quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo dez


“... e um dos itens do catálogo está listado como ‘C.S.C.’, que é o segredo que os Quagmire tentaram nos contar logo antes de ser sequestrados”, concluiu Klaus.
“Isto é terrível”, disse Esmé, e tomou um gole do refrigerante de salsa que insistira em servir para si mesma antes que os órfãos Baudelaire pudessem contar tudo o que tinham descoberto. Ela então insistira em acomodar-se no sofá mais in da sua sala de estar favorita e em fazer com que as três crianças se sentassem em três cadeiras arrumadas em semicírculo em volta dela, antes de deixá-las relatar a história da verdadeira identidade de Gunther, da passagem secreta por trás das portas deslizantes do elevador, da trama para levar os Quagmire clandestinamente para fora da cidade, e do surpreendente aparecimento daquelas três iniciais misteriosas como descrição do Lote 50. Os três irmãos ficaram contentes por a sua tutora não ter feito pouco das suas descobertas, ou discutido com eles a respeito de Gunther, ou dos Quagmire, ou qualquer outra coisa, mas que, em vez disso, tivesse escutado cada detalhe calma e silenciosamente. De fato, Esmé ficou tão silenciosa e calma que chegou a ser desconcertante, uma palavra que aqui significa “um aviso ao qual as crianças Baudelaire não prestaram atenção a tempo”.
“Esta é a coisa menos acachapante que já ouvi”, disse Esmé, tomando mais um gole da sua bebida. “Vejamos se entendi tudo o que vocês disseram. Gunther é, de fato, o conde Olaf disfarçado.”
“Sim”, disse Violet. “As botas dele estão cobrindo a sua tatuagem, e o monóculo faz com que ele contraia o rosto para esconder a sobrancelha única.”
“E ele escondeu os Quagmire em uma jaula no fundo do poço do meu elevador”, disse Esmé, pondo o seu copo em cima de uma mesa próxima.
“Sim”, disse Klaus. “Não existe elevador atrás daquelas portas. De algum modo, Gunther o removeu, para poder usar o poço como uma passagem secreta.”
“E agora ele tirou os Quagmire da jaula”, continuou Esmé, “e vai levá-los clandestinamente para fora da cidade, escondendo-os dentro do Lote 50 do Leilão In.”
“Caxret”, disse Sunny, o que queria dizer “Você sacou, Esmé”.
“Esta é certamente uma trama complicada”, disse Esmé. “Estou surpresa por criancinhas como vocês terem sido capazes de descobrir isto, mas estou contente por terem descoberto.” Ela fez uma pequena pausa para remover um grão de pó de uma das suas unhas. “E agora só resta uma coisa a fazer. Temos de ir diretamente ao Vebien Hall, e depressa, para pôr um paradeiro a este plano terrível. Vamos mandar prender Gunther e libertar os Quagmire. É melhor irmos embora, neste minuto.”
Esmé pôs-se em pé e acenou para as crianças com um leve sorriso. As crianças a seguiram para fora da sala de estar, trocando olhares intrigados. Sua tutora estava certa, é claro, ao dizer que tinham de ir ao Vebien Hall e expor Gunther e sua traição, mas não podiam deixar de se perguntar por que a sexta consultora financeira mais importante da cidade estava tão calma ao dizer isso. As crianças estavam tão ansiosas por causa dos Quagmire que se sentiam como se fossem pular para fora da própria pele, mas Esmé as levou para fora da cobertura como se estivessem indo à mercearia comprar farinha de trigo, em vez de correr a um leilão para deter um crime horrível. Quando ela fechou a porta do apartamento e se voltou sorrindo de novo para as crianças, os três irmãos não puderam ver nem sinal de ansiedade em seu rosto, e isto era desconcertante.
“Klaus e eu vamos nos revezar para carregá-la, Sunny”, disse Violet, erguendo a irmã. “Assim a descida pelas escadas ficará mais fácil para você.”
“Ora, não teremos de descer todas essas escadas a pé”, disse Esmé.
