segunda-feira, 25 de julho de 2016

Capítulo três


 Não sei se vocês já perceberam, mas as primeiras impressões muitas vezes são inteiramente falsas. Você pode olhar para um quadro uma primeira vez, por exemplo, e não gostar nem um pouco, mas, depois de olhar mais algum tempo, você é capaz de achá-lo muito bom. Na primeira vez em que você experimenta queijo gorgonzola, pode achar que é forte demais, mas, quando você for mais velho, pode querer não comer outra coisa na vida a não ser queijo gorgonzola. Quando Sunny nasceu, Klaus não gostava dela de jeito nenhum, mas quando ela completou seis semanas, os dois viviam agarradíssimos. A primeira opinião que você tem sobre qualquer coisa pode mudar com o tempo. Eu gostaria de poder dizer para vocês que os Baudelaire estavam enganados nas primeiras impressões que tiveram sobre o conde Olaf e sua casa, como muitas vezes acontece. Mas aquelas impressões de que o conde Olaf era uma pessoa horrível e de que sua casa era um chiqueiro deprimente estavam absolutamente corretas. Durante os primeiros dias que se seguiram à chegada dos órfãos à casa do conde Olaf, bem que Violet, Klaus e Sunny se esforçaram para se sentir à vontade no novo ambiente, mas de nada adiantou. Apesar de a casa do conde Olaf ser bem grande, as crianças foram postas juntas num único quarto nojento com uma só cama para os três. Violet e Klaus se revezavam para dormir nela, uma noite na cama, outra noite no chão duro de madeira, e o próprio colchão tinha tantos calombos que ficava difícil dizer quem dormia com menos conforto. A fim de arranjar uma cama para Sunny, Violet tirou as cortinas empoeiradas presas à barra de ferro em cima da única janela do quarto e, com elas dobradas várias vezes, formou uma espécie de almofadão que foi a conta para acolher o corpinho da irmã. No entanto, sem cortinas que cobrissem a vidraça rachada, o sol invadia o quarto todas as manhãs, e os meninos acordavam cedinho e mal-humorados. Em vez de armário, havia uma grande caixa de papelão, usada noutros tempos para o transporte da geladeira, mas uma coisa era servir para guardar uma geladeira, outra, para guardar as roupas das três crianças, ainda que empilhadas num bloco só. Em lugar de brinquedos, livros ou outras coisas para divertir os jovens, o conde Olaf tinha providenciado um pequeno amontoado de pedras. E a única decoração nas paredes descascadas era um quadro grande e feio representando um olho, igualzinho àquele do tornozelo do conde e a todos os outros espalhados pela casa.
Mas as crianças sabiam, como tenho certeza de que vocês também sabem, que por pior que seja o ambiente à nossa volta, ele pode ser suportado, desde que as pessoas que nele se encontram sejam interessantes e gentis. O conde Olaf não era uma coisa nem outra; era exigente, tinha pavio curto e ainda por cima era fedorento. A única coisa que se podia dizer a favor do conde é que não era sempre que ele estava por perto. Quando as crianças acordavam e tiravam da caixa de papelão a roupa que escolhiam para vestir, iam em seguida até a cozinha e viam uma lista de instruções que o conde Olaf lhes deixara, já que com frequência ele não voltava para casa antes do anoitecer. O conde passava a maior parte do dia fora, ou no alto da torre, onde as crianças estavam proibidas de entrar. As instruções que ele deixava tinham a ver com tarefas em geral difíceis, como repintar a varanda dos fundos ou consertar as janelas; em vez de assinar, o conde Olaf desenhava um olho na parte de baixo do bilhete.
Certa manhã, estava escrito no bilhete: “Os atores da minha trupe virão jantar antes do espetáculo desta noite. O jantar deve estar pronto para os dez convidados quando eles chegarem às sete horas. Comprem a comida, preparem, ponham a mesa, sirvam o jantar, depois lavem a louça, e não nos incomodem”. Abaixo, lá estava o olho de sempre, e sob o bilhete uma pequena soma de dinheiro para as compras.
Violet e Klaus leram o bilhete ao tomarem o café da manhã, que consistia num mingau de aveia, cinzento e encaroçado, que o conde Olaf deixava para eles todas as manhãs numa panela grande em cima do fogão. Leram e em seguida olharam um para o outro, muito aflitos.
“Nenhum de nós sabe cozinhar”, disse Klaus.
“É verdade”, disse Violet. “Eu soube consertar as janelas e limpar a chaminé, porque são coisas que me interessam. Mas, em matéria de cozinha, o máximo que eu sei fazer são torradas.”
