domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 9

Ele sinalizou para Alyss permanecer onde estava enquanto Will foi silenciosamente para a porta. O trinco estava se movendo uma fração de cada vez, a pessoa fora de casa estava testando se o trinco estava trancado. Como a língua de madeira subiu do encaixe que a estava segurando no lugar, Will se jogou em uma posição ao lado do trinco da porta, encostado na parede.
Ele acenou para Alyss, e a garota, perspicaz como sempre, começou a falar sobre Halt e Crowley e como eles tinham mandado saudações para ele. Ela começou a descrever a refeição que tinha desfrutado com eles, enquanto entrava em detalhes sobre as habilidades do Mestre Chubb de Redmont.
A porta parou de se mover, a conversação deles tinha parado, então Alyss começou a falar mais uma vez, começou avançar muito lentamente nas dobradiças bem lubrificadas sem fazer nenhum barulho, Will fez uma nota mental para parar de lubrificar as dobradiças. Halt sempre permitia um pouco de ferrugem nas dobradiças da porta da frente.
Ninguém pode pegá-lo de surpresa, ele era aficionado em repetir.
Will deu de ombros. A única pessoa a ser surpreendida era o intruso no lado de fora. Por um momento, ele desejou saber se não seria Delia no lado de fora que voltara pra escutar a conversa entre ele e Alyss. Porém ele abandonou a ideia. A cadela nunca iria se comportar daquele jeito se fosse o caso. A porta estava aberta 15 centímetros agora já se podia ver a mão no trinco exterior. Era a mão esquerda de um homem, que ele reconheceu.
E ele sabia que na mão direita provavelmente estaria segurando algum tipo de arma. Alyss deixou cair uma gargalhada forte, com objetivo de convencer o intruso de que eles estavam realmente preocupados com a conversa. A ideia pareceu funcionar a porta abriu mais um pouco, agora era possível ver o braço do intruso.
Will se moveu rapidamente, agarrando o homem pelo pulso esquerdo, torcendo-o para que o homem entrasse na sala, ao mesmo tempo, ele fez um movimento de pivô passando a perna esquerda dele pela entrada como uma barreira, assim o estranho foi empurrado adiante e tropeçou em cima da perna estendida. Com um grito de surpresa, o homem tropeçou no quarto, impelido pelo puxão totalmente inesperado no braço, e caiu em cima da perna de Will, batendo numa cadeira que voou em direção ao canto da sala enquanto ele caia. Mais ele se recuperou rolando rapidamente, e saltou para encarar o arqueiro. Então, como Will esperava, ele tinha uma arma na mão direita – uma lança de guerra em um cabo cinza ele a apontou para Will a segurando com as duas mãos, a cabeça era sensivelmente afiada como se hipnotizasse o inimigo.
Will não se moveu. Ele estava apoiado nos calcanhares, pronto para a ação e estava desarmado. Ele olhou com interesse para Alyss, tinha caído aos seus pés, ela possuía uma longa e poderosa adaga em sua mão, se perguntando se ela sabia como usar aquilo.
A cadela, excitada pela confusão súbita, estava latindo furiosamente. Sem levar os olhos do intruso, Will a pediu para ficar quieta. Nitidamente, ela baixou, enquanto rosnava ameaçadoramente, enquanto ele avaliava o homem da lança. Ele era grande e gordo, com cabelo preto desleixado e uma barba preta. Os olhos eram pretos e queimavam com raiva em baixo das grossas sobrancelhas e nariz largo que havia quebrado em algum momento e colocado de volta de mal jeito, o deixando com um ar de criminoso. Ele usava uma veste escura, calças compridas lanosas e um capote marrom. Will nunca o tinha visto antes, mas ele sabia quem era ele.
 John Buttle  ele disse calmamente.  O que você quer aqui?
Um sorriso desagradável tocou a boca do homem então ele respondeu. A voz estava funda e gutural, sua pronúncia e maneira de falar o marcava como um cidadão.
 Você me conhece? Eu não tive esse prazer.
 Eu conheço de você  Will respondeu com o mesmo tom — você tem uma reputação ao redor desse feudo.
Buttle zombou.
 Reputação! Nada foi provado contra min e nada será!
