sexta-feira, 1 de julho de 2016

Prólogo

Los Angeles, 2012

As noites no Mercado das Sombras eram as preferidas de Kit.
Eram as noites em que ele podia sair de casa e ajudar o pai no estante. Frequentava o Mercado das Sombras desde os 7 anos. Oito anos mais tarde, ele ainda tinha a mesma sensação de choque e encanto quando caminhava pelo Beco Kendall, na parte antiga de Pasadena, em direção e uma parede de tijolos – e a atravessava para um mundo explosivo de luz e cor.
A apenas alguns quarteirões, havia lojas da Apple vendendo engenhocas e laptops, grandes restaurantes e mercados de alimentos orgânicos, lojas multimarcas e butiques da moda. Mas aqui o beco desembocava em uma praça imensa, protegida por todos os lados para impedir que os descuidados vagassem para o Mercado das Sombras.
O Mercado das Sombras de Los Angeles surgia nas noites quentes, e, ao mesmo tempo, existia e não existia. Kit sabia que quando passava pelas fileiras de estandes coloridos e decorados, estava caminhando por um lugar que desapareceria quando o sol nascesse.
Mas quando estava lá, ele gostava. Uma coisa era ter o Dom quando ninguém ao seu redor o tinha. O Dom era como seu pai chamava, apesar de Kit não considerar um dom. Hyacinth, a adivinha de pele azul do estande na beira do mercado, chamava de Visão.
Esse nome fazia mais sentido para Kit. Afinal de contas, a única coisa que o separava das crianças normais era o fato de que ele podia ver coisas que os outros não viam. Às vezes, eram coisas inofensivas: duendes elevando-se da grama seca nas calçadas rachadas, os rostos pálidos de vampiros em postos de gasolina tarde da noite, um homem estalando os dedos em uma bancada de lanchonete; quando Kit olhava outra vez, via que os dedos eram garras de lobisomem. Isso acontecia desde que ele era criança, e também acontecia com seu pai. A Visão era hereditária.
Combater o impulso de reagir era o mais difícil. Uma tarde, voltando da escola, ele viu um bando de lobisomens brigando por território, se destruindo em um parquinho deserto. Ele ficou parado na rua e gritou até a polícia aparecer, mas eles não viram nada. Depois disso seu pai passou a mantê-lo em casa, deixando que estudasse sozinho com livros antigos. Kit jogava videogame no porão e raramente saía, durante o dia, ou quando o Mercado das Sombras estava ativo.
No Mercado, ele não tinha que se preocupar com nenhuma reação. O lugar era colorido e bizarro até para os próprios habitantes. Havia ifrits mantendo os gênios performáticos em coleiras, e belas garotas fadas dançando diante de estandes que vendiam pós brilhantes e perigosos. Uma banshee cuidava de uma tenda que prometia revelar quando você morreria, apesar de Kit não conseguir imaginar por que alguém gostaria de saber isso. Um cluricaun se oferecia para encontrar coisas perdidas, e uma bruxa jovem e bonita com cabelos curtos, verde néon, vendia pulseiras encantadas e pingentes para atrair romance. Quando Kit lhe encarou, ela sorriu.
— Ei, Romeu. — O pai o cutucou nas costelas. — Eu não te trouxe aqui para flertar. Me ajude com a placa.
Ele chutou o banquinho de metal para Kit e lhe entregou uma placa de madeira, na qual tinha talhado o nome do estande: JOHNNY ROOK.
Não é o título mais criativo, Kit pensou, enquanto escalava para pendurar a placa, para alguém cuja clientela incluía feiticeiros, lobisomens, vampiros, duendes, criaturas, espíritos e, uma vez, uma sereia (se encontraram secretamente no Sea World).
Mesmo assim, talvez uma placa simples fosse a melhor opção. O pai de Kit vendia poções e pós – e até, por baixo dos panos, algumas armas de legalidade duvidosa – mas não era nada disso que atraía as pessoas para a barraca. O fato é que Johnny Rook era um cara que sabia das coisas. Não acontecia nada no Submundo de Los Angeles que ele não ficasse sabendo, não havia ninguém tão poderoso de quem ele não soubesse algum segredo, ou uma maneira de entrar em contato. Ele era um cara que tinha informações, e, se você tivesse dinheiro, Johnny contava.
Kit pulou do banquinho, e o pai lhe deu duas notas de cinquenta.
