sábado, 30 de julho de 2016

Capítulo doze


Prometo a vocês que esta é a última vez que vou usar a expressão “enquanto isso”, mas é que não consigo ver outro jeito de voltar ao momento em que Klaus havia acabado de explicar ao sr. Poe a intenção de Sunny ao gritar “A-há!”. Agora todos na Sala dos Répteis estavam olhando para Stephano. Sunny tinha um ar triunfante. Klaus tinha um ar desafiador. O sr. Poe tinha um ar furioso. O dr. Lucafont tinha um ar preocupado. Não dava para saber que ar tinha a Víbora Incrivelmente Mortífera porque é difícil identificar a expressão facial das cobras. Stephano encarava todas aquelas pessoas em silêncio, com uma expressão oscilante, na medida em que tentava decidir se ia pôr tudo a limpo, expressão que aqui quer dizer “admitir que ele era realmente o conde Olaf e não tinha objetivos inocentes”, ou se ia perpetuar sua enganação, expressão que aqui equivale a “mentir, mentir e mentir toda a vida”.
“Stephano”, disse o sr. Poe, e pôs-se a tossir no seu lenço. Klaus e Sunny esperaram impacientes a continuação do que ele ia dizer. “Stephano, explique-se. Você acaba de nos dizer que é um especialista em cobras. Antes, no entanto, você havia dito que não entendia nada de cobras e que, portanto, não poderia estar envolvido na morte do dr. Montgomery. Que é que está acontecendo?”
“Quando falei aos senhores que não entendia nada de cobras”, disse Stephano, “estava sendo modesto. Agora, se me dão licença, tenho que ir lá fora um momento, e...”
“Você não estava sendo modesto!”, gritou Klaus. “Você estava mentindo. E está mentindo agora! Você não passa de um mentiroso e de um assassino!”
Stephano arregalou os olhos, e seu rosto anuviou-se de raiva. “Vocês não têm provas disso”, falou.
“Temos, sim senhor”, disse uma voz que vinha da porta, e todos se viraram para ver Violet que se achava ali, com um sorriso no rosto e as provas nas mãos. Triunfante, ela atravessou a Sala dos Répteis até o extremo mais afastado onde os livros que Klaus havia lido sobre a Mamba do Mal continuavam separados numa pilha. Os outros a seguiram, percorrendo as passagens entre os répteis. Sem dizer uma palavra, ela arrumou os objetos em fileira sobre uma mesa: o tubo de ensaio fechado por tampa de borracha, a seringa com agulha de ponta fina, o pequeno maço de papéis dobrados, a carteirinha, o pulverizador e o espelhinho de mão.
“O que é isso tudo?”, perguntou o sr. Poe, apontando para a fileira de objetos.
“Essas”, disse Violet, “são as provas do crime que encontrei na mala de Stephano.”
“Minha mala”, disse Stephano, “é propriedade privada em que você não está autorizada a tocar. É uma grosseira falta de consideração de sua parte, sem falar que estava trancada com cadeado.”
“Era uma emergência”, disse Violet, calma, “e por isso removi o cadeado.”
“Como conseguiu fazer isso?”, perguntou o sr. Poe. “Boas meninas não deveriam saber fazer essas coisas.”
“Minha irmã é uma boa menina”, disse Klaus, “e sabe fazer uma porção de coisas.”
“Rufik!”, concordou Sunny.
“Bem, discutiremos isso mais tarde”, disse o sr. Poe. “Por ora, continue o que estava dizendo.”
“Quando o tio Monty morreu”, começou Violet, “meus irmãos e eu ficamos muito tristes, mas também muito desconfiados.”
“Não ficamos desconfiados!”, exclamou Klaus. “Se alguém está desconfiado, isso quer dizer que não tem certeza! Nós tínhamos certeza absoluta de que Stephano o havia matado!”
“Absurdo!”, disse o dr. Lucafont. “Como expliquei a todos vocês, a morte de Montgomery Montgomery foi um acidente. A Mamba do Mal escapou de sua gaiola e o mordeu. Ponto final.”
“Perdão”, disse Violet, “mas os fatos dizem mais do que isso. Klaus se informou sobre a Mamba do Mal e descobriu como é que ela mata suas vítimas.”
Klaus caminhou até a pilha de livros e abriu o de cima. Ele havia marcado a página com uma tira de papel, de modo que na mesma hora encontrou o que procurava.
“A Mamba do Mal”, leu em voz alta, “é uma das cobras mais mortíferas do hemisfério, notável pelo bote estrangulatório em conjunção com um veneno mortal que produz em suas vítimas um matiz tenebroso, horrível de se ver.” Ele pousou o livro e virou-se para o sr. Poe. “Estrangulatório quer dizer...”
“Nós sabemos o que a palavra quer dizer”, gritou Stephano.
“Então devem saber”, disse Klaus, “que a Mamba do Mal não matou o tio Monty. O corpo dele não apresentou nenhum matiz tenebroso. Estava pálido, de uma brancura de chamar a atenção.”