 Talvez seja porque nunca nenhuma testemunha sai viva quando você faz seu trabalho sujo — então Will somou rapidamente.  Agora pega essa! O que você esta fazendo invadindo minha casa no meio da noite?
Por um momento, um olhar confundido sacudiu pela face de Buttle. O tom autoritário de Will o surpreendeu, afinal de contas era quem estava armado. O pequeno arqueiro que agora olhando ainda era um menino, que estava sem armas. Oh, ele tinha o que parecia uma faca em seu quadril, mas Buttle poderia espetá-lo antes que ele conseguisse tirá-la. E a menina loira, sua adaga não o botava medo.
 Eu vim pela minha cadela  disse lentamente.  Ouvi que você a tinha roubado e a quero de volta.
Ele olhou para a cadela e falou, fazendo a cadela encostar a barriga no chão e intensificar o rosnado.
 Cala a boca  ele ordenou para ela, mas a cadela só rosnou mais enquanto descobria seus dentes.
 Certamente você sabe lidar com ela  Will disse. Ele fez um gesto de mão rápido e ela inquietou por uns instantes.
 Muito inteligente!  Buttle zombou, agora completamente nervoso.  Eu vou ensiná-la boas maneiras, como da última vez. Essa vadiazinha tentou me morder, assim e eu dei uma lição a ela.
 Com essa grande lança, eu suponho?  Alyss perguntou.  Como inacreditavelmente valente você é.
Ela se apoiou desinteressadamente contra a parte de trás da cadeira na qual ela estava sentada avaliando calmamente o homem barbudo. Will riu quietamente para si mesmo pela postura dela.
— Não brinque comigo, garota! — ele gritou. — Não venha com essa faquinha e suas coisas secretas de Mensageira — ele moderou a voz e continuou: — há uma mensagem secreta para você, arqueiro, não é? Aposto que tem gente que vai pagar caro para descobrir o que é.
Will e Alyss trocaram relances rápidos. Buttle viu a troca e continuou, com confiança crescendo.
 Oh sim, Eu ouvi você e suas intrigas. Arqueiros e Diplomatas, sempre rastejando ao redor desses seus segredos não? Aprendam a controlar suas vozes quanto John Buttle estiver por perto.
Ele estava agora no controle da situação e contente por ver que tinha quebrado o ar deles de despreocupação. Percebeu que tinha escutado algo importante quando ele estava no lado de fora da porta e o seu cérebro criminoso estava trabalhando para ver como ele poderia ganhar por isto. Sua experiência longa lhe ensinara que quando havia algo que alguém queria manter segredo, havia outro alguém que pagaria para saber sobre isto.
 Oh, Querido  Alyss disse para Will.  Ele parece ter escutado nossa conversa.
Buttle riu dela.
 E escutei tudo certo. E não há nada que você possa fazer sobre isto.
Ela parecia considerar as palavras dele por um momento, refletindo sobre elas. Então de um modo muito verdadeiro ela respondeu:
 Parece que não, se você morrer logo.
Então assim que ela disse essas palavras, ela sacudiu a longa adaga, acertando um ponto na lança e logo voltando para seu braço. Buttle balançou instantaneamente para ela, caindo em uma posição defensiva, pronto para dar um empurrão... e ouviu um estranho assobiar... CLUNK!, seguido por uma sensação de batida em ambas as mãos quando a faca de caça de Will parecia saltar de sua bainha. Sem pausa, balançou em um arco de mudança para golpear a lança dele atrás da cabeça de aço.
Pesada como um machado, afiada como uma navalha, a lâmina especialmente suave cortou pela madeira de cinza dura como se fosse queijo. A ponta pesada caiu no chão da cabana com um baque tocando e Buttle encarou em assombro a lança, repentinamente sem ponta e aparentemente leve nas mãos dele. Ele teve meio segundo para registrar o fato ocorrido antes de Will avançar contra ele e bater a parte chata da lâmina sobre sua têmpora.
Nesse ponto John Buttle perdeu a consciência e caiu ao chão como um saco de batatas.
 Muito bom  Alyss disse, impressionada pela velocidade de reações.
Ela inverteu o punhal novamente e o guardou escondido por uma dobra especialmente cortada no vestido dela.
