sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 5 - Parentes nobres

— E quando foram assinados os primeiros Acordos? — perguntou Diana. — E qual era o objetivo deles?
Era um dia desconcertantemente claro. A luz do sol entrava pelas janelas altas, iluminando o quadro diante do qual Diana caminhava de um lado para o outro, batendo com uma estela na palma da mão esquerda. Seu plano de aula estava rabiscado no quadro com uma letra quase ilegível: Emma conseguia identificar as palavras Acordos, Paz Fria e evolução da Lei.
Ela olhou de lado para Jules, mas ele estava com a cabeça curvada sobre algum papéis. Ainda não tinham se falado direito, exceto pela cordialidade no café da manhã. Ela havia acordado com o estômago oco e as mãos doendo de ter ficado agarrando as roupas de cama.
E Church também a abandonou em algum momento da noite. Gato idiota.
— Foram assinados em 1872 — respondeu Cristina. — Foram uma série de acordos entre as espécies do Mundo das Sombras e os Nephilim, que pretendia manter a paz entre eles e estabelecer algumas regras comuns para que todos as seguissem.
— E também protegem os integrantes do Submundo — disse Julian. — Antes dos Acordos, se os membros do Submundo se ferissem entre si, Caçadores de Sombras não podiam nem se dispunham a interferir. Os Acordos garantiram nossa proteção aos membros do Submundo. — Ele fez uma pausa. — Pelo menos até a Paz Fria.
Emma se lembrou da primeira vez em que ouviu falar na Paz Fria. Ela e Julian estavam no Salão dos Acordos quando foi Proposta: a punição às fadas pela participação na Guerra Maligna de Sebastian Morgenstern. Ela se lembrava da confusão dos seus sentimentos. Os pais morreram por causa dessa guerra, mas por que Mark e Helen, a quem ela amava, mereciam carregar esse fardo simplesmente por terem sangue de fada nas veias?
— E onde foram assinados os papéis da Paz Fria? — perguntou Diana.
— Em Idris — respondeu Livvy. — No Salão dos Acordos. Todos que normalmente compareciam aos Acordos estavam lá, mas a Rainha Seelie e o Rei Unseelie não apareceram para assinar o tratado, então este foi alterado e assinado sem eles.
— E o que a Paz Fria significa para as fadas? — O olhar de Diana estava fixo em Emma, que ficou encarando a própria mesa.
— As fadas não são mais protegidas pelos Acordos — respondeu Ty. — É proibido ajudá-las, e elas são proibidas de entrar em contato com Caçadores de Sombras. Só a Scholomance e os Centuriões podem lidar com fadas, além da Consulesa e do Inquisidor.
— Uma fada que carrega uma arma pode ser punida com a morte — emendou Jules. Ele parecia exausto. Havia círculos escuros sob seus olhos.
Emma queria que ele a olhasse. Ela e Julian não brigavam. Eles nunca brigavam, Ela ficou se perguntando se ele estava tão perplexo quanto ela. Emma não parava de ouvir o que ele tinha dito: que não queria um parabatai. Será que não queria nenhum parabatai, ou não a queria, especificamente?
— E o que é a Clave, Tavvy? — Era uma pergunta elementar demais para qualquer um dos outros, mas Tavvy pareceu feliz por poder responder alguma coisa.
— O governo dos Caçadores de Sombras — recitou ele. — Todos os Caçadores de Sombras ativos são da Clave. Os que tomam decisões são do Conselho. Existem três membros do Submundo no Conselho, cada um representando uma espécie do Submundo. Feiticeiros, licantropes e vampiros. As fadas não têm um representante desde a Guerra Maligna.
— Muito bem — disse Diana, e Tavvy se alegrou. — Mais alguém pode me dizer que outras mudanças foram lavradas pelo Conselho desde o fim da guerra?
— Bem, a Academia dos Caçadores de Sombras foi reaberta — disse Emma. Este era um território familiar para ela; tinha sido convidada pela Consulesa para ser uma das primeiras alunas. Mas escolheu ficar com os Blackthorn. — Muitos Caçadores de Sombras são treinados lá agora, e claro que eles convidam muitos aspirantes a Ascendentes: mundanos que querem se tornar Nephilim.
— A Scholomance foi reestabelecida — disse Julian. Seus cachos, escuros e brilhantes, caíram contra as bochechas enquanto ele levantava a cabeça. — Ela existia antes dos primeiros Acordos serem assinados, e, quando o Conselho foi traído pelas fadas, seus membros insistiram em reabri-la. A Scholomance faz pesquisas, treina Centuriões...
— Pense em como deve ter sido na Scholomance durante todos aqueles anos em que ficou fechada — disse Dru, seus olhos brilhando com um deleite estilo filme de terror. — Lá nas montanhas, totalmente abandonada e escura, cheia de aranhas, fantasmas e sombras...
— Se quer pensar em um lugar assustador, pense na Cidade dos Ossos — disse Livvy. A Cidade dos Ossos era onde os Irmãos do Silêncio viviam: um local subterrâneo, de túneis interligados, construído com as cinzas de Caçadores de Sombras mortos.
— Eu queria ir para a Scholomance — interrompeu Ty.
— Eu não — disse Livvy. — Centuriões não podem ter parabatai.
— Ainda assim eu gostaria de ir — disse Ty. — Você também pode ir se quiser.
— Não quero ir para a Scholomance — respondeu Livvy. — É no meio das montanhas dos Cárpatos. É um gelo lá, e tem ursos.
O rosto de Ty se alegrou com a menção a animais.
— Tem ursos?
— Chega de bate-papo — disse Diana. — Quando a Scholomance foi reaberta?
Cristina, que estava no assento mais perto da janela, levantou a mão para interromper.
— Tem alguém vindo na trilha para a casa — falou a garota. — Muitos alguéns, na verdade.
Emma olhou novamente para Jules. Raramente alguém visitava o Instituto de surpresa. Poucas pessoas fariam isso, e mesmo a maioria dos membros do Conclave marcaria um horário com Arthur. Mas, pensando bem, talvez alguém tivesse hora marcada com Arthur. No entanto, pela expressão no olhar de Julian, se esse fosse o caso, ele não sabia de nada.
Cristina, que tinha se levantado, respirou fundo.
— Por favor — pediu. — Venham ver.
Todos correram para uma janela comprida que percorria a parede principal da sala.  A janela em si tinha vista para a frente do Instituto e para a trilha sinuosa que levava das portas à rodovia que os separava da praia e do mar. O céu acima deles era azul e sem nuvens. A luz do sol se refletia nas rédeas prateadas de três cavalos, cada qual com um cavaleiro silencioso sentado nas costas nuas.
— Hadas — disse Cristina, a palavra soando em uma batida staccato de espanto. — Fadas.
Era inegavelmente esse o caso. O primeiro cavalo era preto, e o que o montava usava uma armadura negra que parecia de folhas queimadas. O segundo cavalo também era preto, e o cavaleiro vestia uma túnica de cor marfim. O terceiro cavalo era marrom, e a pessoa que o montava estava totalmente coberta por uma túnica com capuz cor de terra. Emma não sabia era homem ou mulher, criança ou adulto.
— Então, primeiro, deixe passarem os cavalos pretos, e depois deixe passar o marrom — murmurou Jules, citando um velho poema de fadas. — Um de preto, um de marrom, um de branco... — continuou. — É uma delegação oficial. Das Cortes. — Julian olhou para o outro lado da sala, para Diana. — Eu não sabia que Arthur tinha uma reunião com uma delegação do Reino das Fadas. Acha que ele avisou à Clave?
Ela balançou a cabeça, claramente intrigada.
— Não sei. Ele não contou nada para mim.
O corpo de Julian estava tenso como a corda de um arco; Emma podia sentir a tensão irradiando dele. Uma delegação do Reino das Fadas era uma coisa rara e séria. Era preciso uma permissão da Clave antes que qualquer reunião pudesse ser marcada. Mesmo para um chefe de Instituto.
— Diana, tenho que ir — disse ele.
Franzindo o rosto, Diana batucou com a estela em uma mão, em seguida, fez que sim com a cabeça.
— Tudo bem. Pode ir.
— Eu vou com você. — Emma deslizou do assento na janela.
Julian, que já estava se dirigindo à porta, parou e virou.
— Não — falou. — Tudo bem. Eu cuido disso.
Ele saiu da sala. Por um instante, Emma não se mexeu. Normalmente se Julian dizia que não precisava dela ou que tinha que fazer alguma coisa sozinho, ela nem pensava no assunto. Às vezes, eventos necessitavam de separação. Mas a noite anterior tinha solidificado a sensação de desconforto nela. Emma não sabia o que estava acontecendo com Jules. Não sabia se ele não a queria com ele, ou se queria, mas estava com raiva dela, ou de si mesmo, ou de ambos.
Ela só sabia que o Povo das Fadas era perigoso, e que Julian não iria encará-lo sozinho de jeito nenhum.
— Eu vou — insistiu ela, e foi para a porta. Parou e pegou Cortana, que estava ali pendurada.
— Emma — disse Diana, com a voz tensa. — Cuidado.
Na última vez em que fadas estiveram no Instituto, ajudaram Sebastian Morgenstern a arrancar a alma do corpo do pai de Julian. Tinham levado Mark.
Emma levara Tavvy e Dru para um local seguro. Ajudou a salvar as vidas dos irmãos mais novos de Julian. Eles escaparam por pouco.
Mas naquele momento Emma não tinha anos de treinamento. Não tinha matado um único demônio por conta própria, não aos 12 anos. Não tinha passado anos treinando para lutar, matar e defender.
Não ficaria para trás agora... de jeito nenhum.


Fadas.
Julian correu pelo corredor até o quarto, com a mente girando.
Fadas na entrada do Instituto. Três cavalos: dois pretos, um marrom. Uma delegação de uma Corte de Fadas, apesar de Julian não saber se era Seelie ou Unseelie. Não pareciam trazer qualquer bandeira.
Iam querer conversar. Se tinha uma coisa em que as fadas eram boas, essa coisa era ludibriar humanos. Até mesmo Caçadores de Sombras. Eles conseguiam fazer a verdade emergir de uma mentira, e enxergar a mentira no coração de uma verdade.
Ele pegou o casaco que tinha usado no dia anterior. Ali estava, no bolso interno. O frasco que Malcolm havia lhe dado. Não imaginou que fosse precisar dele tão cedo. Torcia para que...
Bem, o que ele torcia não importava. Pensou em Emma, brevemente, e no caos de esperanças estilhaçadas que ela representava. Mas agora não era hora de pensar nisso. Agarrando o frasco, Julian saiu correndo outra vez. Ele chegou ao fim do corredor e abriu a porta do sótão. Subiu os degraus e irrompeu no escritório do tio.
Tio Arthur estava sentado à mesa, vestindo uma camiseta ligeiramente esfarrapada, jeans e sapatos. Os cabelos castanhos e grisalhos batiam quase no ombro. Ele estava comparando dois livros enormes, murmurando e fazendo anotações.
— Tio Arthur! — Julian se aproximou da mesa. — Tio Arthur!
Tio Arthur fez um gesto para que Julian se calasse.
— Estou no meio de uma coisa importante. Uma coisa muito importante, Andrew.
— Sou Julian — respondeu o menino automaticamente. Chegou por trás do tio e fechou os dois livros. Arthur o olhou surpreso, os desbotados olhos azul-esverdeados se arregalaram. — Tem uma delegação aqui. Das Fadas. Você sabia que estavam vindo?
Arthur pareceu se encolher.
— Sim — respondeu. — Mandaram mensagens, tantas mensagens. — Ele balançou a cabeça. — Mas por quê? É proibido. Fadas, elas... elas não podem falar conosco agora.
Julian rezou silenciosamente por paciência.
— As mensagens, onde estão as mensagens?
— Foram escritas em folhas — respondeu Arthur. — Esmigalharam. Como tudo que as fadas tocam esmigalha, seca e morre.
— Mas o que as mensagens diziam?
— Insistiram. Em marcar uma reunião.
Julian respirou fundo.
— Você sabe sobre o que é a reunião, tio Arthur?
— Com certeza disseram nas cartas... — respondeu tio Arthur, nervoso. — Mas não lembro. — E olhou para Julian. — Talvez Nerissa saiba.
Julian ficou tenso. Nerissa era a mãe de Mark e Helen. Julian sabia pouco sobre ela; uma princesa da nobreza, ela era linda, segundo as histórias de Helen, e implacável. Já tinha morrido há muitos anos, e, em seus dias bons, Arthur sabia disso.
Ele tinha dias variados: alguns quietos, em que sentava em silêncio, sem respondera perguntas, e os dias sombrios, em que ficava irritado, deprimido, e frequentemente cruel. Falar sobre os mortos não significava um dia sombrio ou quieto, mas do pior tipo, um dia caótico, um dia em que Arthur não faria nada do que Julian esperava – quando podia explodir de raiva ou se encolher chorando. Um dia que trazia o gosto amargo do pânico ao fundo da garganta de Julian.
O tio de Julian nem sempre foi assim. Julian se lembrava dele como um homem quieto, quase silencioso, uma figura de sombras raramente presente em eventos de família. Foi uma presença suficientemente articulada no Salão dos Acordos quando se pronunciou para comunicar que aceitaria dirigir o Instituto. Instituto. Ninguém que não o conhecia muito, muito bem, saberia que havia algo de errado.
Julian sabia que seu pai e Arthur tinham sido prisioneiros no Reino das Fadas. E que Andrew tinha se apaixonado por Lady Nerissa e tido dois filhos com ela: Mark e Helen. Mas o que aconteceu com Arthur ao longo daqueles anos era um mistério. Sua loucura, como a Clave chamaria, na opinião de Julian, tinha sido causada pelas fadas. Se não destruíram sua sanidade, plantaram a semente da destruição. Fizeram da sua mente um castelo frágil, de modo que anos mais tarde, quando o Instituto de Londres foi atacado e Arthur, ferido, a mente estilhaçou como vidro.
Julian colocou a mão sobre a de Arthur. A mão de seu tio era magra e ossuda; parecia a mão de um homem muito mais velho.
— Queria que você não tivesse que ir à reunião. Mas vão desconfiar se você não aparecer.
Arthur tirou os óculos da face e esfregou a ponte do nariz.
— Minha monografia...
— Eu sei — disse Julian. — É importante. Mas isso também é importante. Não só para a Paz Fria, mas para nós. Para Helen. Para Mark.
— Você se lembra de Mark? — perguntou Arthur. Tinha olhos mais brilhantes sem os óculos. — Faz tanto tempo.
— Nem tanto, tio — retrucou Julian. — Me lembro perfeitamente dele.
— Realmente parece que foi ontem. — Arthur estremeceu. — Eu me lembro dos guerreiros do Povo das Fadas. Entraram no Instituto de Londres com as armaduras cobertas de sangue. Tanto sangue, como se estivessem vindo das linhas de Acádia quando Zeus fez chover sangue. — Sua mão, que segurava os óculos, tremeu. — Não aguento vê-los.
— Tem que ir — disse Julian. Pensou em tudo que não estava sendo dito: que ele próprio era apenas uma criança durante a Guerra Maligna, que tinha visto fadas chacinando crianças, ouviu os gritos da Caçada Selvagem. Mas e senta não falou nada. — Tio, você tem que ir.
— Se eu tivesse minha medicação... — falou Arthur com voz fraca. — Mas acabou enquanto você esteve fora.
— Eu tenho. — Julian tirou o frasco do bolso. — Você devia ter pedido mais a Malcolm.
— Não me lembrei. — Arthur deslizou os óculos de volta para o nariz, observando enquanto Julian despejava o conteúdo do frasco no copo de água sobre a mesa. — Como encontrá-lo... em quem confiar.
— Pode confiar em mim — disse Julian, quase engasgando com as palavras ao estender o copo para o tio. — Aqui. Você sabe como são as fadas. Elas se alimentam do desconforto humano e tiram vantagem disso. Isso vai ajudar. Tente mantê-lo calmo, mesmo que tentem os truques delas.
— Sim. — Arthur olhou para o copo, meio faminto e meio temeroso.
O conteúdo o afetaria por uma hora, talvez menos. Depois, ele teria uma dor de cabeça violentíssima, que talvez o deixasse de cama por dias. Era por isso que Julian ministrava raras doses: os efeitos colaterais quase nunca valiam a pena, mas valeria agora. Era preciso.
Tio Arthur hesitou. Lentamente levantou o copo até a boca, entornou a água e engoliu devagar.
O efeito foi instantâneo. De repente, tudo em Arthur pareceu aguçar, se tornar mais afiado, claro, preciso, como um esboço que cuidadosamente evoluiu para um desenho. Levantou-se e alcançou o casaco pendurado em um cabide perto da mesa.
— Me ajude a encontrar roupas para trocar, Julian — pediu. — Temos que estar apresentáveis no Santuário.


Todo Instituto tinha um Santuário. Sempre foi assim. O Instituto era uma mistura de prefeitura com residência, um lugar ao qual Caçadores de Sombras e membros do Submundo iam para se encontrar com o responsável pelo Instituto. O líder era o representante local da Clave. Em todo o sul da Califórnia, não havia Caçador de Sombras mais importante que o diretor do Instituto de Los Angeles. E o local mais seguro para encontrá-lo era o Santuário, onde vampiros não precisavam temer o território santificado e todos do Submundo estavam protegidos por juramentos.
O Santuário tinha dois pares de portas. Um levava ao lado de fora e podia ser ultrapassado por qualquer um, que, em seguida, estaria dentro de uma enorme sala de pedra. O outro ligava o interior do Instituto ao Santuário. Só podia ser utilizado por Caçadores de Sombras. Como as portas da frente do Instituto, as do lado de dentro do Santuário só se abriam para os que tinham sangue de Caçador de Sombras.
Emma tinha parado à base da escada para olhar pela janela, para a delegação do Povo das Fadas. Viu os cavalos, sem ninguém montando, esperando perto da escada. Se aquela comitiva tinha experiência com Caçadores de Sombras, o que era bem provável, então já estavam dentro do Santuário.
As portas internas do Santuário ficavam no fim de um corredor que começava na entrada principal do Instituto. Eram feitas de metal cúprico, que há muito tinha ficado verde com azinhavre; símbolos de proteção e de boas-vindas se entrelaçavam ao redor da moldura das portas, como videiras.
Emma podia ouvir as vozes do outro lado: vozes desconhecidas, uma clara feito água, outra afiada feito um galho estalando sob seu pé. Ela apertou a mão em torno de Cortana e empurrou as portas.
O santuário era construído em formato de lua crescente, diante das montanhas – os desfiladeiros com sombras, as pinceladas verdes e prateadas pela paisagem. As montanhas bloqueavam o sol, mas o recinto estava iluminado, graças ao lustre pendurado no teto. Luz batia nos vitrais e iluminava o piso xadrez, alternando quadrados de madeira mais escura e mais clara. Quem subisse no lustre e olhasse para baixo, veria a forma do símbolo de Poder Angelical.
Não que Emma fosse admitir que já tinha feito isso. Apesar de que era possível ter uma excelente visão da enorme cadeira de pedra do diretor do Instituto esse ângulo.
No centro do recinto, encontravam-se as fadas. Eram apenas duas: o cavaleiro fada de traje branco e o de armadura preta. O cavaleiro marrom não estava em lugar algum. Nenhuma das faces era visível. Ela conseguia ver as pontas dos dedos de mãos longas e pálidas se estendendo além das mangas, mas não sabia se eram mãos femininas ou masculinas.
Emma conseguia sentir um poder selvagem e inflexível irradiando deles, aquela coisa meio vaporosa do outro mundo. Uma sensação como a umidade fria da terra molhada tocou sua pele, trazendo o aroma de raízes, folhas e flores de jacarandá.
A fada de preto riu e tirou o próprio capuz. Emma levou um susto. Pele da cor de folhas verde-escuras, garras nas mãos e olhos amarelos de coruja. O cavaleiro fada usava uma capa, bordada com uma estampa de sorva.
Foi ele que Emma tinha visto no Sepulcro na noite anterior.
— Encontramo-nos novamente, minha bela — disse ele, e sua boca, que parecia um corte no tronco de uma árvore, sorriu. — Sou Iarlath, da Corte Unseelie. Meu companheiro de branco é Kieran, da Caçada. Kieran, tire o capuz.
O cavaleiro fada de branco ergueu as mãos esguias, cada qual com unhas quase transparentes e quadradas. Pegou as pontas do capuz e o retirou com um gesto imperioso, quase rebelde.
Emma suprimiu um engasgo. Ele era lindo. Não como Julian era lindo ou Cristina – de um jeito humano – mas como a ponta dura e afiada de Cortana. Ele parecia tão jovem, não mais que 16 ou 17 anos, apesar de ela imaginar que ele fosse mais velho que isso. Cabelo escuro, com um leve brilho azul, emoldurava um rosto esculpido. A túnica clara e as calças estavam desbotadas e gastas; outrora foram elegantes, mas agora as mangas e bainhas eram um pouco curtas para aquele corpo ágil e gracioso. Os olhos espaçados eram bicolores: o esquerdo era preto, e o direito, prateado. Ele usava gastas manoplas brancas que o proclamavam um príncipe das fadas, mas seus olhos – os olhos diziam que era parte da Caçada Selvagem.
— Isso é por causa da outra noite? —disse Emma, olhando de Iarlath para Kieran. — No Sepulcro?
— Em parte — anuiu Iarlath. Sua voz soava como galhos estalando ao vento. Como as profundezas escuras das florestas de contos de fada, onde apenas monstros viviam. Emma ficou pensando por que não tinha notado aquilo no bar.
— Esta é a garota? — A voz de Kieran era muito diferente: soava como ondas batendo na costa. Como água morna sob a luz clara. Era sedutora, com uma pitada de frieza. Ele olhava para Emma como se a garota fosse uma nova espécie de flor, que ele não tinha certeza se gostava. — Ela é bonita. — falou. — Não achei que ela fosse ser bonita. Você não mencionou isso.
Iarlath deu de ombros.
— Você sempre teve uma queda por louras — observou.
— Tá, sério? — Emma estalou os dedos. — Eu estou bem aqui. E não sabia que fui convidada para um jogo de “Quem É Mais Gato”?
— Eu não sabia que tinha sido convidada para nada — disse Kieran. Sua fala tinha um tom casual, como se ele estivesse acostumado a conversar com humanos.
— Grosso — respondeu Emma. — Esta é a minha casa. E o que vocês estão fazendo aqui, aliás? Vieram dizer que ele — apontou para Iarlath — não é responsável pelo assassinato no Sepulcro? Porque isso me parece um esforço grande demais só para dizer que não foi.
— Claro que não fui eu. — Iarlath se irritou. — Não seja ridícula.
Em qualquer outro contexto Emma teria desconsiderado o comentário. Mas fadas não podiam mentir. Não fadas de puro sangue, pelo menos. Quem era metade fada, como Mark e Helen, podia falar inverdades, mas mestiços eram raros.
Emma cruzou os braços.
— Repita comigo: eu não matei a vítima da qual você está falando, Emma Carstairs — disse ela — Para eu saber que é verdade.
Os olhos amarelos de Iarlath se fixaram em Emma com desgosto.
— Eu não matei a vítima da qual você está falando, Emma Carstairs.
— Então o que estão fazendo aqui? — Emma quis saber. — Ah, isso é uma daquelas conexões perdidas? Nos conhecemos naquela noite, você sentiu alguma coisa? Desculpe, mas não namoro árvores.
— Não sou uma árvore. — Iarlath parecia irritado, seu tronco descascando de leve.
— Emma — disse uma voz em tom de alerta na entrada.
Para enorme surpresa de Emma, era Arthur Blackthorn. Ele estava na entrada do Santuário, trajando um terno escuro sombrio, os cabelos cuidadosamente penteados para trás. A visão a espantou; fazia tempo que ela não o via vestindo outra coisa além de um robe maltrapilho sobre jeans manchados de café.
Ao seu lado estava Julian, os cabelos castanhos emaranhados. Ela examinou o rosto dele atrás de sinais de raiva, mas não captou nada; ele parecia alguém que tinha acabado de correr uma maratona, na verdade, e estava se segurando para não sucumbir ao cansaço e ao alívio.
— Peço desculpas pelo comportamento de minha tutelada — disse Arthur, entrando no salão. — Apesar de não ser proibido querelar no Santuário, é contra o espírito do local. — Ele se sentou na enorme cadeira de pedra. — Sou Arthur Blackthorn. Este é meu sobrinho, Julian Blackthorn. — Julian, que se colocara ao lado do assento de Arthur, inclinou a cabeça quando Iarlath e Kieran se apresentaram. — Agora, digam-nos o que fazem aqui.
As fadas trocaram olhares.
— Como assim? — disse Kieran — Não vai falar nada sobre a Paz Fria ou sobre essa visita transgredir a sua Lei?
— Meu tio não administra a Paz Fria — respondeu Julian. — E não é isso que desejamos discutir. Vocês conhecem as regras tão bem quanto nós; se escolheram violá-las, deve haver uma razão importante. Se não quiserem compartilhar a informação, meu tio vai pedir que se retirem.
Kieran tinha um ar arrogante.
— Muito bem — falou. — Viemos pedir um favor.
— Um favor? — respondeu Emma espantada.
O texto da Paz Fria era claro: Caçadores de Sombras não deveriam prestar assistência às Cortes Seelie e Unseelie. Os representantes das Cortes não apareceram para assinar o tratado dos Nephilim; fizeram pouco-caso, e esse era o castigo.
— Talvez vocês tenham se confundido — respondeu Arthur friamente. — Podem ter ouvido falar sobre minha sobrinha e meu sobrinho; podem achar que, como nossos parentes Mark e Helen têm sangue de fada, encontrarão mais boa vontade aqui do que encontrariam em outro Instituto. Mas minha sobrinha foi mandada para longe por causa da Paz Fria e meu sobrinho, roubado de nós.
O lábio de Kieran se curvou no canto.
— O exílio de sua sobrinha foi um decreto Nephilim, e não das fadas — falou o cavaleiro fada. — Quanto ao seu sobrinho...
Arthur respirou fundo, trêmulo. Estava agarrando os braços da cadeira com as mãos.
— A Consulesa foi forçada a isso, por conta da traição da Rainha Seelie. Guerreiros Unseelie lutaram ao lado dela. Todas as mãos de fadas estão sujas de sangue. Não somos muito receptivos a fadas aqui.
