Violet chegou para o lado a fim de dar lugar no banco para os irmãos.
“Venham e sentem-se”, disse ela, melancolicamente. “Desculpe ter gritado com você, Klaus. É claro que não é por sua culpa que estamos aqui.”
“Também não é por sua culpa”, disse Klaus. “Estou apenas frustrado. Faz só algumas horas, pensamos que seríamos capazes de achar os Quagmire e salvar Jacques.”
“Mas chegamos tarde demais para salvar Jacques”, disse Violet estremecendo. “Não sei quem ele era, nem como arranjou aquela tatuagem, mas sei que ele não era o conde Olaf.”
“Talvez ele tivesse trabalhado com o conde Olaf”, disse Klaus. “Ele disse que a tatuagem fazia parte do seu trabalho. Você acha que Jacques estava na trupe teatral de Olaf?”
“Acho que não”, disse Violet. “Nenhum dos parceiros de Olaf tem essa mesma tatuagem. Se ao menos Jacques estivesse vivo, poderia solucionar o mistério.”
“Pereg”, disse Sunny, o que queria dizer “E se ao menos os Quagmire estivessem aqui, poderiam solucionar o outro mistério – o significado verdadeiro de C.S.C.”.
“O que precisamos”, disse Klaus, “é de um deus ex machina.”
“Quem é esse?”, disse Violet.
“Não é quem , disse Klaus, “é o quê. ‘Deus ex machina é um termo latino que significa ‘o deus que desce por uma máquina. Significa a chegada de alguma coisa que pode ajudar quando você menos espera. Precisamos salvar dois trigêmeos das garras de um vilão e resolver o mistério sinistro que nos cerca, mas estamos presos na cela mais imunda da cadeia central, e amanhã à tarde pretendem nos queimar na fogueira. Seria um momento maravilhoso para que alguma coisa que possa nos ajudar chegue inesperadamente.”
Naquele momento ouviu-se uma batida na porta e o som da fechadura sendo aberta. A pesada porta da Cela de Luxo se abriu rangendo, e lá estava a oficial Luciana, fazendo uma carranca para eles atrás do visor do capacete e segurando um pão em uma das mãos e um jarro de água na outra.
“Se dependesse de mim, eu não estaria fazendo isto”, disse ela, “mas a Regra nº 141 reza claramente que todos os prisioneiros devem receber pão e água, portanto aí está.” A chefe de polícia enfiou o pão e o jarro nas mãos de Violet e bateu a porta, trancando-a em seguida.
Violet olhou para o pão, que parecia esponjoso e pouco apetitoso, e para o jarro de água, que era decorado com uma pintura de sete corvos voando em círculo. “Bem, ao menos temos alguma alimentação”, disse ela. “Nosso cérebro precisa de comida e água para funcionar apropriadamente.”
Ela entregou o jarro a Sunny e o pão a Klaus, que ficou olhando para o pão por um longo, longo tempo. Então, voltou-se para as irmãs, que notaram que os seus olhos estavam se enchendo de lágrimas.
“Acabo de me lembrar”, disse ele em uma voz baixa e triste. “É o meu aniversário. Hoje faço treze anos.”
Violet pôs a mão no ombro do irmão. “Oh, Klaus”, disse ela. “É mesmo o seu aniversário. Nos esquecemos completamente.”
“Eu mesmo me esqueci completamente, até este momento”, disse Klaus, olhando de novo para o pão. “Alguma coisa neste pão me fez lembrar o meu décimo segundo aniversário, quando os nossos pais fizeram aquele pudim de pão.”
Violet pôs o jarro de água no chão e sentou-se ao lado de Klaus. “Eu me lembro”, disse ela sorrindo. “Foi a pior sobremesa que já provamos.”
“Vom”, concordou Sunny.
“Era uma nova receita que eles estavam testando”, disse Klaus. “Eles queriam que fosse especial para o meu aniversário, mas estava queimado, azedo e encharcado. E eles prometeram que no ano seguinte, para o meu décimo terceiro aniversário, eu teria a melhor refeição de aniversário do mundo.” Ele olhou para as irmãs e teve de tirar os óculos para enxugar as lágrimas. “Não quero parecer mimado”, disse ele, “mas estava esperando uma refeição de aniversário melhor do que pão e água na Cela de Luxo da cadeia central na cidade de Cultores Solidários de Corvídeos.”