Eles sorriram a um ao outro. A cadela choramingou ligeiramente por atenção e Alyss se inclinou para segurá-la, enquanto ela acariciava a pele ao redor as orelhas dela.
 Eu não sabia que eles treinavam Diplomatas para arremessar esses punhais!  Will disse e encolheu os ombros.
 E não treinam. Estas lâminas são muito finas para serem lançadas da forma que vocês arqueiros fazem. Eu há pouco quis distrair nosso amigo aqui, assim você poderia lidar com ele.
Will cruzou à cômoda contra a parede da cabana e procurou algo em uma das gavetas. Ele retirou vários pedaços de couro cru, então os moveu no chão na frente figura suína, rolando Buttle sobre a barriga dele e colocando as mãos dele para trás. Will deu laçada de dois círculos pequenos de couro em cima dos polegares do homem, então os livrou apertado por um bloco de madeira sobre eles.
E então usando de uma versão maior da amarração com os polegares, fez o mesmo com os tornozelos.
 Muito esperto  Alyss disse, Will olhou para o trabalho que havia feito e concordou.
 Um dos arqueiros que criou esse trabalho. Os laços mantêm os polegares e tornozelos e os blocos de madeira apertados, sem que você se incomode em fazer nós.
Alyss pegou o seu copo e sentou-se em sua cadeira, olhando para Buttle caído inconsciente no chão.
 É claro, que continuamos com o problema. O que faremos com ele agora?
Will ia começar a responder, mas parou quando percebeu que Alyss estava pensando.
 Minha missão  ele disse  ele sabe sobre a minha missão. E agora teremos esse babaca gritando para todos e em detalhes.
Will ainda olhava atentamente para Buttle, que ainda não havia se mexido.
 Eu posso pedir para o Barão prendê-lo, é claro, ele ameaçou você, e ameaçar um Diplomata é ofensa séria.
Mas Alyss balançou sua cabeça negativamente.
 Ainda não é o suficiente. Ainda há a chance de ele entrar em contato com os outros presos, e até com os carcereiros, e nós não podemos arriscar que nenhuma palavra sobre isso saia da boca dele. Maldito seja! Talvez tenhamos que matá-lo, Will.
Ela disse isso relutantemente, porém de forma tão calma que Will ficou surpreso. Ele olhou para ela com nova perspectiva, e percebeu que sua antiga companheira de infância tinha passado por um treinamento tão bruto quanto o dele. E um pensamento veio até ele, como memória do que haviam conversado mais cedo.
 Não acredito que isso seja necessário. Eu tenho uma ideia. Ajude-me selando meu cavalo e eu te contarei  ele disse.


Guntar Hardstriker se inclinou na fogueira e cortou um pedaço da carne que assava sobre as brasas. Ele soprou cuidadosamente o naco de carne quente, e então deu uma mordida, parabenizando-se enquanto aprovava o sabor. Era um bom pedaço de carne, macio e entremeado com gordura, e com um sabor defumado devido à fumaça que se sobrepunha ao sabor da carne. Ele olhou para a clareira próxima onde estava atracado o Wolfcloud. Sua tripulação estava ocupada cortando e defumando o resto da carne. O carneiro já havia sido cortado e salgado. E mais algumas horas, ele calculava, e eles já estariam prontos. E mais algumas horas para poder descansar até que a maré cheia viesse e os ajudassem a prosseguir viagem através de Stormwhite.
As chamas e fumaça de meia dúzia de fogueiras iluminavam a cena e lançavam uma sombra bruxuleante e esquisita às árvores que os rodeavam. A escultura da proa de Wolfcloud parecia flutuar na fumaça, e as luzes da fogueira davam um brilho estranho aos dentes da cabeça de lobo de madeira.
 Gundar!  Era Jon Tarkson, um dos veleiros que gritava do outro lado da clareira.
A cabeça do capitão girou curiosamente, e ele percebeu uma figura indistinta que emergia da escuridão. Ele ficou carrancudo ao perceber que na verdade era o arqueiro. Ele vinha montado como era de costume, mas atrás dele vinha um segundo cavalo carregando em sua sela algo que parecia ser um enorme embrulho.