— Não foi a Paz Fria que tirou Mark de nós — argumentou Julian, com as bochechas ardendo em cor. — Foram vocês. A Caçada Selvagem. Está nos seus olhos que você cavalga com Gwyn, não negue.
— Ah — disse Kieran com um singelo sorriso nos lábios —, eu não negaria isso.
Emma ficou imaginando se mais alguém teria escutado Julian respirar fundo.
— Então você conhece meu irmão.
O sorriso não deixou os lábios de Kieran.
— Claro que conheço.
Julian parecia estar se segurando com toda força.
— O que você sabe sobre Mark?
— Que falsa surpresa é essa? — perguntou Iarlath. — É tolice. Falamos sobre Mark da Caçada na carta que enviamos.
Emma viu o olhar no rosto de Julian, uma ponta de choque. Ela deu um passo à frente rapidamente, não querendo que ele tivesse que ser o encarregado de perguntar.
— Que carta? — quis saber.
— Estava escrita em uma folha — respondeu Arthur. — Uma folha que se desfez. — Ele estava suando; pegou o lenço do bolso do peito e enxugou a testa. — Continha palavras sobre matanças. Sobre Mark. Não acreditei que fosse real. Eu...
Julian se adiantou um passo, praticamente bloqueando o tio de vista.
— Matança?
Kieran olhou para Julian, e seus olhos bicolores escureceram. Emma sentiu a incômoda sensação de que Kieran achava que sabia alguma coisa sobre seu parabatai, algo que ela própria não sabia.
— Você sabe sobre os assassinatos — anunciou Kieran. — Emma Carstairs encontrou um dos corpos na outra noite. Sabemos que vocês sabem que houve outros.
— Por que se importa? — perguntou Julian. — Fadas não costumam se envolver no derramamento de sangue do mundo humano.
— Costumamos se o sangue derramado for de fada — respondeu Kieran. Ele olhou em volta para as expressões surpresas dos outros. — Quem quer que seja o assassino, também está matando e mutilando fadas. Por isso Iarlath estava no Sepulcro na outra noite. Por isso Emma Carstairs o encontrou. Vocês estavam caçando o mesmo assassino.
Iarlath alcançou a própria capa e sacou um punhado de mica brilhante. Jogou para o ar, onde as partículas pairaram e se separaram, amalgamando-se em imagens em três dimensões. Imagens de corpos, corpos de fadas — alguns de aparência muito humana, todos mortos. Todos exibiam a pele talhada com as marcas pontudas que adornavam o corpo que Emma e Cristina encontraram no beco.
Emma se flagrou inclinando-se para a frente inconscientemente, tentando enxergar melhor a ilusão.
— O que são essas coisas? Fotos mágicas?
— Lembranças, preservadas com magia — explicou Iarlath.
— Ilusões — disse Julian. — Ilusões podem mentir.
Iarlath virou a mão para o lado, e as imagens mudaram. De repente, Emma estava olhando para o morto que encontrou no beco há três noites. Era uma imagem exata, incluindo até a expressão contorcida de horror na face dele.
— É mentira?
Emma olhou fixamente para Iarlath
— Você o viu — disse Emma. — Você o encontrou antes de mim. Supus que sim.
Iarlath fechou a mão, e os pedaços brilhantes de mica caíram no chão como gostas de chuva; a ilusão desapareceu.
— Vi. Ele já estava morto. Eu não poderia ter feito nada. Deixei-o para que você o encontrasse.
Emma não disse nada. Pela imagem, ficou bem claro que Iarlath falava a verdade.
E fadas não mentiam.
— Caçadores de Sombras também foram mortos, nós sabemos — emendou Kieran.
— Caçadores de Sombras são mortos com frequência — disse o tio Arthur. — Não existe lugar seguro.
— Não — retrucou Kieran. — Há proteção onde há protetores.
— Meus pais — disse Emma, ignorando Julian, que estava balançando a cabeça atrás dela, como se quisesse dizer, não diga a eles, não compartilhe, não dê nada a eles. Ela sabia que ele provavelmente estava certo; era da natureza das fadas pegar seus segredos e usá-los contra você. Mas, se houvesse a chance, a menor das chances, de que soubessem de alguma coisa... — Os corpos deles foram encontrados com as mesmas marcas, há cinco anos. Quando os Caçadores de Sombras tentaram levá-los, eles se desfizeram em cinzas. Só sabemos das marcas porque os Nephilim, fotografaram antes.
Kieran a observou com olhos brilhantes. Nenhum dos dois parecia humano: o preto era escuro demais, o prateado, muito metálico. Mesmo assim, o efeito geral era assombroso, desumanamente lindo.
— Sabemos sobre seus pais — falou ele. — Sabemos sobre a morte deles. Sabemos sobre a língua demoníaca com a qual os corpos foram marcados.
— Mutilados — disse Emma, com a respiração falhando, e sentiu o olhar de Julian, um lembrete de que ele estava lá, um apoio silencioso. — Desfigurados. E não marcados.
A expressão de Kieran não mudou.
— Também sabemos que você passou anos tentando traduzir ou entender as marcas nos corpos, sem sucesso. Podemos ajudá-la a mudar isso.
— O que está dizendo, exatamente? — perguntou Julian. Seus olhos estavam resguardados; toda a postura dele estava. A tensão no corpo de Julian impediu que Emma disparasse perguntas.
— Os acadêmicos da Corte Unseelie estudaram as marcas — explicou Iarlath. — Parece uma língua de um tempo antigo do Reino das Fadas. Um tempo que em muito precede sua memória humana. Antes de existirem os Nephilim.
— Quando as fadas eram mais próximas de seus ancestrais demoníacos — completou Arthur, rouco.
Os lábios de Kieran se curvaram como se Arthur tivesse dito alguma coisa de mau gosto.
— Nossos acadêmicos começaram a traduzir — revelou Kieran.
Puxou do bolso da capa uma folha de papel fina como um pergaminho. Nele Emma reconheceu as marcas com as quais estava tão familiarizada. As que os corpos sem vida de seus pais traziam. Abaixo das marcas havia palavras escritas com uma letra elegante.
O coração de Emma acelerou.
— Traduziram a primeira linha — explicou ele. — Parece ser parte de um feitiço. Aí o nosso conhecimento é falho, o Povo das Fadas não lida com feitiços; isso é território dos feiticeiros...
— Traduziram a primeira linha? — Emma disparou. — O que diz?
— Vamos contar — disse Iarlath. — E lhe daremos o trabalho que nossos acadêmicos realizaram até o momento se concordarem com nossos termos.
Julian os encarou com os olhos cerrados.