“É verdade”, disse Klaus. “Escorregar pelo corrimão será muito mais rápido.”
Esmé passou um braço em volta das crianças e começou a levá-las para longe da porta da frente. Era bom receber um gesto de afeição da sua tutora, mas o braço dela os envolvia tão apertado que mal podiam se mexer, o que também era desconcertante. “Também não teremos de escorregar pelo corrimão”, disse ela.
“Então como vamos descer da cobertura?”, perguntou Violet.
Esmé esticou o outro braço e usou uma das suas unhas compridas para apertar o botão de Subir ao lado das portas deslizantes. Esta foi a coisa mais desconcertante de todas, mas àquela altura, lamento dizer, era tarde demais. “Tomaremos o elevador”, disse ela quando as portas se abriram deslizando, e então, com um último sorriso, ela fez um movimento para a frente com o braço e empurrou os órfãos Baudelaire para dentro da escuridão do poço do elevador.
Às vezes as palavras não são o bastante. Existem algumas circunstâncias tão completamente deploráveis que não consigo descrevê-las em sentenças ou parágrafos, nem mesmo em toda uma série de livros, e o terror e desgosto que os órfãos Baudelaire sentiram depois que Esmé os empurrou para dentro do poço do elevador é uma daquelas circunstâncias que podem ser representadas unicamente com duas páginas de negridão total. Não tenho palavras para o profundo horror que as crianças sentiram quando despencaram nas trevas. Não posso pensar em nenhuma frase que transmita como elas gritaram alto, ou como era frio o ar que zunia em volta delas enquanto caíam. E não existe parágrafo que eu seja capaz de datilografar que possa fazer vocês imaginarem como os Baudelaire ficaram apavorados enquanto mergulhavam para uma morte certa.
Mas posso contar a vocês que elas não morreram. Nem um só cabelo de suas cabeças tinha sido tocado quando as crianças finalmente pararam de cair na escuridão. Elas sobreviveram à queda do alto do poço pela simples razão de que não chegaram ao fundo. Alguma coisa interrompeu sua queda, uma frase que aqui significa que o mergulho dos Baudelaire parou a meio caminho entre as portas deslizantes do elevador e a jaula de metal onde os Quagmire tinham estado trancados. Alguma coisa interrompeu sua queda sem sequer machucá-los e, embora de início parecesse um milagre, quando as crianças entenderam que estava vivas e não estavam mais caindo, estenderam as mãos e logo perceberam que aquela coisa parecia uma rede. Enquanto os Baudelaire estavam lendo o catálogo do Leilão In, e contando a Esmé o que tinham descoberto, alguém estendera uma rede de cordas atravessando a passagem inteira, e tinha sido essa rede que impedira as crianças de mergulhar para a morte certa. Muito, muito acima dos órfãos estava a cobertura dos Squalor, e muito, muito abaixo deles estava a jaula no compartimento minúsculo e imundo com o corredor que levava para fora dele. Os órfãos Baudelaire tinham caído numa armadilha.
Mas é muito melhor cair numa armadilha do que morrer, e as três crianças se abraçaram aliviadas porque alguma coisa interrompera a sua queda.
“Spenset”, disse Sunny em uma voz rouca de tanto gritar.
“Sim, Sunny”, disse Violet, abraçando-a apertado. “Estamos vivos.” Sua voz soava como se ela estivesse falando tanto consigo mesma como com a irmã.
“Estamos vivos”, disse Klaus, abraçando as duas. “Estamos vivos e estamos bem.”
“Eu não diria que vocês estão bem”, a voz de Esmé chegou a eles, vinda do alto da passagem. A voz dela reverberou pelas paredes da passagem, mas mesmo assim as crianças puderam ouvir cada palavra cruel. “Vocês estão vivos, mas decididamente não estão bem. Assim que terminar o leilão e os Quagmire estiverem a caminho para fora da cidade, Gunther virá pegá-los, e posso garantir que vocês três nunca mais estarão bem. Que dia maravilhoso e lucrativo! Meu antigo professor de arte dramática finalmente porá as mãos, não em uma, mas em duas enormes fortunas!”