Gundar levantou as mãos em cumprimento e foi se aproximando da figura. Ele estava começando a gostar do arqueiro. Ele respeitava a maneira ingênua do jovem de achar soluções para os problemas iminentes e ainda por cima admirava a coragem dele.
 Bem vindo  ele disse e Will assentiu em resposta, desmontando.
Gundar foi se aproximando, achando o caminho por entre o fogo e as montanhas de carne sendo defumadas, e percebeu então que o embrulho que visualizara antes era na verdade uma pessoa inconsciente e com os pés e mãos amarrados. Ele apontou para a ele.
 Alguém andou se metendo em problemas, arqueiro?  ele respondeu.
Will sorriu em resposta.
 Você poderia dizer isso. Ele tem sido um transtorno por aqui. E me ocorreu que talvez ele pudesse ser útil a você.
Gundar franziu a testa e limpou a gordura da carne de seu queixo.
 Útil?  ele respondeu.  Eu já tenho toda a tripulação que preciso, além disso não preciso de um sulista destreinado a bordo do Wolfcloud  ele hesitou e então acrescentou — sem ofensas, claro.
Will balançou sua cabeça.
 Não ofendeu. Na verdade eu não o estava oferecendo como tripulação. Eu pensei que na verdade você poderia levá-lo como escravo. Vocês ainda têm escravos na Escandinávia, não têm?
 Sim, nós ainda temos escravos.  Ele disse, e se aproximou do cavalo, dando uma boa olhada no homem que ainda estava inconsciente. Ele pegou um tufo de cabelo e ergueu o rosto do desconhecido para dar uma olhadela. Idade aproximada dos trinta. Grande e forte.
 Ele é saudável?  Perguntou, e Will concordou com a cabeça.
 Tirando a leve concussão que provavelmente teve, é saudável como um cavalo — disse Will.
E então se lembrou do ferimento na cadela e também dos assassinatos que cometeu, e completou:
 Ele seria bom para o trabalho nas pás.
Trabalhar nas pás dos moinhos era um castigo para os escravos escandinavos. Elas eram gigantescas pás de madeiras mantidas suspensas por sobre as águas, os escravos eram obrigados a ficarem levantando e abaixando elas, para que a água não congelasse rapidamente no inverno. E nesse processo, era inevitável que a água espirrasse e congelasse sobre a pele da pessoa. No seu tempo de escravo, Will fora designado para as pás, e isso quase o matou, até que Erak teve pena dele e o ajudou a escapar.
Gundar estava balançando negativamente a cabeça.
 O Oberjal proibiu esse tipo de trabalho, e além do que um escravo saudável como ele, seria um desperdício.  Ele olhou Buttle mais uma vez antes de tomar a decisão. Tudo bem, ele disse, quanto você quer por ele?
Will desfez o nó que mantinha Buttle preso no cavalo.
 Nada, considere ele como presente.
 Puxou o bandido pelo colarinho, até que o mesmo escorregasse do cavalo e caísse no chão. Buttle grunhiu suavemente e depois ficou em silêncio. Gundar arregalou os olhos de surpresa.
 Um presente?
 Esse homem está causando muitos problemas por aqui ultimamente, e ando sem tempo para resolver o que fazer com ele. Por isso pode levá-lo, e se quiser pode ficar me devendo um favor.
O Capitão escandinavo respondeu:
 Você é cheio de surpresas, arqueiro.  E então chamou dois de seus homens que estavam por perto escutando a conversa:  Levem a carga a bordo, e o coloquem no convés.
Eles carregaram o homem, ainda inconsciente para dentro do barco. Gundar ergueu sua mão e Will apertou-a firmemente.
 Bem, você está certo, arqueiro, ficarei lhe devendo este favor. Não só você alimentou minha tripulação, como também nos deu um pequeno lucro para dividirmos.
Will respondeu:
 Vocês estão me fazendo um favor ao levá-lo, ficarei feliz em saber que ele está longe de Araluen. Bons ventos e fortes remadores, Gundar Hardstriker  ele adicionou a tradicional despedida escandinava.
 E uma boa jornada para você — respondeu Gundar.
Will montou Puxão novamente, e enquanto seguia seu caminho, olhava para a figura do novo escravo de Gundar. Apesar de não haver mais as pás, sua nova vida não seria nada fácil.

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