quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Capítulo cinco


A expressão “seguir o exemplo” não significa necessariamente seguir um bom exemplo, embora muitas pessoas não saibam disso. Se você segue o exemplo, isso quer dizer que você está fazendo uma coisa que outra pessoa acabou de fazer. Se todos os seus amigos resolvessem pular de uma ponte sobre as águas geladas de um rio ou do oceano, e você pulasse também logo depois deles, você estaria seguindo o exemplo. Dá para ver por que seguir o exemplo pode ser uma coisa perigosa: você poderia se afogar simplesmente porque alguém fez o mesmo antes.
Isso explica por que, quando Violet se levantou do feno e disse: “Como vai o senhor, instrutor Genghis?”, Klaus e Sunny relutaram em seguir o seu exemplo. Era inconcebível para os Baudelaire mais novos que sua irmã não houvesse reconhecido o conde Olaf, e que ela não houvesse se levantado de um salto e na mesma hora contado ao vice-diretor Nero o que estava acontecendo. Por um instante, Klaus e Sunny chegaram a pensar que Violet havia sido hipnotizada, como acontecera com Klaus quando os órfãos Baudelaire moraram em Paltryville. Mas os olhos de Violet não pareciam esgazeados nem mais arregalados do que o normal, tampouco o tom de voz com que dissera “Como vai o senhor, instrutor Genghis?” tinha qualquer semelhança com o tom de voz que Klaus apresentara quando estava sob o efeito da hipnose.
Por mais intrigados que estivessem, no entanto, os Baudelaire mais novos confiavam plenamente em sua irmã. No passado, ela havia descoberto um jeito para escapar do casamento com o conde Olaf quando isso parecia ser inevitável, palavra que aqui significa “horror e desgosto para a vida toda”. Noutra ocasião fabricara uma gazua improvisada quando a necessidade era urgentíssima. E com seu talento de inventora já havia ajudado os irmãos a escapar de umas sanguessugas muito famintas. Ou seja: Klaus e Sunny sabiam que Violet devia ter um bom motivo para cumprimentar polidamente o conde Olaf em vez de denunciá-lo na mesma hora, embora não soubessem qual, e por isso, depois de uma pausa de hesitação, seguiram o exemplo.
“Como vai o senhor, instrutor Genghis?”, disse Klaus.
“Guefidô!”, gritou Sunny.
“É um prazer conhecê-los”, disse o instrutor Genghis com um risinho no canto da boca. Os Baudelaire perceberam que ele estava convencido de os haver enganado e que estava muito contente consigo mesmo.
“Então, o que o senhor acha, instrutor Genghis?”, perguntou o vice-diretor Nero. “Algum desses órfãos tem as pernas que o senhor está procurando?”
O instrutor Genghis coçou o turbante e baixou os olhos sobre as crianças como se elas fossem deliciosos pratos num bufê em vez de cinco órfãos. “Não tenha dúvida”, disse com a voz chiada que os Baudelaire sempre ouviam em seus pesadelos. A mão ossuda apontou primeiro para Violet, depois para Klaus e enfim para Sunny. “Essas três crianças aqui são exatamente o que eu procurava, sem sombra de dúvida. Quanto aos gêmeos, entretanto, não me serviriam para nada.”
“A mim tampouco”, disse Nero, sem julgar necessário assinalar que os Quagmire eram trigêmeos. Em seguida, consultou o relógio. “Bem, está na hora do meu concerto. Venham comigo para o auditório, vocês todos, a menos que estejam a fim de comprar um saco de balas para mim.”
Os órfãos Baudelaire esperavam jamais ter que comprar um presente para o vice-diretor – muito menos um saco de balas, guloseimas que as crianças adoravam e fazia muito tempo não comiam. Por isso seguiram Nero, deixando o Barraco dos Órfãos, e atravessaram o gramado em direção ao auditório. Os Quagmire seguiram o exemplo dos Baudelaire, e caminhavam olhando para os edifícios em forma de lápides, ainda mais sinistros vistos ao luar.
“Esta noite”, disse Nero, “tocarei uma sonata para violino que eu mesmo compus. Dura apenas cerca de meia hora, mas tocarei a peça doze vezes seguidas.”
“Que ótimo!”, disse o instrutor Genghis. “Se me permite dizer, vice-diretor Nero, sou um tremendo fã de sua música. Seus concertos foram uma das principais razões que me trouxeram à Prep Prufrock.”
“É sempre bom ouvir isso”, disse Nero. “Difícil encontrar pessoas que me apreciem na justa medida do meu gênio.”
“Sei como se sente”, disse o instrutor Genghis. “Sou o melhor professor de ginástica do mundo, e no entanto nunca houve uma parada sequer em minha homenagem.”
“Chocante”, disse Nero, balançando a cabeça.
Os Baudelaire e os Quagmire, que caminhavam atrás dos adultos, entreolharam-se enojados com a conversa de gabolices que lhes chegava aos ouvidos, mas não ousaram falar um com o outro até entrarem no auditório e escolher cadeiras o mais longe possível de Carmelita Spats e seus detestáveis amigos.
