domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 7

 Eles estão chegando!  O clamor do vigia ecoou pela torre mais alta do Castelo de Seacliff.
O Barão Ergell recuou, o olhar perdido, até que finalmente eles seguiram a direção que o vigia apontava com o braço.
Um grupo de guerreiros escandinavos emergia por entre as árvores na clareira ao redor do castelo. Uma figura montada a cavalo acompanhava o homem que os lideravam. E havia também, pelo que ele podia notar, um cachorro preto-e-branco que os acompanhava lado-a-lado.
 Ele conversou com eles, não foi?  Ergell perguntou e Norris afirmou, ele permanecia em pé nas ameias, ao lado de seu líder.
Quando deixara Will pelo caminho, ele não se distanciara mais que um atalho. Ele vira Will se encontrar com os escandinavos, pronto a ir a seu socorro se fosse necessário.
 Sim. Ele simplesmente ficou no caminho deles e conversou. Eu o vi atirar uma única flecha, como aviso. Na verdade eu não vi, ela simplesmente apareceu lá. Eles são estranhos e misteriosos, esses arqueiros.
 E ele disse algo relacionado a um banquete?
Desta vez Norris apenas deu os ombros. Ele já havia passado as instruções para Rollo, mesmo estando intrigado também com o fato.
 Um banquete, milorde. Embora eu não possa lhe informar o que se passa na cabeça dele.
Enquanto conversava, Ergell contava a força escandinava que se aproximava do castelo. Aproximadamente trinta, pelo que contou. Muito mais do que poderiam lidar numa batalha. Ele tinha que enfrentar o fato de que a vila poderia ter sido saqueada e queimada até sua destruição. Os aldeões ficariam seguros dentro dos muros do castelo e o gado havia sido solto e espantado conforme Will tinha ordenado. Entretanto o povo, que dependia dele, perderia suas casas e seus pertences. E isso era sua culpa.
Os escandinavos estavam parando agora, a cerca de duzentos metros do castelo. Ele viu o arqueiro desmontar de seu cavalo e se dirigir ao líder escandinavo, um homem gigantesco usando um capacete com chifres e carregando um enorme machado de lâmina dupla de batalha. Uma espécie de acordo parecia estar sendo feito entre os dois homens e Will montou novamente seu cavalo e veio em direção ao castelo num rápido galope. O cachorro acelerou de modo que somente um pastor seria capaz de fazer, para permanecer a frente deles.
 Talvez nós devêssemos ir até lá embaixo e ver o que ele tem em mente!  Disse o barão.
Ele e seu mestre de guerra desceram as escadas em direção ao pátio. Eles chegaram ao mesmo em tempo que os guardas abriam uma pequena entrada pelo portão para permitir a entrada de Will. Ele cumprimentou o Barão e Sir Norris ao se aproximar.
 Nós temos um acordo com os escandinavos, meu senhor  ele disse.
O barão percebeu que ele estava falando em alto tom e que usara de propósito a palavra nós, de modo que os mexeriqueiros que estavam de ouvido atento pensassem que ele tinha agido de acordo com as instruções do barão. Teria sido muito fácil para o arqueiro mostrar sua autoridade diante do povo, entretanto ele escolhera não o fazer.
 Deu para perceber.
Ele respondera rispidamente, para que as pessoas não percebessem que ele não tinha a mínima ideia do que Will estava falando. O jovem arqueiro se aproximou e falou em voz baixa, de modo que apenas Ergell e Norris poderiam ouvir.
 Eles estão precisando de provisões para o inverno  ele falou calmamente  por isso vieram até aqui. Eu os garanti que daríamos cinco bois, dez carneiros e mais uma quantia considerável de farinha.
 Cinco bois!  Ergell começou a se indignar, mas o olhar gelado de poucos amigos que o arqueiro lançou a ele cortou seu protesto pela metade.
 Eles iam pegar de qualquer maneira  ele disse  e ainda por cima, iriam queimar a cidade. É um preço pequeno a se pagar, meu senhor.
Ele não desviou o olhar do Barão. Não precisava falar em voz alta o que estava pensando, que o barão se encontrava naquela posição por culpa de sua própria negligência, dele e a de Norris. Pensando nisso, o preço que estava pagando era pequeno. Ele viu Norris concordar com Will.
 Os bois sairão do meu próprio rebanho, meu senhor  ele disse.
Ergell sabia que o seu mestre de guerra estava tomando sua parcela de culpa no ocorrido e concordou.
 É claro. E as ovelhas sairão do meu. Dê a ordem, Norris  ele disse.
Will soltou um pequeno suspiro de alívio em seu pensamento. Ele esperava que os dois homens entendessem que aquela era a melhor solução. Will poderia ter tentado de outra maneira com Gundar, entretanto não queria abater homens indefesos. Além disso, até mesmo dez escandinavos poderiam fazer um grande estrago, como ele sabia por experiência própria. E francamente, como tudo isso era culpa de Ergell e Norris, seria bem feito para eles arcarem com o preço que a situação exigia.
 Enquanto isso, senhor, convidei Gundar e seus homens para se juntarem a nós e banquetearmos. Creio que pedi para Norris conversar com o cozinheiro a respeito.
Ergell foi pego de surpreso.
 Banquetear conosco?!  ele disse.  Escandinavos? Você quer que eu os deixe entrar aqui?
Ele olhou rapidamente para as grossas paredes do muro e para o maciço portão de madeira. Will assentiu.
 Gundar jurou pelo seu capacete que não haverá problemas, meu senhor. E um escandinavo nunca quebra sua palavra.
 Mas...  Ergell ainda estava hesitante.
A ideia de deixar esses selvagens escandinavos adentrarem em sua fortaleza era por demais extravagante. Norris estava voltando, tinha ido mandar juntar os animais. Ergell se dirigiu a ele indefeso.
 Aparentemente nós vamos deixar esses piratas entrarem – e ainda faremos um banquete  ele disse.
Por um momento ele viu Norris reagir da mesma maneira que ele. Mas então o cavaleiro lembrou-se da pequena figura solitária do arqueiro esperando na estrada para se encontrar com os escandinavos e então deu os ombros.
 Por que não?  disse ele em um tom resignado.  Eu nunca encontrei um escandinavo em um evento social antes. Isso pode ser bem interessante.
Will olhou para os dois.
 Isso pode ser barulhento  disse ele e então acrescentou num tom de alerta. Mas não tente competir com eles para ver quem bebe mais. Vocês nunca ganharão.

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