quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo cinco


“Eu simplesmente não entendo”, disse Klaus, o que não era algo que ele dissesse com muita frequência.
Violet concordou com a cabeça e depois disse alguma coisa que também ela não dizia com muita frequência: “É um quebra-cabeça que não tenho certeza se somos capazes de resolver.”
“Pietrisycamollaviadelrechiotemexity”, disse Sunny, o que era algo que ela só tinha dito uma vez antes daquela. Significava alguma coisa na linha de: “Devo admitir que não tenho a mais pálida ideia do que está acontecendo”, e na primeira vez em que a mais jovem dos Baudelaire dissera isso, ela acabara de ser trazida para casa do hospital onde nascera e estava olhando para os irmãos quando eles se debruçaram sobre o berço para saudá-la. Desta vez, ela estava sentada na ala inacabada do hospital onde trabalhava, olhando para os irmãos enquanto eles tentavam adivinhar o que Hal queria dizer quando mencionara “os fogos Snicket”. Se eu estivesse com as crianças, teria lhes contado uma longa e terrível história sobre homens e mulheres que se juntaram a uma nobre organização apenas para ver suas vidas arrasadas por um homem ganancioso e um jornal preguiçoso, mas os irmãos estavam sozinhos e tudo o que tinham da história eram umas poucas páginas dos cadernos dos Quagmire.
Era noite, e depois de trabalhar o dia inteiro na Biblioteca de Registros, os órfãos Baudelaire se acomodaram o melhor que puderam na seção semi-acabada do Hospital Heimlich, mas lamento ter de dizer que a frase “se acomodaram o melhor que puderam” aqui significa “absolutamente sem comodidade”. Violet encontrara algumas lanternas feitas para uso dos operários da construção quando estivessem trabalhando em cantos escuros, mas quando ela as arrumou de modo a iluminar as suas imediações, a luz só fez tornar mais claro exatamente o quanto eram imundas as suas imediações. Klaus encontrara alguns pedaços de lona usados pelos pintores para não deixar pingar tinta no chão, mas quando ele os enrolou em volta de si mesmo e das irmãs, o calor só fez tornar claro o quanto era enregelante quando o vento da noite soprava através das folhas de plástico pregadas nas tábuas. E Sunny usara os dentes para picar algumas frutas da tigela de Hai e fazer uma espécie de salada de frutas para o jantar, mas cada bocado de fruta picada só fez tornar claro exatamente o quanto era inadequado viver em um lugar tão vazio e solitário. E muito embora estivesse claro para as crianças o quanto eram imundas, enregelantes e inadequadas as suas novas acomodações, não havia mais nada que parecesse claro.
“Queríamos usar a Biblioteca de Registros para saber mais sobre Jacques Snicket”, disse Violet, “mas podemos acabar sabendo mais sobre nós mesmos. Que diabo você acha que está escrito sobre nós naquela pasta que Hal mencionou?”
“Não sei”, respondeu Klaus, “e também não acho que Hal saiba. Ele disse que não lê nada nas pastas.”
“Seerg”, disse Sunny, o que queria dizer: “E eu estava com medo de perguntar para ele algo mais sobre isso”.
“Eu também”, disse Violet. “Só não podemos chamar atenção sobre nós. A qualquer minuto, Hal pode tomar conhecimento de que somos procurados por assassinato, e seremos arrastados para a cadeia antes de ficarmos sabendo mais alguma coisa.”
“Nós já escapamos de uma cela de cadeia”, disse Klaus. “Não sei se conseguiremos fazer isso de novo.”
“Eu pensei que se tivéssemos uma chance de examinar aquelas páginas dos cadernos de Duncan e Isadora”, disse Violet, “descobriríamos as respostas para as nossas perguntas, mas as anotações dos Quagmire são muito difíceis de ler.”
Klaus franziu o cenho e moveu alguns fragmentos das páginas dos Quagmire como se fossem peças de um quebra-cabeça.
“O lançador de arpões rasgou estas páginas em pedacinhos”, disse ele. “Olhe o que Duncan escreveu aqui: ‘Jacques Snicket trabalhou como voluntário para C.S.C., que significa...’, e depois está rasgado, bem no meio da frase.”
“E nesta página”, disse Violet, pegando uma folha na qual não aguento nem pensar, “está escrito: Em fotos ou em público, é coisa clara: Muito raramente Snicket mostra a cara. Isadora deve ter escrito isso. É um dístico rimado”.
“Este fragmento diz ‘apartamentos”, disse Klaus, “e contém algo que parece ser a metade de um mapa. Pode ter algo a ver com o apartamento onde moramos com Jerome e Esmé Squalor.”