“Chift”, disse Sunny, mordendo gentilmente a mão de Klaus.
Violet deu-lhe um abraço e sentiu os seus próprios olhos se encherem de lágrimas. “Sunny tem razão, Klaus. Você não parece mimado.”
Os Baudelaire sentaram-se juntos por um momento e choraram baixinho, fixando o pensamento em como as suas vidas tinham se tornado horríveis em um tempo tão curto. O décimo segundo aniversário de Klaus não parecia ter sido há tanto tempo assim, e no entanto as suas lembranças do repugnante pudim de pão pareciam tão pálidas e indistintas quanto a primeira visão que tiveram de C.S.C. no horizonte. Era uma sensação curiosa, de que alguma coisa pudesse estar tão próxima e tão distante ao mesmo tempo, e as crianças choraram por sua mãe e seu pai e por todas as coisas felizes de sua vida que lhes tinham sido arrebatadas desde aquele dia terrível na praia.
Finalmente, as crianças se debulharam em lágrimas, e Violet enxugou os olhos e esforçou-se por sorrir para o irmão. “Klaus”, disse ela, “Sunny e eu estamos dispostas a oferecer a você o presente de aniversário de sua escolha. Qualquer coisa que queira na Cela de Luxo, você poderá ter.”
“Muito obrigado”, disse Klaus, sorrindo e olhando em volta da cela imunda. “O que eu realmente queria é um deus ex machina.”
“Eu também”, concordou Violet, e pegou o jarro de água das mãos de Sunny para beber. Entretanto, antes de tomar um gole sequer, ela ergueu os olhos e fitou o outro lado da cela. Pondo o jarro no chão, ela foi rapidamente até a parede e esfregou com os dedos para remover um pouco da sujeira e ver do que era feita a parede. Depois olhou para os irmãos e começou a sorrir. “Feliz aniversário, Klaus”, disse ela. “A oficial Luciana nos trouxe um deus ex machina.”
“Ela não nos trouxe um deus descendo por uma máquina”, disse Klaus. “Ela trouxe água em um jarro.”
“Brioche!”, disse Sunny, o que queria dizer “E pão!
“Estas são as coisas mais parecidas com um deus descendo por uma máquina que vamos obter”, disse Violet. “Agora levantem-se, vocês dois. Precisamos do banco – ele vai ser de ajuda, afinal. Vai funcionar como uma rampa, bem como disse Klaus.” Violet colocou o pão em pé encostado na parede, diretamente abaixo da janela gradeada, e depois inclinou o banco na direção do mesmo ponto. “Vamos despejar a água do jarro fazendo com que ela escorra pelo banco abaixo e atinja a parede”, disse ela. “A água então vai escorrer pela parede até o pão, que funcionará como uma esponja, absorvendo a água. Vamos então espremer o pão para devolver a água ao jarro, e começar tudo de novo.”
“Mas de que isto vai adiantar?”, perguntou Klaus.
“As paredes desta cela são feitas de tijolos”, disse Violet, “com argamassa entre os tijolos para mantê-los unidos. Argamassa é uma espécie de barro que endurece feito cola, portanto um amolecedor de argamassa soltaria os tijolos, possibilitando nossa fuga. Acho que podemos amolecer a argamassa despejando água sobre ela.”
“Mas como?”, perguntou Klaus. “As paredes são tão sólidas, e a água é tão macia.”
“A água é uma das forças mais poderosas sobre a terra”, respondeu Violet. “As ondas do oceano podem desgastar os penhascos de pedra.”
“Donax!”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Mas isto leva anos e anos e, se não escaparmos, seremos queimados na fogueira amanhã à tarde”.
“Então é melhor parar de fixar-se no pensamento e começar a despejar água”, disse Violet. “Teremos de ficar fazendo isso a noite inteira, se quisermos amolecer a argamassa. Eu vou ficar nesta ponta, segurando o banco na posição inclinada. Klaus, você fica ao meu lado e despeja a água. Sunny, você fica perto do pão e, quando tiver absorvido toda a água, traz de volta para mim. Prontos?”
