sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo seis

COM O HOLOFOTE APAGADO, DE REPENTE FICO CEGA ENQUANTO MEUS OLHOS tentam se reajustar à escuridão. Os tiros do canhão chiam contra o sofá de couro, e eu me abaixo, me pressionando contra o chão o máximo que consigo para o caso de as armas da nave cessarem fogo. O mundo lentamente volta a ter foco no centímetro entre a parte de baixo do sofá e o chão, pelo qual eu posso observar. Armas são disparadas constantemente, embora pareça haver cada vez menos deles. Espreito pela lateral do sofá bem a tempo de ver o que parece ser um cara – eu acho que é um cara, ele é apenas uma sombra para mim – pairando na borda da nave alienígena. Ele deve ter um lança-chamas ou algo do tipo, porque o fogo está tomando conta da cabine.
Então ele se solta, pousando na rua novamente enquanto a nave gira e se choca contra um prédio de frente para o banco. É algo parecido com o Homem-Aranha. Há uma explosão gigante, e eu me abaixo de novo, protegendo minha cabeça.
Acho que esse cara salvou minha vida.
Eu me pergunto se finalmente o exército chegou para aniquilar esses desgraçados pálidos. Quem quer que seja deve ter ganhado, pois não escuto o som de mais nenhuma arma alienígena sendo disparada, e posso identificar vozes humanas vindas da rua.
Okay. Então eu não estou morta. Isso é bom. Eu também não estou muito longe do restaurante em que a minha mãe trabalha. Ou pelo menos estou bem mais perto do que estava uma hora atrás.
Lentamente, eu me levanto, mantendo os olhos na rua. Depois de alguns passos, quase tropeço na mochila cheia de dinheiro que o ladrão carregava. Eu a encaro por um segundo, e então de repente minha mente me mostra a última imagem de mim com minha mãe, discutindo com ela sobre Benny e o apartamento. Embora eu pense que nada disso importa muito agora – se nosso apartamento ainda estiver lá e tudo mais – eu pego a mochila. Sei que eu fiz uma porcaria de discurso para Jay e os outros sobre roubar enquanto a cidade estava sob ataque, mas agora a coisa é totalmente diferente. É uma jogada de sorte. Eu não vou, tipo, simplesmente largar todos esses dólares aqui. Minha mãe e eu talvez precisaremos para sobreviver depois. E essa não é razão de tudo, afinal? Nós passarmos por isso e começarmos tudo de novo? Se quando eu encontrar minha mãe, esse dinheiro significar que poderemos ir para qualquer lugar, fazer o que nós quisermos. Ir para um lugar bem longe dessas naves, mesmo se o mundo acabar.
Agora pareço uma ladra. Se foi o exército que me salvou, talvez eles nem saibam que estou aqui. Eles provavelmente estavam apenas matando os alienígenas que atacavam a cidade. Se esse for o caso, talvez eu possa conseguir escapar.
Jogo a mochila no ombro bem na hora em que duas figuras aparecem, silhuetas na janela quebrada. Eu me abaixo atrás do sofá.
— Apenas continuem andando — eu sussurro.
— Ei! A barra está limpa aqui! — um deles diz.
Merda. Eles devem ter me visto. Estúpida.
Então uma luz é acesa, e primeiramente eu penso que ela vem de um celular muito bom, porém quando espreito pelo canto do sofá, vejo que ela parece estar saindo das mãos do garoto. Posso ver apenas uma parte do seu rosto e seus cabelos loiros. Alguma coisa nele me parece familiar, mas eu não tenho certeza do porquê.
— Nove? — ele chama. Então seu tom de voz diminui, ficando mais agudo. — Cinco?
É só então que cai a ficha e eu lembro de onde conheço esse cara – ele é o garoto que estava lutando contra o alienígena grandão e horrendo na TV. Ele é como um super-herói de verdade. O alienígena bonzinho famoso no vídeo do YouTube que eles ficam reproduzindo nos noticiários.