“Nem me lembre disso”, disse Violet, estremecendo só de pensar em todas as desventuras que as crianças sofreram na Avenida Sombria 667.
“Rabave”, disse Sunny, apontando para um dos pedaços de papel.
“Há dois nomes nesta página”, disse Violet. “Um deles é Al Funcoot.”
“Esse é o homem que escreveu aquela peça horrível que Olaf nos forçou a representar”, disse Klaus.
“Eu sei”, disse Violet, “mas o outro nome eu não reconheço: Ana Grama’.”
“Bem, os Quagmire estavam pesquisando o conde Olaf e o seu plano sinistro”, disse Klaus. “Talvez Ana Grama seja um dos parceiros de Olaf.”
“Provavelmente não é o homem com mão de gancho”, disse Violet, “nem o careca de nariz comprido. Ana, normalmente, não é um nome de homem.”
“Poderia ser o nome de uma das mulheres de cara branca”, disse Klaus.
“Orlando!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Ou aquele que não parece homem nem mulher”.
“Ou alguém que ainda nem conhecemos”, disse Violet com um suspiro, e voltou a atenção para um outro pedaço de papel. “Esta página não está nem um pouco rasgada, mas tudo o que ela contém é uma longa lista de datas. Parece que alguma coisa estava acontecendo a cada doze semanas ou coisa assim.”
Klaus pegou o menor de todos os fragmentos e ergueu-o para que as irmãs vissem. Atrás dos óculos, seus olhos pareciam muito tristes.
“Este pedaço diz apenas ‘fogo’“, disse ele, mansamente, e os três Baudelaire baixaram tristemente o olhar para o chão empoeirado. Com qualquer palavra, existem associações subconscientes, o que quer dizer simplesmente que certas palavras fazem você pensar em certas coisas, mesmo que não queira. A palavra “bolo”, por exemplo, pode lembrar o seu aniversário, e as palavras “diretor da prisão” podem lembrar alguém que você não vê há muito, muito tempo. A palavra “Beatrice” me lembra uma organização de voluntários que estava fervilhando de corrupção, e a palavra “meia-noite” lembra-me de que preciso continuar escrevendo este capítulo muito depressa, caso contrário provavelmente me afogarei. Mas os Baudelaire tinham todos os tipos de associações subconscientes com a palavra “fogo”, e nenhuma delas era agradável para se pensar. A palavra fez as crianças pensarem em Hal, que mencionara algo sobre os fogos Snicket naquela tarde na Biblioteca de Registros. “Fogo” fez os jovens pensarem em Duncan e Isadora Quagmire, que tinham perdido os pais e o irmão Quigley em um incêndio. E, é claro, a palavra “fogo” fez os Baudelaire pensarem no incêndio que destruíra o seu lar e dera início à desventurada jornada que os levara até a ala semi-acabada do Hospital Heimlich. As três crianças apinharam-se em silêncio debaixo das suas lonas, ficando cada vez com mais frio enquanto pensavam em todos os fogos e associações subconscientes que havia na vida dos Baudelaire.
“Aquela pasta deve conter as respostas de todos esses mistérios”, disse Violet por fim. “Precisamos descobrir quem foi Jacques Snicket, e por que ele tinha a mesma tatuagem que o conde Olaf.”
“E precisamos saber por que ele foi assassinado”, acrescentou Klaus, “e precisamos saber qual o segredo de C.S.C.”
“Nós”, disse Sunny, o que queria dizer: “E nós precisamos saber por que há um retrato nosso na pasta”.
“Temos de pôr as mãos naquela pasta”, disse Violet.
“É mais fácil falar do que fazer”, salientou Klaus. “Hal nos disse claramente para não tocar em nenhuma das pastas em que não estivermos trabalhando, e ele vai estar bem aqui, junto conosco, na Biblioteca de Registros.”
“Simplesmente vamos ter de achar um jeito”, retrucou Violet. “Agora vamos tentar dormir bem esta noite, para que possamos permanecer alertas o dia todo amanhã e deitar as mãos na pasta sobre os fogos Snicket.”
