sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo um

O SKIMMER MOGADORIANO ERGUE-SE ACIMA DE ASHWOOD ESTATES, E SE LANÇA através do horizonte. Seis, Marina e Adam estão abordo. Crianças inteligentes – adolescentes, tecnicamente, mas ainda crianças para mim – prontas para atravessar o continente em busca de um lugar chamado Santuário.
Um lugar que eles apenas souberam porque alguns anos atrás, durante uma das muitas lacunas em minhas memórias, eu contei para os mogs que ele existia e que era muito importante para o futuro dos lorienos.
Espero por Deus que isso seja verdade. A Terra está enfrentando uma invasão, e nós precisamos de toda a ajuda que conseguirmos.
Estive vasculhando meu cérebro para tentar me lembrar de qualquer outra coisa sobre esse lugar que aparentemente é tão importante para os lorienos. Qualquer tipo de detalhes. Mas não consegui encontrar nada no final, e de fato não tenho tempo para ficar tentando recuperar essas memórias. Tenho muitas outras coisas com que me preocupar. A mais importante delas é meu filho, Sam. Ele está colocando a si próprio em perigo. Mais uma vez. Está prestes a ir para Nova York com John, Nove e alguns agentes do FBI que se juntaram ao nosso lado da causa para tentar acabar com a corrupção política e expor a ameaça mogadoriana.
Enquanto observo o Skimmer desaparecer contra o sol nascente, eu me pergunto que tipo de pai permite que seu único filho fique rodeado de tanta violência e morte. Eu me perco nessa pergunta, incapaz de encontrar uma resposta apropriada, até que a voz de John interrompe meu devaneio.
— Droga, esse lugar parece uma zona de guerra. Pensei que tivéssemos acabado com a maior parte do fogo ontem à noite.
Eu me viro e o encontro tropeçando num ponto preto na grama, um pouco de fumaça subindo debaixo do seu tênis. Atrás dele encontra-se a antiga casa de infância de Adam, as janelas da frente arrancadas da batalha da tarde anterior. Agora ela é nossa base de operações.
— Penso que a remodelagem que vocês fizeram foi na verdade uma melhora — aponto, e então gesticulo para uma casa no fim da rua que foi totalmente destruída. — Eu sempre odiei esse tipo de vizinhança de casas idênticas.
Estou tentando manter as coisas calmas para esconder minha preocupação sobre o que está por vir. Exibindo uma expressão de coragem.
— Se eu fosse você, não me importaria de ver esse lugar acabar em chamas também.
Ele troca um olhar comigo e então sorri, mas não sei dizer se ele está me testando. Sendo o líder não-oficial dos lorienos, John deve pensar que seu trabalho é se preocupar com todos. E faz sentido ele estar de olho em mim. Não faz muito tempo eu estava em cativeiro nas bases localizadas abaixo de nós – os túneis, laboratórios de pesquisa e mesas de operações encontradas abaixo de Ashwood, onde a brutalidade dos mogs era encubada e depois a floria. Se não fosse Adam, eu teria morrido aqui. Ou pior. Eu não posso dizer o que poderia ter sido “pior” no meu caso, mas não tenho dúvidas de que os mogs são capazes de coisas muito mais aterrorizantes do que a morte. Se há alguém aqui que vai enlouquecer, eu estou me candidatando.
Ainda assim, em algum lugar das minhas entranhas, me sinto mal, como se eu precisasse provar meu valor à causa. Talvez eu não me sentisse dessa maneira se não tivesse sido eu quem espalhou tantos segredos lóricos para os mogadorianos, mesmo tendo sido contra a minha vontade. Essa é uma das piores partes sobre não lembrar de quase nada da última década: tudo o que tenho para mostrar sobre esses anos perdidos é traição, dor e a consciência de que a minha família estava lá fora sem ter nenhuma pista do que aconteceu comigo durante todo esse tempo.
Balanço a cabeça, tentando focar meus pensamentos novamente. Um dos efeitos colaterais de ter minha mente adulterada pelos mogs é que me distraio facilmente, debruçado em caçar memórias esquecidas como coelhos no País das Maravilhas.
— Acho que você tem razão — falo.