Há uma vantagem, e uma só, para alguém que não sabe tocar violino mas insiste em tocá-lo, e a vantagem é que essas pessoas em geral tocam tão alto que não conseguem ouvir se a plateia está conversando. Conversar durante um concerto é uma enorme grosseria da plateia, não resta dúvida; entretanto, se a execução é muito ruim e dura seis horas, pode-se perdoar tal grosseria. Foi o que aconteceu naquela noite, quando, depois de fazer a própria apresentação com uma fala curta e gabola, o vice-diretor Nero postou-se no centro do palco do auditório e começou a tocar sua sonata pela primeira vez. Quando se ouve uma peça de música clássica, às vezes é divertido tentar adivinhar o que teria inspirado o compositor a pôr no papel justamente aquelas notas e não outras. O compositor pode se inspirar na natureza e escrever uma sinfonia que imita os sons de pássaros e árvores. Ou pode se inspirar na cidade e escrever um concerto que imita os sons do tráfego e das calçadas. No caso daquela sonata que as crianças ouviam, Nero parecia ter se inspirado em alguém espancando um gato, porque além de ser tocada num som altíssimo a música era entremeada de guinchos, o que permitia que a plateia conversasse sem atrapalhar o violinista. Enquanto Nero se embevecia atacando as notas de seu violino como se estivesse serrando uma floresta, os alunos da Prep Prufrock começaram a conversar entre si. Os Baudelaire puderam até reparar que o sr. Remora e a sra. Bass, em vez de avaliar – como era dever dos professores – quais estudantes teriam que presentear Nero com um saco de balas, riam às gargalhadas e repartiam uma banana na última fila. Apenas o instrutor Genghis, que se sentara bem no centro da primeira fila, parecia estar prestando atenção à música.
“Nosso professor de ginástica tem qualquer coisa de assustador”, disse Isadora.
“Com certeza”, concordou Duncan. “É o traço de dissimulação que aparece nos olhos dele.”
“Aquele olhar dissimulado”, disse Violet olhando, ela própria, dissimuladamente para certificar-se de que o instrutor Genghis não estava atento às suas palavras, “é porque ele na verdade não é o instrutor Genghis. Na verdade, ele não é instrutor coisa nenhuma. É o conde Olaf disfarçado.”
“Eu sabia que você o havia reconhecido!”, disse Klaus.
“Conde Olaf?”, falou Duncan. “Que horror! Como foi que ele seguiu vocês até aqui?”
“Nusvec”, disse Sunny, melancólica.
“Minha irmã está querendo dizer algo como: 'Ele nos segue por toda a parte'“, Violet explicou, “e ela tem razão. Mas não importa como foi que nos encontrou. O que importa é que ele está aqui e sem a menor dúvida tem algum plano para ficar com a nossa fortuna.”
“E por que você fingiu não ter reconhecido ele?”, perguntou Klaus.
“Pois é”, disse Isadora, “se você tivesse contado ao vice-diretor Nero que o instutor na verdade é o conde Olaf, Nero poderia expulsar esse... esse bisbórria para bem longe daqui.”
Violet balançou a cabeça indicando que discordava dela e que não se incomodava com a palavra “bisbórria”. “Com o conde Olaf, esperto como ele é, isso não ia dar certo”, disse. “Sei que se eu tentasse contar a Nero que Genghis não é professor de ginástica, o conde Olaf ia encontrar uma saída, uma escapatória, como fez com tia Josephine, com tio Monty e com todos os outros.”
“Bem pensado”, reconheceu Klaus. “Além do mais, se Olaf está achando que nos enganou, isso pode nos dar um pouco mais de tempo para descobrir exatamente o que ele pretende aprontar.”
“Alé!”, observou Sunny.
“Minha irmã está nos lembrando que podemos verificar se alguns dos ajudantes dele estão por perto”, traduziu Violet. “Bem lembrado, Sunny. Eu não tinha pensado nisso.”
“Ajudantes do conde Olaf?”, perguntou Isadora. “Não é justo. Ele já é mau do jeito que é, sem ajuda de outras pessoas.”
“Seus ajudantes são tão maus quanto ele”, disse Klaus. “Há duas mulheres de rosto bem branco que nos forçaram a representar numa peça. Há um homem com mãos de gancho que ajudou Olaf a assassinar nosso tio Monty.”
“E o careca que mandava na gente o tempo todo quando trabalhávamos na serraria, não esqueça!”, acrescentou Violet.
“Eginu!”, disse Sunny, querendo dizer: “E o ajudante que não parecia homem nem mulher”, ou algo do gênero.
“Que quer dizer 'Eginu'?”, perguntou Duncan, tirando seu caderno do bolso. “Vou anotar por escrito todos esses detalhes sobre Olaf e sua trupe.”
“Por quê?”, perguntou Violet.
“Por quê?!”, repetiu Isadora. “Porque vamos ajudar vocês, isso sim. Ou vocês acham que nós vamos ficar aqui sentados enquanto vocês tentam escapar das garras de Olaf?!”
