sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo sete

— VOCÊ SABE ONDE ESTÁ INDO? — SAM GRITA.
Olho por cima do ombro. Os dois estão alguns metros atrás de mim, mas se aproximam. O que tem de especial em mim hoje que faz as pessoas pensarem que eu estou no comando?
— O quê? — volto minha atenção para frente novamente. — Vocês estão me seguindo agora?
— Você conhece a cidade, não é?
Malditos turistas extraterrestres.
Uma explosão atinge a rua algum lugar atrás de nós. Olho para trás e vejo que Sam e John estão bem, mas metade do quarteirão é nada além de fumaça, poeira e detritos agora. O banco desapareceu. Não está mais lá. Esta deve ser a próxima fase. A cidade sendo demolida.
Engulo a minha preocupação e foco em me mover.
— Precisamos sair da rua! — John grita.
Claro. Sem problemas. Eu só vou erguer uma tampa de bueiro ou algo assim.
Vejo uma placa verde indicando uma estação do metrô a algumas quadras.
— Por aqui! — eu grito de volta, fazendo uma curva à esquerda e atravessando a rua.
A cortina de fumaça e detritos passa por nós, e tusso através dela, até estarmos fora da avenida principal e indo em direção a uma rua lateral onde edifícios bloqueiam a maior parte dela.
Eventualmente, nós conseguimos chegar ao subterrâneo por uma das entradas do metrô na Bleecker Street. Estamos ali dentro por apenas alguns segundos antes de toda a estação começar a tremer. Pelo menos está parada e vazia – embora isso não seja exatamente reconfortante.
As vibrações se intensificam, e não perco tempo pulando a catraca. Sigo para as linhas, já que esse túnel vai me levar na direção certa. Descubro ser difícil traçar rotas na minha cabeça, já que estou com medo de os túneis do metrô explodirem ao meu redor a qualquer momento.
Ladrilhos caem das paredes. Pedaços do teto chovem no chão. John e Sam seguem atrás de mim, gritando para eu ir mais rápido, mas adentro na estação sentindo como se eu não estivesse correndo rápido o suficiente, descendo as escadarias do metrô com apenas alguns pulos. Quando finalmente chego aos trilhos, hesito por um segundo, pensando nos avisos da minha mãe sobre ser atropelada por um trem e eletrocutada nos trilhos.
O tipo de coisa que ela dizia para mim desde que eu era criança.
Só que suponho que ela nunca imaginou que eu estaria em uma situação onde uma estação de metrô está literalmente desabando ao meu redor por causa de uma maldita nave de guerra alienígena. Salto para baixo. Algo espirra quando alcanço o chão. Os trilhos estão inundados por um líquido que se infiltra em meus sapatos, e espero por Deus que seja apenas água. Pelo menos acho que os trilhos estão desligados, porque até agora não fui eletrocutada. Os meninos seguem atrás de mim, e as mãos-lanternas de John voltam a se acender durante o caminho, assustando um grupo de ratos.
— Que nojo, nojo, nojo! — eu repito para mim mesma enquanto continuo correndo para dentro do túnel. Tudo ao meu redor está tremendo. Parece a terra vai nos engolir.
E é mais ou menos o que ela faz.
Há uma rachadura acima de mim. Eu olho para cima a tempo de ver um pedaço gigante de cimento caindo em minha direção. Eu grito, cobrindo a cabeça.
Mas não morro. Quando olho de novo, meu nariz está a alguns centímetros de um pedaço da laje do teto do túnel, que está suspenso no ar. Penso por um segundo que talvez eu esteja fazendo isso de alguma forma, mas então olho para trás e vejo John. Ele está de joelhos na água e parece estar sendo esmagado, sobrecarregando os músculos como se o peso do mundo estivesse em cima dele.
— Temos que segurar o teto! — Sam grita. — Temos que ajudá-lo!
Suas mãos se erguem e eu vejo uma pontada de alívio no rosto de John.
Olho para o túnel. Eu não consigo ver o final, mas sei que se eu continuar, eventualmente chegarei à Ponte do Brooklyn.
Então será apenas uma questão de tempo até eu chegar à Wall Street. Até eu encontrar minha mãe.
Eu poderia apenas ir. Poderia deixar esses dois para trás. Talvez eles fiquem bem sem minha ajuda.
Mas um pensamento que tenho tentado silenciar soa na minha cabeça.
Você não sabe se ela está viva.
É verdade. Eu sei que é. Eu só não quero considerar a possibilidade. Mas está ficando mais difícil de ignorar, quando existem alienígenas explodindo prédios inteiros na minha frente. Quando vi tudo o que testemunhei nas últimas horas. E quando viro para trás e troco um olhar com Sam – com sua expressão frenética; veias em seu rosto e pescoço – eu sei que não posso abandonar esses dois. Não é o que minha mãe iria querer que eu fizesse.
Além disso, eu devo uma para eles.