— Arrume uns trocados com alguém — falou, sem olhar para o menino. Ele tinha pegado o livro vermelho de registros e o estava analisando, provavelmente tentando descobrir quem lhe devia dinheiro. — Não tenho notas menores.
Kit fez que sim com a cabeça e saiu da barraca, satisfeito por se retirar. Qualquer tarefa era uma desculpa para andar por aí. Ele passou por um estande cheio de flores brancas que exalavam une aroma sombrio, doce e venenoso, e outro, onde um grupo de pessoas com roupas caras distribuía panfletos na frente de uma placa que dizia PARTE SOBRENATURAL? VOCÊ NÃO É O ÚNICO. OS SEGUIDORES DO GUARDIÃO QUEREM QUE VOCÊ SE INSCREVA NA LOTERIA DO FAVOR! DEIXE QUE A SORTE ENTRE EM SUA VIDA!
Uma mulher de lábios vermelhos e cabelos escuros tentou colocar um panfleto na mão dele. Quando Kit não o pegou, ela lançou um olhar sensual por cima dele, em direção a Johnny, que sorriu. Kit revirou os olhos – havia milhões de pequenos cultos que surgiam e adoravam algum demônio ou anjo menor. Nada parecia resultar deles.
Kit procurou uma de suas barracas favoritas e comprou um copo de raspadinha gelada vermelha, com gosto de maracujá, framboesa e creme, tudo misturado. Ele tentava ter cuidado quanto a de quem comprar – havia balas e bebidas no Mercado que poderiam arruinar a sua vida – mas ninguém correria riscos com o filho de Johnny Rook. Johnny Rook sabia de coisas sobre todo mundo. Quem o irritasse poderia descobrir que seu segredo não era mais secreto.
Kit voltou para a bruxa com as joias encantadas. Ela não tinha uma barraca; estava, como sempre, sentada sobre um sarongue estampado, do tipo de tecido barato e colorido que se podia comprar em Venice Beach. E levantou o olhar quando ele se aproximou.
— Oi, Wren — falou ele.
Duvidava de que esse fosse o seu nome verdadeiro, mas era como todos no Mercado a chamavam.
— Oi, bonitão. — Ela chegou para o lado e abriu caminho para ele, as pulseiras e tornozeleiras balançando. — O que o traz às minhas humildes instalações?
Ele sentou ao lado dela no chão. Seu jeans era velho, com buracos nos joelhos. Ele gostaria de poder guardar o dinheiro do pai para comprar roupas novas.
— Meu pai precisa de troco para duas notas de cinquenta.
— Shh. — Ela acenou para ele. — Tem pessoas aqui que cortariam sua garganta por duas notas de cinquenta e venderiam seu sangue como togo de dragão.
— Não comigo — afirmou Kit, confiante. — Ninguém tocaria um dedo em mim. — Ele se inclinou para trás. — A não ser que eu queira.
— E eu aqui achando que já gastara todos os meus encantamentos do flerte desavergonhado.
— Eu sou seu encantamento de flerte desavergonhado. — Ele sorriu para duas pessoas que estavam passando: um menino alto e bonito, com uma mecha branca no cabelo escuro, e uma menina morena cujos olhos estavam cobertos por óculos escuros.
Eles o ignoraram. Mas Wren se levantou ao ver os dois frequentadores do Mercado que vinham logo atrás: um homem corpulento e uma mulher de cabelos castanhos que desciam pelas costas num rabo de cavalo torcido.
— Amuletos de proteção? — perguntou Wren, num tom encantador. — Proteção garantida. Também tenho ouro e bronze, além de prata.
A mulher comprou um anel com uma pedra lunar e seguiu seu caminho, conversando com o companheiro.
— Como você sabia que eles eram lobos? — perguntou Kit.
— O olhar dela — disse Wren. — Licantropes são compradores impulsivos. E os olhares deles evitam qualquer coisa de prata. — Ela suspirou. — Tenho trabalhado muito com amuletos de proteção desde que aqueles assassinatos começaram.
— Que assassinatos?
Wren fez uma careta.
— Algum tipo de magia louca. Cadáveres aparecendo cobertos por símbolos demoníacos. Queimados, afogados, mãos decepadas; todo tipo de boatos. Como você não ouviu falar? Não presta atenção em fofocas?
— Não — respondeu Kit. — Na verdade, não. — Ele observava o casal de lobisomens caminhando para a extremidade norte do Mercado, onde os licantropes costumavam se reunir para comprar o que quer que precisassem; talheres de madeira e ferro, ervas, calças rasgadas (ele torcia).
Apesar de o Mercado ser, supostamente, um lugar onde integrantes do Submundo interagiam, eles tendiam a se agrupar por espécie. Havia a área na qual os vampiros se reuniam para comprar sangue com sabor ou procurar novos subjugados entre aqueles que tinham perdido seus mestres. Havia os pavilhões de vinhas e flores onde as fadas se encontravam, vendendo encantos e sussurrando feitiços. Elas se mantinham afastadas do resto, proibidas de negociar como os outros. Feiticeiros, raros e temidos, ocupavam barracas no final do Mercado. Cada feiticeiro exibia uma marca proclamando sua herança demoníaca: alguns tinham caudas ou chifres curvados. Uma vez Kit viu uma feiticeira de pele inteiramente azul, como um peixe.
E finalmente havia aqueles com a Visão, como Kit e seu pai, pessoas comuns com o dom de enxergar o Mundo das Sombras, de ultrapassar a barreira dos feitiços. Wren era uma dessas pessoas: uma bruxa autodidata, que pagou um feiticeiro para lhe treinar em feitiços básicos, mas ela era discreta. Humanos não podiam praticar magia, mas havia um mercado crescente no ensino dessas artes. Dava para ganhar um bom dinheiro, desde que você não fosse pego pelos...
— Caçadores de Sombras — disse Wren.
— Como sabe que eu estava pensando neles?
— Porque eles estão bem ali. Dois deles. — Ela apontou com o queixo para a direita, seus olhos brilhando, alarmados.
Aliás, o Mercado inteiro estava tenso, pessoas casualmente ocultando suas garrafas e caixas de venenos e amuletos de cabeças de mortos. Gênios acorrentados se esconderam atrás dos respectivos mestres. As meninas fadas pararam de dançar e ficaram olhando para os Caçadores de Sombras, suas faces belas agora frias e rijas.
Eram dois, um menino e uma menina, provavelmente de 17 ou 18 anos de idade. O menino era ruivo, alto e de aparência atlética; Kit não conseguiu ver o rosto da menina, só o volume de fios louros descendo até a cintura. Ela carregava uma espada dourada presa às costas e caminhava com o tipo de confiança que não podia ser forjada.
Ambos estavam de uniforme, a roupa preta e resistente que os marcava como Nephilim: parte humanos, parte anjos, os líderes incontestáveis de todas as criaturas sobrenaturais da Terra. Eles tinham Institutos – semelhantes a imensas delegacias – em quase todas as grandes cidades do planeta, do Rio a Bagdá, de Lahore a Los Angeles. A maioria dos Caçadores de Sombras nascia assim, mas eles também podiam transformar humanos em Caçadores de Sombras se assim desejassem. Estavam desesperados para repopular seus exércitos, desde que tantos foram perdidos na Guerra Maligna. Dizia-se que eles sequestravam qualquer um com menos de 18 anos que apresentasse algum sinal de que poderia ser um Caçador de Sombras.
Em outras palavras, qualquer um com o dom da Visão.
— Estão indo para a barraca do seu pai — sussurrou Wren.
Ela tinha razão. Kit ficou tenso ao vê-los virando para a fileira de barracas e caminhando para a que mostrava a placa com os dizeres JOHNNY ROOK.
— Levante-se. — Wren estava de pé, mandando Kit fazer o mesmo. Ela se abaixou para enrolar a mercadoria dentro do pano em que estavam sentados, Kit notou um estranho desenho no dorso da mão dela, um símbolo como linhas de água correndo sob uma chama. Talvez ela tivesse desenhado em si mesma. — Tenho que ir.
— Por causa dos Caçadores de Sombras? — perguntou ele surpreso, levantando para que ela pudesse guardar as coisas.
— Shh — sibilou ela, e se apressou para longe, os cabelos coloridos balançando.
— Estranho — murmurou Kit, e voltou para à barraca do pai.
Ele se aproximou pela lateral, com a cabeça baixa, as mãos nos bolsos, Tinha certeza de que seu pai gritaria com ele caso se apresentasse na frente dos Caçadores de Sombras, principalmente ao levar em conta o boato de que eles estavam obrigando todos os mundanos menores de idade com a Visão a se alistar, mas não conseguia conter a vontade de xeretar a conversa. A menina loura estava inclinada para a frente, com os cotovelos sobre o balcão de madeira.
— É um prazer vê-lo, Rook — falou com um sorriso atraente.
