segunda-feira, 25 de julho de 2016

Capítulo dez


Naquela noite, Klaus foi o órfão Baudelaire com o privilégio de dormir decentemente na cama, e Violet foi a órfã Baudelaire que ficou acordada, trabalhando à luz da lua. Durante o dia, os dois irmãos haviam estado ocupados se movimentando pela casa no cumprimento das tarefas que lhes foram determinadas e mal falando um com o outro. Klaus estava cansado e desanimado demais para falar, e Violet se concentrara na área inventiva do seu cérebro, absorvida demais em seus planos para falar.
Ao anoitecer, Violet recolheu as cortinas que tinham servido de cama para Sunny e as levou até a porta que dava acesso aos degraus da torre, onde o enorme assistente do conde Olaf, aquele que não parecia nem homem nem mulher, estava montando guarda. Violet lhe perguntou se podia deixar as cobertas com a irmã, para que ela tivesse uma noite mais confortável. A enorme criatura simplesmente olhou para Violet com seus olhos vazios e balançou a cabeça, despachando-a depois com um gesto silencioso.
Violet sabia, é claro, que, apavorada como se achava, Sunny não iria tirar grande consolo daqueles panos, mas o que esperava era poder por alguns instantes abraçá-la e lhe dizer que tudo iria dar certo e terminar bem. Além disso, queria fazer o que se chama de “reconhecimento do local”. Fazer o “reconhecimento do local” consiste em observar de terminado lugar com o objetivo de traçar um plano. Por exemplo, se você fosse um assaltante de banco – o que espero que não seja o caso – poderia ir ao banco uns dias antes da data em que planejou realizar o assalto. Talvez usando um disfarce, você daria uma olhada nas instalações e verificaria o número e a posição dos seguranças, das câmeras e de outros obstáculos, para poder planejar como evitar ser capturado ou morto durante a operação.
Violet, uma cidadã respeitadora da lei, não estava planejando assaltar um banco, mas estava planejando resgatar Sunny, e queria dar uma olhada no quarto em que a irmã era mantida prisioneira, para executar seu plano com mais facilidade. Mas parecia que não haveria possibilidade de ela fazer esse reconhecimento. Isso deixou Violet nervosa, e o que ela fez foi voltar para o quarto e sentar no chão junto à janela, para trabalhar silenciosamente em sua invenção.
Violet tinha pouquíssimos materiais com que inventar alguma coisa, e não queria ficar rodando pela casa à procura de outros recursos, por medo de despertar as suspeitas do conde Olaf e sua trupe.
Mas o que tinha era suficiente para construir um aparelho de resgate. Acima da janela havia uma barra de metal resistente, onde antes as cortinas haviam estado penduradas, e Violet a retirou da parede e a trouxe para o chão. Utilizando uma das pedras que Olaf deixara amontoadas num canto do quarto, ela partiu a barra em duas. Então, curvou cada uma das partes em vários ângulos agudos, disso lhe resultando pequenos cortes nas mãos. Depois Violet retirou da parede o quadro em que estava pintado o olho. Na parte de trás do quadro, como é comum encontrar em vários quadros, havia um pedaço pequeno de arame pelo qual ele se prendia no prego. Ela retirou o arame e o usou para juntar as duas partes da barra. Estava pronta uma peça semelhante a uma grande aranha metálica.
Em seguida, ela foi até a caixa de papelão e de lá tirou as roupas mais feias e ordinárias que a sra. Poe comprara, artigos de vestuário que os órfãos Baudelaire seriam incapazes de usar por maior que fosse o seu desespero. Sempre trabalhando depressa e silenciosamente, ela começou a rasgar as roupas em tiras longas e estreitas, e a amarrar essas tiras umas às outras. Entre as muitas habilidades que tinha Violet, estava um vasto conhecimento de tipos diferentes de nós. Nessa ocasião ela usava o nó que é chamado de língua-do-diabo. Um grupo de mulheres piratas finlandesas inventou esse nó há muito tempo, no século XV, e lhe deu o nome de língua-do-diabo porque envolvia as mais diversas formas de torção, complicadas e misteriosas. A língua-do-diabo era um nó de grande utilidade, e quando Violet juntou as tiras pelas pontas, o resultado foi uma espécie de corda. Enquanto trabalhava, ela se lembrou de algo que seus pais haviam lhe dito quando Klaus nasceu, e de novo quando trouxeram Sunny da maternidade. “Você é a mais velha dos filhos Baudelaire”, disseram-lhe, com carinho, mas com firmeza. “E, como a mais velha, será sempre sua responsabilidade olhar por seus irmãos mais novos. Prometa-nos que sempre cuidará deles e não deixará que fiquem em apuros.” Violet se lembrou de sua promessa, e pensou em Klaus, cujo machucado no rosto ainda não cicatrizara, e em Sunny, balançando no alto da torre como uma bandeira, e começou a trabalhar mais depressa. Apesar de que evidentemente a culpa por esse sofrimento fosse toda do conde Olaf, Violet sentia como se tivesse quebrado a promessa feita aos pais, e jurou que haveria de cumpri-la.