Klaus e Sunny assentiram com a cabeça e arrumaram as lonas, improvisando uma espécie de cama, enquanto Violet desligava as lanternas uma por uma. Os três Baudelaire ficaram bem juntinhos o resto da noite, dormindo o que era possível dormir em um chão imundo, com um vento gelado soprando através do seu inadequado lar, e pela manhã, depois de um desjejum de restos de salada de frutas, eles foram andando até a metade completa do Hospital Heimlich e, cautelosamente, desceram todas aquelas escadas, passaram pelos alto-falantes de intercomunicador e pelos mapas confusos. Hal já estava na Biblioteca de Registros quando eles chegaram, destrancando os arquivos de aço com o seu comprido anel de chaves, e imediatamente Violet e Klaus começaram a trabalhar arquivando as informações que tinham chegado durante a noite, enquanto Sunny voltava a atenção dos seus dentes para os arquivos de aço que precisavam ser abertos. Mas as cabeças dos Baudelaire não estavam no arquivamento ou em arquivos de aço. Suas cabeças estavam naquela pasta.
Quase tudo neste mundo é mais fácil falar do que fazer, com exceção de “oferecer subsídios sistemáticos à furtiva, e tão suscetível a cistos, irmã de Sísifo”, que é uma coisa mais fácil de fazer do que de falar. Mas ser lembrado desse fato é frustrante. Enquanto arquivava um pedaço de papel que continha informações sobre sibas em M de “moluscos”, Violet disse consigo mesma: “Vou simplesmente descer o corredor S e procurar em Snicket”. Mas Hal já estava no corredor S, arquivando uma coleção de pinturas de seringas, e ela não pôde fazer o que dissera. Enquanto arquivava uma pesquisa sobre dedais em P de “proteção para o polegar”, Klaus disse consigo mesmo: “Vou simplesmente descer o corredor F e procurar em F de ‘fogos’“, mas àquela altura Hal já tinha passado para o corredor F e estava abrindo um arquivo de aço para reorganizar as biografias de famosos finlandeses pescadores. E Sunny torceu os dentes para um lado e para o outro, tentando abrir um dos arquivos de aço trancados no corredor B, pensando que talvez a pasta estivesse lá dentro, arquivada em “Baudelaire”, mas quando a fechadura finalmente se quebrou, logo depois do almoço, a irmã mais nova abriu o arquivo de aço e viu que estava absolutamente vazio.
“Nil”, disse Sunny enquanto as três crianças faziam um breve intervalo para frutas na antecâmara.
“Nem eu”, disse Klaus. “Mas como poderemos pôr as mãos nessa pasta se Hal está sempre por perto?”
“Talvez possamos simplesmente pedir a ele que a encontre para nós”, disse Violet. “Se esta fosse uma biblioteca comum, pediríamos ajuda à bibliotecária. Em uma Biblioteca de Registros, talvez devêssemos pedir a Hal.”
“Vocês podem me pedir o que quiserem”, disse Hal, entrando na antecâmara, “mas primeiro tenho de perguntar uma coisa a vocês.” Ele foi até as crianças e apontou para uma das frutas. “Aquilo é uma ameixa ou um caqui?”, perguntou ele. “Receio que a minha vista não seja mais o que era.”
“É uma ameixa”, disse Violet, entregando-a a ele.
“Ah, bom”, retrucou Hal, examinando a fruta para ver se estava machucada. “Eu não estava mesmo com vontade de comer caqui. E agora, qual é a sua pergunta?”
“Nós tivemos uma discussão sobre uma certa pasta”, começou Klaus cautelosamente, para não levantar as suspeitas de Hal. “Sei que não é costumeiro que nós leiamos o conteúdo das pastas, mas, se estivéssemos muito curiosos, seria correto abrir uma exceção?”
Hal deu uma mordida na ameixa e franziu o cenho.
“Por que vocês haveriam de querer ler o conteúdo de uma das pastas?”, perguntou ele. “Crianças deveriam ler livros alegres com figuras coloridas, e não informações oficiais da Biblioteca de Registros.”
“Mas nós estamos interessados em informações oficiais”, disse Violet, “e estamos tão atarefados arquivando coisas que não temos oportunidade de ler nada nas pastas. É por isso que temos esperança de levar uma conosco para ler em casa.”
Hal sacudiu a cabeça. “A papelada é a coisa mais importante que fazemos neste hospital”, disse ele, severo. “É por isso que só é permitido tirar as pastas da sala se houver uma razão muito importante. Por exemplo...”
Mas os Baudelaire não chegaram a ouvir o exemplo, porque Hal foi interrompido por uma voz vinda do intercomunicador.
Atenção!”, disse a voz, e as crianças se voltaram para encarar um pequeno alto-falante quadrado. “Atenção! Atenção!”
