sábado, 30 de julho de 2016

Capítulo dois


“Sunny não gosta de coco?”, perguntou o tio Monty.
Ele, o sr. Poe e os jovens Baudelaire estavam sentados todos em volta de uma mesa verde, cada um com uma fatia do bolo do tio Monty. Tanto a cozinha como o bolo continuavam com o calor do forno. O bolo era uma obra-prima, cremoso e saboroso, com o coco na dose exata. Violet, Klaus e o tio Monty já haviam quase terminado os seus pedaços, mas o sr. Poe e Sunny não tinham dado mais que uma mordida cada um.
“Para dizer a verdade”, falou Violet, “Sunny não gosta de comer nada que seja macio. Ela prefere comida bem dura de mastigar.”
“É estranho para um bebê”, disse o tio Monty, “mas nem um pouco estranho para muitas cobras. A Mastigadora da Barbaria, por exemplo, é uma cobra que precisa ter o tempo todo alguma coisa dentro da boca, do contrário começa a comer a própria boca. Muito difícil de mantê-la em cativeiro. Quem sabe Sunny gostaria de uma cenoura crua? É um bocado dura.”
“Uma cenoura crua seria perfeita, dr. Montgomery”, respondeu Klaus.
O novo tutor dos Baudelaire levantou-se e foi até a geladeira, mas de repente virou-se e gesticulou com o dedo apontado para Klaus:
“Nada disso de doutor Montgomery para cima de mim. Não faz o meu gênero. Pomposo demais. Podem me chamar de tio Monty! Meu Deus, se nem os meus colegas herpetologistas me chamam de doutor Montgomery!”
“O que vêm a ser herpetologistas?”, perguntou Violet.
“Como é que eles o chamam?”, perguntou Klaus.
“Crianças, crianças”, disse o sr. Poe, fazendo-se sério. “Menos perguntas.”
Tio Monty sorriu para os órfãos.
“Tudo bem, as perguntas demonstram uma cabeça inquisitiva. A palavra inquisitiva significa...”
“Sabemos o que significa”, disse Klaus. “Cheia de perguntas.”
“Bem, se você sabe o que isso significa”, disse o tio Monty estendendo uma grande cenoura para Sunny, “então deveria saber o que é herpetologia”.
“É o estudo de alguma coisa”, disse Klaus. “Sempre que uma palavra termina por logia, é o estudo de alguma coisa.”
“Cobras!”, exclamou o tio Monty. “Cobras, cobras, cobras! É o que eu estudo! Adoro cobras, de todos os tipos, e dou a volta ao mundo à procura de espécies diferentes para estudar aqui no meu laboratório! Não é interessante?”
“É interessante, sim”, disse Violet. “Muito interessante. Mas não é perigoso?”
“Não, se você estiver informado sobre os animais”, disse o tio Monty. “Sr. Poe, o senhor gostaria também de uma cenoura crua? O senhor mal tocou no seu bolo.”
O sr. Poe enrubesceu e tossiu no seu lenço por um bom tempo antes de responder:
“Não, obrigado, dr. Montgomery.”
Tio Monty deu uma piscadela para os garotos.
“Se quiser, o senhor também pode me chamar de tio Monty, sr. Poe.”
“Obrigado, tio Monty”, disse o sr. Poe sem muita naturalidade. “Agora quem tem uma pergunta a fazer sou eu. O senhor mencionou há pouco que faz a volta ao mundo. Há alguém que virá tomar conta das crianças quando o senhor estiver fora colhendo espécimes?”
“Já temos bastante idade para cuidarmos de nós mesmos”, apressou-se em dizer Violet, embora no íntimo ela não tivesse tanta certeza. A linha de pesquisa do tio Monty parecia interessante, mas ela não sabia de fato se estava preparada para ficar sozinha com seus irmãos numa casa cheia de cobras.
“Nem pensar nisso!”, disse o tio Monty. “Vocês três têm que vir comigo. Daqui a dez dias partimos para o Peru, e quero vocês metidos na floresta ao meu lado.”
“É mesmo?”, disse Klaus. Por trás dos óculos, seus olhos brilhavam de empolgação. “O senhor nos levaria na viagem ao Peru?”
