sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 9 - Reino próximo ao mar

Não era à toa que Jace Herondale tinha agarrado a oportunidade de pilotar uma moto voadora, Emma pensou. Era um ponto de vista do mundo completamente diferente. Eles seguiram a linha da rodovia ao norte, sobrevoando mansões com enormes piscinas, passearam sobre o mar, sobre castelos situados em cânions e falésias, baixando o suficiente para ver uma festa acontecendo no jardim de alguém, decorado com lanternas multicoloridas.
Mark foi guiando por trás, com guinadas dos pulsos; o vento estava alto o suficiente para que ela não conseguisse ouvi-lo. Eles passaram por um restaurante de frutos do mar que ficava aberto durante a madrugada, e música e luzes transbordavam pela janela. Emma já tinha estado lá antes e se lembrava de ter sentado à mesa de piquenique com Jules, mergulhando ostras fritas em molho tártaro. Dezenas de Harley-Davidson estavam estacionadas do lado de fora, mas Emma duvidava que alguma delas pudesse voar.
Ela sorriu para si mesma, sem conseguir se conter, sentindo-se inebriada com a altura e o ar frio.
Mark cutucou o pulso direito dela. Areia era soprada do mar, que subia em ondas altas. Emma inclinou a moto de modo que ficaram quase na vertical, parando perto de um penhasco. Desviaram da beirada da falésia com 30 centímetros de distância e avançaram, as rodas roçando as pontas das plantas que cresciam entre a grama longa.
Uma rocha de granito se erguia diante deles, uma colina que parecia um domo sobre as falésias. Emma se reclinou, se preparando para ativar a moto, mas Mark a segurou por trás e falou em seu ouvido:
— Pare! Pare!
A moto parou exatamente quando passaram por um emaranhado de ervas daninhas que cercavam as falésias. Em meio ao bolo de plantas costeiras havia uma trilha de grama que alcançavam a colina baixa de granito. A grama parecia estragada em alguns pontos, como se alguém tivesse pisado, e ao longe, à direita da grama, Emma conseguia ver uma estradinha de terra se curvando pelas falésias em direção à rodovia.
Emma saltou da moto. Mark a seguiu, e eles ficaram parados por um instante, o mar era um brilho ao longe, a colina se elevando escura diante deles.
— Você dirige rápido demais — falou ele.
Emma riu e verificou a alça de Cortana, onde ela cruzava seu peito.
— Parece Julian falando.
— Me trouxe alegria — confessou Mark, se aproximando dela. — Foi como se eu tivesse cavalgado com a Caçada outra vez, e sentido o gosto do sangue no céu.
— Certo, parece o Julian drogado falando — murmurou Emma. Ela olhou nem volta. — Onde estamos? Essa é a convergência das Linhas Ley?
— Ali. — Mark apontou para uma abertura escura na pedra da colina.
Conforme avançavam para ela, Emma esticou o braço para trás e tocou o cabo de Cortana. Alguma coisa naquele lugar lhe dava arrepios; talvez fosse simplesmente o poder da convergência, mas, à medida que se aproximavam da caverna e seus pelos da nuca se arrepiavam, ela duvidou de que fosse o caso.
— A grama está lisa — disse ela, apontando para a área ao redor da caverna com um gesto amplo da mão. — Pisoteada. Alguém andou passando por aqui. Muitos alguéns. Mas não tem nenhuma marca recente de pneu na estrada.
Mark olhou em volta, com a cabeça inclinada para trás, como um lobo farejando o ar. Seus pés ainda estavam descalços, mas ele não parecia ter problemas para andar no solo áspero, os cardos e pedras afiadas visíveis entre a grama.
Ouviu-se um ruído agudo e alto – o telefone de Emma tocando. Jules, ela pensou, e o tirou do bolso.
— Emma? — Era Cristina, a voz baixa e doce estranhamente impactante; um lembrete intenso da realidade após aquele voo irreal pelo céu. — Onde você está? Encontrou Mark?
— Encontrei — respondeu Emma, olhando para Mark. Ele parecia examinar as plantas que cresciam ao redor da boca da caverna. — Estamos na convergência.
Quê? Onde é? É perigoso?
— Ainda não — disse Emma, quando Mark entrou na caverna. — Mark! — chamou. — Mark, não... Mark!
A ligação caiu. Praguejando, Emma guardou o telefone de volta no bolso e pegou sua luz enfeitiçada. Ela acendeu, suave e brilhante, iluminando através dos dedos. Clareou a entrada da caverna. Ela seguiu naquela direção, xingando Mark para si mesma.
Ele estava logo na entrada, olhando para mais das mesmas plantas, que se acumulavam em volta da pedra seca e lisa.
Atropa belladona — explicou Mark. — Significa “bela moça”. É venenosa.
Emma fez uma careta.
— Costuma crescer por aqui?
— Não nessa quantidade. — Ele esticou o braço para tocá-la. Emma o pegou pelo pulso.
— Não! — exclamou ela. — Você disse que era venenosa.
— Só se a pessoa engolir — respondeu ele. — O tio Arthur não ensinou nada sobre a morte de Augustus?
— Nada que eu não tenha me empenhado para esquecer.
Mark se endireitou, e ela o soltou. Emma flexionou os dedos. Ele tinha muita força nos braços.
À medida que ele avançava na caverna, que se estreitava em um túnel, ela não pôde deixar de se lembrar de Mark na última vez em que ela o viu, antes de ele ser levado por Sebastian Morgenstern. Sorrindo, de olhos azuis, cabelos curtos e claros se enrolando sobre as extremidades das orelhas pontudas. Ombros largos – pelo menos ela, aos 12, tinha essa impressão. Certamente ele era maior do que Julian, mais alto e mais largo do que todos eles. Adulto.
