segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo cinco


Nos dias que se seguiram, os órfãos Baudelaire sentiram que tinham um nó no estômago. No caso de Sunny até dava para entender, porque, quando Klaus dividiu o pêssego entre os três, ela ficou com a parte do caroço. Em geral, é claro, ninguém come o caroço, mas Sunny estava morrendo de fome e, além do mais, tinha preferência por coisas duras, de modo que o caroço acabou indo parar no estômago dela juntamente com as partes da fruta que vocês ou eu poderíamos achar mais apetitosas. Mas o nó nos estômagos dos Baudelaire não tinha tanto a ver com o petisco que Charles lhes havia oferecido, e sim com a sensação de estarem irremediavelmente condenados. Eles tinham certeza de que o conde Olaf os espreitava nas proximidades, como um predador que espera para saltar de surpresa sobre suas vítimas. Por isso, todas as manhãs quando o capataz Flacutono batia suas panelas para acordar todo mundo, os Baudelaire examinavam-no a fim de ter certeza de que o conde Olaf não havia tomado o seu lugar. Seria típico do conde Olaf pôr uma peruca branca na cabeça e uma máscara cirúrgica sobre o rosto para surpreender e raptar os Baudelaire assim que eles saíssem da cama. Mas o capataz Flacutono continuava com seus olhos escuros, pequenos e redondos, nem um pouco parecidos com os olhos brilhantes do conde Olaf, e falava sempre com sua voz rascante e abafada, o oposto da voz vibrante e contundente do conde Olaf. Quando as crianças atravessavam o pátio de chão de terra para chegar à serraria, aguçavam o olhar para um exame atento dos empregados, seus colegas. Seria típico do conde Olaf arranjar um modo de ser contratado como funcionário e então raptar os órfãos quando o capataz Flacutono não estivesse olhando. Entretanto, o que se notava nos operários era um ar cansado, triste e faminto – nenhum deles parecia ser mau, ganancioso, nem tinha as horríveis maneiras do conde Olaf. E, enquanto tinham a impressão de que lhes arrancavam o couro nos serviços da serraria – a expressão “arrancar o couro” é usada aqui no sentido de que o seu trabalho era bem duro e cansativo, só isso –, os órfãos ficavam imaginando se o conde Olaf não usaria alguma das enormes máquinas para, de alguma forma, apossar-se da fortuna deles.
Mas não parecia ser este o caso. Depois de alguns dias arrancando a casca das árvores, os decorticadores foram levados de volta ao canto em que ficavam guardados, e a gigantesca pinça mecânica foi desligada. O passo seguinte consistia em carregar nos braços os troncos decorticados, um por um, e levá-los à serra circular, com seu zumbido irritante, para que cada tronco fosse fatiado e convertido em muitas tábuas aplainadas. Os braços dos garotos não tardaram a doer e a cobrir-se de farpas de madeira com o esforço de carregar todas aquelas toras, mas o conde Olaf não se aproveitou de seus braços enfraquecidos para raptá-los. Passados alguns dias de trabalho com a serra, o capataz Flacutono ordenou a Phil que ligasse a máquina com o enorme rolo de corda. A máquina desenrolava a corda com a qual os empregados amarravam os feixes, dando nós muito complicados para que as tábuas não se soltassem umas das outras. Os dedos das crianças ficaram tão feridos que elas mal conseguiam segurar os tíquetes com que eram pagos a cada dia, mas o conde Olaf não apareceu para forçá-los a entregar sua fortuna. Dias dolorosos se seguiram a dias dolorosos, o tempo passou e, embora os Baudelaire estivessem convencidos de que ele devia estar por perto, o conde Olaf simplesmente não deu sinal de vida. Era uma situação muito intrigante. Muito enigmática.
“É muito enigmático”, disse Violet certo dia, na pausa concedida aos operários para mascarem o chiclete. “Não se descobre o conde Olaf em parte alguma.”
“Eu sei”, disse Klaus, acariciando o polegar direito, o dedo mais machucado. “Aquela casa no final da rua lembra sua tatuagem, e a capa do livro também. Mas o próprio conde Olaf não deu as caras.”
“Elund!”, exclamou Sunny, pensativa. Provavelmente queria dizer: “É espantoso, não resta dúvida”, ou algo do gênero.
Violet estalou os dedos (com uma careta, porque doeu) e disse: “Tive uma ideia. Klaus, você acabou de dizer que ele não deu as caras. Talvez não tenha mostrado a cara, sim, mas e se estivesse com disfarce, e se ele fosse... Senhor? Não dá para dizer qual a aparência real de Senhor por causa daquela nuvem de fumaça. O conde Olaf pode ter vestido um terno verde-escuro, e fumado tanto só para nos enganar”.
“Também pensei nisso”, disse Klaus. “Mas ele é muito mais baixo que o conde Olaf, e não sei como alguém pode se disfarçar como uma pessoa muito mais baixa.”
“Chorn!”, observou Sunny, provavelmente querendo dizer: “E sua voz não se parece nada com a do conde Olaf”.
