sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo dez

EM FRENTE À PONTE DO BROOKLYN EU VEJO TANQUES DE GUERRA PESSOALMENTE pela primeira vez. Eles são muito maiores na vida real, com suas armas apontadas para a cidade, como se fossem atirar em Manhattan.
— Uau — sussurro enquanto caminhamos.
Sigo John e Sam, que seguem alguns soldados. Eles tratam John como se ele fosse alguém muito importante, dirigindo-se a ele como “senhor” e coisas do tipo. Eu não posso evitar sorrir toda vez que eles fazem isso. Será que esses babacas não percebem que John tem apenas dezesseis anos? Eu acho que ele é, tipo, o cara que todos conhecem graças ao vídeo dele lutando na ONU, mas ele deveria estar indo a um baile de formatura ou coisa assim, não sendo tratado como se fosse o presidente.
Acho que isso significa que não sou a única que sente uma conexão com John. Talvez esses soldados a sintam também, e quem sabe seja por isso que o tratam com tanto respeito. Ou pode significar que as pessoas começam a te seguir depois de descobrirem que você têm Legados. Eu ainda estou tentando entender como isso tudo funciona.
Ao me distanciar cada vez mais da cidade, parece que nada de ruim jamais acontecera. O Brooklyn parece intacto diante de nós. Se não fosse por todas as pessoas de farda e a falta de turistas passeando pela ponte, eu poderia imaginar que estou apenas em mais uma caminhada com minha mãe, esfriando a cabeça. Assim que chegarmos do outro lado do Brooklyn, nós iriamos comprar uma pizza e nos sentar nos bancos do parque e apenas observar a água por algum tempo. Quietas, porém juntas.
É um pensamento legal, mas quando me volto para Manhattan, todo esse sonho se desmorona. Cortinas de fumaça jazem sobre toda a cidade, incluindo o centro. O céu parece diferente desde a última vez que o vi aqui da ponte, meses atrás.
Engulo em seco o nó que se formou de repente na minha garganta e corro para alcançar os outros.
Do outro lado da ponte, o parque se tornou uma combinação de hospital e base militar para a Guarda Nacional e quem mais que tenha aparecido do Pentágono ou qualquer outro tipo de militares superiores.
Há pessoas em todas as partes, em vários estados de ferimentos e cansaço. Algumas barracas da Cruz Vermelha foram instaladas, equipadas com suprimentos e garrafas de água. A maioria das pessoas está coberta por cinzas ou sangue. Olhando para baixo, percebo que não estou muito diferente disso. Os ônibus parecem estar levando as pessoas para outro lugar. Outro lugar seguro, eu acho, bem longe da cidade.
Há algumas mesas que foram instaladas onde as pessoas parecem estar assinando alguma coisa. Meu coração acelera.
Eu me viro para um dos soldados.
— Eles têm uma lista ou algo do tipo onde eu possa checar? Eu estou... procurando por alguém.
— Claro — ele responde. — Você poderia perguntar.
Ele não foi muito útil. Estou prestes a deixar isso claro quando percebo que John está me encarando.
— Eu estou indo... — começo.
— Vá — John diz. — Espero que a encontre.
Forço um sorriso. Percebo que não sei quando vou ver a ele ou a Sam novamente.
— Hum... sobre aquela toda coisa de salvar o mundo...
— Quando você estiver pronta, me procure.
— Você está assumindo que um dia eu estarei pronta — eu bufo.
— Sim — ele diz, com um olhar sério. — Estou.
Eu assinto, aceno para Sam e me viro seguindo em direção a uma das mesas de checagem. Há uma fila com uma dúzia de pessoas, e tenho que controlar toda a minha vontade de tirá-los do caminho com minha mente e pular diretamente para frente.
— Aqui é onde as pessoas estão fazendo a checagem? — pergunto para um senhor asiático que está na minha frente.
Tudo o que ele faz é balançar um pouco a cabeça. Seus olhos estão arregalados e ele parece estar em choque, como se fosse desmaiar a qualquer instante. Ele se vira para frente. Outros na fila estão piores. Alguns choram. Outros apenas discutem como vão matar cada alienígena que encontrarem assim que pegarem uma arma. Eu me mantenho em silêncio, desejando ter trazido um daqueles telefones comigo ou que eu estivesse com meus fones de ouvido. Até mesmo o que está quebrado, que está lá no apartamento do qual talvez eu nunca vou retornar. Sem música ou outro tipo de distração, fico sozinha com meus pensamentos. Estou preocupada.
Depois do que me parece ser horas, finalmente estou no começo da fila.
— Qual é o seu nome? — uma mulher pergunta. Seu cabelo é tingido de preto e há olheiras em seu rosto. Eu me pergunto há quanto tempo ela deve estar aqui.
— Daniela Morales — eu digo. — Olhe, estou tentando encontrar minha mãe.
— Estamos apenas recolhendo informações aqui — ela diz, olhando do seu tablet para mim. — Há sistemas que estão sendo comparados com a da nossa segunda zona de evacuação para fazer a conexão de pessoas desaparecidas. O ônibus irá leva-la para lá assim que eu tiver seus dados.
— Mas eu preciso saber se ela está lá — eu digo. — Se ela não estiver...
Eu não sei o que dizer. Voltarei para Manhattan? Será que eles me deixariam atravessar a ponte? Duvido, mas eu poderia encontrar outros meios.
As sobrancelhas da mulher se franzem enquanto ela morde os lábios. Parece que está cansada de ouvir isso. Acho que não sou a primeira pessoa que está procurando algum ente querido.
— Se você puder soletrar seu nome... — ela começa.
