segunda-feira, 25 de julho de 2016

Capítulo cinco


A não ser que vocês tenham tido uma sorte rara, raríssima, na vida, certamente terão passado por experiências que os fizeram chorar. Ou seja, a não ser que tenham tido essa sorte raríssima, vocês sabem que uma boa e longa sessão de choro é capaz de melhorar nosso ânimo, mesmo que as circunstâncias se mantenham as mesmas. Foi o que aconteceu com os órfãos Baudelaire. Depois de chorarem uma noite inteira, acordaram na manhã seguinte se sentindo como se tivessem tirado um peso dos ombros deles. As três crianças sabiam, é claro, que continuavam numa situação horrível, mas começaram a pensar que poderiam fazer alguma coisa para melhorá-la.
O bilhete deixado aquela manhã pelo conde Olaf mandava que eles fossem cortar lenha no quintal, e enquanto Violet e Klaus atacavam a machadadas as toras para reduzi-las a pedaços menores, discutiram possíveis planos de ação, ao mesmo tempo que Sunny mastigava pensativamente uma lasca de madeira.
“É evidente”, disse Klaus, apontando o horrendo machucado feito em seu rosto pelo conde Olaf, “que não podemos ficar aqui por mais tempo. Prefiro me arriscar vivendo na rua a continuar neste lugar pavoroso.”
“Mas quem sabe as desgraças que podem nos acontecer se nos mudarmos para a rua?”, observou Violet. “Pelo menos temos um teto para cobrir nossa cabeça.”
“Gostaria que pudéssemos usar o dinheiro de nossos pais desde já, em vez de termos que esperar pela maioridade”, disse Klaus. “Aí poderíamos comprar um castelo e morar nele, com seguranças armados, vigiando do lado de fora para não deixar que o conde Olaf e sua trupe entrassem.”
“E eu poderia ter um amplo estúdio para minhas invenções”, disse Violet, com a tristeza de quem menciona um sonho impossível. Ela brandiu o machado e partiu a tora de madeira em duas exatas metades. “Um estúdio todo equipado com fios, roldanas, engrenagens e um sistema sofisticado de computadores.”
“E eu poderia ter uma ampla biblioteca”, disse Klaus, “igualzinha em conforto à da juíza Strauss, mas mais gigantesca.”
“Guibo!”, gritou Sunny, como se dissesse: E eu poderia ter um monte de coisas para morder.
“Mas, enquanto isso”, disse Violet, “temos que fazer alguma coisa para sair deste aperto.”
“Quem sabe a juíza Strauss não poderia nos adotar?”, disse Klaus. “Ela falou que seríamos sempre bem-vindos em sua casa.”
“Ela estava falando de uma visita, ou de uma consulta à sua biblioteca”, assinalou Violet. “Não falou em morar.”
“Se explicássemos nossa situação para ela, talvez ela concordasse em nos adotar”, disse Klaus, como que esperançoso, mas quando Violet olhou para ele, viu escrito no rosto dela: “nenhuma chance”.
Adotar crianças é uma decisão muito séria, e é pouco provável tomá-la impulsivamente. Tenho certeza de que, na vida de vocês, já houve momentos em que desejaram ser criados por pessoas diferentes daqueles que os criam, mas no fundo do coração sabiam que as chances de isso acontecer eram mínimas.
“Acho que devíamos procurar o sr. Poe”, disse Violet. “Ele falou, quando nos deixou aqui, que podíamos entrar em contato com ele no banco sempre que tivéssemos alguma dúvida.”
“Não se trata propriamente de dúvida”, disse Klaus. “Temos uma queixa.”
Voltou-lhe à memória a imagem do sr. Poe caminhando na direção deles, na Praia de Sal, com sua mensagem terrível. Apesar de o sr. Poe evidentemente não ter sido culpado do incêndio, Klaus hesitava em vê-lo por medo de que ele pudesse trazer más notícias outra vez.
“Não sei de mais ninguém que possamos procurar”, disse Violet. “O sr. Poe é quem trata dos nossos assuntos, e tenho certeza de que, se ele soubesse o horror que é o conde Olaf, nos tiraria daqui na mesma hora.”
Klaus imaginou o sr. Poe chegando e pondo os órfãos Baudelaire dentro do carro, a fim de levá-los para qualquer outro lugar, e sentiu uma centelha de esperança se acender. Qualquer lugar seria melhor do que aquele.
“Está certo”, disse. “Assim que acabarmos de rachar essa lenha, vamos até o banco.”