Os três irmãos se entreolharam, chocados e horrorizados, e depois olharam para a parede onde estava pendurado o alto-falante. A voz que vinha do intercomunicador não era a de Babs. Era uma voz apagada, e era uma voz estridente, mas não era a voz da diretora de Recursos Humanos do Hospital Heimlich. Era uma voz que os Baudelaire ouviam onde quer que estivessem, não importa onde morassem ou quem tentasse protegê-los; e muito embora as crianças tivessem ouvido essa voz antes tantas vezes, jamais se acostumaram com o seu tom de escárnio, como se a pessoa que falava estivesse contando uma piada com um final horrível e violento.
Atenção!”, disse a voz de novo, mas não era preciso dizer aos órfãos para prestar atenção à terrível voz do conde Olaf. “Babs pediu demissão do Hospital Heimlich”, disse a voz, e os irmãos tiveram a sensação de que podiam ver o sorriso cruel que estava na cara de Olaf sempre que ele estava contando mentiras. “Ela decidiu perseguir a carreira de dublê e começou imediatamente a se atirar do alto de edifícios. Meu nome é Mattathias, e sou o novo diretor de Recursos Humanos. Vou conduzir uma inspeção completa de todos os funcionários aqui do Hospital Heimlich, sem exceção, a começar imediatamente. Isso é tudo.
“Uma inspeção”, repetiu Hal, terminando de comer a sua ameixa. “Que absurdo. Eles deviam acabar a outra metade do hospital, em vez de perder tempo inspecionando tudo.”
“O que acontece durante uma inspeção?”, perguntou Violet.
“Ora, eles apenas vêm e dão uma olhada em você”, disse Hal despreocupadamente, e começou a andar, de volta para o trabalho. “Há muito mais informações para arquivar.”
“Já vamos, um minutinho só”, prometeu Klaus. “Ainda não acabei de comer a minha fruta.”
“Bem, apressem-se”, disse Hal, e saiu da antecâmara.
Os Baudelaire se entreolharam, preocupados e desalentados.
“Ele nos encontrou outra vez,” disse Violet, falando baixinho para Hal não ouvir. Com o som do seu coração batendo assustado, ela mal podia ouvir a própria voz.
“Ele deve saber que estamos aqui”, concordou Klaus. “É por isso que está fazendo a inspeção. Para que possa nos encontrar e nos sequestrar.”
“Contar!”, disse Sunny.
“Contar para quem?”, perguntou Klaus. “Todo mundo pensa que o conde Olaf está morto. As pessoas não vão acreditar em três crianças dizendo que ele se disfarçou como Mattathias, o novo diretor de Recursos Humanos.”
“Especialmente três crianças que saíram na primeira página d’O Pundonor Diário como procuradas por assassinato”, acrescentou Violet. “Nossa única chance é pegar aquela pasta sobre os fogos Snicket e ver se encontramos ali algum indício que possa levar Olaf à justiça.”
“Mas não é permitido levar pastas para fora da Biblioteca de Registros”, disse Klaus.
“Então teremos de ler aqui mesmo”, disse Violet.
“Isso é mais fácil de falar do que de fazer”, assinalou Klaus. “Nem sequer sabemos em que letra procurar, e Hal estará nesta sala conosco o dia inteiro.”
“Noite!”, disse Sunny.
“Você está certa, Sunny”, disse Violet. “Hal está aqui o dia inteiro, mas vai para casa à noite. Quando ficar escuro, vamos sair sorrateiramente da ala semi-acabada e voltar aqui. É o único jeito de conseguirmos encontrar a pasta.”
“Você está esquecendo uma coisa”, disse Klaus. “A Biblioteca de Registros vai estar muito bem trancada à noite. Hal tranca todos os arquivos de aço, está lembrada?”
“Eu não tinha pensado nisso”, admitiu Violet. “Posso inventar uma gazua, mas não tenho certeza de que terei tempo de inventar gazuas suficientes para funcionar em todos aqueles arquivos de aço.”
“Dixu!”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “E eu preciso de várias horas para abrir um arquivo de aço com os dentes!”.
“Sem as chaves, nunca vamos conseguir pegar a pasta”, disse Klaus, “e sem a pasta, nunca derrotaremos o conde Olaf. O que podemos fazer?”
As crianças deram um suspiro e pensaram muito, concentrando-se ao máximo e olhando fixamente para a frente ao fazer isso, e assim que olharam fixamente para a frente, viram uma coisa que lhes deu uma ideia. A coisa que viram era pequena, redonda, tinha uma pele colorida e lustrosa, e os jovens puderam ver que era um caqui. Porém os Baudelaire sabiam que quando a vista de alguém não é mais o que era, o caqui pode parecer uma ameixa. Os órfãos Baudelaire ficaram ali sentados olhando para o caqui, e começaram a pensar como poderiam enganar alguém fazendo-o pensar que uma coisa era, na realidade, outra coisa.

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