sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo dois

DEUS SABE QUE EU PROVAVELMENTE ESTARIA MAIS ALERTA SE TIVESSE DORMIDO POR algumas horas, mas não consigo me imaginar fechando os olhos e sonhando enquanto Sam está a caminho de Nova York. Não quando há trabalho a ser feito. Então, em vez disso, pego uma xícara de café da garrafa térmica na cozinha e volto para os túneis de Ashwood Estates. Com um pouco de sorte, talvez eu encontre algum tipo de arma secreta que aniquilará os mogs. Ou pelo menos algum tipo de informação que possamos usar contra eles. Qualquer coisa que me faça sentir que estou de fato contribuindo.
Uma longa escadaria de um dos quartos do fundo da casa de Adam me leva para os túneis; gesso e tijolos sendo substituídos por concreto e eventualmente por paredes de metal liso enquanto adentro mais na terra. Tudo é duro, cinza e clínico. Os pelos da minha nuca começam a arrepiar a cada degrau que desço, embora eu não tenha certeza se é porque o ar está ficando mais frio ou se é porque coisas terríveis aconteceram comigo aqui, mesmo eu mal conseguindo me lembrar delas. Gamera me segue de perto na forma de uma libélula pairando sobre meu ombro. Eu assinto para o Chimæra. É bom saber que meu filho está cuidando de mim mesmo estando fora, claro, mas ao mesmo tempo me faz sentir como uma farsa. Eu que deveria estar protegendo a ele.
O subterrâneo de Ashwood Estates é um labirinto. Um andar inferior que percorre todo o condomínio com túneis que se estendem pelo o que parecem ser quilômetros. Como se isso já não fosse confuso o suficiente, a maior parte das passagens e salas estão completamente bloqueadas – ao que devemos agradecer a Adam, pois são resquícios do tempo em que ele me libertou do cativeiro e deixou seu recém-descoberto Legado de terremoto fluir. Quem sabe o que está escondido por trás das passagens destruídas, que tecnologia perdemos quando os equipamentos foram esmagados? Se não estivéssemos a ponto de perder a Terra, talvez tivéssemos tempo para descobrir.
Mesmo assim, ainda há várias salas em pé. Laboratórios e celas de detenção, por exemplo. Passo por elas observando equipamentos estranhos e ferramentas cirúrgicas que arrepiam minha coluna. Esse lugar ainda é perigoso para mim. Não apenas pela integridade questionável da estrutura, mas por causa do sentimento que tenho enquanto percorro estes corredores; a mais fraca onda de reconhecimento seguida de uma dor dilacerante em minha cabeça.
Há alguma coisa no cheiro desse lugar – mofado, carregado com equipamentos eletrônicos – que me é familiar, como todas as memórias que esqueci e estão fora de alcance, esperando para serem lembradas. Esses túneis enchem cada célula do meu corpo com pavor.
Felizmente, a maioria disso desaparece quando chego à sala de arquivos. Não acho que eu tenha entrado aqui durante meu tempo de aprisionamento, porque posso dar um suspiro de alívio quando atravesso a moldura da porta. Não que a sala seja aconchegante, não como as bibliotecas empoeiradas cheias de livros e poltronas antigas dos meus dias de universidade. Essa sala de arquivos é tão convidativa quanto o resto do nível inferior.
Monitores e terminais computadores formam uma fila nas mesas de aço, seus teclados e formatos desconhecidos e cobertos por marcas que não compreendo. Cabines cheias de servidores e equipamentos de armazenamento estão enfileirados nas paredes, zunindo em conjunto com as luzes fluorescentes acima. Há até uma prateleira guardando uma fila de canhões no lado mais distante da sala – aparentemente os mogs não conseguem ficar muito longe de suas armas.
Estico minhas costas, que estralam, e me sento em uma das cadeiras de metal em frente ao terminal de computadores. Esse é o pequeno espaço que chamo de “meu” nos últimos dias: um computador, um tablet portátil, um notebook, uma pequena mochila cheia de ferramentas e documentos que talvez possam se provar úteis e um cemitério de canecas sujas. Coloco um par de fones de ouvido e mergulho na lista de vídeos mogadorianos que estão na tela até encontrar onde parei da última vez. Então começo a assistir.
Além de serem guerreiros cruéis, os mogadorianos também parecem ser absurdamente minuciosos quando se trata de gravações deles mesmos, embora eu não tenha certeza se isso é por algum tipo de importância histórica ou um subproduto de um regime fascista querendo manter os registros de cada conquista.
Avanço rapidamente através de vários vídeos, dos quais a maioria está no idioma mogadoriano, que são inúteis para mim agora que Adam não está aqui. Ocasionalmente encontro algum em inglês, mas esses geralmente são comunicações entre humanos associados do ProMog, que não contém nada útil ou têm informações que já conhecemos. Quase não anoto coisas interessantes em meu notebook. Todo o processo é cansativo, e chega uma hora em que meus olhos começam a se fechar, já que não percebo que alguém entrou na sala até uma mão tocar o meu ombro.
Viro para trás, quase caindo da cadeira enquanto tento ficar de pé.
O homem atrás de mim é um agente do FBI que está vestindo um terno preto. Ele é mais novo que eu, talvez trinta anos, com uma pele olivácea, cabelo preto e curto. No banco ao meu lado, Gamera tomou a forma de um gato, os olhos grudados no agente, pronto para pular e se transformar. O animal deve ter percebido que sua forma casual de tartaruga poderia chamar atenção indesejada dos agentes.
O homem retira sua mão de meu ombro.
— Agente Noto. Walker — ele hesita — insistiu que talvez eu possa ser uma fonte valiosa para você.
Gesticulo com a mão para o felino do meu lado.
— Eu já tenho meu próprio guarda-costas — ele não achou isso engraçado. Continuo. — Eu tenho certeza de que suas habilidades federais serão mais úteis lá em cima do que aqui, observando-me assistir vídeos alienígenas.
Ele sorri um pouco, mas é difícil dizer se de arrogância ou surpresa.
— Eu lhe asseguro que sou mais do que apenas uma arma, Dr. Goode.
Faz tanto tempo desde que alguém me chama de “doutor” que a palavra soa estranha junto ao meu nome. E quase não consigo acreditar que houve um tempo em que os estudantes e colegas de trabalho me chamavam assim todos os dias.
Noto continua.
— No passado, servi como um agente de ligação para os mogadorianos. Antes de nós percebermos quais eram as verdadeiras intenções deles.
— Ah. Então você tem uma boa ideia sobre com quem estamos lidando.
— Até consigo entender um pouco do idioma deles. Embora eu admita que provavelmente sou o equivalente a um iniciante do jardim de infância quando se trata da leitura.
Finalmente, um encontro algo inesperado.
— Por favor — eu digo, apertando a mão dele. — Me chame de Malcolm.
Ele se senta do outro lado da mesa e eu o atualizo, e depois o dirijo para uma tonelada de arquivos para que ele possa examinar. Tento explicar que estamos procurando por qualquer coisa útil, até mesmo uma descrição vaga. Ele parece entender. Nós trabalhamos em um silêncio relativo por horas, conversando apenas sobre nossas descobertas, comparando anotações. É um trabalho infrutífero. Não descubro nada em particular que seja útil, e o progresso de Noto é lento. Ele frequentemente passa quinze minutos em um arquivo antes de perceber que é um pedido de comida e suprimentos ou relatórios sem importância sobre as transações em Ashwood Estates.
Eventualmente eu abro um arquivo que me faz arrepiar, meu coração batendo mais forte dentro do peito. Reconheço o rosto do humano na câmera. Posso dar um nome a ele, embora eu demore alguns segundos para me lembrar.
Ethan.
O problema é que não sei porque conheço o rosto e o nome dele.
O arquivo parece ser de uma videoconferência entre Ethan e um mogadoriano. Baseando-me nas tatuagens, presumo que seja um oficial de alto escalão. Ethan está recitando uma lista de nomes, dando informações sobre eles e suas localidades. As palavras engatilham algo em minha memória, iluminando um dos pontos de escuridão. Rostos de homens em mulheres que ajudaram os lorienos a se refugiar quando eles chegaram à Terra pela primeira vez piscam dentro da minha cabeça. Pessoas que eu recrutei.
O comitê de boas-vindas.
É só então que percebo quem é Ethan. Ele foi um deles. Um recepcionista. Não, isto não está correto. Ele seria um, mas eu o cortei antes dele preencher seu dever por alguma razão. Ele não estava lá quando os lorienos pousaram. Há mais alguma coisa, fora do alcance. Eu não confiava nele... mas por quê?
Enquanto assisto, começo a entender um pouco mais. Ele trabalhou para os mogs. Um traidor detalhando tudo o que sabia sobre os recepcionistas e os lorienos, o que não era muito. Ainda assim, provavelmente foi o suficiente para dar aos mogs um pontapé inicial.
De fato, parece que os mogs já tinham capturado pelo menos um dos recepcionistas no momento em que esse vídeo foi gravado graças às informações dadas por Ethan. Eu me pergunto, se tratava de mim?
Novas imagens aparecem na minha cabeça. Alguns dos mesmos rostos de antes, mas agora eles estão pálidos, quebrados, ensanguentados. Eles estavam aqui, em Ashwood, sendo mostrados a mim como uma ameaça ou um aviso de que se eu não contasse ao Dr. Anu – o cientista chefe de Ashwood – tudo o que ele queria saber, que eu acabaria como eles.
Morto. Assassinado.
Engulo os waffles e o café que estava mastigando enquanto Ethan continua a falar. De acordo com o que ele diz, parece que a mensagem é antiga – de antes dos acontecimentos de Paradise. Mesmo assim, Ethan solta uma bomba: ele foi encarregado do treinamento e recrutamento do Garde Número Cinco. Já teve contato com o garoto.
O vídeo chega ao fim, e tudo desmorona sobre mim. Apestar de toda a confusão e das lacunas nas minhas memórias, eu sei que algumas coisas são verdades. Eu fui encarregado de recrutar o comitê de boas-vindas.
Devo ter trazido Ethan a bordo em algum ponto, mesmo o tendo dispensado do grupo antes da chegada dos lorienos. Ethan se virou contra nós e provavelmente moldou Cinco para o traidor que ele é agora.
E, por conta disso, Oito está morto.
É uma linha de raciocínio fácil de seguir, os pontos quase que se conectando sozinhos e criando uma ligação direta de mim até o corpo do Oito. Retiro os meus óculos, deixando-os repousados na ponta do nariz, tentando ignorar as batidas que de repente inundam minha cabeça com essas memórias e descobertas. Eu não apenas informei os mogs sobre o Santuário como também os ajudei a transformar um lorieno num simpatizante à causa mogadoriana. Quem sabe que outras coisas terríveis eu fiz enquanto estava sob o controle deles – ou o que eu acidentalmente deixei escapar enquanto tentava ajudar a Garde? Será que vou acordar amanhã e de repente descobrirei que os ajudei também no plano dessa invasão? O que faço para lidar com isso?
Percebo que Noto está me encarando. Sua expressão é rígida, mas há um pouco de preocupação por trás de seus olhos. Ou talvez suspeita.
— Eu estou bem — falo. — Apenas com dor de cabeça.
— Talvez o senhor devesse fazer um intervalo — ele sugere. — Respirar um pouco.
Eu assinto, mas não faço esforço para me mover.
— Tenho certeza de que nada disso é fácil, voltar para cá — Noto diz. — Walker me fez um resumo rápido do que aconteceu a você. É meio que engraçado, na verdade. Eu investiguei o seu desaparecimento em Paradise — ele pausa. — Bem, acho que “engraçado” não é a palavra certa, no final das contas.
Isso é algo que eu não esperava. Ele parece novo demais para ter estado envolvido no meu caso.
— Você participou? — pergunto.
— Não originalmente, mas depois do incidente mogadoriano na Paradise High School – você sabe sobre isso, não é?
— Sim, sei.
— Foi quando nosso grupo foi mandado para Ohio. Passei algum tempo investigando o caso do seu desaparecimento. Foi um quebra-cabeça dos infernos. Como se você tivesse evaporado da face da Terra — ele desvia o olhar. — Ainda não se lembra do que aconteceu?
— Nada sobre minha abdução — respondo com um suspiro. — Eu não tenho certeza se algum dia vou saber o que aconteceu. Eu tentei me lembrar de tudo. Coisas estranhas impulsionam minha memória. Mas a maioria são flashes de imagens e sentimentos. Mas até esses são complicados de entender e concretizar. Há até coisas que eu não me lembro de anos antes de eu desaparecer. O que quer que tenham feito comigo, o dano foi extenso. Eles jogaram muito da minha vida fora.
— Imagino.
Penso nos recepcionistas novamente, e no vídeo que descobri mais cedo, onde estou drogado ou coisa assim, sendo controlado de alguma maneira.
— Isso provavelmente é uma coisa boa. Os mogadorianos fizeram coisas terríveis aqui – comigo e com outros. Ainda assim, eu ficaria feliz em me lembrar de cada momento excruciante se isso significasse ter todas as minhas memórias de volta.
— Quando você põe dessa forma — ele procura pelas palavras certas — é um bocado de tempo perdido.
Inclino um pouco a cabeça. Algo que ele havia dito mais cedo começa a fazer mais sentido.
— Por que você estava interessado no meu desaparecimento? Isso aconteceu há tanto tempo, e com todos os acontecimentos que devem ter ocorrido logo após o incidente na escola, tenho certeza de que havia coisas mais importantes com o que se preocupar.