— Você está cadastrando todo mundo? O nome da minha mãe é Roxanne Morales. Ela era garçonete no centro. Por favor, você poderia dar uma olhada?
Ela olha para mim por alguns segundos. Posso sentir meus olhos arderem. Finalmente, ela começa a mexer em seu tablet. Depois de olhar em algumas listas, ela deixa escapar um pequeno suspiro. Ela não diz nada, apenas olha para cima e mexe a cabeça.
A ardência começa a piorar.
— Morales — falo novamente. — M-O-R-A-L-E-S.
— Sinto muito, Daniela, mas não há nenhuma Roxanne Morales no meu banco de dados. Agora, estamos recebendo atualizações dos outros lugares a cada hora, mais ou menos. Talvez ela tenha ido para um dos outros pontos de evacuação na parte alta da cidade.
Balanço a cabeça. Meus dedos apertam a borda da mesa na minha frente. Eu não quero ir. Eu não posso ir embora.
— Não, ela trabalhava no distrito financeiro.
Os olhos da mulher contrai um pouco.
— Onde, exatamente? — ela pergunta. — Onde ela trabalha?
Eu digo o local, perto da Wall Street, sem tirar os olhos dela. Estou tão concentrada que nem percebo que ela está movendo a mão até que esteja em cima da minha.
— Essa área foi atingida fortemente no ataque inicial, Daniela — ela diz baixinho, mas com firmeza. — Nós não vimos muitos sobreviventes desse local. Sempre há esperança, mas as nossas equipes de resgate ainda estão tendo problemas para ir muito além do centro da cidade. A melhor coisa que você pode fazer é me dar o resto de seus dados e ir para o segundo centro de evacuação. Dessa forma, se a sua mãe vier para cá, ela...
Eu corro. Eu não sei para onde estou indo, só corro. A mulher grita o meu nome, mas não me segue. Passo por um quarto de emergência improvisado, por médicos, feridos, bombeiros, policiais que parecem não dormir há dias. Os homens da Guarda Nacional – e mulheres – me olham quando eu passo, mas ninguém me para. Eu continuo correndo, até que finalmente chego perto da água, olhando para a cortina de fumaça subindo da parte baixa de Manhattan.
Nós não vimos muitos sobreviventes desse local.
Ela me disse para ir para casa. Houve uma explosão – claro que foi uma explosão, não importa o quanto eu tento dizer a mim mesma que não foi – e, em seguida, silêncio. Perdemos o sinal. Ela se foi.
Minha mãe não está aqui. Ela pode estar morta. Ela provavelmente está morta.
Meus olhos começam a encher de água. Eu posso senti-los ficando vermelhos enquanto cerro os punhos e penso em todas as coisas que fiz para chegar até ela, para chegar aqui, apenas para descobrir que não estou mais perto de se reunir com ela. As pessoas no parque, o ônibus, o banco, quase morrer em um túnel com Sam e John. Talvez eu devesse ter ido para o restaurante depois de tudo. Merda, talvez eu devesse ter ficado escondida em nosso apartamento ou em algum lugar na nossa vizinhança e esperar até que ela voltasse. Eu poderia ter lutado contra os mogs, provavelmente.
Talvez.
O que iria querer que eu fizesse?
E então, novas palavras começam a flutuar na minha cabeça. Sam falando sobre seu pai e como ele não perdeu a esperança.
Ela ainda poderia estar lá fora. Pode estar lutando em seu caminho para me encontrar. Ou se escondendo em algum lugar seguro, esperando o momento certo para fugir. Ou ela está em outra zona de evacuação. Eu ainda tenho que ter esperança. Quero dizer, merda, eu tenho telecinesiaTudo é possível.
Você tem que honrar a pessoa que não está presente com suas ações.
O que minha mãe iriar querer que eu fizesse agora?
Há um grito arás de mim, e eu me viro à espera de ver um monte de mogs. Em vez disso, vejo uma maca. Há duas pessoas nas laterais – jovens enfermeiros, talvez – empurrando-a para uma das tendas médicas. A mulher que se encontra nela está coberta de sangue. Outra mulher corre atrás deles, com sua mão em sua frente, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Eu não sei qual delas gritou. Poderia ter sido os enfermeiros, ou alguém na zona de segurança. Há uma abundância de razões para se estar gritando ou chorando aqui.
Nós todos perdemos algo. Quem sabe quantas pessoas estão como eu agora, tentando encontrar alguém que significa o mundo para eles no meio de toda essa merda?
Viro-me de volta para a cidade e enxugo as lágrimas quentes que estão escorrendo dos meus olhos. Meu olhar pousa na nave espacial gigante pairando acima da cidade, apenas esperando para nos atacar novamente. John e Sam a chamaram de Anubis, eu acho. Tenho outras palavras para ela, a maioria das quais minha mãe se chatearia comigo por ter dizê-las em voz alta.
Meus punhos se cerram ao meu lado.
Tenho certeza de uma coisa: se minha mãe ainda está viva, ela não está segura enquanto os alienígenas bastardos ainda estiverem aqui.
Nenhum de nós está.
— Eu não vou desistir de você — falo calmamente, esperando que onde quer que minha mãe esteja, que ela possa me ouvir. — Eu vou vê-la novamente. Mas até lá, acho que vou chutar alguns traseiros alienígenas. Ajudar algumas pessoas. Deixá-la orgulhosa.
Viro-me e começo a correr novamente. Desta vez eu sei para onde estou indo. Eu tenho que encontrar John Smith. Não posso simplesmente sentar aqui com o resto dos evacuados, ou vou ficar louca. Vou fazer algo de bom. Eu vou lutar.

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