Animados com seu plano, os órfãos Baudelaire baixaram o machado com renovado vigor e uma velocidade assombrosa, de modo que em pouco tempo a lenha estava toda cortada e eles, prontos para ir ao banco. Lembraram-se de o conde dizer que tinha um mapa da cidade, e revistaram a casa inteira à sua procura, mas não o acharam. Concluíram que deveria estar na torre, onde haviam sido proibidos de entrar. E, assim, sem orientação de nenhum tipo, seguiram para a zona bancária da cidade, na esperança de encontrar o sr. Poe.
Depois de percorrer a zona de açougues, a zona de flores e a zona de estátuas, as três crianças chegaram à zona bancária, fazendo uma pausa para beber água na Fonte da Vitória das Finanças. A zona bancária era formada por várias ruas largas com grandes construções de mármore de cada lado, todas servindo a bancos. Entraram primeiro no Banco de Toda a Confiança, depois na Caixa Segura de Empréstimos e Poupanças e, em seguida, na Prestação de Serviços Financeiros, sempre perguntando pelo sr. Poe. Uma recepcionista na Prestação informou que o sr. Poe trabalhava no final da rua, na Administração de Multas. O prédio era quadrado e com um jeitão simplório, mas, uma vez lá dentro, os três órfãos se sentiram intimidados com a agitação de pessoas que em grandes levas corriam de um lado para outro do vasto salão, os passos ecoando desmesuradamente. Por fim se decidiram a perguntar a um guarda uniformizado se ali era de fato o lugar onde trabalhava o sr. Poe, e ele os conduziu a um amplo escritório com muitos arquivos de aço e nenhuma janela.
“Olá, vocês por aqui?”, disse o sr. Poe, com certa surpresa na voz. Estava sentado a uma escrivaninha coberta de folhas datilografadas, que passavam ao mesmo tempo uma imagem de importância e de tédio. À volta de um pequeno retrato emoldurado de sua mulher e dos dois animais que eram seus filhos, havia três telefones com luzes que piscavam.
“Entrem, façam o favor.”
“Obrigado”, disse Klaus, trocando um aperto de mão com o sr. Poe.
Os jovens Baudelaire sentaram-se em três poltronas grandes e confortáveis.
O sr. Poe abriu a boca para falar, mas primeiro tossiu num lenço. “Hoje estou cheio de trabalho”, disse finalmente. “Não vou ter muito tempo para conversar. A próxima vez que vocês vierem para estes lados avisem antes por telefone, aí eu reservo um tempo e almoçamos juntos.”
“Gostaríamos muito”, disse Violet, “e desculpe-nos de não ter avisado o senhor antes de vir, mas acontece que estamos numa situação de urgência.”
“O conde Olaf é um louco”, disse Klaus, indo diretamente à questão. “Não dá para ficarmos com ele.”
“Ele bateu no rosto do Klaus. Está vendo a marca que deixou?”, disse Violet, mas mal acabou de falar, soou o telefone, com um gemido estridente e desagradável.
“Com licença”, disse o sr. Poe, e colou o aparelho no ouvido. “Poe falando”, respondeu. “Quê? Sim. Sim. Sim. Sim. Não. Sim. Obrigado.” Desligou o telefone e ficou olhando para os Baudelaire como se houvesse esquecido que estavam ali. “Desculpem-me”, disse o sr. Poe. “O que era mesmo que estávamos falando? Ah, sim, do conde Olaf. Lamento que a primeira impressão que estão tendo dele não seja boa.”
“Ele providenciou uma cama só para todos nós”, disse Klaus.
“E nos obriga a fazer uma porção de serviços difíceis.”
“Bebe vinho demais.”
“Com licença”, disse o sr. Poe, quando tocou outro telefone. “Poe falando”, respondeu. “Sete. Sete. Sete. Sete. Seis e meio. Sete. Não tem de quê.” Desligou o aparelho e rapidamente fez uma anotação num dos seus papéis, depois olhou para os meninos. “Desculpem-me, disse, O que era mesmo que estavam dizendo do conde Olaf? Dar serviços para vocês não me parece que seja algo tão ruim.”
“Ele nos chama de órfãos.”
“Ele tem uns amigos horríveis.”
“Está sempre perguntando pelo nosso dinheiro.”
“Pocô!” (Isso quem disse foi Sunny.)
O sr. Poe ergueu as mãos num sinal de que já ouvira bastante. “Garotada, garotada”, disse. “Vocês precisam de um tempo para se adaptar ao novo lar. Estão lá há apenas alguns dias.”
“O tempo que passamos lá foi suficiente para sabermos que o conde Olaf é um homem mau”, disse Klaus.