“Só posso ter prazer em contar com a ajuda de vocês!”, disse o tio Monty, estendendo o braço para dar uma mordida no pedaço de bolo de Sunny. “Gustavo, meu assistente principal, deixou-me uma inesperada carta de demissão ontem mesmo. Há um homem chamado Stephano que eu contratei para assumir o lugar dele, mas que chegará só daqui a mais ou menos uma semana, de forma que estou bem atrasado nos preparativos para a expedição. Preciso de alguém que verifique se as armadilhas para cobras estão funcionando direito, do contrário a gente corre o risco de machucar os espécimes colhidos. Preciso de alguém que leia e se informe sobre o território do Peru para que a gente possa atravessar a floresta sem problemas. E alguém tem que cortar uma enorme extensão de corda em pedaços pequenos para que a gente possa trabalhar.”
“Eu me interesso por mecânica”, disse Violet, lambendo o seu garfo, “e por isso gostaria de aprender sobre armadilhas para cobras.”
“Eu sou fascinado por guias e mapas”, disse Klaus, limpando a boca com um guardanapo. “Adoraria ler e me informar sobre o território peruano.”
“Eojip!”, gritou Sunny, dando uma bela mordida na cenoura. Provavelmente quis dizer alguma coisa do tipo “Adoraria roer uma enorme extensão de corda até ela ficar em pedacinhos para que a gente possa trabalhar!”.
“Ótimo!”, exclamou o tio Monty. “Fico feliz de vocês terem esse entusiasmo todo. Vai me facilitar as coisas na falta de Gustavo. Foi muito estranho ele ter desistido assim, em cima da hora. Uma grande falta de sorte perder um colaborador tão bom.” O rosto do tio Monty anuviou-se – expressão que aqui quer dizer “assumiu certo ar melancólico quando o tio Monty pensou em sua má sorte” –, mas se ele soubesse a tremenda má sorte que ainda estava por vir dentro em breve não teria desperdiçado um minuto pensando em Gustavo. “Bem que eu gostaria – e vocês também, tenho certeza – de poder recuar no tempo e avisá-lo, mas não é possível, as coisas são como são”. Tio Monty também parecia estar pensando que as coisas são como são quando balançou a cabeça e sorriu, expulsando os pensamentos perturbadores. “Bom, vamos começar. O que existe é o presente, sempre digo. Por que não levam o sr. Poe até o carro? Depois eu levo vocês à Sala dos Répteis.”
Os três Baudelaire, que haviam mostrado tanta apreensão quando passaram pelos arbustos com a forma de cobras na primeira vez, agora fizeram o mesmo trajeto até o carro do sr. Poe correndo na maior algazarra e sem a menor preocupação.
“Ouçam, crianças”, disse o sr. Poe tossindo no seu lenço, “estarei aqui de volta dentro de mais ou menos uma semana para trazer a bagagem de vocês e certificar-me de que está tudo bem. Compreendo que o dr. Montgomery possa intimidar vocês um pouco, mas tenho certeza de que com o tempo vocês se acostumarão com...”
“Ele não nos intimida nem um pouco”, interrompeu Klaus. “Parece uma pessoa muito fácil de se lidar.”
“Não vejo a hora de conhecer a Sala dos Répteis”, disse Violet, empolgada.
“Miiika!”, disse Sunny, provavelmente com o sentido de “Adeus, sr. Poe. Obrigada por ter nos trazido de carro”.
“Bem, adeus”, disse o sr. Poe. “Lembrem-se que é uma corrida rápida de carro, da cidade até aqui, por favor me procurem, liguem para mim ou falem com qualquer outra pessoa na Administração de Multas se estiverem precisando de ajuda. Breve nos veremos.” Acenou com o lenço, meio sem jeito, entrou no carro minúsculo e desceu a rampa de cascalho até pegar a estrada no Mau Caminho. Violet, Klaus e Sunny acenaram em resposta, esperando que o sr. Poe se lembrasse de fechar as janelas do carro para tornar menos insuportável o cheiro penetrante da raiz-forte.
Bambini!”, gritou o tio Monty da porta da frente. “Venham, bambini!
Os órfãos Baudelaire voltaram numa correria por entre as fileiras de arbustos até onde o novo tutor os estava esperando.
“Violet, tio Monty”, disse Violet. “Meu nome é Violet, meu irmão é Klaus e minha irmã mais nova é Sunny. Nenhum de nós se chama Bambini.”
Bambini é como se diz 'crianças' em italiano”, explicou o tio Monty. “Me deu uma súbita vontade de falar um pouco de italiano. Estou tão empolgado de ter vocês aqui comigo! Sorte de vocês eu não estar dizendo qualquer bobagem que me venha à cabeça...”
“O senhor nunca teve filhos?”, perguntou Violet.
“É uma pena, mas não”, disse o tio Monty. “Sempre pensei em encontrar uma esposa e começar uma família, mas hoje é uma coisa, amanhã é outra, o projeto foi ficando para depois... Que tal eu mostrar para vocês a Sala dos Répteis?”
“Sim, por favor”, disse Klaus.
Tio Monty passou com eles pelo quadro com o tema das cobras, no hall de entrada, e levou-os para um grande espaço que tinha uma escada imponente e pé-direito altíssimo.
“Os quartos ficam lá em cima”, disse o tio Monty com um gesto que apontava para o alto da escada. “Cada um pode escolher o quarto que preferir e arredar os móveis conforme o gosto de vocês. Estou sabendo que o sr. Poe ficou de trazer a bagagem de vocês mais tarde naquele carrinho minúsculo dele, por isso façam por favor uma lista do que vão precisar, e amanhã a gente vai à cidade e compra tudo, para que vocês não passem os próximos dias sem trocar a roupa de baixo.”
“Cada um de nós tem mesmo um quarto separado?”, perguntou Violet.
“Claro”, disse o tio Monty. “Vocês não esperavam que eu amontoasse os três num único quarto, com essa casa enorme que eu tenho, não é? Que espécie de pessoa faria uma coisa dessas?”
“O conde Olaf fez.”
“É verdade, o sr. Poe me contou”, disse o tio Monty fazendo uma careta como se tivesse provado algo com sabor horrível. “Imagino a pessoa detestável que é esse tal de conde Olaf. Espero que seja trucidado por animais ferozes algum dia. Não seria justo? Bem, aqui estamos: a Sala dos Répteis.”
Tio Monty estava diante de uma porta de madeira muito alta com uma maçaneta também muito grande bem no centro. Era tão alta que ele precisava ficar na ponta dos pés para abri-la. Quando finalmente a porta se abriu rangendo nas dobradiças, os órfãos Baudelaire depararam com uma visão que os deixou pasmos de espanto e encantamento.
A Sala dos Répteis era toda de vidro, com paredes altas e transparentes de vidro e um teto de vidro altíssimo que se erguia convergindo para um ponto, como o interior de uma catedral. Através das paredes transparentes podia-se ver o gramado e os arbustos que formavam o campo verde-claro do lado de fora, por isso, na Sala dos Répteis a sensação era de se estar dentro e fora ao mesmo tempo. Mas, por mais notável que a sala fosse em si mesma, muito mais emocionante era o que se achava dentro dela. Os répteis estavam distribuídos em gaiolas de metal trancadas que se apoiavam sobre mesas de madeira formando quatro fileiras bem demarcadas de um extremo a outro da sala. Havia todo tipo de cobras, naturalmente, mas também lagartos, sapos* e outros animais do gênero que as crianças nunca haviam visto antes, nem sequer em fotos ou no zoológico. Havia um sapo muito gordo com duas asas que saíam das costas, e um lagarto de duas cabeças com listras amarelas brilhantes na barriga. Havia uma cobra que tinha três bocas, uma em cima da outra, e uma cobra que parecia não ter boca nenhuma. No poleiro dentro da gaiola, um lagarto que se parecia com uma coruja, com olhos esgazeados voltados para as crianças, e um sapo que era igualzinho a uma igreja, sem faltar os olhos de vitral. E havia uma gaiola coberta com uma toalha branca, que não deixava ninguém ver nada do que se achava em seu interior. As crianças percorreram de cabo a rabo as passagens entre as gaiolas, olhando uma por uma num silêncio de espanto. Alguns dos bichos pareciam amigáveis, outros assustadores, mas todos, sem exceção, fascinantes, e os Baudelaire demoravam-se examinando cada um deles com a máxima atenção – Klaus levantava Sunny em seus braços para que ela também pudesse apreciar os animais.

*Onde estaria a cabeça do autor quando incluiu na coleção de répteis do dr. Montgomery animais que notoriamente são anfíbios? Répteis são cobras e lagartos. (N. T.)

Os órfãos mostraram-se tão interessados nas gaiolas que só vieram a perceber o que havia no extremo mais distante da sala depois de ter percorrido cada mesa em toda a sua extensão, e, ao chegar ao extremo mais distante, novamente se quedaram pasmos de espanto e encantamento. Pois ali, onde terminavam as fileiras e mais fileiras de gaiolas, havia fileiras e mais fileiras de estantes de livros, cada qual fornida de volumes dos mais diferentes tamanhos e formas, em arrumação conjugada, num dos cantos, com mesas, cadeiras e abajures para leitura. Com certeza vocês se lembram de que os Baudelaire pais tinham uma enorme coleção de livros, dos quais os órfãos recordavam com carinho e cuja falta sentiam horrivelmente, tanto que, desde o pavoroso incêndio, conhecer alguém que apreciasse os livros tanto quanto eles era sempre uma alegria para os meninos. Violet, Klaus e Sunny examinaram os volumes com o mesmo cuidado que dispensaram às gaiolas de répteis, e logo se deram conta de que a maioria dos livros tratava de cobras e de outros répteis. Parecia que todos os livros já escritos sobre répteis, desde Uma introdução aos grandes lagartos até Como criar e alimentar a Cobra Andrógina, estavam presentes nas estantes, e as três crianças, Klaus sobretudo, estavam ansiosos para ler sobre os espécimes representados na Sala dos Répteis.
“Este é um lugar extraordinário”, disse finalmente Violet, quebrando o longo silêncio.
“Obrigado”, disse o tio Monty. “Levei uma vida inteira para organizá-lo.”
“E o senhor vai realmente nos dar licença de entrar aqui?”, perguntou Klaus.
“Dar licença?”, repetiu o tio Monty. “Claro que não! Vou implorar a vocês que entrem, meu garoto. A partir de amanhã de manhã bem cedo, todos temos que vir aqui diariamente trabalhar nos preparativos para a expedição ao Peru. Vou esvaziar uma dessas mesas para você, Violet, a fim de que trabalhe nas armadilhas. Klaus, espero que leia todos os livros que eu tenho sobre o Peru, fazendo anotações cuidadosas. E Sunny pode sentar-se no chão e roer corda. Trabalharemos o dia inteiro até a hora do jantar, e depois do jantar iremos ao cinema. Alguma objeção?”
Violet, Klaus e Sunny entreolharam-se sorridentes. Alguma objeção? Os órfãos Baudelaire tinham vivido a experiência de morar com o conde Olaf, que os mandava cortar lenha, tirar a mesa e lavar a louça para convidados bêbados, enquanto planejava meter a mão na fortuna dos irmãos. Tio Monty acabara de descrever uma forma deliciosa de passar o tempo, e as crianças voltaram para ele seus rostinhos radiantes. Claro que não haveria nenhuma objeção. Violet, Klaus e Sunny, com os olhos fixos na Sala dos Répteis, constataram que viver com o tio Monty significava o fim de suas amarguras e dificuldades. Estavam enganados, é claro, ao pensar que os tempos difíceis haviam terminado, mas, naquele momento pelo menos, os três irmãos viviam um momento de animação, esperança e felicidade.
“Não, não, não”, gritou Sunny, aparentemente respondendo à pergunta do tio Monty.
“Que bom, que bom, que bom”, disse o tio Monty sorrindo. “Agora vamos ver os quartos e decidir quem fica com qual.”
“Tio Monty?”, Klaus disse timidamente. “Eu tenho uma pergunta.”
“E qual é?”, disse o tio Monty.
“O que é que tem dentro daquela gaiola coberta com a toalha?”
Tio Monty olhou para a gaiola, depois para os meninos. Seu rosto iluminou-se com um sorriso de pura alegria.
“Ali, meus queridos, está uma cobra que eu trouxe de minha última viagem. Só foi vista até hoje por Gustavo e por mim. Mês que vem vou apresentá-la à Sociedade Herpetológica como uma nova descoberta, mas, antes disso, dou aqui minha permissão a vocês para uma espiada secreta. Juntem-se para ver.”
Os órfãos Baudelaire seguiram o tio Monty até a gaiola coberta, diante da qual, com um gesto rápido de pura ostentação (só para “se mostrar”, como num número de mágica), ele puxou o pano e destapou a gaiola. Dentro estava uma grande cobra negra, de um negrume de mina de carvão e grossa como um cano de esgoto, olhando firme para os garotos com radiosos olhos verdes. Removido o pano que tapava a gaiola, a cobra começou a se desenrolar e deslizar pela sua habitação.
“Como fui eu que a descobri”, disse o tio Monty, “cabe a mim dar um nome a ela.”
“E como é que ela se chama?”
“Víbora Incrivelmente Mortífera”, respondeu o tio Monty, e nesse exato momento aconteceu algo que, tenho absoluta certeza, interessará muito a vocês. Com um movimento do rabo, a cobra soltou a trava que mantinha a porta de sua gaiola fechada, deslizou para cima da mesa e, antes que o tio Monty ou qualquer dos órfãos Baudelaire pudesse dizer alguma coisa, ela abriu a boca e mordeu o queixo de Sunny.

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