sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo quatro

ESTAMOS QUASE NA METADE DO GRAMADO QUANDO UM HUMVEE ATINGE OS portões de ferro de Ashwood Estates. Ele acelera em nossa direção, eventualmente se chocando contra uma parede de tijolos que separa dois lotes. Portas se abrem. Eu vejo os rostos pálidos dos mogadorianos. E então, de repente, Briggs está me jogando no chão, me empurrando para trás de um dos carros do FBI que estão estacionados na grama entre a casa e o helicóptero. Meu fôlego desaparece. Uma chuva de vidro cai ao meu redor enquanto as janelas dos carros são explodidas.
— Fique abaixado! — Briggs grita. Ele se junta aos federais atrás de um SUV e começa a atirar na direção dos mogs.
Atrás de mim, agentes irrompem de uma das janelas do segundo andar da antiga casa de Adam e começam a atirar. Da minha posição, eu não posso dizer onde está Lujan.
Cinco pássaros pousam no chão ao meu redor. Suas garras tremem, oscilando com a transformação. Olho para trás para a varanda e vejo Noto. Há sangue pingando de sua roupa vindo de uma marca de queimadura em seu ombro. Eu aponto para ele.
— Proteja os outros! — sussurro alto o suficiente apenas para eles me ouvirem.
Eles viram suas cabeças e voltam a me olhar modo inexpressivamente.
— Vão! — eu grito.
Eles se dispersam. Briggs olha para mim, recarregando seu rifle. Ele berra algo em seu walkie-talkie e depois se vira para mim, gritando.
— Quando eu começar a atirar, você corre. Vá até o helicóptero.
Eu aceno ofegante, tentando recuperar o fôlego. Minha mochila está balançando no chão ao meu lado. Dou um tapinha nela, tentando dizer a Gamera que estou bem. Ele poderia sair se quisesse, tenho certeza, mas se estamos prestes a ir para o céu, não quero correr o risco de perdê-lo.
Acima de nós os Skimmers estão circulando e entrando em formação. Há um estrondo forte do outro lado do gramado enquanto uma das naves irrompe em chamas. Sigo o rastro de fumaça da explosão até o helicóptero. É então que percebo que é um transporte de guerra, provavelmente cheio de todos os tipos de armamento.
— Vá! — Briggs grita, abrindo fogo novamente.
Eu corro mais rápido que posso, concentrando-me no helicóptero e ignorando todo o resto em torno de mim. Para alguém que passou a maior parte da última década em coma induzido, com músculos atrofiados, faço o inferno de um esforço. Ashwood é um borrão, mas estou ciente dos tiros ao meu redor e posso ouvir o chiar do pulso elétrico dos canhões mogadorianos disparando. Há outra explosão do helicóptero.
Em minha visão periférica, vejo o Humvee dos mogs subir em chamas.
Acontece que Lujan já está no helicóptero, disparando a partir do que imagino ser um lançador de granadas. Ele me puxa para dentro quando chego lá, meio que me empurrando para um assento na parte traseira. Coloco o cinto, ponho a mochila entre meus pés, tentando pesar os prós e contras de libertar Gamera agora. O problema é que não sei quem são esses homens, ou aonde estou indo. Com toda a dor e sofrimento que se passou por causa das minhas ações no passado, não posso suportar a ideia de Gamera ou qualquer um dos Chimærae terminando dissecado em uma mesa de laboratório em algum centro de pesquisa do governo em nome da ciência.
Lujan grita em um walkie-talkie.
— Objeto a bordo. Estamos decolando em cinco segundos com ou sem você aqui!
É um comando não só para Briggs, mas para o piloto, que assente.
Há um segundo soldado na cabine, além do piloto. Presumo que ele seja quem alveja com a principal arma do helicóptero. Outro soldado está ajustando a montagem de uma metralhadora enorme, apontando para o lado do helicóptero oposto por onde eu entrei. Seus olhos estão voltados para o céu, com foco nos Skimmeres, disparando à distância.
Briggs praticamente se atira no helicóptero alguns segundos mais tarde. Ele grita quando cai de joelhos. Uma de suas botas está coberta de sangue, e seu braço esquerdo oscila frouxamente ao seu lado.
— Tire a gente desse inferno! — Lujan berra para o piloto. Ele se vira para o homem sobre a arma. — Marque seus alvos.
Enquanto o helicóptero balança ao subir para cima, tento ajudar Briggs, erguendo-o para o assento ao meu lado e perguntando se ele está bem. Mas ele me empurra, cerrando os dentes enquanto coloca o cinto. Eu me inclino para a frente, tentando obter um vislumbre das naves.
Três Skimmers abrem fogo de uma vez. Nosso helicóptero vira para um lado, nos fazendo balançar enquanto tentamos escapar sem sermos atingidos. Um massacre está ocorrendo no solo de Ashwood, e estamos no fogo cruzado. Eu me preparo e resisto à vontade de vomitar. Esta é a primeira vez que ando de helicóptero. Pelo menos que eu saiba.
— Derrube esses bastardos do céu! — Lujan grita.
Metralhadoras disparando enchem o ar, seguido pelo cheiro acre de metal dos tiros descarregados. Uma arma de fogo maior atira de algum lugar perto da frente da nave. Trinco a mandíbula e seguro as correias de segurança com tanta força que penso que posso estar sangrando.
As ondas de choque de uma explosão em algum lugar balançam o helicóptero. Um Skimmer cai abaixo em chamas.
— Droga — diz Briggs. — Um desses bastardos deve estar carregando uma Stinger.