— Seu filho era o principal suspeito e estava desaparecido. Não pudemos deixar de desenvolver uma ideia de que você estaria ajudando John e Sam de algum lugar ou ajudando até os mogadorianos. Se eles nos tivessem dito que eles tinham você... — ele para, percebendo que está se colocando numa situação complicada, me relembrando de que enquanto eu estava em coma numa das salas desse andar, ele e o resto dos agentes de Walker trabalhavam com meus sequestradores. — Nós não sabíamos — seus olhos encontram os meus. Ele parece sério, embora eu não consiga dizer se está tentando convencer a mim ou a si mesmo. — Todas as vítimas civis e as prisões, os planos para a invasão... Jesus, nós apenas pensamos que estávamos adquirindo armas de alta tecnologia e avanços médicos em troca de ajudá-los a encontrar alguns alienígenas fugitivos...
A raiva revira meu estômago enquanto ele fala, não apenas contra ele, mas contra tudo: o FBI, os mogs, meu sequestro. Tento me livrar de tudo isso, focar no que é mais importante.
— Bom, nós deveríamos pagar pelos nossos pecados. Derrotar os mogadorianos talvez não nos absolva pelas coisas que fizemos sob a influência deles, mas para mim parece ser um bom começo.
Noto assente um pouco. Nós ficamos em silêncio por alguns momentos antes de uma nova dúvida surgir em minha mente.
— Você estava investigando o Sam. O que conseguiu encontrar?
Ele solta um suspiro longo, parecendo um pouco aliviado.
— Notas excelentes. Aptidão excepcional em ciências. Uma obsessão compreensível por teorias da conspiração e universo. Eu não escolheria revisar o histórico do navegador de internet dos adolescentes, mas Sam passava a maior parte do tempo livre fazendo pesquisas sobre planetas distantes e falando sobre potenciais avistamentos extraterrestres. Quero dizer, ele também pirateou um bocado de filmes e músicas, mas apesar de tudo, ele parece ser um bom adolescente.
— Eu não posso levar o crédito por nada disso — falo, sentido a culpa na minha garganta.
Noto balança a cabeça.
— Você está me dizendo que é apenas coincidência que o seu filho tenha crescido para se tornar um aliado dos lorienos? Alguma coisa que você fez deve ter refletido nele.
— Se eu apenas conseguisse me lembrar do quê — eu digo, tentando fazer uma piada, mas sem sucesso. — Eu juro, se Anu e Zakos já não estivessem mortos, eu mesmo os mataria.
A expressão de Noto muda de repente, sua sobrancelha arqueando.
— Quem?
— Dr. Anu. Ele foi o primeiro médico mogadoriano que...
— Não, o outro — Noto diz. Ele não está me olhando agora, em vez disso, está digitando no teclado.
— Zakos... — eu murmuro. — Ele... depois que o Dr. Anu morreu, foi ele quem ficou responsável pelo meu sequestro. Ele era ruim. Quero dizer, ambos eram, mas Zakos parecia ter prazer em seus experimentos. Um Mengele mogadoriano. Ele quase matou Adam, pelo o que entendi. Mas Adam conseguiu matá-lo antes, quando escapou.
Noto assente.
— Isso foi no outono, certo? Quando você escapou?
— Sim — assim que carreguei Adam para fora dos túneis destruídos, me esgueirando através do caos e da confusão, nós cruzamos o país tentando evitar sermos recapturados. Semanas passaram num piscar de olhos. Passamos a maior parte do tempo dormindo em campos e galpões que encontramos. — Quando descobri quanto tempo havia passado e me atrevi a voltar a Paradise para me reunir com a minha família, Sam tinha desaparecido.
— Certo... — a voz de Noto está baixa, distante, com se ele não estivesse de fato me ouvindo. Os olhos dele estão fixos no monitor.
— O que foi?
— Eu tenho um vídeo aqui do Dr. Zakos — ele levanta a cabeça e encontra meus olhos. — É do começo desse ano. O que quer que tenha acontecido aqui, ele sobreviveu.
— Não — eu murmuro, me aproximando do monitor dele. — Isso não é possível. Adam o nocauteou, e então o teto caiu em cima dele quando...
Mas lá está ele, na tela. No fundo vejo seu laboratório está destruído, as paredes rachadas e o chão coberto de detritos. Obviamente foi gravado após Adam ter destruído parcialmente o subsolo. Ele parece orgulhoso de si mesmo na imagem pausada.
Me leva alguns segundos para compreender o que estou vendo, mas então cai a ficha. Dr. Zakos – o matador, o cientista louco, o monstro – ainda está vivo. Ainda está lutando contra nós.
Em algum lugar das partes mais obscuras de minha mente, há um estranho flash. Não de felicidade, exatamente, mas alguma coisa como se eu percebesse que talvez eu tenha a chance de encarar um dos meus captores.
— Me parece que ele foi convocado para algum tipo de projeto secreto que Setrákus Ra está supervisionando. Alguma coisa que eles acham que vai assegurar a vitória mogadoriana.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, entretanto, o walkie-talkie de Noto chia.
— Noto, suba aqui! Alguma coisa está acontecendo em Nova York!

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