Agora, espreitando diante dela, ele parecia uma criança selvagem, cabelos brilhando à luz da pedra enfeitiçada. Ele se movia como uma nuvem no céu, vapor à mercê do vento que poderia destruí-la.
Mark desapareceu ao redor de uma pedra, e Emma quase fechou os olhos diante da imagem de um Mark desaparecido. Ele pertencia ao passado que continha seus pais, e a pessoa pode se afogar no passado se permitir que ele a envolva enquanto trabalha.
E ela era uma Caçadora de Sombras. Estava sempre trabalhando.
— Emma! — chamou Mark, a voz ecoando das paredes. — Venha ver isso.
Ela se apressou a segui-lo pelo túnel. Ele dava para uma câmera circular alinhada com metal. Emma virou em um círculo lento, observando. Ela não sabia exatamente o que estava esperando, mas nada que parecesse o interior de um oceano oculto. As paredes eram de bronze, cobertas por símbolos estranhos, uma mistura de línguas escritas: algumas demoníacas, outras antigas, porém, humanas – ela reconhecia latim e grego demótico, algumas passagens da Bíblia...
Duas grandes portas de vidro, semelhantes a portais, estavam colocadas nas paredes, fechadas e trancadas com parafusos. Um estranho ornamento de metal tinha sido fixado na parede entre eles. Através do vidro, Emma só conseguia enxergar a escuridão em turbilhão, como se estivessem embaixo d’água.
Não havia móveis no recinto, mas um círculo de símbolos, feito com giz, desenhado sobre o soalho de pedra escura. Emma pegou o telefone e começou a tirar fotos. O flash parecia assustador no escuro.
Mark foi em direção ao círculo.
— Não... — Emma abaixou o telefone. — Entre aí. — Ela suspirou.
Ele já estava dentro do círculo, olhando curioso em volta. Emma não conseguia ver nada além do chão com ele ali.
— Por favor, saia daí — pediu ela em tom persuasivo. — Se tiver algum feitiço aí e ele matar você, vai ser desagradável explicar para Jules.
Havia um brilho fraco de luz quando Mark saiu do círculo.
— “Desagradável” me parece um eufemismo — respondeu ele calmamente.
— Essa é a questão — disse Emma. — Por isso é engraçado. — Ele pareceu confuso. — Deixa para lá.
— Uma vez li que explicar uma piada é como dissecar um sapo — contou Mark. — Você descobre como funciona, mas o sapo morre no processo.
— Talvez devêssemos sair daqui antes que a gente morra no processo. Tirei algumas fotos com meu telefone, então...
— Achei isso — disse Mark, e mostrou para ela um objeto quadrado de couro. — Estava dentro do círculo junto de algumas roupas e o que parecia... — Ele franziu o rosto. — Uma porção de dentes quebrados.
Emma pegou o objeto da mão dele. Era uma carteira – uma carteira masculina, semiqueimada por fogo.
— Eu não vi nada — disse ela. — O círculo parecia vazio.
— Feitiço de disfarce. Senti quando atravessei.
Ela abriu a carteira, e o coração saltou. Atrás do plástico havia uma carteira de motorista com uma foto familiar. O homem cujo corpo ela encontrara no beco.
Havia dinheiro e cartões de crédito na carteira, mas seus olhos estavam fixos na habilitação e no nome: Stanley Albert Wells. O mesmo cabelo comprido e grisalho, e o rosto redondo do qual se lembrava, só que dessa vez as feições não se mostravam contorcidas e manchadas de sangue. O endereço sob o nome estava queimado e ilegível, mas a data de nascimento e as outras informações que pareciam claras.
— Mark. Mark! — Ela acenou a carteira por cima da cabeça. — É uma pista. Uma pista de fato. Acho que te amo.
As sobrancelhas de Mark se ergueram.
— No Reino das Fadas, se você dissesse isso, teríamos que firmar nosso compromisso, e você poderia me lançar um geas que não me afastaria de você ou eu morreria.
Emma colocou a carteira no bolso.
— Bem, aqui é só uma expressão que significa “gosto muito de você”, ou até mesmo “obrigada pela carteira manchada de sangue”.
— Como os humanos são específicos.
— Você é humano, Mark Blackthorn.
Um som ecoou pelo recinto. Mark desviou o olhar do dela e levantou a cabeça. Emma quase imaginou suas orelhas pontudas tremendo em direção ao som, e suprimiu um sorriso.
— Lá fora — disse ele. — Tem alguma coisa lá fora.
O sorriso incipiente de Emma desapareceu. Ela foi para o túnel, guardando a luz enfeitiçada no bolso para diminuir a luminosidade. Mark a acompanhou quando ela sacou a estela e desenhou quatro símbolos na mão esquerda – Precisão de Ataque, Equilíbrio, Fúria de Batalha, Silêncio.  Ela se voltou para Mark ao se aproximarem da entrada, com a estela em punho, mas ele balançou a cabeça. Não. Sem símbolos.
Ela guardou a estela de volta no cinto. Tinham chegado à boca da caverna. O ar era mais frio ali, e Emma conseguia ver o céu, pontilhado com as estrelas, e a grama, prateada ao luar. O campo na frente da caverna parecia nu e vazio. Emma não via nada além de grama e cardos, amassados como se tivessem sido pisados por sapatos, até a beira da falésia. Havia um som agudo e musical no ar, como o chiado de insetos.