“É verdade”, disse Violet, e deu para Sunny um pedacinho de madeira que estava caído no chão. Como chiclete era algo que não se devia dar aos bebês, os irmãos mais velhos lhe ofereciam essas lascas de madeira na pausa para o almoço. Sunny não comia a madeira, é claro, mas ficava mastigando-a, fazendo de conta que era uma cenoura, ou uma maçã, ou uma tortilla recheada com queijo e carne, delícias que ela adorava.
“Pode ser que o conde Olaf simplesmente não nos tenha encontrado”, disse Klaus. “Afinal de contas, Paltryville é um lugar perdido no mapa. Ele poderia levar anos para nos localizar.”
“Pelli!”, exclamou Sunny, querendo dizer algo como: “Porém isso não explica a casa em forma de olho, nem a capa do livro!”.
“Essas coisas podem ter sido apenas uma coincidência”, admitiu Violet. “O medo que sentimos do conde Olaf é tanto que talvez nos faça pensar que o vemos em toda parte. Talvez ele não apareça. Talvez estejamos em segurança aqui.”
“É isso aí: pensamento positivo”, disse Phil, que estivera sentado perto deles todo esse tempo. “Procurem ver as coisas pelo melhor ângulo. A Serraria Alto-Astral pode não ser o lugar favorito de vocês, mas pelo menos não há nem sinal desse cara, Olaf, de quem vocês estão sempre falando. Esta pode vir a ser a fase mais feliz da vida de vocês.”
“Admiro o seu otimismo”, disse Klaus, sorrindo para Phil.
“Eu também”, disse Violet.
“Tenpa”, concordou Sunny.
“Pensamento positivo!”, tornou a dizer Phil, e levantou-se para esticar as pernas. Os órfãos Baudelaire assentiram com a cabeça, contudo se entreolharam pelo canto dos olhos. Era bem verdade que o conde Olaf não aparecera, ou pelo menos não aparecera até então. Mas a situação deles estava longe de ser feliz. Eles tinham que acordar diariamente ao bater das panelas, e receber ordens do capataz Flacutono a torto e a direito. No almoço recebiam apenas chicletes – ou, no caso, de Sunny, tortillas imaginárias. E o pior de tudo: trabalhar na serraria era tão exaustivo que não lhes sobrava energia para fazer mais nada. Apesar de estar perto de máquinas complicadas todos os dias, havia muito tempo Violet nem sequer pensava em inventar algo. Apesar de ter livre acesso à biblioteca de Charles, Klaus nem sequer olhara de relance para nenhum dos três livros. E apesar das muitas coisas duras que havia à sua volta para morder, Sunny não se exercitara tanto nessa atividade. As crianças sentiam saudades da época em que estudavam répteis com o tio Monty. Sentiam saudades da época em que moravam com tia Josephine, com a vista espetacular para o Lago Lacrimoso. E, mais do que tudo, é claro, sentiam saudades da época em que moravam com seus pais, quando, afinal de contas, tinham um verdadeiro lar.
“Bem”, disse Violet, depois de uma pausa, “só teremos que trabalhar aqui por mais alguns anos. Assim que eu atingir a maioridade, poderemos usar parte da nossa fortuna. Gostaria de construir um estúdio onde pudesse me dedicar às minhas invenções, talvez com vista para o Lago Lacrimoso, onde antigamente ficava a casa de tia Josephine, assim teríamos sempre conosco a lembrança dela.”
“E eu gostaria de construir uma biblioteca”, disse Klaus, “que seria aberta ao público. E sempre esperei que um dia pudéssemos voltar para a coleção de répteis do tio Monty e cuidar de cada um dos seus espécimes.”
“Dole!”, gritou Sunny, o que significava: “E eu poderia ser uma dentista!”.
“Por favor, me digam o que vem a ser Dole?”
Os órfãos voltaram-se e viram que Charles entrara na serraria. Sorria para eles e tirava algo do bolso.
“Oi, Charles”, disse Violet. “Que bom ver você. Por onde andou?”
“Passando as camisas de Senhor”, respondeu Charles. “Ele tem uma porção de camisas e, como está sempre ocupado, não tem tempo para passá-las ele mesmo. Eu quis vir ver vocês antes, mas demorei muito passando a roupa toda. Trouxe uns salgadinhos para vocês. Só um pouquinho, porque tive medo de que Senhor desse pela falta; aqui está.”
“Muito obrigado”, disse Klaus educadamente. “Vamos dividir com os outros empregados.”
“Tudo bem”, disse Charles, “mas na semana passada eles receberam um tíquete com direito a um desconto de trinta por cento na compra de salgadinhos, de modo que provavelmente o compraram em quantidade.”
“Pode ser”, disse Violet, embora soubesse muito bem que não havia jeito de os operários conseguirem comprar nada. “Charles, estávamos para lhe fazer uma pergunta sobre um dos livros em sua biblioteca. Sabe aquele com o olho na capa? Onde foi que...?”
