sábado, 30 de julho de 2016

Capítulo onze


Enquanto isso, no andar de cima, Violet inspecionava seu quarto com olho crítico apurado. Respirou fundo, e em seguida amarrou os cabelos com uma fita, para afastá-los dos olhos. Como bem sabemos vocês e eu e todos os que conhecem bem Violet, quando ela amarra os cabelos desse jeito é porque está precisando se concentrar. E neste exato momento ela precisava bolar uma invenção com a máxima urgência.
Quando Klaus mencionou a ordem de Stephano de carregarem a mala dele para dentro da casa, Violet deu-se conta de que a prova que ela estava procurando tanto se achava sem sombra de dúvida naquela mala. E agora, enquanto os irmãos se ocupavam em distrair os adultos na Sala dos Répteis, ela tinha uma oportunidade única de abrir a mala e tomar posse da prova do plano perverso de Stephano. Mas o ombro dolorido fez com que ela se lembrasse de que não era tão simples abrir aquela mala: estava trancada, com um cadeado tão brilhante quanto os olhos de Stephano quando ele tinha algum plano em mente. Confesso que, se eu estivesse no lugar de Violet, dispondo de poucos minutos para abrir aquela mala trancada com cadeado – em vez de me encontrar aqui no convés do iate de minha amiga Bela, pondo estas palavras no papel –, provavelmente eu teria desistido de ter esperanças. Teria me jogado no chão do quarto, socando o tapete com meu punho irado enquanto protestaria em pensamento contra o absurdo de a vida ser tão injusta e tão repleta de inconveniências.
Por sorte dos Baudelaire, entretanto, Violet era pessoa de mais fibra, e seus olhos passaram em revista o quarto à procura de qualquer coisa que pudesse ajudá-la. Não havia muito em matéria de elementos que pudessem ser aproveitados em invenções.
Violet sempre havia sonhado com um quarto apropriado para suas invenções, abastecido com arames e engrenagens e com todo o equipamento necessário para produzir invenções de qualidade. O tio Monty na verdade possuía muitos desses elementos, mas – para grande frustração de Violet quando pensou nisso – eles se achavam localizados na Sala dos Répteis. Ela olhou para as folhas de papel pregadas com tachinhas na parede, onde esperara esboçar suas invenções ao ir morar na casa do tio Monty. O problema havia surgido tão rapidamente que Violet mal tivera tempo de pôr alguns rabiscos numa das folhas, rabiscos que ela havia escrito sob a luz de uma luminária de pé na primeira noite que passara ali. Ao lembrar-se daquela noite os olhos de Violet deslocaram-se até a lâmpada, e quando se fixaram na tomada ela teve uma ideia.
Sabemos, sem dúvida, que não se deve nunca, mas nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca nunca ficar mexendo à toa em material elétrico. Nunca. Há dois motivos para isso. Primeiro: você pode ser eletrocutado, o que é não apenas mortal, mas muito desagradável. Segundo: você não é Violet Baudelaire, uma das poucas pessoas no mundo que sabe como lidar com essas coisas. E a própria Violet teve o máximo cuidado e estava muito tensa quando retirou o plugue da lâmpada e ficou a observá-la pensativa. Podia ser que a ideia funcionasse. Na esperança de que Klaus e Sunny continuassem a ter êxito em desviar a atenção dos adultos, Violet girou os pinos do plugue numa e noutra direção, seguidamente, até que conseguiu retirá-los do encaixe de plástico. Tinha agora duas pequenas barras metálicas. Soltou, então, uma das tachinhas que fixava o papel na parede, fazendo com que a parte de cima do papel rolasse para baixo. Com a ponta afilada da tachinha espetou as duas peças de metal até uma ficar enganchada na outra, em seguida forçou a tachinha numa posição tal que a ponta afilada ficasse para fora, saliente. O resultado assemelhava-se a uma peça de metal que talvez vocês nem notassem se estivesse jogada na rua, mas, na verdade, o que Violet havia feito era uma grosseira – a palavra grosseira tem aqui o sentido de “tosca, feita em cima da hora” e não de “rude ou mal-humorada” – gazua. Gazuas, como talvez vocês saibam, são chaves falsas que funcionam como se fossem chaves de verdade, usadas por bandidos arrombadores para roubar casas ou para escapar da prisão. Mas esta foi uma das raras ocasiões em que a gazua estava sendo usada pela mocinha: Violet Baudelaire.