— Por que traduziram apenas a primeira linha? — perguntou o garoto. — Por que não fizeram tudo?
— Mal os acadêmicos concluíram o significado da primeira linha, e o Rei Unseelie os proibiu de continuar — disse Kieran. — A magia desse feitiço é sombria, de origem demoníaca. Ele não queria que fosse despertada no Reino das Fadas.
— Você podia ter continuado com o trabalho — argumentou Emma.
— Todas as fadas são proibidas pelo Rei de tocarem essas palavras. — Iarlath se irritou. — Mas isso não quer dizer que nosso envolvimento acabe. Acreditamos que este texto, estas marcas, podem ajudar a levá-los ao assassino, uma vez que sejam compreendidos.
— E você quer que a gente traduza o restante das marcas? — perguntou Julian. — Utilizando a linha que conseguiram como chave?
— Mais do que isso — disse Iarlath. — A tradução é apenas o primeiro passo. Ela os levará ao assassino. Uma vez que encontrarem essa pessoa, vocês a entregarão ao Rei Unseelie para que seja julgada pelo assassinato das fadas, e para que receba a justiça.
— Quer que a gente conduza uma investigação em seu nome? — Julian se revoltou. — Somos Caçadores de Sombras. Somos jurados pela Paz Fria, assim como vocês. Somos proibidos de ajudar as fadas, proibidos até mesmo de recebê-las aqui. Sabe o que estaríamos arriscando. Como ousam pedir?
Havia raiva na voz de Julian – uma raiva desproporcional à sugestão, mas Emma não podia culpá-lo. Ela sabia o que ele enxergava quando olhava para fadas, principalmente fadas com os olhos quebrados da Caçada Selvagem. Ele via os restos frios da Ilha Wrangel. Ele via o quarto vazio no Instituto, onde Mark não dormia mais.
— Não é uma investigação só deles — falou Emma em voz baixa. — Também é minha. Isso tem a ver com meus pais.
— Eu sei — retrucou Julian, e a raiva desapareceu. Em vez disso tinha dor na voz. — Mas não assim, Emma...
— Por que vir até aqui? — interrompeu Arthur, parecendo sentir a dor, com o rosto cinza. — Por que não procuraram um feiticeiro?
O belo rosto de Kieran se contorceu.
— Não podemos consultar um feiticeiro — explicou. — Nenhum dos filhos de Lillith fala conosco. A Paz Fria nos isolou do resto dos membros do Submundo. Mas vocês podem visitar o Alto Feiticeiro Malcolm Fade, ou o próprio Magnus Bane, e pedir que tirem suas dúvidas. Nós estamos presos, mas vocês... — disse a palavra com desdém. — Vocês são livres.
— Esta foi a família errada a procurar — disse Arthur. — Estão pedindo que violemos a Lei por vocês, como se tivéssemos alguma estima especial pelo Povo das Fadas. Mas os Blackthorn não se esqueceram do que tiraram deles.
— Não — disse Emma. — Precisamos desse papel, precisamos...
— Emma. — A expressão de Arthur era afiada. — Basta.
Emma abaixou o olhar, mas seu sangue chiava pelas veias, uma melodia de rebeldia determinada. Se as fadas saíssem e levassem consigo o papel, ela acharia um jeito de encontrá-los para obter a informação, para descobrir o que precisava descobrir. De algum jeito. Mesmo que o Instituto não pudesse se arriscar, ela podia.
Iarlath olhou para Arthur.
— Eu não acredito que queira tomar uma decisão tão precipitada.
A mandíbula de Arthur enrijeceu.
— Por que me questiona, vizinho?
Os Bons Vizinhos. Um termo antigo, muito antigo para as fadas. Foi Kieran quem respondeu:
— Por que temos uma coisa que desejam acima de tudo. E, se nos ajudarem, estamos dispostos a lhes dar o que querem.
Julian empalideceu. Emma, encarando-o, por um instante se prendeu demais à reação dele para perceber o que estavam implicando. Ao perceber, seu coração bateu descompassado no peito.
— O quê? — sussurrou Julian. — O que vocês têm que nós queremos?
— Ora, pois — disse Kieran. — O que acha?
A porta do Santuário, a que levava ao lado de fora do Instituto, se abriu e o cavaleiro fada marrom entrou. Ele se movia com graça e silêncio, sem hesitação ou trepidação – sem qualquer característica humana em seus movimentos. Ao chegar ao desenho do símbolo angelical no chão, parou. O recinto estava em total silêncio quando ele ergueu as mãos para o capuz e, pela primeira vez, hesitou.
Suas mãos eram humanas, com dedos compridos e pele morena clara.
Familiares.
Emma não estava respirando. Não conseguia respirar. Julian parecia estar em um sonho. O rosto de Arthur estava pálido, confuso.
— Tire o capuz, menino — disse Iarlath. — Mostre seu rosto.
As mãos familiares fecharam em torno do capuz e o puxaram. Primeiro, puxaram, depois, arrancaram dos ombros, como se o material fosse desagradável. Emma viu o lampejo de um corpo comprido e ágil, cabelos claros, mãos finas, enquanto a capa era arrancada e caía no chão em uma poça escura.
Um menino se encontrava no centro do símbolo, arfando. Um menino que parecia ter cerca de 17 anos, com cabelos claros que se curvavam como videiras de acantos, emaranhados em gravetos, na altura dos ombros. Seus olhos traziam a dualidade da Caçada Selvagem: duas cores – dourado e azul dos Blackthorn. Os pés estavam descalços, pretos de sujeira, as roupas rasgadas e maltrapilhas.
Uma onda de tontura atravessou Emma, com uma terrível mistura de horror, alívio e assombro. Julian estava rijo, como se tivesse recebido um choque elétrico. Ela viu o leve endurecer da boca, a contração no músculo da bochecha. Ele não abriu a boca; foi Arthur quem falou, levantando-se um pouco da cadeira, com a voz falha e incerta:
— Mark?


Os olhos de Mark se arregalaram em confusão. Ele abriu a boca para responder. Iarlath girou para ele:
— Mark Blackthorn da Caçada Selvagem — disparou. — Não fale até receber permissão para falar.
Os lábios de Mark se fecharam. O rosto ficou imóvel.
— E, você — disse Kieran, levantando a mão quando Julian começou a avançar. — Fique onde está.
— O que fizeram com ele? — Os olhos de Julian brilharam. — O que fizeram com o meu irmão?
— Mark pertence á Caçada Selvagem — disse Iarlath. — Se escolhermos libertá-lo, será sob nossa fiança.
Arthur se sentou novamente na cadeira. Piscava os olhos como uma coruja, e olhava de Mark para o anfitrião das fadas e para Mark outra vez. A cor cinza tinha voltado ao seu rosto.