“É verdade”, disse o sr. Poe. “Mas isso não indica necessariamente que o dr. Montgomery tenha sido assassinado.”
“Certo”, disse o dr. Lucafont. “Quem sabe, nesta única vez, a cobra não estava a fim de produzir contusões em sua vítima.”
“O mais provável”, disse Violet, “é que o tio Monty tenha sido morto com esses instrumentos.” Ela ergueu o tubo de ensaio de vidro, fechado com a tampa de borracha. “Esse tubo de ensaio tem uma etiqueta onde está escrito Veneno da Mamba, e obviamente pertence ao armário com amostras de venenos do tio Monty.” Ela ergueu a seringa com agulha de ponta fina. “Stephano, ou seja, Olaf, pegou essa seringa e injetou o veneno no tio Monty. Depois fez mais um furo, para ficar parecendo que a cobra o havia mordido.”
“Mas eu gostava tanto do dr. Montgomery”, disse Stephano. “Não teria nada a ganhar com sua morte.”
Às vezes, quando alguém diz uma mentira, é melhor ignorá-la inteiramente.
“Quando eu fizer dezoito anos, como todos sabemos”, prosseguiu Violet, ignorando Stephano inteiramente, “herdarei a fortuna dos Baudelaire, e Stephano pretendia ficar com essa fortuna para ele. Seria mais fácil conseguir isso se estivéssemos num lugar onde fosse mais difícil acompanhar seus movimentos, como por exemplo no Peru.” Violet ergueu o pequeno maço de papéis dobrados. “Estas são passagens para embarcar no Próspero, que sai de Porto Enevoado para o Peru às cinco horas de hoje. Era esse o destino para o qual nos levava Stephano quando por acaso esbarramos com o senhor, sr. Poe.”
“Mas o tio Monty rasgou a passagem de Stephano para o Peru”, disse Klaus, parecendo confuso. “Eu vi quando ele fez isso.”
“É verdade”, disse Violet. “Por isso foi que ele precisou tirar o tio Monty de seu caminho. Ele matou o tio Monty...”, Violet parou um instante e estremeceu tomada por um arrepio. “Ele matou o tio Monty e apanhou esta carteirinha. É o cartão de identificação do tio Monty como membro da Sociedade Herpetológica. Stephano pretendia se fazer passar pelo tio Monty, entrar a bordo do Próspero e escapulir conosco para o Peru.”
“Mas não compreendo”, disse o sr. Poe. “Como foi que Stephano conseguiu saber da fortuna de vocês?”
“Porque na verdade ele é o conde Olaf”, disse Violet, exasperada de ter que explicar o que ela, seus irmãos e vocês e eu já sabíamos desde o momento em que Stephano chegou à casa do tio. “Ele pode ter raspado a cabeça, depilado as sobrancelhas, mas a única maneira de se livrar da tatuagem no tornozelo esquerdo era com esse pulverizador e com esse espelhinho de mão. Ele espalhou maquiagem por cima do tornozelo para esconder o desenho do olho, e aposto que, se esfregarmos o lugar com um pano, vamos ver a tatuagem aparecer.”
“Isso é absurdo!”, exclamou Stephano.
“Veremos”, respondeu o sr. Poe. “Quem tem um pano?”
“Não tenho”, disse Klaus.
“Eu também não”, disse Violet.
“Gauil!”, disse Sunny.
“Bem, se ninguém tem um pano é melhor esquecer tudo”, disse o dr. Lucafont, mas o sr. Poe levantou um dedo para dizer-lhe que esperasse. Para alívio dos órfãos Baudelaire, ele puxou do bolso o seu lenço.
“Seu tornozelo esquerdo, por favor”, disse com firmeza para Stephano.
“Mas o senhor tossiu dentro dele o dia todo!”, disse Stephano. “Está com germes!”
“Se o senhor é realmente quem as crianças dizem que é”, disse o sr. Poe, “os germes são o último dos problemas com que deve se preocupar. Seu tornozelo esquerdo, por favor.”
Stephano – e esta é a última vez, graças a Deus, que teremos de chamá-lo por seu nome falso – soltou um pequeno resmungo, e puxou para cima a perna esquerda da calça para mostrar o tornozelo. O sr. Poe ajoelhou-se e esfregou o pano por alguns instantes. No começo, nada parecia acontecer, até que, como o sol que brilha através das nuvens ao fim de um terrível temporal, o contorno meio apagado de um olho fez sua aparição. E foi se mostrando cada vez mais evidente, mais nítido, o desenho tão pronunciado como quando os órfãos tiveram o primeiro contato com ele, no tempo em que moravam com o conde Olaf.
Violet, Klaus e Sunny olharam todos para o olho, e o olho respondeu ao seu olhar. Pela primeira vez em suas vidas, os órfãos Baudelaire sentiram-se felizes em vê-lo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário