segunda-feira, 25 de julho de 2016

Capítulo um


Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire* cuja história está aqui contada. Violet, Klaus e Sunny Baudelaire eram crianças inteligentes, encantadoras e desembaraçadas, com feições bonitas, mas com uma falta de sorte fora do comum, que atraía toda espécie de infortúnio, sofrimento e desespero: Lamento ter que dizer isso a vocês, mas o enredo é assim, fazer o quê?

(*) Pronuncia-se “Bodler”, com e tônico e aberto como em “mulher”. (N. T.)

A infelicidade deles começou certo dia na Praia de Sal. Os três Baudelaire filhos moravam com seus pais numa enorme mansão no centro de uma cidade muito movimentada e muito poluída, e vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário – a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” – até a praia, a fim de passarem o dia como se estivessem em férias, contanto que voltassem antes da hora do jantar.
Nessa manhã de que estamos falando, o dia se mostrava cinzento e nublado, o que não importava nem um pouco aos jovens Baudelaire. Quando fazia sol e calor, a Praia de Sal se enchia de turistas, e era impossível encontrar um bom lugar para estender a esteira. Nos dias cinzentos e nublados, os Baudelaire tinham a praia à sua disposição para fazer o que bem entendessem.
Violet Baudelaire, a mais velha dos três, gostava de atirar pedras bem longe para vê-las deslizar na superfície do mar antes de afundarem. Como a maioria dos jovens de catorze anos, era destra – ou seja, estava acostumada a usar a mão direita, ao contrário dos canhotos – de modo que as pedras deslizavam mais tempo e avançavam mais longe nas águas turvas quando a mão com que as arremessava era a direita e não a esquerda. Enquanto atirava as pedras, tinha os olhos postos no horizonte e o pensamento absorvido numa invenção que desejava montar. Quem conhecesse bem Violet logo perceberia que ela estava firmemente concentrada em suas reflexões, porque havia amarrado os cabelos com uma fita para afastá-los dos olhos. Violet tinha uma forte inclinação para inventar e montar aparelhos estranhos, por isso o seu cérebro volta e meia se via tomado por imagens de roldanas, alavancas e engrenagens, e ela fazia questão de nessas horas não ser distraída por algo tão banal como seus cabelos.
Nessa manhã ela estava pensando em como construir um aparelho que permitisse recuperar as pedras depois de serem atiradas no mar.
Klaus Baudelaire, o irmão do meio, e o único menino, gostava de examinar os seres minúsculos que pululavam nas piscininhas formadas à beira d'água. Klaus tinha pouco mais que doze anos e usava óculos, o que lhe dava um ar inteligente. E ele era inteligente. Os Baudelaire pais possuíam uma enorme biblioteca em sua mansão, uma sala com milhares de livros sobre todos os assuntos imagináveis. Aos doze anos, é claro que Klaus não poderia ter lido todos os livros da biblioteca dos Baudelaire, mas lera uma porção deles, e era impressionante como retinha na memória a quantidade de informações assim obtidas. Sabia distinguir perfeitamente o aligátor, crocodilo do Mississipi, dos crocodilos de outras partes do mundo. Sabia o nome de quem matou Júlio César. E sabia milhões de coisas sobre as esquivas criaturinhas de beira-mar encontradas na Praia de Sal que atraíam naquele momento sua atenção.
Sunny Baudelaire, a mais nova da trinca, gostava de morder coisas. Era ainda quase um bebê e muito pequena para sua idade, pouco maior que uma bota. A pouca altura era compensada, no entanto, pelos quatro dentes bem grandes e afiados.
Sunny estava numa idade em que a maior parte do tempo a criança fala por uma série de gritos ininteligíveis. A não ser quando ela usava as poucas palavras de verdade que constavam de seu vocabulário, como mamã, mamá e dá!, a maioria das pessoas tinha dificuldade para entender o que Sunny estava dizendo. Por exemplo, nessa manhã ela disse “Gá!” muitas e muitas vezes, o que provavelmente era para se entender como: Vejam só essa figura misteriosa surgindo do nevoeiro!
De fato, ao longe, em meio à névoa que pairava sobre todo o recorte da Praia de Sal, podia-se ver um vulto alto que caminhava na direção dos Baudelaire filhos. Sunny já vinha olhando e gritando para o vulto havia algum tempo quando Klaus ergueu os olhos acima do caranguejo que examinava e também notou a figura. Voltou-se para Violet e a puxou pelo braço, tirando-a de seus pensamentos de inventora.
“Veja”, disse Klaus, e apontou para o vulto. Como este estivesse chegando mais perto, as crianças puderam enxergar alguns detalhes. Tinha o tamanho mais ou menos de um adulto, a não ser pela cabeça, que era desproporcionadamente alta e meio quadrada.
“O que você acha que pode ser? , perguntou Violet.