— Os mortos se levantaram, e os perdidos retornam. — declarou Arthur. — Deveríamos erguer bandeiras azuis do alto das torres.
Kieran pareceu friamente confuso.
— Por que ele diz isso?
Julian olhou de Arthur para Mark e para as outras duas fadas.
— Ele está em choque — disse o garoto. — Com a saúde frágil; desde a guerra.
— É de um antigo poema dos Caçadores de Sombras — explicou Emma. — Fico surpresa por você não conhecer.
— Poemas contêm muita verdade — disse Iarlath, e havia humor em sua voz, mas um humor amargo. Emma ficou imaginando se ele estaria rindo deles ou de si mesmo.
Julian encarava Mark, com um olhar de absoluto choque e saudade.
— Mark? — chamou.
Mark não levantou o olhar.
Julian parecia ter sido perfurado por parafusos de elfos, as flechas astutas que penetravam a pele e soltavam um veneno mortal. Qualquer raiva que Emma tivesse sentido dele por conta da noite anterior evaporou. O olhar em seu rosto era como lâminas de faca em seu coração.
— Mark — repetiu, e, depois, a meia voz —, por quê? Porque ele não pode falar comigo?
— Ele foi proibido por Gwyn de falar até nosso acordo ser selado — disse Kieran. Ele encarou Mark, e havia algo frio em sua expressão. Ódio? Inveja? Ele odiava Mark por ser meio humano? Será que todos eles o odiavam? Como teriam demonstrado seu ódio por todos aqueles anos, quando Mark estava à mercê deles?
Emma podia sentir a força com que Julian estava se segurando para não correr para o irmão. Ela falou por ele.
— Então Mark é sua moeda de troca.
Ódio passou pelo rosto de Kieran, súbito e intenso.
— Por que precisa verbalizar o óbvio? Por que todos os humanos precisam fazer isso? Menina tola...
Julian mudou; sua atenção se desviou de Mark, a espinha estreitando e a voz enrijecendo. Ele soou calmo, mas Emma, que o conhecia tão bem, podia ouvir a frieza em sua voz.
— Emma é minha parabatai — falou Julian. — Se voltar a falar com ela deste jeito, haverá sangue no chão do Santuário, e eu não me importo se me condenarem à morte por isso.
Os olhos lindos e estranhos de Kieran brilharam.
— Vocês, Nephilim, são leais a seus parceiros de escolha, reconheço isso. — Acenou com um gesto de indiferença. — Suponho que Mark seja nossa moeda de troca, como colocou, mas não se esqueçam de que é culpa dos Nephilim o fato de precisarmos de uma. Houve um tempo em que os Caçadores de Sombras teriam investigado as mortes dos nossos por acreditarem em sua missão de proteger, mais do que no ódio que sentiam.
— Houve um tempo em que o Povo das Fadas teria devolvido livremente um dos nossos — disse Arthur. — A dor da perda é uma via de mão dupla, assim como a perda de confiança.
— Bem, terão que confiar em nós — disse Kieran. — Vocês não têm mais ninguém. Têm?
Fez-se um longo silêncio. O olhar de Julian voltou para o irmão, e naquele momento Emma odiou as fadas, pois ao deterem Mark, detinham também o coração humano e frágil de Julian.
— Então você quer que a gente descubra quem é o responsável por essas mortes? — insistiu ela. — Quer conter os assassinatos de fadas e humanos. E em troca nos dará Mark se formos bem-sucedidos?
— A Corte está preparada para ser muito mais generosa — disse Kieran. — Daremos Mark agora. Ele vai ajudá-los com a investigação. E, quando a investigação acabar, ele pode escolher se fica com vocês ou volta para a Caçada.
— Ele vai nos escolher — disse Julian friamente. — Somos a família dele.
Os olhos de Kieran brilharam.
— Eu não teria tanta certeza, jovem Caçador de Sombras. Os integrantes da Caçada são leais à Caçada.
— Ele não é da Caçada — disse Emma. — Ele é um Blackthorn.
— A mãe dele, Lady Nerissa, era fada — retrucou Kieran. — E ele cavalgou conosco, ceifou os mortos conosco, dominou o uso do arco elfo e da flecha. Ele é um guerreiro formidável para as fadas, mas não é como vocês. Não vai lutar como vocês. Ele não é Nephilim.
— É sim — garantiu Julian, — O sangue de Caçador de Sombras tem poder. A pele dele sustenta Marcas. Você conhece as leis.
Kieran não respondeu, apenas olhou para Arthur.
— Só o chefe do Instituto pode decidir isso. Deve permitir que seu tio fale livremente.
Emma olhou para Arthur; todos o fizeram. Arthur ficou mexendo nervosamente, inquieto, no braço da cadeira.
— Vocês querem o jovem fada aqui para que ele possa transmitir informações sobre nós — disse, afinal, com a voz trêmula. — Ele será seu espião.
Jovem fada. E não Mark. Emma olhou para Mark, mas, se uma pontinha de dor passou por seu rosto duro, foi invisível.
— Se quiséssemos espioná-los, há maneiras mais fáceis — disse Kieran, em um tom frio de reprovação. — Não precisaríamos abrir mão de Mark, ele é um dos melhores guerreiros da Caçada. Gwyn sentirá muito a sua falta. Ele não será um espião.
Julian se afastou de Emma e se ajoelhou na cadeira ao lado do tio. Se inclinou e sussurrou para Arthur. Emma se esforçou para ouvir o que ele estava dizendo, mas só conseguiu identificar poucas palavras: “irmão”, “investigação”, “assassino”, “remédio” e “Clave”.
Arthur ergueu uma mão trêmula, como se quisesse silenciar o sobrinho, e voltou-se para as fadas.
— Aceitaremos sua oferta — decidiu. — Com a condição de que não sejam traiçoeiros. Ao fim de nossa investigação, quando o assassino for capturado, Mark terá a livre escolha de ir ou ficar.
— Claro — disse Iarlath. — Contanto que o assassino seja claramente identificado. Queremos quem tem sangue nas mãos, não basta nos dizerem que “foi este ou aquele”, ou “foram os vampiros”. O assassino ou assassinos serão postos sob custódia da Corte. Nós faremos a nossa justiça.
Não se eu achar o assassino primeiro, Emma pensou. Entregarei o cadáver a vocês, e é bom que isso seja o suficiente.
— Primeiro vocês devem jurar — disse Julian, os olhos azul-esverdeados brilhantes e severos. — Digam “eu juro que, quando os termos do acordo forem cumpridos, Mark Blackthorn terá livre escolha quanto a querer fazer parte da Caçada ou voltar à vida Nephilim”.
A boca de Kieran enrijeceu.