Klaus pegou o jarro e segurou alto, junto à ponta do banco. Sunny engatinhou até o pão, que era só um pouquinho menor do que ela.
“Pronto!”, disseram os dois Baudelaire mais jovens em uníssono e, juntas, as três crianças começaram a fazer funcionar o amolecedor de argamassa de Violet. A água escorreu pelo banco e atingiu a parede, depois escorreu pela parede e foi absorvida pelo pão esponjoso. Sunny rapidamente levou o pão para Klaus, que o espremeu no jarro, e todo o processo recomeçou.
De início, parecia que os Baudelaire estavam latindo para a árvore errada, pois a água não parecia ter sobre a parede da Cela de Luxo mais efeito do que um lenço de seda teria sobre a investida de um rinoceronte, mas logo ficou claro que a água – diferentemente de um lenço de seda – é realmente uma das forças mais poderosas sobre a terra. Quando os Baudelaire ouviram o ruflar das asas dos corvos de C.S.C. voando em círculo antes de tomar o rumo da cidade baixa para o seu pouso vespertino, a argamassa entre os tijolos já se mostrava ligeiramente amolecida ao toque, e quando os últimos raios do sol brilharam através da minúscula janela, uma parte considerável da argamassa já tinha começado realmente a se desgastar.
“Grespo”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “uma parte considerável da argamassa já começou realmente a se desgastar”, ou coisa do gênero.
“Isto é uma boa notícia”, disse Klaus. “Se a sua invenção salvar as nossas vidas, Violet, será o melhor presente de aniversário que você já me deu, incluindo aquele livro de poesia finlandesa que você comprou para mim quando fiz oito anos.”
Violet bocejou. “Por falar em poesia, por que não conversamos sobre os dísticos de Isadora? Ainda não conseguimos descobrir onde os trigêmeos estão escondidos, e, além disso, se ficarmos conversando será mais fácil ficar acordados.”
“Boa ideia”, disse Klaus, e recitou os poemas de memória:

“Cá, por safiras, cativos estamos. Hora após hora, em terror aguardamos.
Até de manhã, não vai dar pra falar; Fechado e tristonho há de o bico ficar.
A que antes se lê, contém uma pista, Recurso inicial que o bandido despista.”

Os Baudelaire ouviram os poemas e começaram a alimentar todos os pensamentos que lhes vinham à mente, que pudessem ajudá-los a decifrar o significado dos dísticos. Violet segurava o banco no lugar, mas sua cabeça estava em por que a primeira linha do primeiro poema era “Cá, por safiras, cativos estamos”, uma vez que os Baudelaire já sabiam sobre a fortuna Quagmire. Klaus despejava água do jarro para fazê-la escorrer pela parede, mas sua cabeça estava na parte do poema que dizia “A que antes se lê, contém uma pista”, e o que, exatamente, Isadora queria dizer com “uma pista”. Sunny monitorava o pão enquanto ele se embebia de água vezes e vezes seguidas, mas sua cabeça estava na última linha do último poema que eles tinham recebido, e no que poderia significar “Recurso inicial que o bandido despista”. Os três Baudelaire fizeram funcionar a invenção de Violet até de manhã, discutindo os dísticos de Isadora o tempo todo, e muito embora as crianças tivessem feito um bocado de progresso em amolecer a argamassa na parede da cela, elas não fizeram progresso nenhum em decifrar os poemas de Isadora.
“A água pode ser uma das forças mais poderosas sobre a terra”, disse Violet quando as crianças ouviram os primeiros sons dos corvos de C.S.C. chegando para o seu pouso vespertino, “mas a poesia pode bem ser a mais confusa. Nós conversamos, e conversamos, e ainda não sabemos onde os Quagmire estão escondidos.”
“Precisamos de outra dose de deus ex machina”, disse Klaus. “Se alguma coisa não vier logo nos ajudar, não seremos capazes de salvar os nossos amigos, mesmo que consigamos escapar desta cela.”
“Psiu!”, uma voz inesperada veio da janela, assustando tanto as crianças que elas quase deixaram cair tudo, destruindo o amolecedor de argamassa. Os Baudelaire olharam para cima e viram os tênues contornos do rosto de alguém atrás das grades da janela. “Psiu! Baudelaires!”, sussurrou a voz.