“E às vezes você ainda queima as torradas”, disse Klaus, e eles riram. Estavam se lembrando de uma ocasião em que os dois se levantaram cedo para preparar um café da manhã especial para os pais. Violet havia queimado a torrada e seus pais, sentindo o cheiro de queimado, desceram a escada correndo para ver o que tinha acontecido. Quando viram Violet e Klaus examinando desapontados os pedaços enegrecidos de torrada, morreram de rir e prepararam panquecas para toda a família.
“Gostaria que estivessem aqui”, disse Violet. Não precisou explicar que estava se referindo aos pais. “Eles jamais deixariam que ficássemos neste lugar horrível.”
“Se estivessem aqui”, disse Klaus, levantando a voz à medida que se mostrava cada vez mais revoltado, “antes de mais nada não precisaríamos estar tom o conde Olaf. Detesto isto aqui, Violet! Detesto esta casa! Detesto nosso quarto! Detesto ter que fazer todos esses trabalhos, e detesto o conde Olaf!”
“Também detesto”, disse Violet, e Klaus olhou para a irmã mais velha com alívio. Às vezes o simples fato de você dizer que detesta alguma coisa e ter alguém que concorda com você pode ajudá-lo a suportar uma situação horrível. “Detesto tudo o que há em nossa vida neste momento, Klaus”, disse ela, “mas vamos ter que manter o queixo erguido.” Essa era uma expressão que o pai dos meninos costumava usar e que significava “tentar não perder o ânimo”.
“Tem razão”, disse Klaus. “Mas é muito difícil manter o queixo erguido quando o conde Olaf só faz empurrá-lo para baixo.”
“Juf!”, gritou Sunny, batendo na mesa com sua colher de mingau de aveia. Violet e Klaus foram interrompidos em sua conversa e olharam mais uma vez para o bilhete do conde Olaf.
“Quem sabe não encontramos um livro de receitas e descobrimos alguma página que ensine a cozinhar?”, disse Klaus. “Não pode ser tão difícil assim preparar uma simples refeição.”
Violet e Klaus levaram vários minutos abrindo e fechando os armários da cozinha do conde Olaf, mas não acharam nenhum livro de receitas.
''A mim, não me surpreende”, disse Violet. “Nesta casa, não encontramos livros de nenhum tipo.”
“Eu sei”, disse Klaus na maior tristeza. “Sinto muita falta de ler. Vamos precisar sair qualquer dia desses e procurar onde é que tem uma biblioteca.”
“Mas não hoje”, disse Violet. “Hoje temos que cozinhar para dez pessoas.”
Nesse momento bateram na porta da rua. Violet e Klaus se entreolharam, nervosos.
“Quem neste mundo poderia querer visitar o conde Olaf?”, Violet indagou a si mesma em voz alta.
“Talvez seja alguém que esteja querendo nos visitar”, disse KIaus sem maiores esperanças. Desde a morte de seus pais, a maioria dos amigos dos órfãos Baudelaire tinham desertado, e quando digo “tinham desertado”, quero dizer que pararam de telefonar ou escrever para eles, não apareceram nem uma vez para ver como estavam, deixando-os muito solitários. É evidente que vocês e eu jamais faríamos uma coisa dessas com algum conhecido que estivesse de luto, mas é uma triste verdade da vida: quando perdemos um ente querido, os amigos às vezes nos evitam, justamente quando a presença de amigos é mais necessária.
Violet, Klaus e Sunny foram andando devagar até a porta da rua e espiaram pelo olho mágico, que, como era de esperar, tinha também a forma de um olho. Ficaram encantados ao ver a juíza Strauss, que os examinava do outro lado, e abriram a porta.
“Juíza Strauss!”, exclamou Violet. “Que bom que a senhora veio!” Estava a ponto de acrescentar: “Entre, por favor!”, mas pensou duas vezes e concluiu que a juíza Strauss provavelmente não quereria se aventurar na sala suja e pouco iluminada.
“Por favor, perdoem-me por não ter aparecido antes”, disse a juíza Strauss, enquanto os Baudelaire se postavam diante da entrada, meio contrafeitos. “Eu bem que tive vontade de ver como vocês estavam se acomodando na nova casa, mas tive um processo muito difícil na Suprema Corte, que me deixou sem tempo para mais nada.”
“Que tipo de processo foi?”, perguntou Klaus. Privado de leitura como se achava, estava faminto de informações novas.
“Na verdade, não posso discuti-lo”, disse a juíza Strauss, “porque é um assunto oficial. Mas posso dizer que envolve uma planta venenosa e o uso ilegal de um cartão de crédito alheio.”
“Iiica!”, gritou Sunny, como se quisesse dizer: Que interessante!, embora evidentemente não houvesse a menor possibilidade de Sunny ter entendido o que estava sendo dito.
