terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo dez


Violet e Quigley caminharam cautelosamente por cima da lagoa congelada até chegar ao pé da queda d’água.
“Boa sorte!”, gritou Klaus da arcada da biblioteca. Ele estava limpando as lentes dos óculos, como costumava fazer antes de iniciar uma pesquisa séria.
“Boa sorte para você!”, respondeu Violet, por cima do barulho dos ventos da montanha. Ao olhar para trás e ver o irmão, lembrou-se de quando os dois tentavam deter o trailer enquanto ele disparava montanha abaixo. Klaus tinha sentido vontade de lhe dizer alguma coisa, para o caso de o drag chute e a substância pegajosa não funcionarem. Violet tinha a mesma sensação agora, enquanto se preparava para escalar a queda d’água congelada e deixar o irmão entre os restos carbonizados da base de operações de C.S.C. “Klaus...”, disse ela.
Klaus colocou os óculos e abriu seu sorriso mais valente para a irmã. “O que quer que você esteja pensando em dizer”, disse ele, “diga quando voltar.”
Violet assentiu com a cabeça e bateu o candelabro contra um ponto do gelo. Ouviu um tum! profundo, que indicava uma camada muito sólida sobre a qual podiam pisar tranquilos. “Vamos começar por aqui”, disse ela a Quigley. “Segura o rojão!”
A expressão “segura o rojão”, como você deve saber, não significa que Violet queria que Quigley se agarrasse a um foguete de festa junina para ser levado por via aérea até o Cume das Aflições. A expressão significa simplesmente “prepare-se para uma empreitada muito difícil”, e sem dúvida seria muito difícil escalar uma queda d’água congelada, no meio de um vale em que os ventos de várias direções sopravam tão fortes, sem nada além de um candelabro e alguns garfos para ajudar na subida. Violet e Quigley precisaram de alguns minutos até operar de maneira adequada a invenção, o que consistia em fincar os garfos no gelo apenas o suficiente para segurá-los no lugar, mas não tão fundo a ponto de deixá-los presos. Depois que ambos estavam bem posicionados, Violet teve de esticar o braço o mais alto que podia e bater o candelabro no gelo para encontrar o próximo ponto sólido onde pisar. Nos primeiros passos chegou a parecer que a ascensão pelo declive gelado seria impossível daquele modo, mas à medida que o tempo ia passando e os dois voluntários ficavam cada vez mais habilidosos com os sapatos de alpinismo e o candelabro, ficou claro que mais uma vez a perícia de Violet ganharia o dia, uma expressão que aqui significa “possibilitar que Violet e Quigley Quagmire escalassem uma queda d’água congelada depois de segurar o rojão daquela difícil jornada”.
“Sua invenção está funcionando”, gritou Quigley para Violet, que estava acima dele. “Estes sapatos são maravilhosos.”
“Parece que funcionam mesmo”, concordou Violet, “mas não vamos comemorar ainda. Temos um longo caminho pela frente.”
“Minha irmã escreveu um dístico exatamente sobre isso”, disse Quigley, e recitou o poema de Isadora:

Comemore meio serviço,
E ao fim terá só meio viço.

Violet sorriu e esticou o braço para testar o gelo acima dela. “Isadora é uma boa poeta”, disse, “e seus poemas se mostraram adequados a diversas situações. Quando estávamos na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, ela nos conduziu até o local onde estava escondendo uma mensagem secreta em uma série de dísticos.”
“Fico pensando se isso é um código que ela aprendeu com C.S.C.”, disse Quigley, “ou se ela mesma inventou.”
“Não sei”, disse Violet pensativa. “Ela e Duncan foram os primeiros que nos falaram sobre C.S.C., mas nunca me ocorreu que eles pudessem ser filiados. Mas, se pensar bem, o código que Isadora usou era similar a um usado por nossa tia Josephine. Elas esconderam uma mensagem oculta num bilhete e aguardaram até que descobríssemos. Talvez ambas fossem voluntárias.” Ela puxou do gelo o seu sapato de alpinismo e fincou-o de novo alguns centímetros acima para continuar a escalada. “Talvez todos os nossos tutores tenham sido membros de C.S.C., de um lado ou de outro da cisão.”