“Não sei”, disse Klaus, e com olhos semicerrados acompanhou disfarçadamente a aproximação da criatura, “mas parece que está vindo na nossa direção.”
“Estamos sozinhos na praia”, disse Violet, um pouco nervosa. “Não há ninguém mais de quem possa estar querendo se aproximar.” Sentiu em sua mão esquerda o contato da pedra lisa ali aninhada, que pretendera atirar e fazer deslizar nas águas o mais longe possível. Teve um ímpeto de atirar a pedra na criatura, tão assustadora esta lhe parecia.
“É só a aparência que é assustadora”, disse Klaus, como se estivesse lendo os pensamentos da irmã, “por causa desse nevoeiro todo.”
Verdade. Quando a figura chegou onde estavam, as crianças viram com alívio que não era ninguém que lhes causasse medo, e sim uma pessoa que eles conheciam: o sr. Poe. O sr. Poe era um amigo do sr. e da sra. Baudelaire que as crianças haviam encontrado em muitos jantares festivos. Uma das coisas que Violet, Klaus e Sunny realmente apreciavam em seus pais era que não excluíam os filhos quando recebiam para jantar, deixando que eles sentassem à mesa com os adultos e participassem das conversas contanto que ajudassem depois a tirar os pratos e travessas. Os meninos se lembravam do sr. Poe porque ele estava sempre resfriado e constantemente se desculpava de se retirar da mesa a fim de ter um acesso de tosse na sala ao lado.
O sr. Poe tirou a cartola, que havia feito sua cabeça exageradamente alta e quadrada em meio à névoa, e por um momento ficou parado diante deles, tossindo com estrondo dentro de um lenço branco. Violet e Klaus avançaram para lhe estender a mão e cumprimentá-lo.
“Como vai o senhor?”, disse Violet.
“Como vai o senhor?”, disse Klaus.
“Omoá”, disse Sunny.
“Vou bem, obrigado”, disse o sr. Poe, mas parecia muito triste. Por alguns instantes ninguém disse nada, e os meninos ficaram imaginando o que o sr. Poe poderia estar fazendo na Praia de Sal quando deveria estar no banco, no centro da cidade, onde trabalhava. Não estava com roupas de ir à praia.
“Está um lindo dia”, disse Violet finalmente, puxando conversa. Sunny fez um barulho que soava como a voz de uma ave enfurecida, e Klaus a pegou no colo.
“Sim, está um lindo dia”, disse o sr. Poe com ar meio distraído, olhando para a praia vazia. “Lamento, mas tenho más notícias para vocês, crianças.”
Os três irmãos Baudelaire olharam para ele. Violet, um pouco envergonhada, sentiu o contato da pedra em sua mão esquerda e deu graças a Deus por não a ter atirado no sr. Poe.
“Seus pais”, disse o sr. Poe, “faleceram num terrível incêndio.”
Os meninos não disseram nada.
“Eles faleceram”, disse o sr. Poe, “num incêndio que destruiu a casa toda. Lamento muito, muitíssimo, ter que contar isso para vocês, meus queridos.”
Violet desviou os olhos, que estavam fixos no sr. Poe, e os deslocou para longe no mar. O sr. Poe nunca antes havia chamado os Baudelaire filhos de “meus queridos”. Ela entendeu as palavras que ele estava dizendo, mas achou que devia ser brincadeira, uma horrível brincadeira que ele resolvera fazer com ela, o irmão e a irmã.
“Faleceram”, disse o sr. Poe, “significa foram mortos.”
“Nós sabemos o que significa a palavra faleceram”, disse Klaus, com irritação. Com efeito, ele sabia o que a palavra faleceram significava, mas continuava tendo dificuldade para entender exatamente o que o sr. Poe tinha dito. A impressão que teve foi que o sr. Poe de algum modo havia se expressado mal.
“Os bombeiros vieram, é claro”, disse o sr. Poe, ”mas chegaram tarde demais. A casa inteira foi devorada pelo fogo. Não sobrou nada.”
Klaus viu na imaginação todos os livros da biblioteca pegando fogo. Agora nunca mais poderia lê-los todos.
O sr. Poe tossiu várias vezes no seu lenço antes de prosseguir. “Fui mandado com o objetivo de vir buscá-los aqui e levá-los para minha casa, onde vocês ficarão algum tempo enquanto estudamos a situação. Sou o executor testamentário da herança de seus pais. Isso significa que estarei lidando com a enorme fortuna deles e resolvendo para onde vocês vão. Quando Violet atingir a maioridade, a fortuna será de vocês, mas até que isso aconteça, os bens estarão sob os cuidados do banco.”
Quando ele disse a palavra executor, Violet entendeu que o sr. Poe era o carrasco que chegava para decidir sobre o seu futuro e o de seus irmãos. Simplesmente veio andando pela praia em sua direção e mudou a vida deles para sempre.
“Venham comigo”, disse o sr. Poe, e estendeu sua mão. Para pegá-la, Violet teve que jogar fora a pedra que estava segurando. Klaus pegou a outra mão de Violet, Sunny pegou a outra mão de Klaus, e desse modo os três Baudelaire filhos – agora Baudelaire órfãos – foram retirados da praia e da vida que levavam antes.

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