Ela escutou a respiração alta de Mark atrás dela. Luz brilhou quando ele falou:
Remiel.
A lâmina serafim ganhou vida. Como se a luz tivesse arrancado um feitiço de disfarce, de repente, ela conseguiu enxergá-los. Assobiando e chiando pelo gramado.
Demônios.
Ela pegou Cortana com tanta rapidez que foi como se a lâmina tivesse saltado para sua mão. Eram dezenas deles, espalhados entre a caverna e a falésia. Pareciam insetos enormes: louva-a-deus, mais especificamente. Cabeça triangular, corpo alongado, enormes braços com lâminas de quitina, afiadas como navalhas. Os olhos eram pálidos, lisos e leitosos.
Estavam entre ela e Mark, e a moto.
— Demônios Mantis — sussurrou Emma. — Não temos como combater todos eles. — Ela olhou para Mark cujo rosto estava iluminado por Remiel. — Temos que chegar na moto.
Mark fez que sim com a cabeça.
— Vai — disse ele, tenso.
Emma avançou. Desceu como uma jaula no instante em que suas botas atingiram chão: uma onda de frio que pareceu desacelerar o tempo. Ela viu um dos Mantis correndo para ela, atacando e tentando agarrar, com as patas dianteiras espetadas. Ela dobrou os joelhos e saltou, subindo para o ar ao atacar o Mantis e decepar sua cabeça do corpo.
Icor verde esguichou. Ela aterrissou em um solo ensopado enquanto o corpo do demônio se curvava e desaparecia. Um movimento emergiu em sua visão periférica. Ela girou e atacou novamente, enfiando a ponta de Cortana no tórax de outro Mantis. Emma puxou a espada, atacou novamente, e observou enquanto o demônio sucumbia sob sua lâmina.
Seu coração batia nos ouvidos. Aquela era a ponta da lâmina, momento em que todo o treinamento, todas as horas, a paixão e o ódio se reduziam a um único ponto de foco e determinação. Matar demônios. Era isso que importava.
Mark era facilmente visível, sua lâmina serafim iluminando a grama ao redor. Ele atacou um Mantis, cortando suas patas dianteiras. Ele cambaleou, chiando, ainda vivo. O rosto de Mark se contorceu em desgosto. Emma correu para um monte de pedras, para o lado, e desceu, cortando o Mantis ferido em dois. O demônio desapareceu quando ela aterrissou na frente de Mark.
— Ele era meu — falou o garoto com o olhar frio.
— Confie em mim — disse Emma — ainda há bastante. — Ela o pegou com a mão livre e o girou. Cinco Mantis avançavam para cima deles vindos das rachaduras na colina de granito. — Mate aqueles — falou. — Vou buscar a moto.
Mark saltou para a frente com um grito como um apito de caça. Ele cortou as patas dianteiras e traseiras dos Mantis, incapacitando-os; eles caíram ao seu redor, esguichando icor preto-esverdeado. Fedia como gasolina queimando.
Emma começou a correr para a falésia. Demônios a atacaram no percurso. Ela os surpreendeu no seu ponto fraco, no tecido conjuntivo onde a quitina era fina, separando cabeça e tórax, arrancando pernas de corpos. Seus jeans e o casaco estavam molhados de sangue de demônio. Ela passou por um Mantis moribundo e deslizou até a beira da falésia...
Então congelou. Um Mantis estava levantando a moto com as patas dianteiras. Ela podia jurar que sorria para ela, sua cabeça triangular se abrindo para revelar fileiras de dentes afiados enquanto agarrava a moto com suas patas letais, quebrando-a em pedaços. Metal guinchou e rachou, pneus estouraram, e o Mantis chiou de alegria quando a máquina ficou destroçada, os pedaços caindo pelo penhasco, levando consigo a esperança de Emma de escapar com facilidade.
Ela encarou o Mantis.
— Essa — falou — era uma máquina muito boa — e, pegando uma faca no cinto, arremessou.
Ela atingiu o corpo do Mantis, abrindo seu peito. Icor esguichou da boca do demônio ao cair para trás, sofrendo espasmos, o corpo seguindo a moto pelo penhasco.
— Babaca — murmurou Emma, girando de volta para o campo.
Ela detestava ter que usar facas de arremesso para matar um inimigo, sobretudo, porque provavelmente não a recuperaria. Ela levava mais três no cinto, uma lâmina serafim e Cortana.
Sabia que isso não era nem próximo de ser o suficiente para enfrentar as duas dúzias de Mantis ainda no gramado. Mas era o que sobrou. Teria que servir.
Ela podia ver Mark, que tinha subido na colina de granito e estava empoleirado em uma ponta, esfaqueando o que havia embaixo com sua lâmina. Ela começou a correr na direção dele e desviou de uma pata agressora, esticando Cortana para arrancar o membro enquanto corria. Ouviu o Mantis urrar de dor.
Um dos Mantis mais altos estava se esticando para alcançar Mark, agitando as patas dianteiras. Ele abaixou Remiel com força, cortando sua cabeça – e, enquanto o demônio caía, um segundo Mantis apareceu, as mandíbulas mordendo a lâmina. Caiu para trás, soltando seu grito agudo de inseto.
Estava morrendo, mas tinha levado Remiel. Eles sucumbiram juntos em uma poça chiante de icor e adamas.
