sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 4 - Este foi o motivo

Emma caiu com violência no tatame, rolando rapidamente, de modo que Cortana, ainda presa às suas costas, não fosse danificada – ou a machucasse. Nos primeiros anos de treinamento, ela havia se ferido muito mais vezes com Cortana do que com qualquer outro tipo de exercício, graças à sua teimosia de retirá-la.
Cortana era dela, do pai, e do pai de seu pai. Ela e Cortana eram o que restava da família Carstairs. Ela jamais deixava a espada para trás quando saía para a luta, mesmo que planejasse usar adagas, água benta ou fogo. Por isso precisava aprender a lutar com a espada presa nas costas em qualquer circunstância.
— Você está bem? — Cristina caiu mais levemente ao lado dela no tatame; não estava armada e vestia apenas suas roupas de treinamento. Cristina tinha juízo, pensou Emma, enquanto sentava e esfregava o ombro dolorido.
— Tudo bem — Emma se levantou, sacudindo os nós dos músculos. — Mais uma vez.
A medalha no pescoço de Cristina brilhou de forma decorosa enquanto ela esticava a cabeça para trás, observando as costas brilhantes de Emma subirem pela escada de corda. A luz dourada do sol entrava pelas janelas – era fim de tarde. Estavam treinando há horas e antes disso estiveram ocupadas trazendo o conteúdo da Parede de Evidências (Cristina se recusava a chamá-la de Parede da Loucura) para a sala do computador a fim de que Livvy e Ty pudessem escanear tudo. Livvy continuava prometendo treinar com eles, apesar de claramente ter sido absorvida por uma pesquisa de provas na Internet.
— Pode parar aí — disse Cristina quando Emana estava no meio do caminho, mas Emma ignorou e continuou subindo, até a cabeça quase bater no teto.
Emma olhou para baixo. Cristina balançava a cabeça, conseguindo parecer ao mesmo tempo calma e reprovadora.
— Você não pode pular dessa altura! Emma...
Emma saltou e caiu tomo uma pedra Ela atingiu o tatame, rolou e se agachou, alcançando Cortana sobre o ombro.
Sua mão se fechou sobre o nada. Ela se levantou e viu que Cristina estava com sua lâmina. Ela a tirara da bainha de Emma enquanto se levantava.
— A batalha é mais do que saltar das maiores alturas e cair mais longe — falou Cristina, estendendo Cortana para ela.
Emma se levantou e pegou a espada com um sorriso irritado.
— Você está parecendo Jules.
— Talvez ele tenha razão — retrucou Cristina. — Você sempre foi relapsa com a própria segurança?
— Mais desde a Guerra Maligna. — Emma embainhou Cortana, então sacou os estiletes das botas e entregou um a Cristina antes de virar para o alvo pintado na parede oposta.
Cristina foi para o lado de Emma e ergueu a lâmina. mirando com a linha do braço. Emma nunca tinha arremessado facas com Cristina antes, mas não se surpreendeu ao ver que sua postura e a empunhadura na faca – o polegar paralelo à lâmina – eram perfeitas.
— Às veres, lamento saber pouco sobre a guerra. Eu estava escondida no México. Meu tio, Tomas, parecia convencido de que Idris não seria um lugar seguro.
Emma pensou em Idris ardendo em chamas, no sangue nas ruas, nos carpos espalhados como gravetos no Salão dos Acordos.
— Seu tio tinha razão.
— Ele morreu na guerra, então acho que tinha. — Cristina soltou a lâmina; ela voou pelo ar e acertou o círculo no centro do alvo. — Minha mie tinha uma casa em San Miguel de Allende. Fomos para lá porque o Instituto não era seguro. Sempre me sinto covarde quando penso nisso.
— Você era criança — falou Estima. — Eles estavam certos de mandá-la para um lugar seguro.
— Talvez — retrucou Cristina, olhando para baixo.
— Sério. Não estou apenas dizendo por dizer — insistiu Emma. — E o que Diego Perfeito pensa sobre o assunto? Ele se sente um covarde?