Ela era bonita, Kit pensou. Mais velha do que ele, e o menino que a acompanhava era muito mais alto do que ele. E ela era uma Caçadora de Sombras. Por isso era inalcançavelmente bonita, mas bonita ainda assim. Seus braços estavam descobertos, e uma cicatriz longa e pálida corria do cotovelo ao pulso. Tatuagens pretas em formato de símbolos estranhos se entrelaçavam pelos braços, estampando sua pele. Uma delas aparecia sob o V da gola da camisa. Eram símbolos, as Marcas mágicas que davam poder aos Caçadores de Sombras. Só eles podiam usá-las. Se você as desenhasse na pele de uma pessoa normal ou na de um integrante do Submundo, eles enlouqueceriam.
— E quem é esse? — perguntou Johnny Rook, apontando com o queixo para o menino Caçador de Sombras. — O famoso parabatai?
Kit olhou para a dupla com interesse renovado. Todo mundo que sabia sobre os Nephilim, sabia o que eram os parabatai. Dois Caçadores de Sombras que juravam lealdade eterna e platônica um ao outro, e para sempre lutariam lado a lado. Viveriam e morreriam um pelo outro. Jace Herondale e Clary Fairchild, os Caçadores de Sombras mais famosos do mundo, ambos tinham parabatai. Até Kit sabia disso.
— Não — entoou a menina, pegando um vidro com um líquido esverdeado perto do caixa. Era para ser uma poção do amor, apesar de Kit saber que muitos dos vidros continham água tingida com corante. — Esse aqui não é o tipo de lugar que Julian frequenta. — Seu olhar percorreu o Mercado.
— Sou Cameron Ashdown — o menino ruivo Caçador de Sombras estendeu a mão, e Johnny, parecendo assombrado, apertou. Kit aproveitou a oportunidade para se mover para trás do balcão. — Sou namorado de Emma.
A menina loura – Emma – estremeceu, quase imperceptivelmente. Cameron Ashdown podia ser seu namorado agora, Kit pensou, mas ele não apostaria na continuação do relacionamento.
— Hum — disse Johnny, tirando o vidro da mão de Emma. — Então eu presumo que você esteja aqui para buscar o que deixou. — Ele pescou o que pareceu um pedaço de tecido vermelho do bolso. Kit ficou olhando. O que poderia haver de interessante em um quadrado de algodão?
Emma se esticou. Agora ela parecia ansiosa.
— Descobriu alguma coisa?
— Se você o colocasse na máquina de lavar com suas roupas brancas, definitivamente deixaria suas meias cor-de-rosa.
Emma pegou de volta o pano com uma careta.
— Estou falando sério. Você não imagina quantas pessoas tive que subornar para conseguir isso. Estava no Labirinto Espiral. É um pedaço da camisa que minha mãe vestia quando foi assassinada.
Johnny levantou a mão.
— Eu sei. Só estava...
— Não seja sarcástico. Ser sarcástica e espertinha é minha função. Sua função é ser sacudido até liberar informações.
— Ou pago — disse Cameron Ashdown. — Também pode ser pago para dar informações.
— Vejam, não posso ajudar — disse o pai de Kit. — Não tem magia aqui. É só um pedaço de algodão. Rasgado e cheio de água do mar, mas... algodão.
O ar de decepção que passou pelo rosto da garota foi vívido e inconfundível. Ela nem sequer tentou disfarçar, só guardou o tecido no bolso. Kit não pôde deixar de sentir pena dela, o que o surpreendeu; ele nunca achou que fosse sentir pena de uma Caçadora de Sombras.
Emma olhou para ele, quase como se ele tivesse falado.
— Então — falou, e de repente tinha um brilho nos olhos. — Você tem a Visão, certo, como seu pai? Quantos anos você tem?
Kit congelou. O pai foi para a frente dele rapidamente, bloqueando-o da vista de Emma.
— E cá estava eu achando que você fosse me perguntar sobre os assassinatos que andam acontecendo. Atrasada nas informações, Carstairs?
Aparentemente Wren tinha razão. Kit pensou; todo mundo realmente sabia sobre esses assassinatos. Deu para perceber pelo tom de alerta na voz do pai que deveria sumir, mas Kit estava preso atrás do balcão sem, rota de fuga.
— Ouvi alguns boatos sobre mundanos mortos — disse Emma. A maioria, dos Caçadores de Sombras utilizava esse termo com grande desprezo para se referir a seres humanos normais. Emma pareceu apenas cansada. — Não investigamos assassinatos entre mundanos. Isso é assunto para a polícia.