Mark já usara todas as armas que Emma havia lhe dado. Ele pressionou as costas contra o granito quando outro Mantis veio. O coração de Emma saltou para a garganta. Ela correu para a frente, se lançando contra a parede, indo em direção a Mark. Um grande Mantis se ergueu diante dele. Mark mirou a garganta quando o Mantis se inclinou para a frente, com a boca aberta, e Emma queria gritar para ele recuar.

Alguma coisa brilhava entre seus dedos. Uma corrente de prata, com a cabeça de flecha brilhando. Ele a lançou contra a cabeça do Mantis, cortando seus olhos brancos esbugalhados. Líquido leitoso explodiu para a frente. Ele recuou, gritando, no mesmo instante em que Emma saltou para a beira da pedra, ao lado de Mark, e manuseou Cortana para cortá-la ao meio.
Mark colocou a corrente de volta no pescoço enquanto Emma praguejava e entregava a ele sua última lâmina serafim. Icor escorria pela lâmina de Cortana, queimando sua pele. Ela cerrou os dentes e ignorou a dor enquanto Mark erguia sua nova lâmina.
— Dê um nome à lâmina — disse ela, arfando e puxando uma faca do cinto. Emma a segurou com a mão direita e deixou Cortana na esquerda.
Mark fez que sim com a cabeça.
Raguel — falou e a lâmina explodiu em luz.
O Mantis gritou, agachando e se encolhendo por causa do brilho, e Emma pulou da pedra.
Ela caiu, girando Cortana e a adaga em torno de si, como as hélices de um helicóptero. O ar foi preenchido por guinchos de insetos enquanto suas armas atingiam quitina e carne.
O mundo havia desacelerado. Ela continuava caindo. Tinha todo o tempo do mundo. Esticou os braços, mão esquerda e mão direita, arrancando cabeça de tórax, mesotórax de metatórax, cortando as mandíbulas de dois Mantis e deixando que se afogassem no próprio sangue. Uma pata dianteira a atacou. Ela a cortou com um giro angular de Cortana. Quando Emma atingiu o chão, seis corpos de Mantis caíram em seguida, cada um aterrissando com uma batida seca e desaparecendo.
Só a pata dianteira permaneceu, espetada no chão como um cactus estranho. Os outros Mantis estavam circulando, chiando e estalando, mas ainda não atacavam, pareciam cautelosos, como se mesmo seus cérebros minúsculos de insetos tivessem notado o fato de que ela representava um perigo para eles.
Um deles estava sem a pata dianteira.
Ela olhou para Mark. Ele continuava equilibrado na pedra – ela não podia culpá-lo; era uma excelente posição fixa para o combate. Enquanto observava, um Mantis pulou para cima dele, passando um membro afiado sobre seu peito; Mark abaixou Raguel, esfaqueando-o no abdômen. O demônio rugiu, cambaleando para trás.
À luz brilhante da lâmina serafim, Emma viu sangue brotando da camisa de Mark, preto-avermelhado.
— Mark — sussurrou.
Ele girou graciosamente. Sua lâmina serafim destruiu o Mantis. O demônio caiu em dois pedaços, desaparecendo enquanto a noite explodia em luz.
Um carro surgiu na estrada e foi para o centro da clareira. Um Toyota vermelho familiar. Os faróis ardiam na escuridão, varrendo o campo, iluminando os Mantis.
Uma figura estava ajoelhada no teto do carro, com uma besta levantada no ombro.
Julian.
O carro avançou, e Julian se levantou, erguendo a arma. A besta de Julian era uma arma elaborada, capaz de disparar flechas rapidamente. Ele mirou os demônios, disparando uma, outra, o tempo todo surfando como se o teto do carro fosse uma prancha, os pés firmes enquanto o Toyota quicava e atravessava o solo desigual.
Emma se encheu de orgulho. Algumas pessoas frequentemente agiam como se Julian não pudesse ser um grande guerreiro por ser suave na vida, gentil com os amigos e família.
As pessoas estavam erradas.
Todas as flechas acertaram, todas se enterraram no corpo de um demônio. As flechas estavam Marcadas: quando atingiam o alvo, os Mantis explodiam com gritos silenciosos.
O carro cantou pneus pela clareira. Emma viu Cristina na direção, com o queixo travado. Os demônios Mantis estavam dispersando, desaparecendo de volta para as sombras. Cristina acelerou, e o carro avançou para vários deles, esmagando-os. Mark saltou da pedra, aterrissando agachado, e despachou um demônio que se contorcia, chutando a cabeça e a apertando contra a grama.  A frente da camisa estava toda suja de sangue. Enquanto o demônio desaparecia com um barulho molhado e grudento, Mark desabou de joelhos; a lâmina serafim caindo ao seu lado.
O carro parou com um tranco. Cristina tinha aberto a porta do motorista quando um Mantis saiu de baixo do carro. Foi para cima de Mark.
Julian gritou alto, saltando de cima do carro. O Mantis tinha avançado para cima do seu irmão, que conseguiu se ajoelhar e alcançar a corrente no pescoço...
Energia transbordou de Emma, como uma injeção de cafeína. A presença de Julian, tornando-a mais forte. Ela puxou a perna cortada do chão e a lançou. Chiou pelo ar, girando como uma hélice, e atingiu o corpo do Mantis com uma batida pesada. O demônio berrou de agonia e desapareceu eu uma nuvem de icor.
Mark caiu de volta na grama. Julian se curvava sobre ele, Emma já estava correndo. Jules segurava sua estela.
— Mark — chamou ele, enquanto Emma os alcançava. — Mark, por favor.
— Não — respondeu Mark secamente. Ele afastou a mão do irmão. — Sem símbolos. — E se arrastou, ficando de joelhos, depois de pé, e parando, sem conseguir se equilibrar. — Sem símbolos, Julian. — Ele olhou para Emma. — Você está bem?
— Estou bem — respondeu Emma, guardando Cortana. A frieza da batalha já tinha desaparecido, deixando-a tonta. Ao luar, os olhos de Julian ardiam em um tom gélido de azul. Ele usava uniforme de combate, os cabelos escuros bagunçados com o vento, a mão direita agarrando a arma.
Julian colocou a outra mão no rosto de Emma. O olhar dela foi atraído para o dele. Ela conseguia ver o céu noturno em suas pupilas.
— Tudo bem? — perguntou Julian, com a voz rouca. — Você está sangrando.
Ele abaixou o braço. Estava com os dedos vermelhos. A mão livre foi para a bochecha; ela sentiu o corte irregular, o sangue. A ardência.
— Não percebi — respondeu Emma, e então, com as palavras escapando torrencialmente: — Como foi que vocês nos encontraram? Jules, como soube aonde ir?
Antes que Julian pudesse responder, o Toyota rugiu, girou e voltou até eles. Cristina se inclinou para fora da janela, seu medalhão brilhando na garganta.
— Vamos — disse. — Aqui é muito perigoso.
— Os demônios não se foram. — Mark concordou. — Eles apenas recuaram.
Ele não estava errado. A noite que os cercava era viva com sombras que se moviam. Eles entraram apressadamente no carro: Emma ao lado de Cristina, Julian e Mark no banco de trás. Enquanto o carro acelerava dali, Emma alcançou o bolso do casaco, procurando o quadrado duro de couro.
A carteira. Continuava ali. Ela sentiu um grande alívio. Ela estava ali no carro, com Julian ao seu lado, e a prova nas mãos. Estava tudo bem.


— Você precisa de um iratze — disse Julian. — Mark...
— Afaste isso de mim — disse o irmão com a voz baixa e séria, encarando Julian com a estela na mão. — Ou vou saltar da janela deste veículo em movimento.
— Ah, não, não vai — disse Cristina, com sua voz doce e calma, esticando a mão para apertar o pino que trancava todas portas com um clique firme.
— Você está sangrando — disse Julian. — Em todo o carro.
Emma esticou o pescoço para olhar para eles. A camisa de Mark estava ensanguentada, mas ele não parecia sentir muita dor. Seus olhos piscavam com irritação.
— Fui enfeitiçado pela Caçada Selvagem — explicou ele. — Meus ferimentos vão se curar rapidamente. Não precisa se incomodar. — Pegou a ponta da camisa e limpou o sangue do peito; Emma viu rapidamente a pele pálida esticada na barriga dura, e os sinais de velhas cicatrizes.
— Foi bom que tenham aparecido naquela hora — falou Emma, virando-se para olhar para Cristina, depois para Julian. — Não me importa como perceberam o que estava acontecendo, mas...
— Não percebemos — respondeu Julian com poucas palavras. — Depois que você desligou na cara da Cristina, checamos o GPS do seu telefone e descobrimos que você estava aqui. Pareceu estranho o suficiente para investigar.
— Mas vocês não sabiam que estávamos encrencados — falou Emma. — Só que estávamos na convergência.
Cristina a olhou expressivamente. Julian não disse nada.
Emma abriu o zíper do casaco e o tirou, transferindo a carteira de Wells para o bolso da calça. A batalha causava um certo torpor, uma falta de noção dos ferimentos, o que a permitia seguir em frente. As dores e pontadas estavam aparecendo agora, e ela fez uma careta ao puxar a manga do antebraço. Uma longa queimadura se estendia do cotovelo ao pulso, e era preta e vermelha nas beiradas.
Ela olhou para o espelho retrovisor e viu Jules registrando o ferimento. Ele se inclinou para a frente.
— Pode encostar, Cristina?
Jules, sempre educado. Emma tentou sorrir para ele pelo espelho, mas ele não a encarava. Cristina saiu da pista e foi para o estacionamento do restaurante de frutos do mar sobre o qual Emma e Mark tinha voado mais cedo. Uma grande placa de néon acima da construção decrépita dizia TRIDENTE DE POSEIDON.
Os quatro saltaram do carro. O restaurante parecia praticamente deserto, exceto por algumas mesas com caminhoneiros e pessoas acampadas em pontos da região, tomando café e degustando ostras fritas.
Cristina insistiu em entrar para comer e beber; após um instante de discussão, eles permitiram. Julian colocou o casaco na mesa, reservando-a.
— Tem um chuveiro externo nos fundos — falou ele. — E um pouco de privacidade. Vamos?
— Como você sabe disso? — perguntou Emma, se juntando a ele enquanto se retiravam.
Julian não respondeu. Ela podia sentir a raiva dele, não só em seu olhar, mas em um nó sob as próprias costelas.
A trilha de terra que cercava o local se abria em uma área cheia de contêineres de lixo. Havia uma enorme pia dupla e – conforme Jules prometera – um chuveiro grande com equipamentos de surfe empilhados ao lado.
Mark atravessou a areia na direção do chuveiro e abriu a torneira.
— Espere — começou Julian. — Você vai...
Água jorrou, ensopando Mark instantaneamente. Ele levantou o rosto calmamente, como se tivesse se banhando em uma cachoeira tropical e não em um chuveiro gelado em uma noite fria.
— ... se molhar. — Julian suspirou.
Ele passou os dedos pelos cabelos emaranhados. Cabelos cor de chocolate, Emma pensava quando era mais nova. As pessoas achavam cabelos castanhos sem graça, mas não eram; os de Julian tinham reflexos dourados, toques vermelhos e cor de café.