Nós voamos para frente. Um dos Skimmers circula Ashwood, mas o outro está nos perseguindo rapidamente, voando em ziguezague para evitar os tiros que continuam a ser disparados de nosso helicóptero.
— O que quer que você tenha encontrado nessa base — Lujan diz, gritando sobre o barulho — eles não devem querer que saia daqui. O que deixamos passar? Ou o que estamos procurando?
— Eu não encontrei nada — aponto.
— Sim, mas eles provavelmente não sabem disso.
— Pode ser que eles sejam apenas os alienígenas irritados — Briggs murmura.
Enquanto ele fala, desajeitadamente tenta puxar a perna esquerda da calça encharcada de sangue com o braço direito.
— Deixe-me ajudar — ofereço.
Ele respira fundo algumas vezes, o suor brotando na testa antes de se inclinar para trás em seu assento. Eu tomo isso como uma permissão e consigo puxar sua calça para fora da bota e vejo um buraco onde ele levou o tiro em sua panturrilha. Ele aponta para um kit de primeiros-socorros fixado no interior do helicóptero e depois me fala como limpar o ferimento e cobrir a ferida com uma ligadura de compressão.
— Me pegou desprevenido — diz ele entre as instruções e longas sequências de palavras de baixo calão. — Veio com força sobre meu ombro. Acho que o derrubei.
— Posso tentar colocá-lo de volta no lugar, se quiser.
— Você é um médico?
— Tecnicamente... eu sou um astrônomo.
Briggs apenas olha para mim, engrenagens girando em sua cabeça enquanto ele pensa em como responder. Mas ele não tem a chance.
Um dos tiros do Skimmer nos atinge, e damos um mergulho súbito, caindo o que deve ser centenas de pés no ar no curso de segundos. Tenho certeza que vamos cair, mas o piloto nos coloca no ar novamente.
— Droga — ouço Lujan gritar enquanto ele pega o artilheiro do chão e o ajuda a voltar ao seu posto.
— Não podemos ir mais depressa que essa coisa! — grita o piloto.
Enquanto Lujan confere os outros soldados, eu me esforço para olhar para fora da janela. É quando eu a vejo: a nave de guerra mogadoriana pairando sobre Washington DC.
— Impossível — murmuro, sabendo muito bem que não é, que é real.
Mas ver a nave gigante pessoalmente é algo para a qual não se está preparado, mesmo depois de toda a cobertura da TV. É imponente, inspiradora da pior maneira possível.
Abaixo de nós a cidade parece estranhamente silenciosa, pelo menos pelo o que posso dizer. Não há fumaça subindo dos edifícios. Nada de jatos acompanhando a monstruosidade alienígena que bloqueia o céu crepuscular da capital de nossa nação.
— Onde está o resto do exército? — pergunto. — A Guarda Nacional? Onde estão nossas defesas?
— Foi dada ênfase à evacuação de pessoas de alto valor — diz Briggs. — A maior parte dos nossos alvos estavam na cidade. Você é um dos poucos que teve de ser resgatados por via aérea. Caso contrário, estamos sob as ordens para ficarmos no chão. O helicóptero vai nos deixar perto do nosso destino. Ele vai servir como uma distração se precisarmos de cobertura enquanto fazemos o resto do caminho a pé.
— Não acho que deveríamos ser deixados em qualquer lugar se não podemos derrubar este Skimmer.
Briggs olha para mim, confuso.
— É assim que chamamos as naves mogadorianas menores — explico.
Ele considera isso.
— Melhor que OVNI, eu acho.
O helicóptero sacode novamente. Ouço os gritos de Lujan para os dois homens na cabine. Algo sobre como evitar danos colaterais.
Briggs começa balançando a cabeça.
— Tudo bem — diz ele, inclinando o ombro ferido para mim e olhando na direção oposta. — Faça. Coloque meu braço no lugar.
— Tem certeza? — pergunto.
— Se nós pousarmos em uma zona de guerra, não quero estar mancando e incapaz de mirar. Apenas acabe com isso logo.
Enquanto penso em como isso deve funcionar fisicamente, eu nunca coloquei de verdade o ombro de alguém de volta no lugar.
Briggs fecha os olhos enquanto eu tiro meu cinto de segurança, dobrando meu corpo da melhor forma possível para obter alguma alavancagem.
— Vou contar até três — eu digo, agarrando seu braço. — Um...
— Esperem um pouco — Lujan grita de volta para nós. — Nós vamos tentar uma coisa, e vai balançar um pouco.
O helicóptero vira, me atirando contra Briggs. Há um pop quando o acerto.
— Merda! — ele grita.
Acho que coloquei seu ombro no lugar acidentalmente.
Demora alguns segundos para entendermos o que o piloto está fazendo. Puxando para trás e diminuindo a velocidade, colocando o Skimmer logo ao nosso lado: na linha perfeita de fogo para o nosso artilheiro. Balas atingem seu casco, rasgando a nave alienígena.
— Uhuu! — grita o artilheiro.
A cabine da nave alienígena brilha em chamas, uma cortina de fumaça surgindo a partir dela.
Briggs deixa escapar um longo suspiro.
— Essa é uma maneira de perder a cauda.
— Bem, me condenem — diz Lujan. — Você conseguiu o seu pedaço de merda. Parece como...
Ele para enquanto assistimos o Skimmer se inclinar para o lado, vindo direto para nós. Seu piloto está tentando fazer uma última tentativa para destruir o alvo. Nosso helicóptero se atira para a frente, mas não a tempo. O Skimmer bate na nossa traseira, no rotor da cauda. E segundos depois estamos caindo em espiral em direção ao gramado abaixo, destroços de vidro e metal voando junto com nossos gritos.

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