— Duvido.
— Claro que não. Ele é esclarecido em relação a tudo. Todos nós deveríamos ser mais como o Diego Perfeito.
— Olá! — Uma saudação soou pela sala. Era Livvy, com uniforme de treinamento, se aproximando.
Ela pausou para afagar o sabre, pendurado em uma parede perto da porta com outras espadas. Livvy tinha escolhido o sabre como arma quando tinha mais ou menos 12 anos, e desde então treinava vorazmente. Ela sabia discursar sobre diferentes tipos de sabre, cabos de madeira versus cabos de borracha ou couro, espigas e pomos, e era a melhor em puxar assunto sobre cabos de pistola.
Emma admirava sua lealdade. Ela nunca sentia a necessidade de pegar uma arma: a dela era sempre Cortana. Mas gostava de ser ao menos competente em tudo, então ela já havia lutado com Livvy mais de uma vez.
— Senti saudades — disse Livvy para o sabre. — Eu te amo tanto.
— Isso foi emocionante — comentou Emma. — Se tivesse dito isso para mim quando voltou, eu teria chorado.
Livvy abandonou o sabre e correu para elas. Ela se apoderou de um tatame e começou a se alongar. A menina conseguia se curvar facilmente, colocando os dedos das mãos sob os dos pés.
— Eu senti sua falta. de verdade — confessou ela, com a voz abafada. —Estava chato na Inglaterra e não tinha nenhum menino bonito.
— Julian disse que não havia humanos por quilômetros e quilômetros — disse Emma — Enfim, não é como se você tivesse perdido alguma coisa por aqui.
— Bem, exceto os assassinatos em série — respondeu Livvy, atravessando a sala para pegar mais duas facas de arremesso. Emma e Cristina saíram do caminho enquanto ela se colocava na linha do alvo. — E aposto que você saiu de novo com Cameron Ashdown e depois deu um pé na bunda dele.
— Isso mesmo — respondeu Cristina, e Emma a olhou de um jeito que dizia traidora.
— Rá! — A faca de Livvy passou longe do alvo. Ela se virou, com a trança quicando no ombro. — Emma sai com ele, tipo, a cada quatro meses, depois dá um pé na bunda.
— Hein? — Cristina lançou um olhar para Emma. — Por que ele foi selecionado para essa tortura especial?
— Ah, pelo amor de Deus — disse Emma. — Não era nada sério.
— Não para você — disse Livvy. — Aposto que para ele era. — Ela entregou a segunda faca para Cristina. — Quer tentar?
Cristina pegou a faca e tomou a posição de Livvy.
— Quem é Diego Perfeito? — perguntou Livvy.
Cristina estava franzindo o rosto para a faca; então virou e olhou para Livvy.
— Eu ouvi — emendou Livvy alegremente. — Antes de entrar. Quem é ele? Por que é tão perfeito? Por que tem um menino perfeito no mundo e ninguém me contou?
— Diego é o menino com quem a mãe de Cristina quer que ela se case — contou Emma a Livvy. Agora foi a vez de Cristina parecer traída. — Não é um casamento arranjado, isso seria nojento; é que a mãe dela o adora, a mãe dele tinha o nome Rosales...
— Ele é seu parente? — Livvy perguntou a Cristina. — Isso não é um problema? Quero dizer, sei que Clary Fairchild e Jace Herondale são uma história de amor muito famosa, mas eles não eram irmãos de verdade. Do contrário seria um...
— Uma história de amor menos famosa — completou Emma, com um sorriso.
Cristina lançou a faca. Acertou perto do centro.
— O nome completo dele é Diego Rocio Rosales; Rocio é o sobrenome do pai, e Rosales o da mãe, assim como o sobrenome da minha mãe é Rosales. Mas isso não significa que sejamos sequer primos. A família Rosales é uma família enorme de Caçadores de Sombras. Minha mãe só acha que ele é perfeito, tão lindo, tão inteligente, tão Caçador de Sombras, perfeito, perfeito, perfeito...