“Seu antigo professor de arte dramática?”, perguntou Violet, horrorizada. “Você quer dizer que sabia qual era a verdadeira identidade de Gunther o tempo todo?”
“É claro que sabia”, disse Esmé. “Eu só tinha de enganar vocês, crianças, e o meu marido debiloide para pensarem que ele era realmente um leiloeiro. Por sorte sou uma atriz fabulosa, portanto foi fácil enganar vocês.”
“Então você esteve trabalhando junto com aquele terrível vilão?”, gritou Klaus para ela lá de baixo. “Como pôde fazer isso conosco?”
“Ele não é um terrível vilão”, disse Esmé. “Ele é um gênio! Eu dei instruções ao porteiro para não deixar vocês saírem da cobertura até que Gunther viesse buscá-los, mas Gunther me convenceu de que jogar vocês para baixo seria uma ideia melhor, e ele tinha razão! Agora não há como vocês irem ao leilão para estragar nossos planos!”
“Zisalem!”, gritou Sunny.
“Minha irmã está certa!”, gritou Violet. “Você é a nossa tutora! Devia estar cuidando da nossa segurança, e não nos atirando em poços de elevador e roubando a nossa fortuna!”
“Mas eu quero roubar de vocês”, disse Esmé. “Quero roubar de vocês do mesmo modo como Beatrice roubou de mim.”
“Do que você está falando?”, perguntou Klaus. “Você já é incrivelmente rica. Por que quer mais dinheiro ainda?”
“Porque isto é in, é claro”, disse Esmé. “Muito bem, bai-bai pra vocês, crianças. Bai-bai é o jeito in de dizer adeus a três fedelhos órfãos que a pessoa nunca mais vai ver de novo.”
“Por quê?”, gritou Violet. “Por que você está nos tratando de um jeito tão horrível?”
A resposta de Esmé a essa pergunta foi a mais cruel de todas e, como uma queda por um poço de elevador, não havia palavras para essa resposta. Ela simplesmente riu, um cacarejo alto e grosseiro que reverberou pelas paredes da passagem e depois sumiu no silêncio quando a tutora deles foi embora. Os órfãos Baudelaire se entreolharam – ou tentaram se entreolhar na escuridão – e tremeram de repugnância e medo, sacudindo a rede que os capturara e salvara ao mesmo tempo.
“Dieli?”, disse Sunny muito infeliz, e seus irmãos entenderam que ela queria dizer “O que vamos fazer?
“Não sei”, disse Klaus, “mas temos de fazer alguma coisa.”
“E temos de fazer depressa”, acrescentou Violet, “mas esta é uma situação muito difícil. Não adianta tentar subir ou descer – as paredes parecem ser lisas demais.”
“E não adianta tentar fazer um grande barulho para atrair a atenção de alguém”, disse Klaus. “Mesmo que alguém ouça, vai pensar que é só alguém gritando em um dos apartamentos.”
Violet fechou os olhos, pensativa, embora estivesse tão escuro que na verdade não fazia diferença se os olhos estavam abertos ou fechados. “Klaus, talvez a ocasião esteja madura para as suas habilidades de pesquisador”, disse ela depois de um momento. “Você pode pensar em algum momento na história em que as pessoas escaparam de uma armadilha como esta?”
“Acho que não”, respondeu Klaus tristemente. “No mito de Hércules, ele cai numa armadilha entre dois monstros chamados Scylla e Charybdes, do mesmo modo como caímos em uma armadilha entre as portas deslizantes e o chão. Mas ele escapou da armadilha transformando-os em redemoinhos.”
“Glaucus”, disse Sunny, o que queria dizer algo como “Mas nós não podemos fazer isto”.
“Eu sei”, disse Klaus, soturno. “Às vezes os mitos são divertidos, mas nunca ajudam muito. Talvez a ocasião esteja madura para uma das invenções de Violet.”