Por fim, aproveitando a maior parte daquelas roupas ordinárias, Violet esperava ter conseguido uma corda com quase dez metros de comprimento. Amarrou uma de suas pontas à aranha de metal e se deteve para avaliar seu trabalho. Ela havia feito o que é chamado de “arpéu”, gancho que se usa para escalar os paredões de um edifício, em geral com fins indignos. Valendo-se da ponta de metal para se fixar em alguma coisa no topo da torre, e da corda para poder subir, Violet esperava alcançar o alto da torre, desprender a gaiola de Sunny e fazer a descida de volta. Tratava-se, sem dúvida, de um plano bastante arriscado, não só porque a ação era perigosa, como também porque o arpéu não fora comprado numa loja que vendia esse tipo de coisa. Mas esse arpéu fora tudo o que Violet conseguira construir na falta de um laboratório de invenções adequado, e o tempo estava se esgotando. Ela não havia contado a Klaus sobre o plano, porque não queria lhe dar falsas esperanças, de forma que, sem acordá-lo, pegou seu arpéu e se retirou do quarto na ponta dos pés.
Uma vez fora da casa, Violet percebeu que seu plano era ainda mais difícil do que pensara. A noite estava silenciosa, o que a obrigaria a não fazer praticamente barulho nenhum. Também havia naquela noite uma leve brisa, e quando ela se imaginou balançando ao sabor da brisa, agarrada a uma corda feita de trapos ordinários, quase desistiu inteiramente. E a noite estava escura, o que tornava difícil para ela ver aonde arremessaria o arpéu de modo que o gancho se fixasse em alguma coisa. Mas, apesar dos arrepios que sentia ali em pé, de camisola, Violet sabia que precisava arriscar. Usando sua mão direita, lançou o arpéu com toda a força o mais longe que pôde, e esperou para ver se ele se agarraria a alguma coisa.
Clang! O gancho fez enorme ruído ao bater na torre, mas não se prendeu a nada e despencou estrondosamente. Com o coração batendo, Violet permaneceu imóvel, imaginando se o conde Olaf ou algum dos seus cúmplices apareceria para investigar. Ninguém apareceu, e, passados alguns momentos, Violet, girando o arpéu acima da cabeça como se fosse um laço de caubói, tentou novo arremesso.
Clang! Clang! O arpéu bateu na torre duas vezes e de novo foi parar no chão. Violet esperou mais uma vez, atenta a qualquer ruído de passos, mas tudo o que ouviu foi o seu sangue pulsando nas veias, aterrorizado. Decidiu fazer uma última tentativa.
Clang! O arpéu bateu na torre e voltou a cair, atingindo Violet no ombro com força. Um dos braços do gancho rasgou sua camisola e lhe fez um corte na pele. Mordendo a mão para não gritar de dor, Violet tateou o lugar no ombro onde fora atingida e sentiu que estava molhado de sangue. O braço latejava, dolorido.
A essa altura do episódio, se eu fosse Violet, teria desistido, mas bem no momento em que ela já estava a ponto de se virar e entrar na casa, imaginou como Sunny devia estar apavorada, e sem se importar com a dor que sentia no ombro, usou a mão direita para novo arremesso do arpéu.
Clang... O som de clang! habitual se interrompeu na metade, e, à fraca luz da lua, Violet viu que o arpéu não estava caindo. Nervosamente, ela deu um forte puxão na corda, que não cedeu. O arpéu tinha funcionado!
Com os pés apoiados na lateral da torre de pedra e as mãos segurando na corda, Violet fechou os olhos e começou a subir. Sem ousar lançar em momento nenhum um olhar à sua volta, seguiu o impulso de escalar a torre, firmando as mãos, uma após a outra, sempre com o pensamento voltado para a promessa feita aos pais e para as coisas horríveis que o conde Olaf faria se o seu plano asqueroso desse certo. O vento noturno soprava cada vez mais forte enquanto ela subia cada vez mais alto, e várias vezes Violet teve que se deter na escalada quando a corda se deslocava movida pelo vento. Tinha certeza de que a qualquer momento a corda iria se rasgar, ou o gancho se soltaria, e ela seria lançada à morte. Mas, graças aos seus apurados dotes de inventora – a palavra apurados aqui significa “habilidosos” – tudo funcionou como deveria, e de repente Violet sentiu que tocava uma peça metálica em vez de uma corda de pano. Abriu os olhos e viu sua irmã Sunny, que olhava para ela freneticamente e tentava dizer alguma coisa que ultrapassasse a mordaça. Violet chegara ao alto da torre, bem diante da janela em que Sunny se achava presa.
A mais velha dos órfãos Baudelaire estava a ponto de pegar a gaiola de sua irmã e iniciar a descida, quando viu algo que a fez parar. Era a extremidade em forma de aranha do arpéu: agora Violet podia ver onde, em que parte do alto da torre, depois daquelas primeiras tentativas fracassadas, aquela extremidade tinha ido enfim se fixar. Enquanto seguia na sua escalada, Violet imaginara que o gancho do arpéu estaria preso em alguma reentrância na pedra, ou em algum canto da janela, ou talvez num móvel dentro do quarto da torre, e lá se aguentava firme. Mas não foi nada disso que aconteceu. O arpéu de Violet havia se prendido num outro gancho. Num dos ganchos do homem das mãos de gancho. E o outro gancho, Violet viu, estava cintilando ao luar, estendido na direção dela.

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