— Você deveria descansar um pouco — John fala, um ligeiro vinco se formando entre suas sobrancelhas. — Tente não se extrapolar. Quando foi a última vez que dormiu?
— Quem precisa dormir quando se tem café e filmes mogadorianos caseiros para assistir? — pergunto com um fraco sorriso. Estive assistindo os vídeos que foram encontrados nos arquivos debaixo de Ashwood Estates desde que tomamos o condomínio ontem.
— Obrigado por nos ajudar com isso. Quem sabe o que podemos descobrir naqueles arquivos? Você é o único aqui em quem podemos confiar absolutamente coisas importantes como aquelas. Mesmo com os homens de Walker do nosso lado agora.
Ele diz isso com a intenção de agradecer, mas há outra mensagem em seu tom de voz. Talvez nem tenha percebido, mas ele está me relembrando de que não há lugar para mim nessa missão que está por vir. Alguém precisa ficar nos bastidores e navegar através dos dados, e sou apenas um homem velho que é um excelente atirador com um rifle, não como eles.
Meu lugar é aqui. Ele é um líder carismático e marcante para a sua idade. Eu tenho que ficar me relembrando de que ele é apenas um adolescente, num ponto de sua vida onde ele deveria estar aprendendo pré-cálculo ou química. Todas essas crianças agem como se fossem dez anos mais velhas do que realmente são (com exceção, talvez, de Nove, cuja personalidade parece ter parado de se desenvolver aos treze anos).
John gesticula para um enorme falcão empoleirado em um galho de árvore acima de nós.
— Os Chimærae estão patrulhando a área para o caso de os mogs perceberem que ninguém está se comunicando de Ashwood Estates e decidirem investigar.
— Se os mogs estão realmente tramando uma invasão, eles provavelmente têm coisas mais importantes com o que se preocupar do que Ashwood — observo.
— Mesmo assim, eles vão protegê-lo. Além do mais... — ele dá uma olhada ao redor, para ter certeza de que ninguém está nos ouvindo. — Walker e sua equipe estão nos ajudando por hora, mas eu me sinto melhor sabendo que os Chimærae o protegerão caso alguma coisa aconteça. Eles vão ficar por aqui até voltarmos. Você sabe assobiar?
— Claro.
— Ótimo. Gamera, ali em cima, é seu novo guarda-costas pessoal. Você assobia e ele virá correndo. Ou voando, ou de qualquer outra forma — ele sorri. — Isso foi ideia do Sam. Ele acha que você tem uma afinidade maior com Gamera já que foi você quem o nomeou. De qualquer maneira, falei para todos eles ficarem fora de vista na maior parte do tempo. Os agentes de Walker sabem o que eles são, mas se alguém mais aparecer, eles têm instruções para não se transformar na frente deles. Quanto menos pessoas souberem sobre os Chimærae, melhor.
A porta da frente se abre de repente e Sam aparece na varanda, segurando um prato com uma pilha alta de discos amarelos. Um deles cai de sua boca enquanto ele desce para o jardim.
— Cara, eles têm waffles congelados aqui — ele diz para John enquanto mastiga. — Eu não sei se eram do pai do Adam ou se os federais trouxeram ou sei lá o quê, mas há tipo, dez caixas deles no congelador — ele balança a cabeça. — Todos esses waffles e nenhuma calda. Monstros.
— Ótimo — John responde, tentando pegar um.
Sam se vira, deixando o prato fora de alcance.
— Estes são meus. Vá pegar os seus. Eu iria correndo. Nove continua desafiando os agentes do FBI para partidas de queda de braço, e tenho certeza de que Walker está prestes a sedá-lo ou coisa do tipo.
John balança a cabeça e olha para mim.
— Lembre-se: apenas assobie — e então ele entra na casa.
— Você gostou? — Sam pergunta, sua expressão mudando. — O assobio, quero dizer, foi totalmente minha ideia.
— Foi o que John disse. Brilhante.
Ele sorri e me oferece o prato.
Ergo minha sobrancelha.
— Pensei que esses fossem seus.
— Apenas coma alguns waffles, pai. Duvido que você tenha atacado a geladeira durante sua sessão noturna com os arquivos.