Levanto minhas mãos sobre a cabeça, empurrando para cima com a minha telecinesia. Posso sentir um pouco de elasticidade no cimento quando a minha força é adicionada à deles. Minha cabeça volta a latejar, e eu mordo meus lábios, tentando ignorar.
John respira com dificuldade quando se move para a frente, até que nós três estamos de pé. Atrás dele, alguma parte do túnel – ou, mais provavelmente, toda a rua acima – cai com um splash.
— Andem... recuem — o cara soa como se estivesse prestes a desmaiar. — Vamos recuar... lentamente.
Andamos um passo de cada vez, tentando manter o túnel reforçado com a nossa telecinese. É pesado no início, mas a cada passo fica pior. Quase insuportável. Meus braços ficam fracos. Meu cérebro parece que vai explodir.
— Merda, merda, merda — eu fico repetindo.
John sussurra algum tipo de incentivo, mas estou tão concentrada em não ser esmagada que quase não ouço. Olho para Sam, que parece estar tendo dificuldades iguais às minhas. Nós continuamos caminhando, pouco a pouco, deixando pedaços do túnel caírem quando estamos a uma distância segura. Em algum momento, realmente começa a parecer mais fácil. Acho que meus músculos da mente devem ter inchado antes de eu perceber que nós estamos finalmente longe o suficiente dos túneis e que conseguimos superar o colapso.
Finalmente, podemos parar de segurar o teto. Quando libero a telecinesia, me sinto fraca. Sinto que extrapolei. Dou alguns passos instáveis para o lado do túnel e encosto na parede. A última refeição no meu estômago vem à tona, espirrando na água imunda em meu pé.
John dá alguns passos em minha direção. Eu pareço destruída, mas ele parece ainda pior. Sam está ao seu lado, lutando para manter o cara em pé.
— Ah, cara, ele está morrendo? — pergunto.
— Não importa o tanto do teto que estávamos segurando, ele provavelmente estava suportando quatro vezes mais — Sam responde. — Me ajude com ele.
Eu hesito por um momento, tentando me certificar de que não vou entrar em colapso, antes de puxar o braço de John sobre o meu ombro, a mochila intrometendo-se contra a sua lateral. Ele está suado e nojento e eu tento não fazer uma careta – ou pensar sobre como eu provavelmente também estou suada e nojenta.
— Ele acabou de salvar minha vida — murmuro.
— É, ele meio que faz isso — diz Sam.
Damos apenas alguns passos mais para dentro do túnel antes de John apagar o Lúmen. Então ele desmaia.
— Oh merda, ele morreu.
— Não — Sam me corrige. — Ele está apenas desmaiou. Por que você fica dizendo isso?
— Eu não sei! Esta manhã eu nem sabia que alienígenas existiam, droga.
Nós seguimos adiante. O túnel é escuro, mas eu consegui tirar meu telefone e ligar a lanterna, o que nos permite ver um pouco. Pelo menos o desmoronamento deve ter assustado todos os ratos. É um pequeno milagre.
John pesa uma tonelada, e se não fosse por nossa força combinada, duvido que apenas Sam ou eu fôssemos capazes de arrastá-lo para longe. Mas conseguimos, de algum jeito. Passamos pelo o que imagino ser a estação de Spring Street. É difícil dizer, porque a plataforma está completamente destruída também. Destruída. Eu não disse nada quando passamos por ela, apenas balancei a cabeça e voltei a me concentrar em manter minhas pernas em movimento.
— Você tem alguma ideia de onde estamos? — Sam pergunta alguns minutos depois.
— Uhhh... — eu tento imaginar mapas de metrô na minha cabeça. — Talvez sob Little Italy? Ou Chinatown? Acho que a Canal Street é a próxima estação.
— Droga.
— O quê?
— Nada. Eu acho que nós estávamos aqui antes. Estávamos indo para o outro lado. Para Union Square.
— Bem longe daqui agora.
Sam apenas grunhe em resposta.
Eventualmente chegamos a um ponto onde um grupo de túneis corre lado a lado. Há um trem que parece estar desativado ou foi descarrilado. O que quer que tenha acontecido, está abandonado.
E seco.
— Vamos descansar lá — Sam sugere, e eu não sei se já estive tão feliz em entrar num trem antes.
Nós colocamos John em um dos bancos e, em seguida, ficamos ali, recuperando o fôlego. Todo o meu corpo está tenso. Meus braços e pernas tremerem por excesso de força. Minha cabeça latejante está ficando pior.
— Bem — Sam diz finalmente. — Nós provavelmente deveríamos deixá-lo descansar por um tempo.
Movo a lanterna do meu telefone para o rosto de Sam como se eu estivesse em algum tipo de seriado policial. Ele estremece, levantando a mão para bloquear a luz.
— Acho que somos apenas nós — eu digo, largando minha mochila no chão do trem. — E tenho um monte de perguntas para você, Sam de Marte.

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