— E agora você sabe de onde vem o apelido — disse Emma, indo até a parede buscar as facas.
— E ele é perfeito? — perguntou Livvy.
— Não — respondeu Cristina.
Quando Cristina se chateava, ela não ficava furiosa; ela apenas parava de falar. Era isso que ela estava fazendo agora, encarando o alvo pintado na parede. Emma girou as facas que tinha recuperado.
— Nós vamos protegê-la de Diego Perfeito — disse Emma. — Se ele vier até aqui, vou empalá-lo. — E foi andando na direção da linha de arremesso.
— Emma é mestre na arte de empalar — explicou Livvy.
— Seria melhor empalar minha mãe — murmurou Cristina. — Muito bem, flaquita, pode me impressionar. Vamos ver como se sai arremessando duas de uma vez.
Com uma faca em cada mão, Emma recuou um passo da linha de arremesso. Ela aprendeu a atirar duas facas ao mesmo tempo ao longo de um ano, lançando e lançando, o ruído da lâmina atingindo madeira era como um unguento contra nervos destroçados. Ela era canhota, então normalmente teria dado um passo para trás e para a direita, mas ela se forçou a se tornar praticamente ambidestra. Seu recuo era reto, e não diagonal. Os braços foram para trás, depois para a frente; ela abriu as mãos, e as facas voaram como falcões cujas peias foram cortadas. Voaram em direção ao alvo e bateram em sequência bem no centro.
Cristina assobiou.
— Dá para entender por que Cameron Ashdown está sempre voltando. Ele tem medo de não voltar. — Ela recuperou as facas, incluindo a própria, — Agora vou tentar de novo. Vejo que estou muito atrasada em relação ao que deveria estar.
Emma riu.
— Não, eu roubei. Passei anos treinando essa jogada.
— Mesmo assim — disse Cristina — se você algum dia mudar de ideia e decidir que não gosta de mim, é melhor que eu consiga me defender.
— Bom arremesso — comentou Livvy com um sussurro, aparecendo atrás de Emma e Cristina, a vários passos de distância, inquieta atrás da linha de arremesso.
— Obrigada — sussurrou Emma de volta. Apoiando-se em uma prateleira de luvas e uniformes de proteção, ela olhou para o rosto alegre de Livvy. — Conseguiu alguma coisa com Ty? E a história de parabatai? — perguntou, quase temendo a resposta.
O rosto de Livvy se contraiu.
— Ele continua dizendo não. É a única discordância que já tivemos na vida.
— Sinto muito. — Emma sabia o quanto Livvy queria ser parabatai do irmão gêmeo. Irmãos se tornarem parabatai era algo incomum, mas não sem precedentes. Mas a recusa firme de Ty era surpreendente. Ele raramente dizia não para Livvy, mas estava muito determinado nesse caso.
A primeira lâmina de Cristina foi no alvo, na borda do circulo central. Emma vibrou.
— Gostei dela — comentou Livvy, ainda sussurrando.
— Que bom — falou Emma. — Eu também gosto.
— E acho que o Diego Perfeito deve ter partido o coração dela.
— Ele fez alguma coisa — respondeu Emma, discreta. — Até aí eu concluí.
— Então acho que devíamos armar para ela sair com Julian.
Emma quase derrubou a prateleira.
— Quê?
Livvy deu de ombros.
— Ela é bonita, parece muito legal e vai morar com a gente. E Jules nunca teve uma namorada... você sabe por quê. — Emma apenas a encarou. Sua cabeça parecia cheia de ruído sem sentido. — Quero dizer, a culpa é nossa, minha, de Ty, Dru e Tavvy. Quem cria quatro crianças não tem muito tempo para namorar. Então, como tiramos dele a possibilidade de ter uma namorada...
— Você quer armar um encontro para ele — completou Emma sem expressão. — Só que não é assim que funciona, Livvy. Eles teriam que se gostar...
— Acho que podem se gostar — respondeu Livvy. — Se déssemos uma chance a eles. O que você acha?
