domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 4

O tesoureiro do Barão Ergell apresentou Will no escritório de seu chefe, com um gesto que estava entre uma reverência e um floreio.
— O novo arqueiro, meu senhor — ele anunciou, como se ele tivesse feito pessoalmente para o prazer do Barão — Will Tratado.
Ergell levantou-se de trás de uma mesa. Ele era um homem excepcionalmente alto e magro e por um momento, vendo o cabelo longo, pálido e roupas pretas, Will teve a sensação chocante que ele estava olhando para uma reencarnação do perverso Lord Morgarath, que ameaçou a paz do reino durante a juventude de Will. Então percebeu que o cabelo era cinzento, não branco morto como Morgarath tinha sido, e Ergell, apesar de alto, estava longe de altura Morgarath.
O momento passou e Will percebeu que estava olhando para o Barão, que ficou esperando com a mão estendida para cumprimentá-lo. Rapidamente, foi em frente.
— Boa tarde, meu senhor — disse ele.
Ergell moveu sua mão ansiosamente. Ele estava em torno dos sessenta anos, mas ainda movia-se facilmente. Will lhe entregou o pergaminho contendo suas ordens oficiais de nomeação. Por direito, o guarda na ponte deveria ter tomado e só entregado a Ergell depois de inspecioná-lo, antes de permitir que Will tivesse acesso ao palácio. Mas o sargento responsável tinha simplesmente olhado para a capa de arqueiro e o arco e acenou-lhe para dentro. Descuidado, Will pensou. Decididamente descuidado.
— Bem-vindo à Seacliff, arqueiro Tratado  o Barão cumprimentou. — É um privilégio ter alguém tão distinto em nosso serviço.
Will franziu o cenho ligeiramente. Arqueiros que não serviam os Barões, eram atados ao rei e Ergell devia sabê-lo. “Talvez”, pensou ele, “o Barão estivesse tentando mostrar autoridade com o simples expediente de insinuar que ela existe.”
— Todos nós servimos ao rei, senhor respondeu de maneira uniforme, e a sombra ligeira que cintilou no rosto Ergell disse-lhe que sua suspeita estava correta. Ergell, vendo um arqueiro tão jovem, pode muito bem ter sido tentado a julgá-lo, como Halt teria dito.
— Claro, claro  o Barão respondeu rapidamente, então indicou o corpulento homem de pé ao lado de sua mesa. — Arqueiro Tratado, este é o Mestre de Guerra de Seacliff, Sir Norris of Rook.
Will achou que a idade de Norris era cerca de quarenta anos, que era exatamente amédia de Mestres de Batalha. Caso fossem muito mais jovens, não teriam a experiência necessária para liderar a tropa de cavaleiros de um feudo e homens armados para uma batalha. Muitos anos mais e eles estariam perdendo a força física necessária para a tarefa.
— Sir Norris disse ele em uma breve saudação.
O aperto de mão do cavaleiro era firme, e quase não veio como uma surpresa. Homens que passaram a maior parte de suas vidas empunhando espada ou machados de batalha geralmente acabavam com musculatura poderosa nas mãos e braços. Ele sentiu o Mestre de Batalha estudando como eles apertaram as mãos, viu o exame rápido que absorvia sua juventude e constituição franzina.
Havia algo mais, Will imaginava – uma pitada de satisfação com o que o cavaleiro viu. Talvez, depois de anos lidando com o culto e experiente Bartell, Norris conseguisse prever momentos um pouco mais fáceis com este novo e recém-formado arqueiro.
Will sentiu uma ligeira pontada de decepção com o pensamento. Halt e Crowley, o comandante do Corpo, tinha avisado a ele que alguns feudos viam a sua relação com os arqueiros como antagônicas.
“Muitos deles veem-nos como ‘nós e eles’”, Crowley havia dito com poucas palavras quando entrevistou Will para o posto. “Afinal, é parte de nossa tarefa exercer vigilância sobre eles, para avaliar a sua prontidão de combate e seu nível de habilidade e treinamento. Alguns Barões e Mestres de Guerra não gostam disso. Eles gostam de acreditar que estão administrando sua própria trajetória e não fazem questão de ter arqueiros olhando sobre seus ombros”.
Isso nunca tinha ocorrido no Castelo Redmont, Will sabia, mas Halt e Arald tinham um excelente relacionamento e um nível profundo de respeito mútuo. Ele registrou com o pensamento longe durante a pequena conversa educada em resposta as perguntas de Norris e Ergell quanto à viagem.
Ergell, percebeu, estava convidando-o para jantar com eles no castelo. Will sorriu educadamente quando ofereceu as suas desculpas.
— Talvez no fim da semana, meu senhor. Não é justo eu perturbar a casa de sua família. Afinal, você não tinha como de saber que eu iria chegar hoje e eu tenho certeza que você já tinha finalizado os planos para a noite.
— Claro, claro. No final da semana, quando você estiver se estabelecido  o barão concordou.
Ele era uma pessoa bastante simpática, Will sentia, apesar de sua tentativa de minar sutilmente a autoridade de Will. Seu sorriso era acolhedor e hospitaleiro.
— Talvez possamos enviar algo de nossas cozinhas para você mais tarde?
— Não há necessidade para isso, meu senhor. A senhora Edwina já me deixou um cozido de carne bastante apetitoso. Pelo aroma dele, vou estar mais do que satisfeito para a noite.
Ergell sorriu em resposta.
Ela é uma ótima cozinheira, essa é a verdade  disse ele. Eu tentei convencê-la a trabalhar para nós aqui no castelo, mas foi inútil.
Norris tomou um assento em um dos bancos de tempo que ladeado na mesa.
Você se mudou para a cabana de Bartell, então?