John Smith.
Talvez ele saiba o que está acontecendo. Talvez ele saiba porque de repente eu posso mover as coisas com a mente por aí.
Dou um passo à frente, em direção à luz que sai das mãos dele. É aconchegante. Embora isso não signifique que não possa ter alguma radiação ou alguma coisa estranha extraterrestre que possa me ferrar depois. Meus olhos têm de se reajustar novamente. Quando eles se ajustam, enxergo a outra figura que está ao lado de John. Ele é magricela e tem cara de nerd. Não John, por outro lado. Ele é alto e forte, embora pareça mais jovem agora que está na minha frente do que nos noticiários.
Ele provavelmente é a pessoa mais famosa do mundo neste momento. Mais do que os alienígenas. É meio estranho o fato de ele estar parado ali, olhando para mim como se eu fosse a famosa.
— Você é ele — eu digo, dando mais alguns passos curtos adiante. — Você é o garoto da TV.
Ele apaga as luzes e sua expressão fica estranha. Não sei dizer se ele está aliviado ou desapontado por me ver.
— Eu sou John — ele fala.
Eles me fazem algumas perguntas sobre outras pessoas estarem aqui comigo, mas tenho certeza absoluta de que eles não se referem aos outros ladrões. Mas os garotos olham para mim como se eu estivesse prestes a arrancar uma faca e atacá-los ou coisa assim. Então mostro a eles que eu tenho poderes também, fazendo uma das armas alienígenas flutuar e se chocar contra a parede atrás de mim.
Isso definitivamente muda as expressões deles.
Eles parecem surpresos. Não apenas com relação aos poderes, mas pelo fato de eu possuí-los. Eu vi John fazer umas coisas doidas na TV, e ele e seu amigo derrubaram um esquadrão de monstros espaciais mais a nave deles. Eu me pergunto se eles sabem o motivo de eu ter desenvolvido a telecinesia – a nomenclatura deles para o que eu faço.
Tento entender tudo enquanto andamos. Eu sou humana, porém tenho os mesmos poderes que John e seu amigo têm. Benny não tinha.
Nenhuma das outras pessoas assustadas que vi tinham. Mas eu sim.
O que significa que eu sou a mais sortuda – ou talvez a mais azarenta, ainda não sei direito – garota na cidade, ou há um motivo por trás disso pelo fato de eu ter me tornado uma super-herói. Parece que alguém ou alguma coisa me escolheu especificamente. Eu apenas não consigo descobrir o porquê.
É hora de eu ter umas respostas.
— Então, hum, posso perguntar por que você me escolheu? — levanto minhas sobrancelhas e olho de um para o outro.
A boca do magricela se abre como se eu tivesse pedido para ele me levar voando até a lua. John franze as sobrancelhas.
— Te escolhi? — ele pergunta.
É, idiota, por que eu tenho poderes extraterrestres?
Um monte de perguntas dispara da minha boca, mas nenhum deles aparenta saber o motivo de eu ser uma mutante agora. E agora? Se nem eles sabem, quem irá saber?
John tem outros planos em mente.
— Não é seguro aqui — ele fala. Ele parece muito sério, os olhos arregalados enquanto balança a a cabeça. — Você deveria vir conosco.
Não posso simplesmente começar a seguir esses caras. Eu ainda tenho que encontrar minha mãe. Além disso, se eles estão lutando contra os alienígenas – mogs, é assim que os chamam – isso significa que me juntar a eles provavelmente me colocaria na linha de frente da batalha.
Eu não estou exatamente cogitando essa ideia.
— Será seguro onde quer que você esteja indo? — pergunto.
— Não. Óbvio que não.
— O que John quer dizer é que esse bairro em particular vai estar cheio de mogadorianos a qualquer minuto — o outro explica enquanto começa a andar para fora do banco, parecendo muito nervoso. Vê-lo assim começa a me deixar nervosa, como se talvez ele soubesse de alguma coisa que eu não sei.