Seus olhos azul-esverdeados, tão parecidos com os de Julian, brilhavam cheios de travessura afetuosa. Emma abriu a boca para dizer alguma coisa, ela não sabia o quê, quando Cristina arremessou a segunda faca. Bateu na parede com tanta força que a madeira pareceu rachar.
Livvy bateu as mãos.
— Demais! — Ela lançou um olhar triunfante a Emma, como se dissesse, viu só, ela é perfeita. Olhou para o relógio. — Tudo bem, tenho que ajudar Ty mais um pouco. Grite se alguma coisa muito incrível acontecer.
Emma fez que sim com a cabeça, um pouco espantada, enquanto Livvy saiu dançando para pendurar as armas e ir à biblioteca. Ela quase teve um troço quando uma voz falou por cima do ombro dela; Cristina tinha chegado por trás e parecia preocupada:
— Sobre o que estavam conversando? — perguntou. — Parece que você viu um fantasma.
Emma abriu a boca para dizer alguma coisa, mas acabou não encontrando as palavras, porque naquele instante ouviu-se uma comoção no andar de baixo. Ela ouviu alguém batendo na porta, e, em seguida, pés correndo.
Pegando Cortana, Emma saiu pela porta como um flash.


A batida na porta do Instituto ecoou por toda a construção.
— Só um momento! — gritou Julian, fechando o zíper do casaco ao mesmo tempo em que corria para atender.
Ele ficou quase feliz por alguém ter aparecido. Ty e Livvy o expulsaram da sala do computador com o comunicado de que o irmão estava atrapalhando a concentração dos dois, andando de um lado para o outro, e Julian estava entediado o suficiente para cogitar a hipótese de ver como Arthur estava, o que ele tinha quase certeza de que o deixaria de mau humor pelo resto do dia.
Julian abriu a porta. Um homem alto e de cabelos claros estava do outro lado, com calça preta justa e uma camisa desabotoada até a metade do peito. Trazia um casaco xadrez pendurado no ombro.
— Você parece alguém que veio anunciar um show de strip-tease — disse Julian a Malcolm Fade, o Alto Feiticeiro de Los Angeles.
Houve um tempo em que Julian era tão impressionado pelo fato de Malcolm ser um Alto Feiticeiro – o feiticeiro ao qual todos os outros respondiam, pelo menos, no sul da Califórnia – que ficava nervoso na presença dele. Isso passou depois da Guerra Maligna, quando as visitas de Malcolm se tornaram comuns. Malcolm, na verdade, era o que todos pensavam que Arthur fosse – um professor distraído. Ele se esquecia de coisas importantes havia quase duzentos anos.
Todos os feiticeiros, como frutos de humanos e demônios, eram imortais. Paravam de envelhecer em diferentes pontos da vida, dependendo dos pais demônios. Malcolm parecia ter parado de envelhecer com mais ou menos 27 anos, mas (ele alegava) tinha nascido em 1850.
Considerando que todos os demônios que Julian já havia conhecido eram nojentos, ele não gostava de pensar em como os pais de Malcolm tinham se conhecido. E Malcolm também não parecia muito inclinado a compartilhar.
Julian sabia que ele nascera na Inglaterra, e ainda tinha indicações disso no sotaque.
— Dá para mandar um stripper para alguém? — Malcolm pareceu intrigado e, em seguida, olhou para si mesmo. — Desculpe, esqueci de abotoar a camisa antes de sair de casa.
Ele deu um passo para dentro do Instituto e imediatamente caiu, se espatifando no chão. Julian chegou para o lado, e Malcolm rolou de costas, parecendo desapontado. Ele olhou para o longo corpo.
— Pelo visto, amarrei os cadarços um no outro.
Às vezes, era difícil não se sentir amargo, Julian refletiu; todos os seus aliados eram pessoas para quem precisava mentir. Ou eram pessoas ridículas. Ou as duas coisas.