“Mas eu não tenho nenhum material para trabalhar”, disse Violet, estendendo a mão para apalpar as bordas da rede. “Não posso usar esta rede para uma invenção porque, se eu começar a rasgá-la, nós vamos cair. A rede parece estar presa por pequenas cavilhas de metal cravadas nas paredes, mas também não posso arrancá-las e usá-las.”
“Gizan?”, perguntou Sunny.
“Sim”, respondeu Violet, “cavilhas. Apalpe bem aqui, Sunny. Gunther provavelmente subiu em uma escada comprida para cravar estas cavilhas nas paredes da passagem, e então amarrou a rede entre as cavilhas. Acho que as paredes do poço do elevador são suficientemente moles para permitir que sejam fincados objetos pequenos e pontudos.”
“Tholc?”, perguntou Sunny, o que queria dizer “Que nem dentes?”, e imediatamente seus irmãos perceberam o que ela estava pensando.
“Não, Sunny”, disse Violet. “Você não pode escalar o poço do elevador usando os seus dentes. É perigoso demais.”
“Ioigt”, observou Sunny, o que queria dizer algo como “Mas se eu cair, vou simplesmente cair na rede de novo”.
“Mas e se você ficar encalhada no meio do caminho?”, perguntou Klaus. “Ou se perder um dente?”
“Vasta”, disse Sunny, o que queria dizer “Vou ter de arriscar. E a nossa única esperança”, e os irmãos concordaram relutantemente.
Eles não gostaram da ideia de ver a irmãzinha bebê escalando o poço até as portas deslizantes do elevador ersatz usando apenas os dentes, mas não conseguiam pensar em nenhum outro jeito de escapar a tempo de frustrar o plano de Gunther. A ocasião não estava madura para as habilidades de inventora de Violet, nem para os conhecimentos que Klaus adquirira com suas leituras, mas a ocasião estava madura para os dentes afiados de Sunny, e a mais jovem dos Baudelaire inclinou a cabeça para trás e depois jogou-a para a frente, cravando um dos dentes na parede com um som áspero que faria um dentista chorar durante horas. Mas os Baudelaire não eram dentistas, e as três crianças escutaram atentamente para ouvir se os dentes de Sunny tinham ficado tão firmemente cravados quanto as cavilhas da rede. Para sua satisfação, não ouviram nada – nenhum som de coisas raspando, ou escorregando, ou rachando, ou qualquer coisa que indicasse que os dentes de Sunny não estavam segurando. Sunny até sacudiu um pouquinho a cabeça para verificar se com isso o seu dente não se soltaria com facilidade da parede, mas ele continuou sendo um firme apoio dental. Sunny jogou a cabeça de leve e fincou um outro dente, ligeiramente acima do primeiro. O segundo dente ficou firmemente cravado, então Sunny soltou cautelosamente o primeiro dente e o inseriu de novo na parede, ligeiramente acima do segundo dente. Cravando os dentes a espaços ligeiramente separados, Sunny conseguira subir alguns centímetros pela parede e, quando ela fincou o primeiro dente acima do segundo outra vez, seu pequeno corpo já não tocava mais a rede.
“Boa sorte, Sunny”, disse Violet.
“Estamos torcendo por você, Sunny”, disse Klaus.


Sunny não respondeu, mas seus irmãos não ficaram assustados pois imaginaram que devia mesmo ser difícil dizer muita coisa quando se está com a boca cheia de parede. Assim, Violet e Klaus simplesmente ficaram sentados na rede e continuaram a gritar palavras de encorajamento para a irmãzinha. Se Sunny fosse capaz de escalar e falar ao mesmo tempo, poderia ter dito “Soried”, o que significava algo como “Até aqui, tudo bem” ou coisa do gênero, ou então “Iaff”, que queria dizer “Acho que cheguei à metade do caminho”, mas os dois Baudelaire mais velhos não ouviram nada a não ser o som dos dentes se enfiando e se soltando na escuridão, até que Sunny gritou triunfante a palavra “Topo!”.
