sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo seis

ALGUM TIPO DE ANIMAL SE MOVE NAS SOMBRAS. NÃO, PARECE MAIS UM DEMÔNIO. Mesmo estando escuro, posso distinguir sua cara grotesca. Há algo de morcego muito familiar nele. Olhos negros encimando o que parece uma fileira de quatro ou cinco narinas – a criatura provavelmente nos encontrou pelo cheiro. Sua mandíbula se abre tanto que parece desequilibrá-lo, mostrando fileiras de dentes que pingam saliva no gramado abaixo. Seus braços e pernas são grandes e musculosos, semelhantes aos animais da Terra, cada cotovelo ou junta protegido com um chifre.
Na luz fraca eu não sei dizer se seu corpo oleoso é cinza ou azul escuro.
— Que porcaria é essa? — Lujan pergunta.
Um monstro mogadoriano, eu penso, me lembrando de Sam, Adam e os outros conversando sobre essas criaturas. Mas não tenho tempo para explicar. A besta ruge novamente e vem em nossa direção, impulsionada por seus membros extragrandes. Levanto meu revólver e puxo o gatilho. Há apenas um clique, sem balas.
— Leve o maldito daqui em segurança! — Briggs grita começa a atirar.
Lujan se junta a ele, atirando com uma arma que parece que poderia derrubar um elefante.
A criatura parece não se incomodar, ou possivelmente apenas não está sendo atingida por nenhum dos tiros. Qualquer que seja o caso, ele me tira do caminho com um braço enorme que voa pelos ares, atirando-me no tronco de uma árvore próxima. Briggs consegue se esquivar do próximo movimento da criatura recuando. Uma rajada de balas de seu rifle de atinge uma das pernas da criatura. Ela cai com força no chão.
Ouço alguém grunhindo um comando atrás de mim em um idioma que faz com que cada músculo do meu corpo fique tenso. Há mais ou menos uma dúzia de mogs – talvez mais – correndo em nossa direção por entre as árvores, tentando chegar até a besta. Vários na frente já estão com as armas erguidas.
— Mogs! Protejam-se! — grito, tropeçando em meus próprios pés.
Briggs se abaixa atrás de outra árvore perto de mim enquanto o tiro do canhão arremessa pedaços de casca de árvore esfumaçando ao nosso redor. Destravo a minha pistola, e nós disparamos contra o grupo que se aproxima. Alguns dos mogs se desintegram. Atrás de mim e vários metros à minha esquerda, Lujan atira em um ritmo constante, mogs virando cinzas depois de cada tiro. Sua arma troveja como um canhão a cada vez que ele puxa o gatilho.
Em algum momento, o monstro deve ter desaparecido. Eu não o vejo em  lugar algum. Ou talvez tenha sido transformado em cinzas, destruído por Lujan.
— Eu estou fora — digo quando minha arma começa a fazer barulho de cano vazio. Briggs joga munição para mim, e eu começo a recarregar.
Então um rugido soa acima do meu ombro e me viro bem a tempo de ver a criatura pular para fora das árvores, usando a sua perna remanescente para se impulsionar voando direto para mim. Eu sou lento demais e não consigo recarregar o revólver a tempo.
O monstro ergue um dos seus cotovelos no ar, pronto para mergulhar a articulação espinhosa em mim.
Eu assobio.
É um reflexo – com o pânico, eu tinha esquecido completamente do meu guarda-costas, mas uma parte primordial da minha consciência deve ter percebido que assobiar é a única coisa que vai me salvar agora. Gamera desce em uma fração de segundo, obviamente, estivera esperando nas árvores para o seu momento de agir, movendo-se tão rápido que eu me pergunto se ele já estava a caminho quando eu assobiei. Ele toma a forma de uma pantera, interceptando a besta mogadoriana no meio do ar, fechando os dentes afiados em torno de sua perna boa.
— Que diabos está acontecendo? — Lujan grita, apontando a arma para os animais que lutam com unhas e dentes na frente dele.
— Não! A pantera está comigo!
Ele olha para mim em confusão. Então, de repente, é atingido por um tiro de canhão no estômago. Ele geme, segurando o intestino, os joelhos atingindo o chão.
— Merda! — Briggs grita. Ele tenta alcançá-lo, mas há um emaranhado de animais entre nós e Lujan, para não mencionar meia dúzia mogs ainda atirando em tudo que se move.
— Gamera!
Eu não sei o quanto o Chimæra compreende qualquer um que não seja um Garde, mas a pantera olha na minha direção, arrancando a perna boa do monstro ao mesmo tempo. Aponto para onde os tiros dos canhões vêm das árvores.
— Ataque.
Ele deve entender alguma coisa, porque de repente ele é uma ave se atirando à frente. Momentos depois eu ouço um estrondo, seguido do som de um grito mogadoriano. Só dura alguns segundos antes de tudo ficar em silêncio.
Dou alguns passos para a frente, seguindo perto das árvores por sua proteção. Quando estou perto da besta mog, ela ruge para mim, lutando para levantar-se usando apenas as patas da frente. Ergo a minha pistola e disparo uma e outra vez. Cada bala encontra seu lugar na cabeça do monstro. Muco viscoso e escuro atinge as árvores e a grama atrás dele. Depois de alguns segundos, minha pistola começa a clicar novamente.
O monstro cai na grama. Sem vida. Em seguida, lentamente começa a se dissolver, até se tornar nada além de uma pilha de cinzas.
Apesar de estar em um tiroteio com os invasores que vieram para tomar o meu planeta, não posso deixar de sentir alegria cada vez que um deles se transforma em pó.
Talvez eu não seja tão inútil, afinal de contas.
— Droga, eu estou quase sem munição — diz Briggs.
É só então que percebo que o tiroteio cessou.
Gamera sai das árvores, de volta sob a forma de uma pantera negra, sua pelagem brilhante coberta de cinzas.
— Santo Deus — Briggs continua repetindo. — O que está acontecendo?
Eu não consigo responder. Lujan geme na minha frente, segurando o estômago. Há fumaça saindo dos buracos em seu peito. Ele deve ter sido atingido algumas vezes quando não estávamos vendo. Há sangue por toda parte.
Ajoelho-me ao lado dele, mas é tarde demais. Ele aponta na direção da Union Station e, em seguida, sua respiração para. Tudo o que posso fazer é fechar seus olhos e murmurar um pedido de desculpas por ele ter sido arrastado para isso, dizendo a mim mesmo que ele será a última vítima desta guerra, mesmo embora, naturalmente, eu saiba que não é verdade.
— Ele está...? — Briggs pergunta.
Eu aceno com a cabeça.
— Essa coisa... — ele aponta seu rifle para Gamera, que anda pelas árvores ao meu redor, farejando o ar. — Este... este animal... é um alienígena também?
— Aquele animal está do nosso lado. Ele acabou de salvar nossas vidas.
Briggs dá alguns passos na minha frente, sem tirar os olhos de Gamera até estar de pé ao lado de Lujan. Há um lampejo de remorso em seu rosto.
— Precisamos chegar à estação — diz ele em voz baixa. — Nossos tiros provavelmente alertaram cada alienígena hostil dentro de meia quilômetro. Eles estarão aqui a qualquer momento.
— O que vamos fazer com o corpo dele? — pergunto.
Briggs apenas balança a cabeça.
— Ele queria ter a certeza de que a missão fosse concluída.
Entendo aonde ele quer chegar, mas o coronel perdeu a vida tentando me levar ao presidente. Não posso deixá-lo aqui, a céu aberto. Então arrasto Lujan até uma moita densa de arbustos e tento escondê-lo da melhor forma possível. É tudo em que posso pensar.
Digo a mim mesmo que quando chegarmos aonde quer que formos, eu poderia ser capaz de enviar alguém para recuperar seu corpo, mas no fundo da minha mente sei que há coisas muito mais importantes para se preocupar.
Não percebo o quanto as minhas mãos tremem até que solto na lateral do corpo. Apesar de toda a luta de que tenho feito parte, ainda não estou acostumado com a morte. Mas ninguém deveria estar.
Briggs se agacha ao meu lado, e recolhe as armas e a munição de Lujan. Quando termina, acena para mim e, em seguida, nós estamos nos movendo novamente.
Briggs deve estar com dores excruciantes a cada passo, mas ele não diz uma palavra ou mesmo diminui o ritmo. Eu sigo atrás dele, perguntando como as coisas ficaram tão ruins. E me pergunto sobre o meu filho.
Sam está seguro?
E não posso deixar de pensar nos outros também. Adam, o resto do Garde, Sarah – até em Noto e os agentes que deixamos para trás em Ashwood.
O que aconteceu com eles? O que vai acontecer com todos nós?

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