Emma desceu correndo as escadas, com Cortana na mão. Vestia jeans e camiseta; os cabelos úmidos foram presos em um elástico. A camiseta estava grudada na pele, coisa que Julian gostaria de não ter notado. Ela desacelerou ao se aproximar, relaxando.
— Oi, Malcolm. Por que está no chão?
— Amarrei um cadarço no outro — explicou ele.
Emma tinha chegado perto dele. Ela abaixou Canana, partindo os cadarços de Malcolm e libertando seus pés.
— Pronto — falou.
Malcolm olhou cautelosamente para ela.
— Ela pode ser perigosa — disse ele a Julian. — Mas, pensando bem, todas as mulheres são.
— Todas as pessoas são perigosas — argumentou Julian. — Por que está aqui, Malcolm? Não que eu não esteja feliz em vê-lo.
Malcolm se levantou cambaleando, abotoando a camisa.
— Trouxe o remédio de Arthur.
O coração de Julian bateu tão forte que ele teve certeza de que pôde ouvi-lo.
Emma franziu o rosto.
— Arthur não está se sentindo bem? — perguntou ela.
Malcolm, que mexia no bolso, congelou. Julian viu no rosto do outro que ele percebera ter revelado algo que não devia, e silenciosamente xingou Malcolm mil vezes por ser tão distraído.
— Arthur me disse ontem à noite que não estava se sentindo muito bem — falou Julian. — O de sempre. É crônico. Enfim, ele estava sem energia.
— Eu teria procurado alguma coisa para ele no Mercado das Sombras se soubesse — comentou Emma, sentando no degrau mais baixo e esticando as pernas.
— Pimenta de caiena e sangue de dragão — disse Malcolm, pegando um frasco do bolso e entregando a Julian. — Vai acordá-lo rapidinho.
— Isso acordaria um defunto — observou Emma.
— Necromancia é ilegal, Emma Carstairs — repreendeu Malcolm.
— Ela só estava brincando. — Julian guardou o frasco, mantendo o olhar fixo em Malcolm, implorando silenciosamente para que ele não dissesse nada.
— Quando você avisou a Malcolm que seu tio não estava bem, Jules? A gente se encontrou ontem à noite, e você não falou nada — disse Emma.
Julian ficou grato por não estar olhando para Emma; tinha certeza de que estava pálido.
— Pizza vampira — falou Malcolm.
— Quê? — perguntou Emma.
— Nightshade abriu um restaurante italiano em Cross Creek Road — explicou Malcolm. — É a melhor pizza da área, e eles entregam em domicilio.
— Não tem medo do que possa ter no molho? — perguntou Emma, claramente distraída. — Ah! — Levou a mão à boca. — Isso me lembra, Malcolm. Queria saber se poderia dar uma olhada em uma coisa.
— É uma verruga? — Malcolm quis saber. — Posso curar, mas não de graça.
— Por que todo mundo acha que é verruga? — Emma pegou o telefone e em poucos segundos mostrava as fotos do corpo que encontrou no Bar Sepulcro. — Tinham essas marcas brancas, aqui e aqui — falou, apontando, — Parecem pichação, não tinta, mas giz ou algo parecido...
— Em primeiro lugar, que nojo — disse Malcolm. — Por favor, não me mostre fotos de cadáveres sem aviso. — Ele olhou mais de perto. — Em segundo lugar, parecem restos de um círculo cerimonial. Alguém desenhou um anel de proteção no chão. Talvez para se proteger enquanto realizava qualquer que fosse o feitiço horroroso que matou esse cara.
— Ele foi queimado — falou Emma. — E afogado, eu acho. Pelo menos, as roupas estavam molhadas e ele cheirava a água salgada.
Ela estava com o rosto franzido, os olhos sombrios. Podia ser a lembrança do corpo, ou apenas a menção ao oceano. Era um oceano diante do qual ela vivia, ao lado do qual corria todos os dias, mas Julian sabia o quanto a assustava. Ela podia se forçar a entrar, nauseada e tremendo, mas ele detestava vê-la fazendo isso, detestava ver sua Emma forte reduzida a cacos de pavor ou algo tão primitivo e sem nome que ela não conseguia explicar nem para si mesma.
