quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Capítulo dez


Os três órfãos Baudelaire e os dois trigêmeos Quagmire estavam sentados no Barraco dos Órfãos, que nunca parecera tão desagradável como agora. As cinco crianças calçavam os sapatos barulhentos inventados por Violet, de modo que os caranguejos territorialmente apegados não eram visíveis em canto algum. O sal secara o fungo bege-claro, convertendo-o numa crosta endurecida que não era atraente mas que pelo menos cessara o plop! plop! do suco de fungo sobre os garotos. Depois da chegada do instrutor Genghis, focalizaram a energia no propósito de derrotar os banditismos do conde Olaf, e os cinco órfãos não haviam tomado nenhuma providência quanto às paredes verdes salpicadas com corações cor-de-rosa. Entretanto, podia-se dizer que desde a chegada dos Baudelaire o Barraco dos Órfãos estava bem menos para “montanha” do que para “montinho de terra” (volte ao Capítulo 3 se você não entendeu). Ainda faltava muito para ser um lugar atraente e confortável, mas na hora de um aperto, como local para bolar um plano, até que quebrava o galho.
E sem dúvida alguma os órfãos Baudelaire estavam num aperto. Se Violet, Klaus e Sunny tivessem mais uma noite exaustiva de corrida interminável, dariam com os burros n'água nos exames rigorosos e nas tarefas administrativas, e então o instrutor Genghis sumiria com eles para longe da Prep Prufrock. E, só de pensar nisso, quase podiam sentir os dedos ossudos de Genghis como pinças a extrair a vida de cada um deles. Os trigêmeos Quagmire se preocupavam tanto com os amigos que também se sentiram pinçados, embora não estivessem diretamente ameaçados – pelo menos não que soubessem.
“Não consigo acreditar como foi que não desvendamos antes os planos do instrutor Genghis”, disse Isadora inconformada, revirando as páginas do caderno. “Duncan e eu fizemos toda essa pesquisa, e mesmo assim foi como se...”
“Não se culpe”, disse Klaus. “Minhas irmãs e eu já tivemos Olaf pela frente em várias oportunidades, e é sempre difícil descobrir o que ele está aprontando.”
“Nós estávamos tentando levantar a história do conde Olaf”, disse Duncan. “A biblioteca da Prep Prufrock tem uma boa coleção de jornais antigos, e pensamos que, se conseguíssemos descobrir alguns de seus planos anteriores, talvez desvendássemos este.”
“É uma boa ideia”, disse Klaus pensativo. “Nunca tentei isso.”
“Imaginamos que Olaf devia ser mau-caráter bem antes de conhecer vocês”, prosseguiu Duncan, “e então resolvemos pesquisar em jornais antigos. Não foi possível reunir muito material, já que, como vocês sabem, ele usa sempre nomes diferentes. De qualquer modo, encontramos uma pessoa com o mesmo perfil na Gazeta de Bangcoc, um cara que foi detido por estrangular um bispo mas escapou da prisão em apenas dez minutos.”
“Esse tem muito a ver com ele, com certeza”, disse Klaus.
“E um outro no Diário de Notícias de Verona”, disse Duncan, “que atirou uma viúva rica do alto de um despenhadeiro. Este tinha um olho tatuado no tornozelo, mas escapou das autoridades. E também um jornal da cidade de vocês que dizia...”
“Não querendo interromper”, disse Isadora, “mas seria bom a gente parar de pensar no passado e começar a pensar no presente. O almoço já está mais que na metade, e precisamos desesperadamente de um plano.”
“Você não está cochilando, está?”, Klaus perguntou a Violet, que havia permanecido em silêncio por longo tempo.
“Claro que não estou cochilando”, respondeu Violet. “Estou me concentrando. Acho que posso inventar algo para produzir todos esses grampos de que Sunny necessita. Porém não vejo como inventar esse aparelho e ao mesmo tempo estudar para o exame. Desde que começou a programação de D.O.R., nunca mais fiz anotações aproveitáveis na aula do sr. Remora, e não vou ser capaz de me lembrar das histórias.”
“Pois não se preocupe com isso”, disse Duncan, erguendo o caderno de capa verde. “Escrevi aqui todas as histórias que o sr. Remora contou. Sem faltar nenhum detalhe, mesmo os mais chatos. Está tudo neste caderninho.”
“E eu tomei nota do comprimento, largura e altura de todos os objetos da sra. Bass”, disse Isadora, mostrando o próprio caderno. “Você, Klaus, pode estudar pelas minhas anotações, e Violet pode estudar pelo caderno de Duncan.”
“Obrigado”, disse Klaus, “só que vocês estão esquecendo uma coisa. Nós temos corridas esta noite. Não vamos ter tempo de ler o caderno de ninguém.”
“Tucur”, disse Sunny, o que provavelmente significava: “Você tem razão, claro, D.O.R. vai até o nascer do sol, e os exames são logo de manhã cedo”.
“Se ao menos tivéssemos um dos grandes inventores do mundo para nos ajudar”, disse Violet. “Fico pensando no que Nikola Tesla seria capaz de fazer.”
“Ou se tivéssemos um dos grandes jornalistas do mundo”, disse Duncan. “Fico pensando no que Dorothy Parker seria capaz de fazer nesta situação.”