“Mas o conde Olaf é muito perigoso”, disse Klaus. “Se tentarem nos ajudar, vão arriscar a vida de vocês.”
“Não se preocupe”, disse Duncan, embora eu lamente dizer a vocês que os Quagmire deveriam, sim, ter se preocupado. Deveriam ter se preocupado, e muito. Duncan e Isadora foram bastante corajosos e solidários ao tentarem ajudar os órfãos Baudelaire, mas frequentemente paga-se um preço alto pela coragem. Quando digo “preço” não estou me referindo a algumas notinhas verdes e pronto. Estou pensando num preço muito, muito maior, um preço tão terrível que não dá para falar dele agora; tenho que voltar à cena que eu estava escrevendo.
“Não se preocupe”, disse Duncan. “Precisamos é de um plano. De saída, precisamos provar a Nero que o instrutor Genghis é na verdade o conde Olaf. Como podemos fazer isso?”
“Nero tem aquele computador”, disse Violet, pensativa. “Há um retratinho de Olaf gravado no computador, lembra?”
“Lembro sim”, disse Klaus concordando com a cabeça. “Ele nos falou que o computador de última geração manteria Olaf à distância. Não foi bem o que aconteceu.”
Sunny mostrou-se de acordo, e Violet pegou-a no colo. Nero tinha chegado a um ponto da sonata em que os guinchos eram ensurdecedores, e as crianças precisaram aproximar-se umas das outras para prosseguir na conversa.
“Se procurarmos Nero logo de manhã cedo”, disse Violet, “poderemos falar com ele a sós, sem Olaf se intrometer. Pediremos para usar o computador. Nero pode não acreditar em nós, mas o computador deve ser capaz de convencê-lo pelo menos a investigar o instrutor Genghis.”
“Talvez Nero mande ele tirar o turbante”, disse Isadora, “e aí apareça a tal sobrancelha única que ocupa o lugar de duas.”
“Ou tirar aqueles caríssimos tênis de corrida”, disse Klaus, “e aí fique à vista a tatuagem no tornozelo.”
“Mas se vocês falarem com Nero”, disse Duncan, “o instrutor Genghis ficará sabendo que vocês desconfiam dele.”
“Por isso teremos que agir com a máxima cautela”, disse Violet. “Queremos que Nero fique de olho em Olaf sem que Olaf fique de olho em nós.”
“E enquanto isso”, disse Duncan, “Isadora e eu faremos nossa própria investigação. Talvez a gente consiga descobrir algum daqueles ajudantes que vocês descreveram.”
“Isso seria muito útil”, disse Violet, “se vocês estiverem mesmo decididos a nos ajudar.”
“Assunto encerrado”, Duncan disse e acariciou a mão de Violet.
Não tocaram mais no assunto. Não disseram mais nem uma palavra sobre o conde Olaf por todo o resto da sonata de Nero, nem quando ele a executou pela segunda vez, ou pela terceira, ou quarta, quinta, sexta, quando então a noite já avançara bastante. Os órfãos Baudelaire e os trigêmeos Quagmire limitaram-se a ficar aquele tempo todo partilhando o conforto do companheirismo, uma expressão que aqui significa muitas coisas, coisas felizes – apesar de ser bem difícil ser feliz ouvindo uma sonata horrível executada repetidas vezes sem parar por um homem que não sabe tocar violino, e vivendo num horrendo colégio interno com um homem perverso que está nas proximidades, sem dúvida bolando planos atrozes. Momentos felizes eram raros e inesperados na vida dos Baudelaire, e os três irmãos tinham aprendido a aceitar esse destino. Duncan continuou segurando a mão de Violet enquanto lhe falava de concertos horríveis que tinha visto na época em que os Quagmire pais ainda eram vivos, e ela estava contente de ouvir as histórias do amigo. Isadora havia começado a trabalhar num poema sobre livros e bibliotecas e mostrava a Klaus as anotações do caderno; Klaus adorou dar sugestões. Sunny aninhou-se no colo de Violet e mordia o braço da poltrona, encantada com pôr os dentes num material ao mesmo tempo tão macio e tão resistente.
Tenho certeza de que vocês saberiam, mesmo se eu não lhes contasse, que as coisas estavam a ponto de piorar muito para os Baudelaire, mas vou terminar este capítulo com esse momentâneo conforto do companheirismo, em vez de saltar logo para os desagradáveis acontecimentos da manhã seguinte, ou para as terríveis provações dos dias subsequentes, ou para o pavoroso crime que determinou o fim da estada dos Baudelaire na Prep Prufrock. Tais fatos aconteceram, não há dúvida, e não adianta tentar negá-los. No entanto, por ora vamos ignorar a terrível sonata, os medonhos professores, os estudantes implicantes e provocadores, e todas as outras circunstâncias ainda mais desgraçadas que virão muito em breve. Vamos curtir, no finzinho deste capítulo, o último momento de felicidade que essas crianças terão por muito, muito tempo.

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