“Oh, Sunny!”, exclamou Klaus. “Você conseguiu!”
“Bravo!”, gritou Violet. “Agora, vá buscar a nossa corda improvisada embaixo da cama, e subiremos para junto de você.”
“Ganba”, Sunny gritou de volta, e engatinhou para fora.
Os dois irmãos mais velhos ficaram sentados aguardando na escuridão por algum tempo, maravilhados com as habilidades da irmã.
“Eu não poderia ter escalado até lá em cima por esta passagem”, disse Violet, “nem quando eu tinha a idade de Sunny.”
“Nem eu”, disse Klaus, “apesar de nós dois termos dentes de um tamanho razoável.”
“Não é só o tamanho dos dentes”, disse Violet, “é o tamanho da coragem, e o tamanho da preocupação dela com os irmãos.”
“E o tamanho da encrenca em que estamos metidos”, acrescentou Klaus, “e o tamanho da traição da nossa tutora. Eu nem posso acreditar que Esmé estava tramando junto com Gunther o tempo todo. Ela é tão ersatz quanto o elevador dela.”
“Esmé é uma atriz muito boa”, disse Violet só para consolar, “mesmo sendo uma pessoa horrorosa. Ela nos enganou completamente, nos fazendo pensar que Gunther a enganara completamente. Mas do que estava ela falando quando disse...?”
“Tada!”, gritou Sunny lá das portas deslizantes.
“Ela está com a corda”, disse Violet, alvoroçada. “Amarre na maçaneta da porta, Sunny, usando a língua-do-diabo.”
“Não”, disse Klaus, “eu tenho uma ideia melhor.”
“Uma ideia melhor do que usar a corda para sair daqui?”, perguntou Violet.
“Eu quero usar a corda para sair daqui”, disse Klaus, “mas acho que não devemos subir por ela. Se subirmos, simplesmente estaremos de volta à cobertura.”
“Mas da cobertura”, disse Violet, “poderemos ir ao Veblen Hall. Poderemos até escorregar pelo corrimão para ganhar tempo.”
“Mas no fim do corrimão”, disse Klaus, “está o saguão do prédio, e no saguão está um porteiro com instruções estritas de não nos deixar sair.”
“Eu não tinha pensado nele”, disse Violet. “Ele sempre segue as instruções.”
“É por isso que temos de sair da Avenida Sombria 667 por outro caminho”, disse Klaus.
“Ditemu”, gritou Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Que outro caminho existe?”.
“Para baixo”, disse Klaus. “O compartimento minúsculo no fundo do poço do elevador tem um corredor que leva para fora dele, está lembrada? Fica logo ao lado da jaula.”
“É verdade”, disse Violet. “Deve ter sido assim que Gunther arrebatou os Quagmire antes que pudéssemos salvá-los. Mas quem sabe aonde ele conduz?”
“Bem, se Gunther levou os Quagmire por aquele corredor”, disse Klaus, “então ele deve conduzir a algum lugar por perto do Veblen Hall. E é precisamente para lá que queremos ir.”
“Você tem razão”, disse Violet. “Sunny, esqueça o que eu disse sobre amarrar a corda na maçaneta. De qualquer jeito, alguém poderia ver e perceber que escapamos. Só traga a corda para cá. Você acha que consegue ir mordendo parede abaixo até aqui?”
“Jerônimo!”, gritou Sunny, o que queria dizer qualquer coisa como “Não preciso ir mordendo parede abaixo”, e a mais jovem dos Baudelaire estava certa. Ela inspirou fundo e se jogou na passagem escura, com o rolo de corda ersatz caindo atrás dela. Desta vez, o mergulho não precisa ser representado por páginas de escuridão, pois o terror da longa e tenebrosa queda foi aliviado – a expressão “foi aliviado” significando aqui “não estava especialmente presente na cabeça de Sunny” – porque a mais jovem dos Baudelaire sabia que uma rede, e seus irmãos, estariam esperando por ela no fundo. Sunny caiu na rede com um ruído surdo e, com um ruído um pouco mais leve, o rolo de corda caiu ao lado dela. Depois de se certificar de que a irmã não se machucara na queda, Violet começou a amarrar uma ponta da corda em uma das cavilhas que seguravam a rede no lugar.