Como se pudesse ouvir, o meu estômago ronca.
— Está vendo? — ele empurra o prato para as minhas mãos, pegando mais dois waffles para si. — Eles estão fazendo café lá dentro, mas esses agentes são tão viciados quanto você. Eu tentei pegar uma xícara, e um deles praticamente gritou comigo.
— Sam — respondo. Eu não quero estragar seu humor, mas o nosso tempo juntos está acabando. — Eu sei que não há novidades para você, mas essa viagem à Nova York pode ser bem perigosa. Se Setrákus Ra está planejando fazer uma aparição em público e se isso der errado...
— Eu sei — ele me interrompe. — Eu serei cuidadoso. Se começarmos uma luta, deixarei os atos heroicos para os alienígenas super-heróis o máximo que eu puder. Não se preocupe comigo. Apenas veja se consegue encontrar algo aqui que poderá nos ajudar a derrotar esses mogadorianos de merda.
Eu suspiro exageradamente.
— O que sua mãe diria se ouvisse você falando desse jeito? — como se palavrões fossem um problema grave nesse ponto de nossas vidas.
Eu realmente não tenho certeza de onde sua reação veio. Acho que parte de mim ainda está tentando mascarar minha preocupação, como se deixar essas crianças perceberem o quão assustado estou com relação a eles – com relação a Sam – irem para a linha de frente talvez possa destruir de alguma forma as capacidades aparentemente ilimitadas de coragem.
— Estarei mais preocupado com isso quando eu voltar para casa depois de isso tudo ter acabado. A mamãe vai acabar me acorrentando no meu quarto e nunca mais me deixará ver o mundo exterior novamente. Ah, falando nisso, talvez eu devesse ligar para ela durante a viagem, só para ela saber que ainda estou vivo.
Penso em minha esposa. Da última vez que a vi – quando voltei após anos de desaparecimento apenas para descobrir que Sam estava desaparecido também – ela não estava exatamente surpresa em ouvir que culpei os alienígenas pelo meu sumiço. Desde então ela não tem falado comigo.
— Faça isso — concordo. — Apenas lembre-se que o telefone dela pode estar grampeado, então, nada de detalhes. Eu vou... vou esperar até ter algo bom para contar a ela. Então ligarei.
— Isso me lembra... aqui — ele diz, me entregando um celular via satélite preto. Dou uns tapinhas em meus bolsos, percebendo que não tenho carregado o meu comigo. Sam continua — Sim, esse é o seu. Adam estava trabalhando nele. Aparentemente o conhecimento da Terra sobre sistemas de comunicação é muito básico. Isso deve ter sinal, tipo, em qualquer lugar. Ou pelo menos foi o que ele disse.
— Excelente. Todos nós deveríamos ter um desse.
Sam dá de ombros.
— Acho que sim. Mas você sabe que sempre estamos lutando. Eletrônicos não duram muito conosco. É por isso que estou lhe dando este. Pedirei que ele faça um para mim quando voltar.
A porta se abre atrás dele e John aparece, seguido por Nove, Agente Walker e alguns outros federais que não conheço ainda.
— Tudo bem — Nove diz com um sorriso. — Vamos acertar a cabeça de alguns políticos na Grande Maçã.
Sam revira os olhos.
— Mantenha esse celular com você, pai. Ligarei quando tiver novidades.
Ele tenta me dar um abraço rápido, mas eu o seguro perto.
— Tchau, filho. Tome cuidado.
— Vou tomar. Vejo você logo.
E então, ele se vai.
Todas essas crianças pensam que são invencíveis, mas não são. Mesmo alguns da Garde, com todas suas habilidades, foram mortos. Por um segundo eu me pergunto se posso convencer Sam a não ir. Ligar e dizer para ele descer em um posto de combustível ou outro lugar assim aonde eu possa buscá-lo. Ele poderia me ajudar com os anos de dados dos mogadorianos nos laboratórios abaixo de Ashwood Estates. Mas eu sei que ele nunca concordaria com isso, e tenho certeza de que não tenho a autoridade de proibi-lo de ir. Ele já fez tantas escolhas difíceis sozinho sem mim. Por que me ouviria agora?

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