— Mataram fadas — disse Johnny. — Vários dos corpos eram de fadas.
— Nós não podemos investigar isso — falou Cameron. — Você sabe. A Paz Fria proíbe.
Kit ouviu um murmúrio fraco nas barracas próximas: um barulho que deixou claro que ele não era o único de ouvido atento na conversa alheia.
A Paz Fria era a Lei dos Caçadores de Sombras. Fora instituída há quase cinco anos. Ele mal se lembrava de um tempo anterior a ela. Eles a chamavam de Lei, pelo menos. Na verdade, era uma punição.
Quando Kit tinha 10 anos, uma guerra abalou o mundo dos integrantes do Submundo e dos Caçadores de Sombras. Um Caçador de Sombras, Sebastian Morgenstern, se voltou contra a própria espécie: foi de Instituto em Instituto, destruindo os ocupantes, controlando seus corpos e os forçando lutar por ele como um exército de escravos mudos e submissos. A maioria dos Caçadores de Sombras do Instituto de Los Angeles foi levada ou morta.
Kit tinha pesadelos algumas vezes, envolvendo sangue correndo por corredores que ele jamais vira, corredores pintados com símbolos dos Nephilim.
Sebastian teve ajuda do Povo das Fadas em sua tentativa de destruir os Caçadores de Sombras. Kit tinha aprendido sobre fadas na escola: criaturinhas fofas que viviam em árvores e usavam chapéus de flores. O Povo das Fadas não era nada disso. Eram sereias, duendes, kelpies, com dentes de tubarões, e fadas nobres, aquelas que tinham alta patente nas cortes das fadas. Fadas nobres eram altas, lindas e aterrorizantes. Dividiam-se em duas cortes: a Corte Seelie, um lugar perigoso, governado por uma rainha que ninguém via há anos, e a Corte Unseelie, um local sombrio, de traição e magia negra, cujo rei era como um monstro mitológico.
Como as fadas eram do Submundo e juraram aliança e lealdade aos Caçadores de Sombras, a traição foi um crime imperdoável. Os Caçadores de Sombras as puniram pesadamente com uma ação decisiva que passou a ser conhecida como Paz Fria: forçaram-nas a pagar indenizações altíssimas para reconstruir os edifícios dos Caçadores de Sombras que foram destruídos, despojando-as de seus exércitos, e instruindo outros integrantes do Submundo a jamais as auxiliarem. O castigo por ajudar uma fada era severo.
Fadas eram um povo antigo, mágico e orgulhoso, ou, pelo menos, era o que diziam. Kit jamais os tinha conhecido de outro jeito que não fosse aquele, alquebrado. A maioria dos outros habitantes do Submundo e outros demônios do espaço sombrio entre o mundo mundano e o dos Caçadores de Sombras não desgostava das fadas nem lhes guardava mágoa. Mas nenhum deles se dispunha a enfrentar os Caçadores de Sombras. Vampiros, lobisomens e feiticeiros ficavam longe das fadas, exceto em lugares como o Mercado das Sombras, onde o dinheiro valia mais que as leis.
— Sério? — perguntou Johnny. — E se eu dissesse que os corpos encontrados estavam cobertos de letras?
Emma levantou a cabeça. Ela tinha olhos castanho-escuros, quase negros, surpreendentes contra o cabelo claro.
— O que você disse?
— Você ouviu.
— Que tipo de escrita? A mesma língua encontrada nos corpos dos meus pais?
— Não sei — respondeu Johnny. — Foi o que ouvi. Mesmo assim, parece suspeito, não?
— Emma — disse Cameron em tom de alerta. — A Clave não vai gostar.
A Clave era o governo dos Caçadores de Sombras. Pela experiência de Kit, eles não gostavam de nada.
— Não me importo — retrucou a menina. Era evidente que ela já havia se esquecido de Kit; encarava o pai dele, com os olhos ardendo. — Diga-me o que se sabe. Pago duzentos.
— Tudo bem, mas não sei muita coisa — disse Johnny. — Alguém é levado e, algumas noites depois, aparece morto.
— E quando foi a última vez que alguém “foi levado”? — perguntou Cameron.
— Duas noites atrás — respondeu Johnny, e era evidente que ele achava que merecia seu pagamento. — Provavelmente vão desovar o corpo amanhã à noite. Basta aparecerem e pegarem quem o estiver descartando.
— Então por que não nos diz como fazer isso? — perguntou Emma.
Johnny bufou.
— Dizem por aí que a próxima desova será em West Hollywood. No Bar Sepulcro.