Violet desceu as escadas devagarinho e sem fazer barulho, com a gazua numa das mãos, os dedos cruzados na outra. Passou pela enorme porta da Sala dos Répteis, andando na ponta dos pés, e, fiada na esperança de que não notariam sua ausência, escapuliu para fora da casa. Desviando de propósito seus olhos do carro do dr. Lucafont para evitar ter uma vista, mínima que fosse, do corpo do tio Monty, a mais velha dos Baudelaire caminhou até a pilha de malas. Seu primeiro olhar foi para as malas antigas, que pertenciam a ela e a seus irmãos. Essas malas continham, estava bem lembrada, uma porção de roupas feiosas que pinicavam o corpo, roupas compradas para eles pela sra. Poe logo depois que os Baudelaire pais morreram. Por instantes, Violet teve sua atenção presa a essas malas, rememorando a vida mansa que havia tido antes que todo aquele monte de problemas desabasse sobre a família, e pensando como era surpreendente ver-se agora em circunstâncias tão infelizes. Isso pode não ser surpreendente para nós, porque conhecemos quanto são desgraçadas as vidas dos órfãos Baudelaire, mas o infortúnio de Violet era uma constante surpresa para ela, que precisou de todo um minuto para expulsar da cabeça esses pensamentos e concentrar-se no que tinha a fazer.
Ajoelhou-se para ficar mais perto da mala de Stephano, segurou o cadeado de prata numa das mãos, respirou fundo e enfiou a gazua na fechadura. A gazua entrou, mas quando tentou girar ela quase não se mexeu, só arranhou de leve o interior da fechadura. Precisava mover-se com maior desenvoltura, do contrário era inútil esperar que funcionasse. Violet retirou a gazua e umedeceu-a na boca, fazendo uma careta por causa do sabor desagradável do metal. Em seguida tornou a enfiar a gazua na fechadura e tentou movê-la. A chave falsa deu uma mexidinha à toa e mais nada.
Violet retirou a gazua e concentrou-se com esforço máximo em seus pensamentos, voltando a amarrar a fita nos cabelos. Ao afastar o cabelo de seus olhos, entretanto, sentiu um súbito formigamento na pele. Desagradável, mas que não lhe era estranho. Era a sensação de estar sendo observada. Rápido, olhou para trás, mas viu só os arbustos em forma de cobras no gramado. Olhou para o lado e viu só a rampa que levava ao Mau Caminho. Até que firmou a vista para a frente, fixando-a através das paredes de vidro da Sala dos Répteis.
Nunca lhe havia ocorrido que as pessoas pudessem ver de fora para dentro das paredes da Sala dos Répteis tão claramente como podiam ver de dentro para fora, mas, quando olhou para cima, Violet viu, por trás das gaiolas dos répteis, a figura do sr. Poe aos pulos, excitadíssimo. Vocês e eu sabemos, naturalmente, que o sr. Poe entrara em pânico por causa de Sunny e a Víbora Incrivelmente Mortífera, mas tudo o que Violet pôde perceber era que, qualquer que fosse a trama bolada pelos irmãos, estava funcionando. O formigamento em sua pele não se explicou, entretanto, até ela focalizar melhor sua atenção um pouco à direita do sr. Poe – quando então viu que Stephano olhava fixo para ela.