— Eu juro que, quando os termos do acordo forem cumpridos, Mark Blackthorn terá livre escolha quanto a querer fazer parte da Caçada ou voltar à vida Nephilim.
Mark estava sem expressão, sem se mexer, como esteve o tempo todo, como se não estivessem falando sobre ele, mas sobre outra pessoa. Ele parecia olhar através das paredes do Santuário, enxergando, talvez, os oceanos distantes, ou um lugar ainda mais longínquo.
— Então creio que temos um acordo — declarou Julian.
As duas fadas se entreolharam, e Kieran foi até Mark. Colocou suas mãos brancas sobre os ombros do garoto e lhe disse algo em uma língua gutural que Emma não entendeu – não era nada que Diana tivesse ensinado, não era a língua aguda e musical da Corte das fadas nem outro discurso mágico. Mark não se mexeu, e Kieran se afastou, sem demonstrar surpresa.
— Ele é seu, por enquanto — avisou, olhando para Arthur. — Vamos deixar o cavalo para ele. Eles se tornaram... ligados.
— Ele não poderá usar um cavalo — disse Julian, com a voz tensa. — Não em Los Angeles.
O sorriso de Kieran estava cheio de desdém.
— Acho que descobrirá que ele pode usar esse.
— Meu Deus! — Foi Arthur quem falou, gritando. Avançou, com as mãos na cabeça. — Está doendo...
Julian foi para perto do tio, esticando-se para agarrar o braço dele, mas Arthur o afastou, se levantando, com a respiração irregular.
— Tenho que me retirara — explicou. — Minha dor de cabeça. É insuportável.
Ele parecia terrivelmente mal, era verdade. A pele estava da cor de giz sujo, o colarinho, grudado na garganta de suor.
Nem Kieran nem Iarlath disseram nada. Nem Mark, que continuava balançando cegamente sobre os pés. As fadas observavam Arthur com uma curiosidade ávida nos olhos. Emma podia ler seus pensamentos. O líder do Instituto de Los Angeles. É fraco, doente...
As portas internas balançaram, e Diana entrou. Ela parecia calma e tranquila como sempre. Seu olhar sombrio assimilou a cena diante de si; seu olhar passou por Emma uma vez; havia raiva fria ali.
— Arthur — chamou. — Precisam de você lá em cima. Vá. Eu acompanho o grupo para discutir o acordo.
Há quanto tempo ela estava ouvindo a conversa? Emma ficou imaginando enquanto Arthur, parecendo desesperadamente grato, passou mancando por Diana em direção à porta. Diana era quieta feito um felino quando queria.
— Ele está morrendo? — perguntou Iarlath com alguma curiosidade, seu olhar acompanhando Arthur enquanto ele deixava o santuário.
— Somos mortais — disse Emma. — Ficamos doentes, envelhecemos. Não somos como vocês. Mas isso não deveria ser nenhuma surpresa.
— Basta! — exclamou Diana. — Eu os acompanharei para fora do Santuário, mas antes, a tradução. — Ela estendeu uma mão esguia e escura.
Kieran entregou o papel quase transparente com um olhar torto. Diana o examinou.
— O que diz a primeira linha? — perguntou Emma, sem conseguir se conter.
Diana franziu o rosto.
— Fogo para água — falou ela. — O que significa?
Iarlath lançou-lhe um único olhar frio e se aproximou.
— É o trabalho de vocês descobrir.
Fogo para água? Emma pensou nos corpos dos pais, afogados e depois se desfazendo como cinzas. No corpo do homem no beco, queimando e depois molhado com água do mar. Ela olhou para Julian, imaginando se a mente dele estava seguindo os mesmos caminhos; mas não, ele encarava o irmão, imóvel, como se estivesse congelado no lugar.

Ela estava se coçando para colocar as mãos no papel, mas ele estava dobrado no casaco de Diana, e esta guiava as duas fadas para a saída do Santuário.
— Vocês entendem que faremos esta investigação sem o conhecimento da Clave — disse ela, enquanto Iarlath a acompanhava.
Kieran seguia atrás, de cara feia.
— Entendemos que temem seu governo, sim — comentou larlath. — Nós também os tememos, os arquitetos da Paz Fria.
Diana não mordeu a isca.
— Se precisarem entrar em contato durante a investigação, terão que ser cuidadosos.
— Só viremos ao Santuário, e vocês podem deixar mensagens para nós aqui — garantiu Kieran. — Se soubermos que falaram sobre nosso acordo fora destas paredes, principalmente com alguém que não seja Nephilim, ficaremos muito irritados. Mark também está sob ordens da Caçada para manter segredo. Verão que ele não vai desobedecer.
A luz do sol entrou no Santuário quando Diana abriu as portas. Emma sentiu uma onda de gratidão por sua tutora quando ela e as fadas desapareceram. Gratidão por poupar Arthur – e por poupar Julian de ter que fingir por mais um minuto que estava bem.
Pois Jules estava olhando para o irmão, finalmente, olhando de fato para ele, sem ninguém para ver ou julgar sua fraqueza. Sem ninguém para, no último instante, tirar Mark dele outra vez.
Mark levantou a cabeça lentamente. Estava magro como uma tábua, muito mais esguio e anguloso do que Emma se lembrava. Ele não parecia ter envelhecido tanto, mas sim se tornado mais definido, como se os ossos do queixo, bochecha e mandíbula tivessem sido refinados com ferramentas cuidadosas. Ele era esbelto, mas gracioso, assim como as fadas.
— Mark. — Julian arfou, e Emma pensou nos pesadelos dos quais Jules havia acordado ao longo dos anos, gritando pelo irmão, por Mark, e em como soava desesperado e perdido.
Ele estava pálido agora, mas seus olhos brilhavam como se estivesse olhando para um milagre, Emma pensou: as fadas não devolveram o que levaram.
Pelo menos, não sem mudanças.
Um calafrio de repente correu pelas veias de Emma, mas ela não emitiu nenhum ruído. Ela não se moveu quando Julian deu um passo em direção ao irmão, e mais um, então falou, com a voz falhando:
— Mark. Mark. Sou eu.
Mark olhou diretamente para o rosto de Julian. Havia alguma coisa em seus olhos bicolores; ambos eram azuis quando Emma o vira pela última vez, e a bifurcação parecia traduzir algo quebrado dentro dele, como um pedaço de cerâmica rachado na borda. Ele olhou para Julian – assimilando sua altura, os ombros largos e o corpo magro, os cabelos castanhos desgrenhados, os olhos Blackthorn – e, pela primeira vez, falou.
A voz soou rouca, áspera, arranhada, como se não a utilizasse há dias.

— Pai? — falou, e em seguida, quando Julian respirou fundo, assustado, os olhos de Mark reviraram e ele sucumbiu ao chão em um desmaio.

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