“É difícil acreditar”, disse Quigley, “que estivemos sempre cercados por pessoas em missões secretas e que nunca tenhamos percebido.”
“É difícil acreditar que estamos escalando uma queda d’água congelada nas Montanhas de Mão-Morta”, retrucou Violet, “e no entanto aqui estamos nós. Olhe, Quigley, está vendo a saliência onde está fincado o meu garfo esquerdo? É bastante sólida para nós dois nos sentarmos e recuperarmos o fôlego.”
“Bom”, disse Quigley. “Tenho um saquinho de cenouras na mochila, podemos comer e recuperar nossas energias.” O trigêmeo subiu até o lugar onde Violet se sentara, uma pequena saliência do tamanho de um sofá, e escorregou para o seu lado. Os alpinistas viram que tinham chegado mais longe do que pensavam. As ruínas enegrecidas da base de operações estavam muito abaixo deles, e agora Klaus parecia apenas um pontinho perto de uma minúscula arcada de ferro. Quigley deu uma cenoura a Violet, que a mordeu pensativa.
“Sunny adora cenouras cruas”, disse Violet. “Espero que esteja bem alimentada, onde quer que esteja.”
“Espero que meus irmãos também estejam se alimentando”, disse Quigley. “Meu pai sempre dizia que uma boa refeição dá coragem a uma pessoa.”
“Meu pai dizia a mesma coisa”, disse Violet, olhando para Quigley de um jeito curioso. “Você acha que isso também era um código?”
Quigley encolheu os ombros e suspirou. Pedacinhos de gelo caíram das pontas dos garfos e foram levados pelo vento. “É como se nunca tivéssemos conhecido os nossos pais”, disse ele.
“Nós os conhecíamos”, disse Violet. “Eles apenas tinham alguns segredos. Todo mundo deve ter algum segredo.”
“Imagino que sim”, disse Quigley, “mas eles podiam ter mencionado que pertenciam a uma organização secreta com uma base de operações escondida nas Montanhas de Mão-Morta.”
“Quem sabe não queriam nos proteger de um lugar tão perigoso”, disse Violet, olhando para além da saliência. “Se bem que, uma vez que você precisa esconder uma base de operações, esse é um belo lugar para se fazer isso. A não ser pelos destroços do incêndio, é uma linda vista.”
“Muito linda, sem dúvida”, disse Quigley, mas ele não estava olhando para a vista. Estava olhando para Violet Baudelaire.
Muitas coisas tinham sido tiradas dos três Baudelaire. Seus pais, seu lar. Os vários tutores que tiveram foram assassinados pelo conde Olaf, ou talvez tenham saído de suas vidas simplesmente porque eram pessoas deploráveis que logo perderam o interesse pelas crianças. Em todas as ocasiões em que os irmãos foram obrigados a usar disfarces absurdos o que perderam foi a dignidade. Ou uns aos outros, quando foram obrigados a se separar, e Sunny agora tinha de cumprir tarefas domésticas no topo da queda d’água congelada, enquanto Violet e Klaus aprendiam os segredos de C.S.C, embaixo dela. Mas outra coisa fora tirada aos Baudelaire: sua privacidade, uma palavra que aqui significa “tempo para si mesmo, sem ninguém à espreita”. A não ser que você seja um eremita ou um par de gêmeos siameses, provavelmente gosta de tirar umas férias da família com um amigo ou companheiro, no seu quarto ou em um vagão de trem que você conseguiu levar sorrateiramente para fora do país. Mas desde aquele dia pavoroso na Praia de Sal, quando o sr. Poe contou aos Baudelaire que seus pais haviam morrido, eles praticamente não tiveram momentos de privacidade. Do quarto pequeno e escuro onde dormiam na casa do conde Olaf até o trailer superlotado no Parque Caligari, e todos os lugares deploráveis entre uma coisa e outra, a situação dos Baudelaire foi sempre tão desesperada que quase nunca eles conseguiam um momento de privacidade.