O sr. Poe suspirou e olhou para cada uma das três crianças. Tinha um ar bondoso, mas não parecia estar acreditando no que os órfãos Baudelaire diziam. “Vocês já ouviram falar na expressão latina in loco parentis?”, perguntou.
Violet e Sunny olharam para Klaus. Sendo o maior leitor dos três, era de esperar que tivesse o maior vocabulário e conhecesse locuções estrangeiras.
“Alguma coisa a ver com trens?”, perguntou. Talvez o sr. Poe estivesse pensando em levá-los de trem para um outro parente.
O sr. Poe balançou a cabeça. “In loco parentis significa ‘assumindo o papel dos pais’”, disse. “É uma expressão jurídica e se aplica ao conde Olaf. Agora que estão sob os cuidados dele, o conde pode educá-los usando os métodos que considere apropriados. Lamento se seus pais não os encarregaram de fazer serviços domésticos, ou se vocês jamais os viram tomar vinho, ou se vocês gostavam mais dos amigos deles do que dos amigos do conde Olaf. Mas essas são coisas às quais vocês têm que se acostumar, já que o conde Olaf age in loco parentis. Entendem?”
“Mas ele bateu no meu irmão!”, disse Violet. “Olhe para o rosto dele!”
Enquanto Violet falava, o sr. Poe puxou o lenço do bolso e, cobrindo a boca, tossiu muitas vezes seguidas – com um barulho tão forte que Violet ficou sem saber se tinha dado para ele ouvir o que ela dissera.
“Seja o que for que o conde Olaf tenha feito”, disse o sr. Poe, baixando os olhos para um dos seus papéis e traçando um círculo em torno de um número, “ele o fez agindo in loco parentis, e não há nada que eu possa fazer a respeito disso. O dinheiro de vocês estará protegido por mim e pelo banco, mas as técnicas de que se serve o conde in loco parentis são assunto dele. Não queria que vocês saíssem chispando, mas tenho muito que fazer.”
As crianças continuaram sentadas, perplexas. O sr. Poe olhou para o alto e pigarreou.
“Chispando”, disse ele, “significa...”
“... significa que o senhor não fará nada para nos ajudar”, Violet concluiu por ele. Ela tremia de raiva e frustração. Quando um dos telefones começou a tocar, ela se levantou e se retirou da sala, seguida por Klaus, que carregava Sunny. Foram andando empertigados e pararam ao chegar à rua, não sabendo o que fazer em seguida.
“E agora, o que vamos fazer?”, perguntou Klaus insistentemente.
Violet ergueu os olhos para o céu. Gostaria de ser capaz de inventar alguma coisa que pudesse levá-los para bem longe.
“Está ficando um pouco tarde”, disse. “É melhor voltarmos e amanhã pensamos em outra saída. Agora podíamos, quem sabe, fazer uma visita à juíza Strauss.”
“Mas você falou que ela não nos ajudaria”, disse Klaus.
“Não estou pensando em ajuda”, disse Violet. “Estou pensando em livros.”
É muito útil, quando se é jovem, saber a diferença entre “literal” e “figurado”. Se alguma coisa acontece no sentido literal, acontece de verdade; se acontece no sentido figurado, dá a impressão de estar acontecendo. Se você está literalmente pulando de alegria, por exemplo, quer dizer que você está dando saltos no ar porque se sente muito feliz. Se você está pulando de alegria figuradamente, o que isso quer dizer é que você se sente tão feliz que poderia pular de alegria, mas está poupando sua energia para outros fins. Os órfãos Baudelaire percorreram o caminho de volta para a casa do conde Olaf e pararam na casa vizinha, da juíza Strauss, que os fez entrar de maneira acolhedora e deixou que escolhessem livros da biblioteca. Violet escolheu vários que tratavam de invenções mecânicas, Klaus se abasteceu de diversos volumes sobre lobos, e Sunny descobriu um livro com muitas figuras de dentes. Em seguida, foram para o seu quarto e se acotovelaram na cama única, lendo com atenção e na maior felicidade. Figuradamente, eles escaparam ao conde Olaf e a sua existência miserável. Não escaparam literalmente, porque continuavam na casa dele e vulneráveis aos seus maléficos procedimentos in loco parentis. Mas ao mergulhar nos seus temas de leitura preferidos, sentiam-se bem longe do seu sufoco, como se tivessem escapado. É claro que considerando a questão do ângulo de sua situação real, escapar figuradamente não era o bastante, mas, no fim de um dia cansativo e desanimador, era a solução possível. Violet, Klaus e Sunny leram seus livros e mantiveram bem acesa, no fundo, no fundo, a esperança de que em breve sua fuga figurada acabaria se transformando numa fuga literal.

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