Emma foi até a pia e passou água sobre o corte no braço, depois molhou o rosto e o pescoço, limpando o icor. Sangue de demônio era tóxico: podia queimar a pele, e era má ideia deixar que caísse nos olhos ou boca.
Mark fechou o chuveiro e saiu de lá pingando. Emma ficou imaginando se seria desconfortável ficar com os jeans grudados, assim como a camisa. Os cabelos estavam colados no pescoço.
Os olhos dele encontraram os dela. Um azul frio e um dourado ainda mais frio. Neles Emma viu a selvageria da Caçada: o vazio e a liberdade dos céus. Isso a fez tremer.
Ela viu Julian encará-la fixamente. Ele disse alguma coisa para Mark, que assentiu e desapareceu pela lateral da construção.
Emma se esticou para desligar a água, com uma careta; tinha uma queimadura na palma da mão. Ela alcançou a estela.
— Não — disse a voz de Jules, e de repente havia uma presença calorosa atrás dela. Emma agarrou a beira da pia e fechou os olhos, se sentindo subitamente tonta. O calor do corpo de Jules era palpável em suas costas. — Deixa que eu faço.
Símbolos de cura – quaisquer símbolos – aplicados por um parabatai funcionavam melhor, amplificados pela magia do feitiço de ligação. Emma se virou, as costas para a pia. Julian estava tão perto dela que ela teve de se virar com cuidado a fim de não dar-lhe um encontrão. Ele tinha cheiro de fogo, cravos e tinta. Arrepios explodiram por sua pele quando ele pegou o braço dela e pôs a mão em concha sob o pulso, desenhando com a estela com a mão que estava livre.
Ela conseguiu sentir o traço de cada um dos seus dedos na pele sensível do antebraço. Os dedos dele eram duros e calejados, ásperos pela terebintina.
— Jules — disse ela. — Desculpa.
Ele colocou a estela na pele dela.
— Pelo quê?
— Por ter ido até a convergência sem você — respondeu. — Eu não estava tentando...
— Por que você foi? — perguntou ele, e a estela começou o passeio sobre a pele formando as linhas do símbolo de cura. — Por que partiu com Mark?
— A moto — disse Emma. — Só dava para duas pessoas. A moto...— repetiu, para o olhar vazio de Julian, e então se lembrou do demônio Mantis esmagando-a em seus membros afiados. — Certo — disse ela. — O cavalo de Mark? O que as fadas mencionaram no Santuário? Era uma moto. Um dos Mantis a destruiu, então suponho que seja uma ex-moto.
O iratze estava pronto. Emma retraiu a mão, observando o corte começar a se curar, fechando como uma costura.
— Você não está nem de uniforme — disse Julian. Ele falou em voz baixa, direta, mas seus dedos tremiam enquanto ele afastava a estela. — Você continua sendo humana, Emma.
— Eu estava bem...
— Não pode fazer isso comigo. — As palavras saíram como se tivessem sido arrancadas do fundo do mar.
Ela congelou.
— Fazer o quê?
— Sou seu parabatai — falou ele, como se fossem palavras conclusivas, e, de certa forma, eram. — Vocês estavam enfrentando, sei lá, duas dúzias de demônios Mantis antes de chegarmos? Se Cristina não tivesse ligado...
— Eu teria combatido — respondeu Emma calorosamente. — Estou muito feliz que tenham aparecido, obrigada, mas eu teria nos tirado de lá...
— Talvez! — A voz dele se elevou. — Talvez tivesse, talvez conseguisse, mas e se não conseguisse? E se você morresse? Isso me mataria, Emma, me mataria. Você sabe o que acontece...
Ele não concluiu a frase. Você sabe o que acontece com uma pessoa quando seu parabatai morre.
Eles ficaram parados, se encarando, ofegantes.
— Quando você estava fora, eu senti aqui — disse Emma afinal, tocando a parte superior do braço, onde o símbolo parabataiestava marcado. — Você sentiu? — Ela passou a mão na frente da camisa dele, quente com o calor do seu corpo. O símbolo de Julian ficava na parte externa da clavícula, uns 5 centímetros acima do coração.
— Sim — respondeu ele, os cílios abaixando enquanto o olhar acompanhava o movimento dos seus dedos. — Doeu ficar longe de você. Parece que tem um gancho enterrado embaixo das minhas costelas, e alguma coisa puxando do outro lado. Como se eu estivesse preso a você, não importa a distância.
Emma respirou fundo. Ela estava se lembrando de Julian, 14 anos, nos círculos de fogo sobrepostos, na Cidade do Silêncio, onde o ritual parabatai era executado. A expressão em seu rosto quando eles entraram no círculo central, o fogo subindo ao redor, e ele desabotoou a camisa para permitir que ela tocasse a estela na sua pele e marcasse o símbolo que os uniria pelo resto da vida. Ela sabia que se mexesse a mão agora poderia tocar o símbolo cortado em seu peito, a Marca que ela mesma colocara ali...
Ela esticou o braço e tocou a clavícula dele. Dava para sentir o calor da pele através da camisa. Ele semicerrou os olhos, como se o toque de Emma pudesse machucá-lo. Por favor, não fique bravo Jules, ela pensou. Por favor.
— Não sou um Blackthorn — disse ela, com a voz falhando.
— Quê?
— Não sou um Blackthorn — repetiu ela. As palavras machucavam: vinham de uma profundeza de verdades, um lugar que ela hesitava olhar de perto. — Não pertenço ao Instituto. Estou aqui por sua causa, porque sou sua parabatai, então, tiveram que me deixar ficar. O resto de vocês não precisa provar nada. Eu preciso. Tudo o que eu faço é... é um teste.
O rosto de Julian mudou; ele estava olhando para ela ao luar, o arco de cupido dos seus lábios partido. As mãos dele levantaram, e ele gentilmente deu o braço para ela. Às vezes, ela pensou, era como se ela fosse uma pipa e Julian a pessoa empinando: ela voava no alto, e ele a mantinha presa à terra. Sem ele, ela se perderia entre as nuvens.
Emma levantou a cabeça. Dava para sentir a respiração de Julian em seu rosto. Havia algo nos olhos dele, algo se abrindo, não como uma rachadura na parede, mas como uma porta escancarando, e ela podia ver a luz.
— Não estou te testando, Emma — disse ele. — Você já me provou tudo.
Emma sentiu algo forte no sangue, o desejo de pegar Julian, fazer alguma coisa, alguma coisa, esmagar suas mãos nas dela, abraçá-lo, causar dor a ambos, fazer com que os dois sentissem o gosto do mesmo desespero. Ela não conseguiu entender, e isso a aterrorizou.
Ela foi para o lado, afastando-se gentilmente do toque de Julian.
— É melhor voltarmos para Mark e Cristina — murmurou ela. — Estamos aqui há um tempo.
Ela virou as costas para ele, mas não antes de ver a expressão em seu rosto se fechar, como uma porta batendo. Ela sentiu o gesto como um vazio no estômago, a certeza de que, independentemente de quantos demônios tinha matado naquela noite, seus nervos falharam quando mais precisou.


Quando voltaram para a frente do restaurante, encontraram Mark e Cristina sentados sobre uma mesa de piquenique, cercados por caixas de papelão de batatas fritas, pães amanteigados, mariscos fritos e tacos de peixe. Cristina estava segurando um refrigerante de limão e sorrindo para alguma coisa que Mark havia dito.
O vento do mar tinha secado os cabelos de Mark. Soprava-o no rosto, destacando o quanto ele parecia uma fada, e o quão pouco parecia Nephilim.
— Mark estava me contando sobre o combate na convergência — falou Cristina quando Emma se sentou com eles e alcançou um marisco.
Julian foi atrás dela e pegou refrigerante.
Emma contou seu próprio relato dos eventos, da descoberta da caverna e da carteira, ao aparecimento dos demônios Mantis.
— Eles destruíram a moto de Mark, por isso não conseguimos sair — explicou ela.
Mark pareceu sorumbático.
— Seu garanhão já era, tô achando — disse Emma a ele. — Vão te dar outro?
— Improvável — respondeu Mark. — Fadas não são generosas.
Julian olhou para ela com as sobrancelhas erguidas.
— Tô achando? — ecoou.
— Não consigo evitar. — Ela deu de ombros. — Estou com mania.
Cristina estendeu a mão.
— Vamos ver o que encontraram — falou. — Já que sacrificaram tanto por isso.
Emma pegou o objeto quadrado de couro do bolso e permitiu que todos olhassem. Em seguida, pegou o telefone e o estendeu enquanto abria nas fotos do interior da caverna, com aquelas línguas estranhas marcadas.
— Podemos traduzir o grego e o latim — disse Emma. — Mas teremos que ir até a biblioteca para descobrir as outras línguas.
— Stanley Wells — anunciou Julian, olhando a carteira semiqueimada. — O nome soa familiar.
— Quando voltarmos, Ty e Livvy podem descobrir quem ele é — disse Emma. — E podemos investigar o endereço, ver se tem alguma coisa a ser descoberta na casa dele. Ver se tem motivo para ele ter sido marcado para o sacrifício.
— Pode ser que sejam escolhidos aleatoriamente — disse Julian.
— Não são — afirmou Mark.
Todos pausaram, Julian com uma garrafa a meio caminho da boca.
— Quê? — perguntou Emma.
— Nem todo mundo serve para ser sacrificado por um feitiço de invocação — explicou Mark. — Não pode ser completamente aleatório.
— Ensinam muito sobre magia negra na Caçada Selvagem? — perguntou Julian.
— A Caçada Selvagem é magia negra — respondeu Mark. — Reconheci o círculo na caverna. — Ele tamborilou o telefone de Emma. — Esse é um círculo de sacrifício. Isso é necromancia. O poder da morte extraído com algum propósito.
Todos ficaram quietos por um momento. O vento frio do oceano emaranhou os cabelos úmidos de Emma.
— Os Mantis eram guardas — disse ela por fim. — Quem quer que seja o necromante, não quer que descubram sobre a câmara secreta de sacrifícios.
— Porque ele precisa dela — concluiu Jules.
— Pode ser ela — disse Emma. — Não são só homens que se tornam assassinos seriais psicopatas mágicos.
— Verdade — disse Julian. — Seja como for, não tem nenhum outro lugar perto da cidade com uma convergência de Linhas Ley como essa. Necromancia executada na extensão de uma Linha Ley provavelmente apareceria no mapa de Magnus, mas e se fosse feita em uma convergência?
— Nesse caso pode muito bem ser escondida dos Nephilim — disse Mark. — O assassino pode estar cometendo os assassinatos cerimoniais no ponto de convergência...
— E depois desova os corpos nas extensões das Linhas Ley? — Cristina completou. — Mas por quê? Por que não deixam nas cavernas?
— Talvez queiram que os corpos sejam encontrados — disse Mark. — Afinal, as marcas nele são escritas. Pode ser uma mensagem. Uma mensagem que querem transmitir.
— Então deveriam ter escrito o recado em uma língua que conhecemos — murmurou Emma.
— Talvez a mensagem não seja para nós — argumentou Mark.
— A convergência terá que ser observada — disse Cristina. — Alguém terá que monitorar. Não há outro ponto de convergência; o assassino terá que voltar em algum momento.
— De acordo — disse Julian. — Teremos que preparar alguma coisa na convergência. Algo que sirva de alerta.
— Amanhã, durante o dia — disse Emma. — Os demônios Mantis estarão inativos...
Julian riu.
— Sabe o que teremos amanhã? Teste — falou.
Duas vezes por ano Diana tinha que testá-los em certos quesitos básicos, de desenhos de símbolos a treinamento, passando por línguas, e depois entregava um relatório à Clave sobre o progresso.
Houve um coro de protesto. Julian levantou as mãos.
— Vou mandar uma mensagem para Diana sobre isso — falou ele. — Mas se não fizermos, a Clave vai desconfiar.
Mark disse algo impublicável sobre o que a Clave poderia fazer com as próprias desconfianças.
— Acho que não conheço essa palavra — disse Cristina, parecendo entretida.
— Também não sei ao certo se eu conheço — reiterou Emma. — E conheço vários palavrões.
Mark se inclinou para trás com o princípio de um sorriso, em seguida, respirou fundo. Tirou o colarinho ensanguentado do pescoço e olhou cuidadosamente para o peito ferido.
Julian repousou a garrafa.
— Deixe-me ver.
Mark soltou o colarinho.
— Não há nada que você possa fazer. Vai melhorar.
— É uma ferida demoníaca — disse Julian. — Deixe-me ver.
Mark olhou para ele, espantado. As ondas produziam um ruído suave no entorno. Não havia mais ninguém do lado de fora do restaurante, exceto eles; as outras mesas tinham vagado. Mark nunca tinha ouvido esse tom de Julian antes, Emma pensou, aquele que não aceitava discussões, o que parecia a voz de um homem adulto. O tipo de homem a quem você dava ouvidos.
Mark levantou a frente da camisa. O corte corria irregular sobre seu peito. Não estava mais sangrando, mas a visão da carne pálida fez Emma cerrar os dentes.
— Deixe-me... — Julian começou.
Mark se levantou.
— Eu estou bem — disse ele. — Não preciso da sua magia de cura. Não preciso dos seus símbolos mágicos de segurança. — Ele tocou o ombro, onde uma Marca florescia como uma borboleta: um símbolo permanente de proteção. — Tenho isso desde os 10 anos — falou. — Tinha isso quando me levaram e quando me quebraram e me transformaram em um deles. Nunca me ajudou. Os símbolos do Anjo são mentiras projetadas nos dentes do Paraíso.
Dor cresceu e desapareceu nos olhos de Julian.
— Não são perfeitos — concordou Julian — Nada é perfeito. Mas ajudam. Só não quero vê-lo machucado.
— Mark — chamou Cristina com a voz suave.
Mark, porém, tinha ido para outro lugar, algum lugar, algum lugar onde nenhuma das vozes podia alcançá-lo. Ele estava ali com os olhos em chamas, as mãos abrindo e fechando em punhos.
Lentamente, a mão subiu e pegou a bainha da camisa. Puxou-a sobre a cabeça. Tirou a camisa, derrubando-a sobre a areia. Emma viu a pele clara, mais clara do que a dela, um peito musculoso e uma cintura fina cortada com as linhas finas de antigas cicatrizes. Então ele se virou.
Suas costas eram cheias de símbolos, da nuca até a cintura. Mas não eram como Marcas normais de Caçadores das Sombras, nas quais os símbolos pretos eventualmente clareavam até uma linha fina na pele. Essas tinhas relevo, eram espessas e lívidas.
Julian tinha empalidecido em volta da boca.
— O quê...?
— Quando cheguei ao Reino das Fadas, eles zombavam do meu sangue Nephilim — disse Mark. — As fadas da Corte Unseelie pegaram minha estela e quebraram, disseram que não passava de um graveto sujo. E quando lutei de volta por ela, eles usaram facas para cortar os símbolos do Anjo na minha pele.  Depois disso parei de lutar com eles pelos Caçadores das Sombras. E jurei que nenhuma outra Marca tocaria minha pele.
Ele se abaixou, pegou a camisa ensanguentada e molhada, e ficou parado, encarando-os, a raiva descontada, novamente vulnerável.
— Talvez ainda dê para curá-las — falou Emma. — Os Irmãos do Silêncio...
— Não preciso que sejam curadas — disse Mark. — Servem como lembrete.
Julian saiu da mesa.
— Um lembrete de quê?
— De que não devo confiar — respondeu Mark.
Cristina olhou para Emma sobre as cabeças dos meninos. Havia uma terrível tristeza em seu rosto.
— Sinto muito que sua Marca de proteção não tenha funcionado — falou Julian, com a voz baixa e cautelosa, e Emma nunca quis abraçá-lo tanto quanto naquele momento, enquanto ele encarava o irmão ao luar, com o coração nos olhos. Seu cabelo era um emaranhado, os cachos suaves eram como pontos de interrogação na testa. — Mas existem outros tipos de proteção.  Sua família o protege, Mark. Não vamos deixar que o levem outra vez.
Mark sorriu, um sorriso estranho e triste.
— Eu sei — disse ele. — Meu gentil irmãozinho. Eu sei.

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