Abriu a boca, tomada de surpresa e pânico. Ela sabia que agora, a qualquer instante, Stephano inventaria uma desculpa para sair da Sala dos Répteis e vir à sua procura, e ela nem sequer abrira a mala. Depressa, já, o quanto antes, ela tinha que encontrar um meio de fazer sua gazua funcionar. Baixou os olhos para as pedras úmidas da rampa de entrada e em seguida ergueu-os para o fosco e amarelado sol da tarde. Olhou para as próprias mãos, sujas de poeira pelo trabalho de desmontar o plugue, e foi então que lhe veio uma ideia.
De um salto, Violet voltou em disparada para dentro da casa como se Stephano já estivesse em sua perseguição, e passou como um relâmpago pela porta que dava para a cozinha. Derrubando no chão uma cadeira que estava em seu caminho, ela apanhou uma barra de sabão na pia que gotejava, esfregou a substância escorregadia cuidadosamente na sua gazua até cobrir todo o instrumento de uma fina camada escorregadia. Com o coração aos pulos dentro do peito, saiu para fora da casa de novo, dando uma rápida espiada nas paredes de vidro da Sala dos Répteis. Stephano estava dizendo algo ao sr. Poe – ele gabava-se de seu conhecimento especializado sobre cobras, mas Violet não tinha como saber disso –, e Violet aproveitou esse momento para ajoelhar-se e tornar a enfiar a gazua na fechadura do cadeado. A ferramenta deu rapidamente a volta completa, e então rompeu-se em duas, bem nas suas mãos. Uma das metades soltou-se e caiu no gramado, enquanto a outra permanecia presa na fechadura como um dente pontudo. Sua gazua estava destruída.
Violet cerrou os olhos um instante, desesperada, e em seguida levantou-se num só impulso, apoiando-se na mala para se equilibrar. Quando ela pôs a mão sobre a mala, entretanto, o cadeado destravou-se com o golpe e a mala tombou para um lado, aberta, espalhando tudo pelo chão. Violet caiu para trás de surpresa. Às vezes, mesmo nas vidas mais desgraçadas, acontece um momento ou dois de boa sorte. É muito difícil, como contam as pessoas que tiveram essa experiência, encontrar uma agulha num palheiro, daí “agulha num palheiro” ter se tornado um chavão muito difundido que equivale a “algo que é difícil de achar”. Naturalmente, o motivo que torna difícil achar uma agulha num palheiro é que, de todas as coisas que existem num palheiro, a agulha é apenas uma delas. Mas se vocês estivessem procurando qualquer coisa num palheiro, isso não seria difícil, de modo algum, porque, uma vez que começassem a revistar com minúcia o palheiro, com certeza achariam alguma coisa: feno, terra, insetos, ferramentas de jardinagem, e talvez até um homem que houvesse fugido da prisão e estivesse escondido ali. Quando Violet remexeu no conteúdo da mala de Stephano, era como se estivesse procurando qualquer coisa no palheiro, porque não sabia exatamente o que queria encontrar. Portanto, foi na verdade razoavelmente fácil encontrar objetos que comprovassem o crime: um tubo de ensaio fechado por tampa de borracha, do tipo que se vê nos laboratórios; uma seringa com agulha de ponta fina, como a que um médico usa para dar injeções; um pequeno maço de papéis dobrados; uma carteirinha; um pulverizador e um espelhinho de mão.
Mesmo sabendo que só dispunha de mais alguns poucos minutos, Violet separou esses objetos das roupas perfumadas e da garrafa de vinho que também estavam dentro da mala, e olhou-os detidamente, concentrando-se em cada um daqueles objetos como se fossem peças que ela usaria para construir uma máquina. E, de certo modo, não eram outra coisa. Violet Baudelaire precisava articular aqueles elementos para derrotar o plano maléfico de Stephano e trazer paz e justiça para a vida dos órfãos Baudelaire pela primeira vez desde que seus pais haviam morrido no terrível incêndio. Violet olhava fixo para cada um daqueles objetos, refletindo muito, concentrada; não demorou muito a expressão de seu rosto iluminou-se, como sempre acontecia quando todas as peças soltas de um conjunto se encaixavam perfeitamente e a máquina se punha a funcionar tal como devia.

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