“E eu fico pensando no que Hamurabi, da antiga Babilônia, seria capaz de fazer para nos ajudar”, disse Klaus. “Ele foi um dos maiores pesquisadores do mundo.”
“Ou o grande poeta Lord Byron”, disse Isadora.
“Tubarão”, disse Sunny, passando o dedo nos dentes pensativamente.
“Quem sabe o que essas pessoas ou esse peixe seriam capazes de fazer se estivessem em nosso lugar?”, disse Violet. “Não dá para adivinhar.”
Duncan estalou os dedos, não para chamar um garçom ou porque estivesse marcando o ritmo de alguma música, e sim porque de repente teve uma ideia. “Se estivessem em nosso lugar...!”, disse ele. “É isso!”
“É isso o quê?!”, perguntou Klaus. “O que você quer dizer?”
“Quando você falou 'se estivessem em nosso lugar' tive uma ideia”, disse Duncan. “E se alguém estivesse mesmo, de verdade, no lugar de vocês – se nós nos disfarçássemos e nos fizéssemos passar por vocês? Então o tempo todo os corredores poderíamos ser nós, enquanto vocês estudam para os exames.”
“Fazerem-se passar por nós?”, disse Klaus. “Vocês dois são a cópia exata um do outro, porém não se parecem nada conosco.”
“E daí?”, disse Duncan. “Vai estar escuro de noite. Quando ficamos vigiando vocês detrás do arco, tudo o que dava para ver era duas silhuetas correndo e uma engatinhando.”
“É verdade”, disse Isadora. “Se eu puser a fita que você usa no cabelo e Duncan puser os óculos de Klaus, acho que vamos estar tão parecidos com vocês que o instrutor Genghis nem vai perceber a diferença.”
“E poderíamos trocar os nossos sapatos, assim o ruído das pisadas na grama seria exatamente o mesmo”, disse Duncan.
“Mas e Sunny?”, perguntou Violet. “Não há como duas pessoas se fazerem passar por três.”
Aquilo foi uma ducha fria no entusiasmo dos Quagmire. “Se ao menos nosso irmão Quigley estivesse aqui”, disse Duncan. “Tenho certeza de que estaria disposto a vestir-se de bebê para ajudar vocês.
“E que tal um saco de farinha?”, perguntou Isadora. “Sunny tem mais ou menos o tamanho de um saco de farinha. Sem querer ofender, Sunny.”
“Naa”, disse Sunny, dando de ombros.
“Poderíamos pegar escondidos um saco no refeitório”, disse Isadora, “e puxá-lo do nosso lado enquanto corrêssemos. De longe a semelhança com Sunny seria razoável o bastante para afastar suspeitas.”
“Trocar de identidade com vocês pode ser um plano muito arriscado”, disse Violet. “Se falhar, não apenas nós, os Baudelaire, estaremos em apuros, mas vocês também, e quem sabe o que o instrutor Genghis será capaz de fazer com vocês?”
Como se verá, essa pergunta angustiaria os Baudelaire por muito tempo, contudo os Quagmire nem se abalaram, não lhe deram a mínima atenção.
“Não se preocupem com isso”, disse Duncan. “O importante é que vocês fiquem fora das garras dele. Pode ser um plano arriscado, mas trocar de identidade foi a única saída que conseguimos encontrar.”
“E não há tempo a perder tentando descobrir outra”, acrescentou Isadora. “Temos que nos apressar se quisermos apanhar o saco de farinha sem nos atrasarmos para a aula.”
“E vamos precisar de uma corda ou algo parecido para puxá-lo durante a corrida e parecer que é Sunny engatinhando”, disse Duncan.
“E eu vou precisar me abastecer de outras coisas também”, disse Violet, “para montar minha invenção de produzir grampos.”
“Uora”, disse Sunny, querendo dizer algo como: “Então vamos indo”, ou algo do gênero.
As cinco crianças deixaram o Barraco dos Órfãos depois de tirar os sapatos barulhentos e calçar os sapatos normais para não chamar a atenção com o ruído de passos ao atravessar o gramado em direção ao refeitório. Estavam nervosas porque era uma irregularidade entrar no refeitório àquela hora, e era uma irregularidade pegar coisas sem permissão, e estavam nervosas porque o plano era de fato arriscado. O nervosismo não é uma sensação agradável, e eu não gostaria de ver crianças pequenas ainda mais nervosas do que estavam os Baudelaire e os Quagmire ao caminhar para o refeitório ainda em suas próprias identidades. Mas sou obrigado a dizer que as cinco crianças não estavam tão nervosas quanto deveriam. Elas não precisavam estar mais nervosas por entrar no refeitório em hora inapropriada, apesar de estarem contrariando as regras, ou por pegar coisas sem permissão, ainda mais que não haviam sido apanhadas no ato. Deveriam, sim, estar mais nervosas com o plano, e com o que aconteceria aquela noite quando o sol se pusesse sobre o gramado marrom e o círculo fosforescente começasse a brilhar. Deveriam estar nervosas ao pensar no que aconteceria quando trocassem de identidade e os Quagmire estivessem no lugar dos Baudelaire.

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