“Quem está aí?”, sussurrou Violet em resposta. “Não podemos vê-lo.”
“É Hector”, sussurrou Hector. “Eu deveria estar na cidade baixa fazendo as tarefas matinais, mas em vez disso, vim até aqui às escondidas.”
“Você pode nos tirar daqui?”, sussurrou Klaus.
Durante alguns segundos, as crianças não ouviram nada além dos sons dos corvos de C.S.C. crocitando e chapinhando no Chafariz Corvídeo. Então Hector suspirou.
“Não”, ele admitiu. “A oficial Luciana está com a única chave, e esta cadeia é feita de tijolos sólidos. Não acho que exista um modo de tirar vocês daí.”
“Dala?”, perguntou Sunny.
“Minha irmã quer dizer, Você contou ao Conselho dos Anciãos que nós estávamos com você na noite em que Jacques foi assassinado, portanto não poderíamos ter cometido o crime?”
Houve mais uma pausa.
“Não”, disse Hector. “Vocês sabem que o Conselho me deixa desassossegado demais para falar. Eu queria falar em defesa de vocês quando o detetive Dupin os acusou, mas bastou uma olhada para aqueles chapéus de corvo e não consegui mais abrir a boca. Mas pensei em uma coisa que posso fazer para ajudar.”
Klaus pôs no chão o jarro de água e apalpou a argamassa da parede oposta. A invenção de Violet parecia estar funcionando muito bem, mas ainda não havia garantia de que aquilo os libertaria antes que a turba de cidadãos chegasse, à tarde. “E o que é?”, perguntou ele a Hector.
“Vou deixar a casa móvel autossustentável a ar quente pronta para partir”, disse ele. “Vou aguardar no celeiro a tarde inteira, e se vocês conseguirem escapar de algum modo, poderão ir embora flutuando comigo.”
“Está bem”, disse Violet, muito embora estivesse esperando uma ajuda um pouquinho maior de uma pessoa totalmente adulta. “Estamos tentando fugir desta cela neste momento, portanto é possível que consigamos.”
“Bem, se vocês estão fugindo agora, é melhor eu ir andando”, disse Hector. “Não quero me meter numa enrascada. Eu só queria dizer, caso vocês não consigam fugir e sejam queimados na fogueira, que foi um prazer conhecê-los. Ah, eu quase ia me esquecendo.” Os dedos de Hector surgiram através das grades e deixaram cair uma tirinha de papel enrolada para os Baudelaire. “É mais um dístico”, disse ele. “Não faz sentido para mim, mas vocês podem achar útil. Adeus, crianças. Eu realmente espero ver vocês mais tarde.”
“Adeus, Hector”, disse Violet, soturna. “Eu também espero.”
“Baibai”, murmurou Sunny.
Hector aguardou um segundo pela despedida de Klaus, mas então foi embora sem mais uma palavra, e o eco de seus passos foi ficando mais distante até se confundir com os sons dos corvos que crocitavam e chapinhavam na água. Violet e Sunny se voltaram para olhar para o irmão, surpresas por ele não ter se despedido, muito embora a visita de Hector tivesse sido tamanho desapontamento que elas podiam entender que Klaus estivesse aborrecido demais para ser polido. Mas quando elas olharam para o Baudelaire do meio, ele não lhes pareceu aborrecido. Klaus estava olhando para o último dístico de Isadora e, à luz que ia ficando mais forte dentro da Cela de Luxo, suas irmãs puderam ver um amplo sorriso em seu rosto. Sorrir é algo que você faz quando está entretido em alguma coisa, como ler um bom livro ou observar uma pessoa de quem você não gosta derramar refrigerante de laranja pela roupa toda. Mas não havia livro nenhum na cadeia central, e os Baudelaire tinham tomado o cuidado de não derramar nem uma gota de água enquanto operavam o amolecedor de argamassa, portanto as irmãs Baudelaire sabiam que seu irmão estava sorrindo por outra razão. Ele sorria porque estava se fixando num pensamento, e quando Klaus lhes mostrou o poema que tinha nas mãos, Violet e Sunny tiveram uma ideia bem clara de qual era esse pensamento.

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