Enquanto Violet e Quigley descansam por mais alguns minutos em cima de uma saliência a meio caminho do topo da queda d’água congelada, aproveito a oportunidade para conceder a eles um pouquinho de privacidade, não escrevendo mais nada sobre o que aconteceu entre aqueles dois amigos naquela tarde gélida.
Existem aspectos da minha vida pessoal sobre os quais jamais escreverei, por mais preciosos que sejam, e oferecerei à mais velha dos Baudelaire o mesmo direito. Contarei a vocês que os dois jovens retomaram a escalada, que a tarde pouco a pouco se tornou noite e que tanto Violet como Quigley sorriam discretamente, enquanto o candelabro testava o gelo, e os sapatos de alpinismo ajudavam os dois a escalar as montanhas. Mas Violet Baudelaire teve tão poucos momentos de privacidade na vida que permitirei a ela guardar para si mesma alguns poucos momentos importantes que não contarei aos meus leitores angustiados.


“Estamos quase lá”, disse Violet. “É difícil enxergar com o sol poente, mas acho que estamos quase no cume.”
“Mal posso acreditar que escalamos durante a tarde inteira”, disse Quigley.
“Não durante a tarde inteira”, lembrou ela com um sorriso tímido. “Acho que essa queda d’água é quase tão alta quanto a Avenida Sombria 667. Levei bastante tempo para subir e descer por aquele poço de elevador e achar seus irmãos. Espero que agora sejamos mais bem-sucedidos.”
“Eu também”, disse Quigley. “O que você acha que vamos encontrar no cume?”
“Set!”, veio a resposta.
“Não consegui ouvir por causa do vento”, disse Quigley. “O que você disse?”
“Eu não disse nada”, respondeu Violet. Ela olhou para cima e apertou os olhos tentando enxergar aos últimos clarões do crepúsculo, não acreditando que tivesse ouvido direito.
De todas as palavras da língua inglesa, em que foi originalmente escrito este livro, a palavra “set” é a que tem o maior número de definições, e se você abrir um bom dicionário e ler o extenso verbete, começará a achar que “set” nem chega a ser uma palavra, mas apenas um som que significa coisas diferentes, dependendo de quem diz. Por exemplo, se uma banda de músicos de jazz fala “set”, eles devem estar se referindo às músicas que pretendem tocar naquela noite, contanto que o clube onde tocam não tenha sido incendiado. Se um proprietário de restaurante usa a palavra “set”, deve estar se referindo a um conjunto de taças de vinho idênticas ou a um grupo de garçonetes com a mesma aparência. Um bibliotecário chamaria de “set” uma coleção de livros do mesmo autor ou sobre o mesmo assunto. E um egiptólogo usaria a palavra “set” para se referir ao antigo deus do mal, muito embora ele não apareça muito nas conversas. Mas quando Violet ouviu a palavra “set”, vindo de cima do Cume das Aflições, ela não achou que havia uma banda de jazz, nem um dono de restaurante, nem um bibliotecário, nem um egiptólogo falando sobre jazz, nem taças de vinho, garçonetes, livros temáticos, e nem um imoral aardvark, o inimigo mitológico do deus Osíris. Ela cravou o seu garfo o mais alto que pôde e viu os raios do sol poente se refletirem em um grande dente, então Violet percebeu que a definição da palavra “set” era: “Eu sabia que você ia me encontrar!”, e quem a pronunciou foi Sunny Baudelaire.
“Set!”, disse Sunny outra vez.
“Sunny!”, exclamou Violet.
“Psiu!”, disse Sunny.
“O que está acontecendo?”, perguntou Quigley, várias garfadas atrás de Violet.
“É Sunny”, explicou Violet, e içou-se até o cume para ver sua irmãzinha de perto. Ela estava em pé ao lado do carro do conde Olaf, sorrindo de orelha a orelha. Sem mais palavra, as duas Baudelaire se abraçaram com força, mas Violet tomou cuidado para não cutucar Sunny com um dos garfos que segurava. Quando Quigley chegou ao cume e se recostou contra um dos pneus do automóvel, as duas Baudelaire estavam sorrindo com lágrimas nos olhos.