Will assentiu.
Sim, senhor. Parece muito confortável.
Ergell soltou uma breve risada.
Com Edwina cozinhando para você, deveria pensar assim ele concordou. Mas Norris foi sacudindo a cabeça.
— Seria muito mais eficiente para você morar aqui no castelo  disse ele. O Barão podedeixar você ter sua própria suíte de quartos, muito mais confortável do que uma cabana instável na floresta. E você vai estra perto de nós, se precisarmos de sua presença.
Will sorriu, reconhecendo o estratagema por trás da sugestão inocente. Mudando-se para o castelo, ele estaria dando o primeiro passo em direção a uma mudança no controle. Poderia não acontecer imediatamente, mas renunciar a sua independência seria a extremidade fina da cunha. Além disso, a afirmação de que ele estaria mais à mão se eles precisassem dele não dita implicava que ele devia estar no castelo e chamá-lo. Ele estava consciente de que Ergell estava observando-o de perto, à espera de sua resposta.
 Obrigado, mas estou bem na cabana, senhor  ele disse. E é tradição que a residência dos arqueiros fique separada do Castelo.
 Sim, é tradição  Norris respondeu indiferente. — Às vezes eu penso que nós damos importância demais a coisas que são “tradicionais”.
Ergell riu novamente, interrompendo ligeiramente o silêncio embaraçoso que se seguiu após as palavras de Norris.
— Vamos lá, Norris, nós todos sabemos que os arqueiros valorizam a tradição. Lembre-se apenas  ele adicionou para Will  De que a oferta permanece de pé. Se aquela cabana tornar-se muito fria e com muitas correntes de ar durante o inverno, você sempre terá uma suíte disponível aqui no castelo.
Com um olhar rápido, ele avisou ao Chefe de Guerra que o assunto tinha chegado ao fim. Obediente, Norris deu de ombros e se calou. Will realmente não podia culpá-los por tentar influenciá-lo. Ele podia imaginar como poderia ser irritante ter alguém silenciosamente de pé, dia após dia, sobre seu ombro enquanto você realizava o seu trabalho, apresentando relatórios ao rei de suas habilidades e atividades. Especialmente quando esse alguém era tão inexperiente como ele era. Pelo menos, pareceu, havia conseguido recusar seus avanços, sem causar ofensa.
Bem, então, arqueiro Tratado... Ergell começou, e Will levantou a mão.
Por favor, meu senhor  ele disse — eu ficaria feliz se você simplesmente me chamar de Will.
Foi um gesto gracioso, nomeadamente no que ao dizê-lo, Will deixou claro que iria continuar a usar o título de barão como seu método de endereço. Ergell sorriu com mais calor do que Will tinha visto até agora. O gesto não passou despercebido.
Will então, como eu estava prestes a dizer, talvez possamos combinar um jantar oficial de boas-vindas para daqui a duas noites? Vai dar tempo de meu Chefe de Cozinha planejar algo adequado.
E todos nós sabemos o quanto Chefes de Cozinha podem dificultar a vida se não lhes dermos esse tempo  acrescentou Norris, sorrindo pesarosamente.
Will sorriu de volta. “Parece que Chefes de Cozinha iguais em todo o mundo”, ele pensou. A atmosfera na sala iluminou-se consideravelmente.
Se não há mais nada, então, meu senhor, eu vou me despedir  disse Will.
Ergell assentiu, levantando-se e Norris o seguiu.
Claro, Will disse o Barão. Se houver alguma coisa que você precisar na cabana, deixe Gordon saber. Gordon era o tesoureiro que tinha conduzido Will ao escritório.
Will hesitou, depois disse baixinho:
 O senhor tem a minha nomeação, senhor — ele indicou o rolo de pergaminho sobre a mesa. Ergell assentiu com a cabeça várias vezes.
Sim, sim. Tenha certeza eu vou olhar com ele em breve — ele sorriu. Embora eu tenha certeza de que você não é um impostor.
Will devolveu o sorriso. Para falar a verdade, Ergell deveria ter quebrado o lacre e lido o documento, assim que Will o entregou a ele. As coisas pareciam um pouco descuidadas no feudo de Seacliff, ele pensou. Mas talvez ele estivesse apenas sendo detalhista demais.
— Muito bem, senhor — ele olhou para Norris. — Chefe de Guerra disse ele, e o cavaleiro lhe apertou as mãos mais uma vez.
É bom tê-lo conosco, arqueiro  disse ele.
Will Will recordou-lhe, e o Chefe de Guerra assentiu.
É bom tê-lo conosco, Will ele se corrigiu.
Will deu uma leve reverência rígida para o Barão, virou-se e saiu da sala.


De volta à cabana, ele encontrou a cadela deitada onde ele havia deixado. Ela estava acordada agora e bateu a cauda no chão duas ou três vezes quando ele entrou. Havia outra tigela em cima da mesa e viu que continha um caldo de carne. Embaixo dela, estava um pequeno pedaço de pergaminho com um desenho grosseiro de um cão. “Edwina”, pensou.
O caldo ainda estava morno e ele colocou a vasilha no chão para a cadela. Ela se levantou com cuidado e mancou alguns passos para alcançá-la. Sua língua começou a fazer chuap-chuap-chuap, enquanto ela comia. Ele acariciou suas orelhas, verificando a ferida no lado do corpo. Os pontos continuavam em ordem.
— Sorte a sua ela ter deixado o desenho, garota  brincou ele. — Ou eu teria comido o seu jantar.
O cão continuou a lamber o caldo saboroso. O cheiro era delicioso, e o estômago vazio do arqueiro roncou. Edwina também havia deixado um pequeno  pão para  acompanhar o cozido. Ele cortou uma fatia e mastigou-a avidamente, enquanto esperava o cozido esquentar no fogão.

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