“Vou me certificar de que esta ponta da corda está firme”, disse Violet. “Sunny, se os seus dentes não estiverem muito doloridos por causa da escalada, use-os para cortar um buraco na rede, para que possamos passar por ele.”
“O que eu posso fazer?”, perguntou Klaus.
“Você pode rezar para isto dar certo”, disse Violet, mas as irmãs Baudelaire foram tão rápidas em suas tarefas que não sobrou tempo nem para a mais breve das cerimônias religiosas. Em questão de momentos, Violet já tinha prendido a corda na cavilha com alguns nós complicados e poderosos, e Sunny já tinha cortado um buraco tamanho criança no meio da rede. Violet deixou cair a corda pelo buraco e as três crianças ficaram atentas até ouvir o plim! familiar da corda ersatz batendo na jaula de metal. Os órfãos Baudelaire hesitaram por um momento junto ao buraco na rede, olhando para as trevas lá embaixo.
“Não acredito que vamos descer por essa passagem de novo”, disse Violet.
“Sei o que você quer dizer”, disse Klaus. “Se naquele dia, na praia, alguém tivesse me perguntado se eu já tinha pensado alguma vez que estaríamos subindo e descendo por um poço de elevador vazio numa tentativa de resgatar um par de trigêmeos, eu teria dito nunca, nem em um milhão de anos. E agora estamos fazendo isso pela quinta vez em vinte e quatro horas. O que aconteceu conosco? O que nos trouxe a este lugar horrível para onde olhamos agora?”
“Desventura”, disse Violet mansamente.
“Um terrível incêndio”, disse Klaus.
“Olaf”, disse Sunny decidida, e começou a engatinhar pela corda abaixo. Klaus seguiu a irmã através do buraco na rede e Violet seguiu Klaus, e os três Baudelaire fizeram a longa jornada pela metade de baixo da passagem até chegar ao compartimento minúsculo e imundo, à jaula vazia e ao corredor que, esperavam eles, os levaria ao Leilão In. Sunny apertou os olhos, focalizando a corda acima dela, para ter certeza de que os irmãos tinham chegado ao fundo em segurança. Klaus apertou os olhos, focalizando o corredor, a fim de ver qual era o seu comprimento, e se havia alguém ou alguma coisa à espreita lá dentro. E Violet apertou os olhos, focalizando o canto onde estavam os soldadores que as crianças tinham jogado lá quando a ocasião não estava madura para usá-los.
“Devíamos levar aquilo conosco”, disse ela.
“Mas por quê?”, perguntou Klaus. “Com certeza já esfriaram há muito tempo.”
“Esfriaram mesmo”, disse Violet pegando um deles. “E as pontas ficaram todas dobradas quando foram jogados no canto. Mas ainda poderão ser úteis para alguma coisa. Não sabemos o que vamos encontrar naquele corredor, e não quero que sejamos pegos despreparados. Aqui, Klaus. Aqui está o seu, e aqui está o de Sunny.”
Os Baudelaire mais jovens pegaram os atiçadores de fogo tortos e frios, e então todas as três crianças, mantendo-se bem juntas umas das outras, deram os primeiros passos pelo corredor. Lamento dizer que a mais velha dos Baudelaire estava absolutamente certa. As três crianças não podiam se permitir avançar totalmente despreparadas, não com a vantagem injusta que os espreitava ao fim da caminhada. Enquanto davam um passo cauteloso após outro, os órfãos Baudelaire precisavam estar com as mãos firmes segurando alguma coisa que os protegesse o melhor possível contra o elemento surpresa que os aguardava quando o corredor escuro chegasse ao fim.

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