“Eu sabia que a veríamos de novo, Sunny”, disse Violet. “Eu sabia.”
“Klaus?”, perguntou Sunny.
“Ele está bem, e perto”, disse Violet. “Ele também sabia que conseguiríamos encontrá-la.”
“Set”, concordou Sunny, mas então reparou em Quigley, e seus olhos se arregalaram. “Quagmire?”, perguntou espantada.
“Sim”, disse Violet. “Esse é Quigley Quagmire, Sunny. Ele sobreviveu ao incêndio.” Sunny andou, vacilante, até Quigley e apertou-lhe a mão. “Ele nos levou até a base de operações com um mapa desenhado por ele.”
“Arigatô”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa parecida com: “Apreciamos a sua ajuda, Quigley”.
“Foi você quem enviou um sinal para nós?”, perguntou ele.
“Eu”, disse Sunny. “Lox.”
“O conde Olaf andou obrigando você a preparar a comida?”, perguntou Violet, perplexa.
“Carmiga sopratudo”, disse Sunny.
“Olaf a obrigou até a limpar as migalhas do carro”, traduziu Violet para Quigley.
“Isso é ridículo!”, disse Quigley.
“Cinderela”, disse Sunny. Ela queria dizer algo do gênero de: “Tive de fazer todas as tarefas domésticas e fui humilhada o tempo todo”, mas Violet não teve tempo de traduzir, pois a voz rascante do conde Olaf soou.
“Onde está você, Bebelaire?”, perguntou ele, somando um apelido absurdo à sua lista de insultos. “Tenho tarefas para você.”
As três crianças se entreolharam em pânico. “Escondesconde”, sussurrou Sunny, e nem foi preciso traduzir.
Violet e Quigley olharam para todos os lados à procura de um lugar para se esconder. Mas só havia um único lugar.
“Embaixo do carro”, disse Violet, e ela e Quigley se contorceram para entrar debaixo do automóvel comprido e preto, tão sujo e fedido quanto o seu dono. Como inventora que era, a mais velha dos Baudelaire tinha estudado atentamente o mecanismo dos automóveis, mas nunca tinha visto um em estado de conservação tão precário, uma frase que aqui significa “a parte inferior de um automóvel tão deteriorada que o óleo do motor pingava sobre as cabeças das duas crianças escondidas ali embaixo”. Mas eles não tinham um momento a perder com seu desconforto. Assim que conseguiram esconder seus sapatos de alpinismo, chegaram o conde Olaf e seus comparsas. Debaixo do carro tudo o que os dois voluntários podiam ver era a tatuagem do vilão no seu tornozelo esquerdo imundo e os sapatos de salto alto de Esmé Squalor, ornamentados com brilhos e estampas de olhos.
“A única coisa que comemos hoje foi aquele salmão defumado, e já é quase hora do jantar”, disse Olaf. “É melhor começar a cozinhar, órfã.”
“Amanhã é a Falsa Primavera”, disse Esmé, “e seria muito in ter um jantar de Falsa Primavera.”
“Você ouviu isso, dentuça?”, rosnou Olaf. “Minha namorada quer um jantar elegante. Mãos à obra.”
“Olaf, precisamos de você aqui”, disse uma voz muito profunda, e Violet e Quigley viram dois pares de sinistros sapatos pretos surgirem de trás dos vilões, que estremeceram. De repente, pareceu ficar muito mais frio embaixo do carro, e Violet teve de forçar as pernas contra os pneus para que elas não tremessem e acabassem fazendo barulho.
“Sim, Olaf”, concordou a voz rouca do homem com barba mas sem cabelo, embora Violet e Quigley não o enxergassem. “O nosso plano de recrutamento vai acontecer logo de manhã, portanto precisamos que você ajude a abrir a rede no chão.”
“Você não pode mandar um dos nossos empregados fazer isso?”, perguntou Esmé. “O homem de mãos de gancho, as duas mulheres de cara branca e as três aberrações do parque poderiam fazer isso. Contando vocês, são oito pessoas para abrir a rede. Por que nós deveríamos fazer isso?”