— Seu companheiro está nervoso — eu digo a John.
— Meu nome é Sam — o outro garoto observa.
— Você é um cara nervoso, Sam.
Mordo a parte de dentro de minhas bochechas, tentando decidir o que vou fazer. Eles estão certos; nós provavelmente não deveríamos estar passeando onde um esquadrão completo de alienígenas malvados está prestes a explodir. Embora eles não tenham nenhuma resposta para mim, eles são o mais próximo que tenho de uma explicação do que está acontecendo. E obviamente eles são poderosos – eles derrubaram uma nave. Talvez possam me ajudar a encontrar minha mãe.
E há algo sobre John. É difícil de explicar, mas eu me sinto atraída por ele. Não tem nada a ver com seus olhos ou suas bochechas – o cara definitivamente não faz meu tipo. É outra coisa, mais profunda. Me sinto conectada a ele de algum jeito. Quando ele fala sobre fazer o bem e lutar, ouço minhas palavras à Jay mais cedo em minha mente. Mas quando ele começa a falar sobre eu ajudá-los a ganhar uma guerra junto com uns amigos dele, percebo quão longe eles me levariam da minha mãe. Eu nem conheço esses caras. Não posso confiar que me ajudarão se eu disser que os ajudo.
Além disso, eu sei que não faz muito tempo desde que esses mogs apareceram do nada e arruinaram a vida de todo mundo, mas o exército provavelmente já está dando conta da cidade agora. Eles estarão voando em jatos e descendo de paraquedas no Central Park, milhares deles, atirando com suas armas.
— Sério cara? — pergunto. — Eu não estou lutando em guerra alguma, John Smith de Marte. Estou tentando sobreviver aqui fora. Isso é a América, mano. O Exército vai cuidar do traseiro pálido desses alienígenas. Eles vão cuidar de tudo e pronto.
John parece confuso com relação a isso – estou pressentindo que ele não é exatamente o tipo de pessoa que ouve um “não” todo dia. Aposto que um monte de pessoas cai a seus pés por causa dessa coisa de super-herói. Mas antes que ele possa discutir comigo, há uma explosão em algum lugar a uns quarteirões de distância. Eu quase caio com ela. Os alarmes dos carros começam a disparar pela rua. Sobre os telhados, eu posso ver cortinas de fumaça se formando.
Minhas mãos apertam o cano da arma alienígena que ainda estou segurando. John começa seu discurso novamente, tentando me dizer que é meu dever ajudá-los e que eu deveria ir com eles para o Brooklyn ou coisa assim. Todo mundo está tentando me tirar da cidade, mas só vou me preocupar com algum lugar seguro depois de saber que fiz tudo o que pude para encontrar minha mãe. Do lado de fora, as explosões continuam. Aponto um dedo para John. Um pouco da minha telecinese o empurra para trás, o que parece calá-lo.
— Meu padrasto foi torrado por uma daquelas escórias pálidas e agora estou procurando pela minha mãe, garoto extraterrestre. Ela trabalhava aqui perto. Você está dizendo que eu deveria largar tudo e me juntar ao seu exército de duas pessoas, correr pela minha cidade que serviu de cenário e foi explodida? Você está dizendo que o amigo que está procurando é mais importante do que minha mãe?
Outra explosão acontece do lado de fora. Sam diz alguma coisa, mas meus olhos estão travados nos de John e eu não presto muita atenção no amigo dele. Então há um movimento no céu e me viro para ver a nave gigantesca aparecer no nosso campo de visão. Algum tipo de energia começa a ser carregada num canhão que parece estar conectado debaixo dela.
Estamos totalmente em sua zona de tiro.
— Para o inferno com isso — eu digo, e começo a correr para longe da nave.
Sendo ele um alienígena super-herói famoso ou não, eu não vou ficar parada aqui com John Smith e acabar sendo explodida.

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