Emma bateu palmas, animada. O namorado chamou o nome dela outra vez, em tom de alerta, mas Kit poderia ter dito a ele que era perda de tempo. Ele nunca tinha visto uma adolescente tão animada assim com nada – nem com atores famosos, nem com boy bands, nem joias. Essa menina estava praticamente vibrando com a ideia de um cadáver.
— Por que você não vai atrás se está tão perturbado com essas mortes? — Cameron perguntou.
 Ele tinha belos olhos verdes, Kit pensou. Formavam um casal ridiculamente atraente. Era quase irritante. Ficou imaginando como seria o misterioso Julian. Se ele tinha jurado ser o melhor amigo platônico desta menina para o resto da vida, provavelmente era o cão chupando manga.
— Porque não quero — disse Johnny. — Parece perigoso. Mas vocês adoram o perigo. Não é mesmo, Emma?
Emma sorriu. Ocorreu a Kit que Johnny conhecia Emma muito bem. Eia já devia ter vindo aqui antes para fazer perguntas – era estranho que fosse a primeira vez que a via, mas ele não vinha ao mercado todos os dias. Enquanto ela enfiava a mão no bolso, pegava um rolo de notas e o entregava a seu pai, ele ficou imaginando se Emma já teria estado em sua casa. Sempre que clientes iam à sua casa, o pai o mandava para o porão e ordenava que ficasse lá, sem emitir qualquer ruído.
“O tipo de gente com quem lido não é o tipo de gente que você deve conhecer”, ele sempre dizia. Uma vez Kit subiu acidentalmente enquanto o pai se reunia com um grupo de monstros vestidos com túnicas e capuzes. Pelo menos, Kit achou que pareciam monstros: os olhos e lábios eram costurados, as cabeças carecas, brilhantes. Seu pai lhe disse que eles eram Gregori, Irmãos do Silêncio: Caçadores de Sombras que foram cicatrizados e torturados por magia até se tornarem algo mais que humanos; falavam telepaticamente e conseguiam ler as mentes de outras pessoas.
Kit nunca mais subiu durante as “reuniões” de seu pai. O menino sabia que o pai era um criminoso. Sabia que ele vivia de contar segredos, mas não mentiras: Johnny se orgulhava de ter boas informações. Kit sabia que a própria vida provavelmente seguiria o mesmo caminho. Era difícil ter uma vida normal quando você constantemente fingia não enxergar o que se passava diante dos seus olhos.
— Bem, obrigada pela informação — disse Emma, começando a dar as costas para a barraca.
O cabo dourado da espada brilhou à luz do sol. Kit ficou imaginando como seria a vida de um Nephilim. Viver entre pessoas que enxergavam as mesmas coisas que você: jamais temer o que espreitava pelas sombras.
— Nos vemos por aí, Johnny.
Ela deu uma piscadela – para Kit. Johnny se virou e encarou o menino enquanto ela desaparecia pela multidão com o namorado.
— Disse alguma coisa para ela? — Quis saber Johnny. — Por que ela olhou desse jeito para você?
Kit levantou as mãos defensivamente.
— Eu não disse nada — protestou. — Acho que ela percebeu que eu estava ouvindo.
Johnny suspirou.
— Tente ser menos notado.
O Mercado estava se agitando outra vez agora que os Caçadores de Sombras tinham se retirado. Kit pôde ouvir a música e um burburinho de vozes se elevando.
— Quão bem você conhece essa Caçadora de Sombras?
— Emma Carstairs? Ela me procura há anos para obter coisas. Não parece se importar muito em violar as regras dos Nephilim. Gosto dela, até onde é possível gostar de um deles.
— Ela queria que você descobrisse quem matou os pais dela.
Johnny abriu uma gaveta.
— Não sei quem matou os pais dela, Kit. Provavelmente fadas. Foi durante a Guerra Maligna. — Ele soou arrogante. — Então eu quis ajudá-la. E daí? Dinheiro de Caçadores de Sombras vale tanto quanto qualquer outro.
— E você quer que os Caçadores de Sombras prestem atenção em algo além de você — disse Kit. Era um palpite, mas ele supunha que fosse um bom palpite. — Está fazendo alguma coisa?
Johnny fechou a gaveta.
— Talvez.
— Para alguém que vende segredos, você certamente guarda muitos — falou Kit, enfiando as mãos nos bolsos.
O pai colocou um braço em volta dele, um raro gesto de afeição.
— Meu maior segredo — declarou — é você.

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