Os quatro sapatos pretos deram um passo na direção dos elegantes saltos de Esmé e da tatuagem de Olaf. “Vocês vão ajudar”, disse a mulher com cabelo mas sem barba, “porque eu mandei.”
Houve uma longa pausa, então o conde Olaf soltou uma risadinha esganiçada. “Essa é uma boa razão”, disse. “Vamos, Esmé. Já demos nossas ordens ao bebê, não temos mesmo mais nada para fazer.”
“É verdade”, concordou Esmé. “Eu estava pensando em começar a fumar de novo, estou entediada. Você tem mais algum daqueles cigarros verdes?”
“Receio que não”, retrucou o homem com barba mas sem cabelo, se afastando do carro. “Foi o único que encontrei.”
“Que pena”, disse Esmé. “Não gosto do gosto nem do cheiro, e eles fazem mal para a saúde, mas os cigarros estão muito in, e eu gostaria de fumar.”
“Talvez haja mais um nas ruínas da base de operações”, disse a mulher com cabelo mas sem barba. “É difícil achar as coisas no meio de todas aquelas cinzas. Nós procuramos por dias a fio e não conseguimos encontrar o açucareiro.”
“Não na frente do bebê!”, disse Olaf depressa, e os quatro pares de sapatos saíram andando. Violet e Quigley permaneceram embaixo do carro até Sunny dizer “Barralimpa”, o que queria dizer alguma coisa tipo “Agora já dá para sair com segurança”.
“Que pessoal horroroso”, disse Quigley, limpando óleo e fuligem do casaco. “Senti calafrios da cabeça aos pés.”
“Tinham uma aura ameaçadora”, sussurrou Violet. “Os pés com a tatuagem eram o conde Olaf e aqueles sapatos brilhosos eram Esmé Squalor. Mas quem eram os outros dois, Sunny?”
“Piromaníacos ignotos”, murmurou Sunny. Ela queria dizer alguma coisa parecida com: “Não sei, mas foram eles que tocaram fogo na base de operações de C.S.C.”. E Violet se apressou em explicar.
“Klaus encontrou uma importante mensagem que sobreviveu ao incêndio”, disse Violet. “Quando voltarmos com você para lá tenho certeza de que Klaus já terá decodificado a mensagem. Vamos.”
“Nempensá”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não creio que deva acompanhar vocês”.
“Céus, por que não?”, perguntou Violet.
“Otrosan”, disse Sunny.
“Sunny está dizendo que os vilões mencionaram um outro santuário para os voluntários se reunirem”, explicou Violet para Quigley.
“Você sabe onde fica?”, perguntou Quigley.
Sunny sacudiu a cabeça. “Dossiolaf”, disse ela.
“Mas se o conde Olaf está com o dossiê Snicket”, disse Violet, “como você vai descobrir onde fica o santuário?”
“Matahari”, disse ela, o que queria dizer algo como: “Se eu ficar, poderei espionar e descobrir”.
“De jeito nenhum”, disse Violet, depois de traduzir. “Não é seguro você ficar aqui, Sunny. Já é ruim que Olaf a tenha obrigado a cozinhar.”
“Lox”, salientou Sunny.
“Mas o que você vai preparar para um jantar de Falsa Primavera?”
Sunny sorriu para a irmã e foi andando até o porta-malas. Violet e Quigley ouviram o barulho que Sunny fazia enquanto vasculhava os restos dos suprimentos, mas se mantiveram alertas para impedir que Olaf e seus comparsas os surpreendessem. Quando Sunny voltou, ostentava um sorriso triunfante e um grande saco de cogumelos, uma lata de castanhas d’água e uma enorme berinjela. “Enroladinhos Falsa Primavera!”, disse, o que queria dizer alguma coisa na linha de: “Legumes sortidos embrulhados em folhas de espinafre, preparados em homenagem à Falsa Primavera”.
“Só por você conseguir carregar essa berinjela, já fico surpresa. Que dizer prepará-la”, disse Violet. “Ela deve pesar quase a mesma coisa que você.”
“Chanceceia”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa como: “Servir a ceia aos vilões seria a oportunidade perfeita para ouvir a conversa deles”, e Violet traduziu relutante.