A pergunta de Violet foi interrompida pelo som das panelas do capataz Flacutono, que batia uma contra a outra. “De volta ao trabalho!”, gritou ele. “De volta ao trabalho! Temos que terminar de amarrar os feixes hoje, e não há tempo para conversa fiada!”
“Eu gostaria apenas de falar com essas crianças por mais alguns minutos, capataz Flacutono”, disse Charles. “Só mais um pouquinho certamente não fará diferença.”
“Não e não, de jeito nenhum!”, disse o capataz Flacutono encaminhando-se para os órfãos. “Recebi ordens de Senhor, e pretendo cumpri-las. A não ser que seja sua intenção falar com Senhor que...”
“Não, nada disso”, apressou-se em dizer Charles, recuando e evitando a aproximação com o capataz Flacutono. “Não creio que seja necessário.”
“Ótimo”, disse o capataz encerrando o assunto. “E agora, levantem-se, anões! Terminou o almoço!”
Os meninos suspiraram e puseram-se de pé. Havia muito tempo tinham desistido de convencer o capataz Flacutono de que não eram anões. Despediram-se de Charles com um aceno e foram caminhando devagar em direção aos feixes de tábuas que os esperavam, com o capataz Flacutono seguindo atrás deles; nesse momento um dos irmãos foi vítima de uma brincadeira de mau gosto que espero que ninguém faça com vocês, nunca. A brincadeira consiste em pôr o pé estendido à frente de uma pessoa que está andando para que ela tropece e caia no chão. Um policial fez isso comigo certa vez, quando eu estava carregando uma bola de cristal que pertencia a uma cigana que lia a sorte das pessoas, e ela nunca me perdoou por ter levado aquele tombo e espatifado sua bola em mil pedaços. É uma brincadeira de mau gosto, muito fácil de fazer, e lamento dizer que o capataz Flacutono a fez com Klaus naquele exato momento. Klaus caiu no chão da serraria, seus óculos pularam do seu rosto e resvalaram pelo chão até esbarrar no feixe de tábuas.
“Ei!”, disse Klaus. “Você me passou uma rasteira!”
Um dos aspectos mais irritantes desse tipo de brincadeira é que a pessoa que a praticou costuma fingir que não sabe do que você está falando. “Não sei do que você está falando”, disse o capataz Flacutono.
Klaus estava muito aborrecido para discutir. Levantou-se, e Violet foi apanhar os óculos dele. Mas, quando ela se abaixou para apanhá-los, viu na mesma hora que havia algo de muito errado.
“Cabo!”, gritou Sunny, e ela falou a verdade. Em seu percurso pela sala, os óculos sofreram atrito forte com o chão, e o esbarrão no feixe de tábuas fora um choque dos mais violentos. Violet pegou os óculos, que estavam iguais a uma peça de escultura moderna feita há muito tempo por uma amiga minha. A escultura intitulava-se Desconjuntada, rachada e irremediavelmente quebrada.
“Os óculos de meu irmão!”, exclamou Violet. “Estão torcidos e rachados! Estão irremediavelmente quebrados, e ele quase não consegue ver coisa alguma sem eles!”
“Azar o dele”, disse o capataz Flacutono, dando de ombros para Klaus.
“Ora, não seja ridículo”, disse Charles. “Ele precisa substituir esses óculos. É algo que até uma criança pode ver.”
“Uma criança que não seja eu”, disse Klaus. “Não consigo ver coisa alguma.”
“Bem, segure o meu braço”, disse Charles. “Você não tem condições de trabalhar numa serraria sem conseguir ver o que está fazendo. Vou levá-lo imediatamente ao oftalmologista.”
“Ah! Obrigada”, disse Violet com alívio.
“Há um oftalmo aqui por perto?”, perguntou Klaus.
“Sim”, respondeu Charles. “O que fica mais perto é Orwell, que escreveu aquele livro de que vocês estavam falando. O consultório fica logo em frente às portas da serraria. Com certeza vocês notaram a construção quando vieram para cá; ela tem o feitio de um olho gigantesco. Vamos indo, Klaus.”
“Ah, não, Charles!”, disse Violet. “Não o leve lá!”
Charles pôs a mão em concha no ouvido. “O que foi que você disse?”, perguntou aos berros. Phil acionara um interruptor na máquina do rolo de corda, e o rolo começara a desfiar-se dentro da gaiola, produzindo um ruído muito forte quando os operários retomaram o trabalho.
“Aquela casa tem a marca do conde Olaf!”, gritou Klaus, mas o capataz Flacutono começara a bater suas panelas, e Charles sacudiu a cabeça para indicar que não estava conseguindo ouvir.
“Ioriar!”, gritou Sunny, no entanto Charles limitou-se a dar de ombros e conduziu Klaus para fora da serraria.
As duas irmãs Baudelaire se entreolharam. O ruído da máquina permanecia e o capataz Flacutono continuava batendo suas panelas. Mas o som mais forte que as duas meninas ouviram não foi nem um nem outro. Mais forte que a máquina, mais forte que as panelas, era o som de seus corações batendo furiosamente quando Charles saiu levando o irmão delas.

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