A juíza Strauss baixou os olhos para Sunny e riu. “É o caso: iiica!”, disse, e estendeu a mão para acariciar a cabeça da menina. Sunny pegou a mão da juíza e a mordeu gentilmente.
“Isso significa que ela gostou da senhora”, explicou Violet. “Ela morde com muita força, morde para valer, quando não gosta de alguém ou quando alguém quer dar banho nela.”
“Sei”, disse a juíza Strauss. “Agora me digam: como é que vocês estão? Há alguma coisa que vocês desejem?”
As crianças se entreolharam, com o pensamento em tudo o que desejavam. Outra cama, por exemplo. Um berço decente para Sunny. Cortinas para a janela do quarto. Um armário em vez da caixa de papelão. Mais que tudo, porém, desejavam não ter nenhum tipo de ligação com o conde Olaf, é claro. Mais que tudo, desejavam estar morando com seus pais novamente, em sua casa de verdade, o que era impossível, sabiam muito bem. Violet, Klaus e Sunny ficaram, todos, olhando para o chão, refletindo com infelicidade na pergunta. Até que Klaus falou.
“Poderíamos pedir emprestado um livro de receitas?”, disse. “O conde Olaf mandou que fizéssemos um jantar esta noite para os atores da sua companhia teatral, e não conseguimos achar nenhum livro de receitas em casa.”
“Deus do céu”, disse a juíza Strauss. “Parece exagero pedir que crianças cozinhem para toda uma companhia teatral.”
“O conde Olaf nos dá muitas responsabilidades”, disse Violet. O que ela quis dizer foi: “O conde Olaf é um homem mau”. Mas era uma menina bem-educada.
“Bom, por que vocês não vêm comigo até a minha casa e não procuram um livro de receitas que lhes agrade?”
Os jovens aceitaram o convite e seguiram a juíza Strauss, passando ao interior de sua tão bem cuidada casa. Ela os levou por um elegante corredor com perfume de flores até um vasto salão, e quando viram o que havia ali, quase desmaiaram de encantamento, especialmente Klaus.
A sala era uma biblioteca. Não uma biblioteca pública, mas uma biblioteca particular, ou seja: uma grande coleção de livros pertencentes à juíza Strauss. Havia estantes e mais estantes repletas, em todas as paredes, do chão ao teto. E estantes soltas, no meio da sala, muitas delas – o único lugar em que não se viam livros era um dos cantos, onde havia poltronas que pareciam bem confortáveis e uma mesa de madeira com pontos de luz projetados sobre ela, perfeitos para a leitura. Apesar de não ser tão grande quanto a biblioteca de seus pais, aquela era igualmente aconchegante, e os jovens Baudelaire estavam empolgados.
“É uma biblioteca maravilhosa, parabéns!”, disse Violet.
“Muito obrigada!”, disse a juíza Strauss. “Venho colecionando livros há anos, e tenho muito orgulho de minha coleção. Contanto que cuidem direitinho deles, estão todos à disposição de vocês, quando quiserem. Vejam, os livros de receitas ficam na parede esquerda. Vamos dar uma olhada neles?”
“Vamos”, disse Violet, “e se não se importar, gostaria de olhar os livros que tratam de engenharia mecânica. Inventar coisas é minha paixão.”
“E eu gostaria de olhar livros sobre lobos”, disse Klaus. “Ultimamente ando fascinado pelos animais selvagens da América do Norte.”
“Liiiv!”, gritou Sunny, querendo dizer: Por favor, não se esqueçam de pegar um livro com figuras para mim.
A juíza Strauss sorriu. “É um prazer conhecer jovens interessados em livros”, disse. “Mas primeiro acho que precisamos encontrar uma boa receita, não é mesmo?”
As crianças concordaram e por cerca de trinta minutos examinaram diversos livros de receitas recomendados pela juíza. Para dizer a verdade, os três órfãos estavam tão entusiasmados por se encontrar fora da casa do conde Olaf, naquela agradável biblioteca, que se distraíam e sua atenção se desviava um pouco, impedindo-os de se concentrar no campo da culinária. Mas finalmente Klaus descobriu um prato que parecia delicioso e fácil de fazer.
“Escutem só”, disse. “Puttanesca. É um molho italiano para massas. Prepara-se com azeitonas, alcaparras, enchovas, alho, salsa picada e tomates misturados na panela, depois é só fazer espaguete e juntar com o molho.”
“Parece fácil”, concordou Violet, e os órfãos Baudelaire se entreolharam. Quem sabe, com a amável juíza Strauss e sua biblioteca bem ao lado de casa, as crianças não seriam capazes de preparar uma vida agradável para si próprias com tanta facilidade como fariam espaguete à puttanesca para o conde Olaf.

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