“Parece perigoso”, disse Quigley.
“É claro que é perigoso”, disse Violet. “Se a pegarem espionando, o que podem fazer?”
“Gaga-gugu”, disse Sunny, o que queria dizer: “Ninguém vai me pegar porque acham que eu sou apenas um bebê indefeso”.
“Acho que sua irmã tem razão”, disse Quigley. “De um jeito ou de outro, não seria seguro carregá-la até lá embaixo. Precisamos das nossas mãos livres para segurar os garfos e descer. Vamos deixar Sunny investigar o mistério, ela é quem tem a maior possibilidade de resolvê-lo. Enquanto isso, trabalharemos em um plano de fuga.”
Violet sacudiu a cabeça. “Não quero deixar a minha irmã para trás”, disse ela. “Os Baudelaire jamais devem ser separados.”
“Separôklaus”, argumentou Sunny.
“Se existe algum outro lugar onde os voluntários estão se encontrando”, disse Quigley, “precisamos saber onde é. Sunny pode descobrir para nós, mas só se ela ficar aqui.”
“Não vou abandonar a minha irmãzinha bebê no topo de uma montanha”, disse Violet.
Sunny deixou cair os seus legumes no chão, foi andando até a irmã e sorriu. “Não sou mais um bebê”, disse Sunny, e abraçou-a. Essa foi a frase mais comprida que a jovem Baudelaire já tinha pronunciado, e, olhando para ela, Violet percebeu quão verdadeira era sua frase. Sunny de fato já não era um bebê. Era uma menininha com dentes aguçados, algumas habilidades culinárias impressionantes e com a oportunidade de espionar um grupo de vilões e descobrir uma informação crucial. Durante os eventos desafortunados que recaíram sobre os três órfãos, Sunny superara sua primeira infância, e, embora Violet ficasse meio triste só de pensar nisso, ela ficou orgulhosa e sorriu para a irmã.
“Acho que você tem razão”, disse Violet. “Você já não é um bebê. Mas tome cuidado, Sunny. Ainda que você seja uma mocinha, é perigoso ficar espionando vilões. E lembre-se, estamos bem ao pé da queda d’água. Se precisar de nós, é só mandar outro sinal.”
Sunny abriu a boca para responder, mas antes que ela conseguisse emitir um único som, as três crianças ouviram um prolongado ruído embaixo do carro de Olaf, como se uma das serpentes do dr. Montgomery estivesse lá. O carro oscilou de leve, e Violet apontou para um dos pneus, que tinha murchado. “Eu devo ter furado”, disse Violet, “com os meus sapatos de alpinismo com garfos.”
“Essa não é uma coisa simpática para fazer”, disse Quigley, “mas não posso dizer que sinto muito.”
“Como vai indo o jantar, dentuça?”, gritou a voz cruel do conde Olaf, sobrepondo-se ao ruído do vento.
“Acho que é melhor ir embora, antes que nos descubram”, disse Violet, dando outro abraço na irmã e um beijo na testa. “Logo nos veremos, Sunny.”
“Até logo, Sunny”, disse Quigley. “Estou muito contente por conhecê-la em pessoa. Muito obrigado por nos ajudar a encontrar o último santuário.”
Sunny Baudelaire ergueu os olhos para Quigley, depois para a sua irmã mais velha, e abriu para eles um grande e alegre sorriso com todos os seus dentes impressionantes. Depois de passar tanto tempo na companhia de vilões, ela estava alegre por estar com pessoas que respeitavam suas habilidades, apreciavam seu trabalho e entendiam seu modo de falar. Mesmo que Klaus não estivesse ali, ela se sentia como se sua família estivesse reunida e a temporada nas Montanhas de Mão-Morta fosse ter um final feliz. Sunny estava errada quanto a isso, é claro, mas naquele instante a mais jovem Baudelaire apenas sorriu para aquelas duas pessoas que se preocupavam com ela, uma que acabara de conhecer e outra que conhecia desde sempre, e se sentiu como se estivesse ficando mais alta naquele exato momento. “Feliz”, disse a mocinha. E todos os que a ouviram entenderam o que ela queria dizer.

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