Fazia com que ele quisesse matar, destruir coisas para mantê-la segura. Apesar de ela conseguir fazer isso sozinha. Apesar de ela ser a pessoa mais corajosa que ele conhecia.
Julian voltou para o presente.
— Me mande as fotos — dizia Malcolm. — Olho mais de perto e aviso.
— Oi! — Livvy apareceu no alto da escada, após ter trocado de roupa. — Ty achou uma coisa. Sobre os assassinatos.
Malcolm pareceu confuso.
— No computador — explicou a menina. — Vocês sabem, o computador que a gente não pode ter. Ah, oi, Malcolm. — Ela acenou vigorosamente. — É melhor subirem.
— Pode ficar, Malcolm? — perguntou Emma, inquieta. — Sua ajuda seria muito útil.
— Depende — respondeu Malcolm. — O computador passa filmes?
— Pode passar. — Julian respondeu cautelosamente.
Malcolm pareceu satisfeito.
— Podemos ver Um lugar chamado Notting Hill?
— Podemos ver qualquer coisa se você ajudar — declarou Emma. Ela olhou Jules. — E podemos descobrir o que Ty achou. Você vem, certo?
Silenciosamente, Julian xingou o gosto de Malcolm por filmes românticos. Queria ir ao estúdio pintar. Mas não podia evitar Ty ou abandonar o Alto Feiticeiro.
— Posso pegar guloseimas na cozinha — disse Emma, soando esperançosa. Afinal de contas, durante anos eles cultivaram o hábito de assistir a filmes velhos na TV que funcionava à base de energia mágica, comendo pipoca perto da luz oscilante.
Julian balançou a cabeça
 — Não estou com fome.
Ele quase achou que tivesse ouvido Emma suspirar. Um instante mais tarde ela desapareceu atrás de Livvy, escada acima. Julian fez como se fosse segui-las, mas Malcolm o conteve colocando a mão em seu ombro.
— Piorou, não foi? — falou.
— O tio Arthur? — Jules foi pego de surpresa. — Acho que não. Quero dizer, não é bom que eu não tenha estado aqui, mas, se ficássemos recusando ir para a Inglaterra, alguém podia desconfiar.
— Não Arthur — respondeu Malcolm. — Você. Ela sabe sobre você?
— Quem sabe o quê?
— Não seja burro — retrucou. — Emma. Ela sabe?
Julian sentiu o coração torcer no peito. Não tinha palavras para descrever a perturbação que as palavras de Malcolm causaram. Foi como levar um caldo no mar, a firmeza no chão se perdendo em um deslize de areia.
— Para com isso.
— Não paro — falou Malcolm. — Eu gosto de finais felizes.
Julian falou entre dentes cerrados.
— Malcolm, isso não é uma história de amor.
— Toda história é uma história de amor.
Julian se afastou e foi para a escada. Ele raramente se irritava de fato com Malcolm, mas nesse momento o coração estava acelerado. Ele chegou ao andar de cima antes de Malcolm chamá-lo; ele se virou, sabendo que não devia, e viu o feiticeiro olhando para ele.
— Leis não significam nada, menino — disse Malcolm, com uma voz baixa que mesmo assim ressoou. — Não há nada mais importante do que o amor. E nenhuma lei superior.


Tecnicamente não poderia haver computadores no Instituto.
A Clave resistia ao advento da modernidade, mas, sobretudo, a qualquer engajamento com a cultura mundana. Mas isso nunca conteve Tiberius. Ele começou a pedir um computador aos 10 anos, para poder se manter atualizado em relação a crimes violentos contra mundanos, e, quando voltaram de Idris após a Guerra Maligna, Julian lhe deu um.
Ty perdeu os pais, o irmão e a irmã mais velha, Jules disse na época, sentado no chão entre um emaranhado de fios, tentando entender como ligar o computador em uma das poucas tomadas que tinham; quase tudo no Instituto funcionava com luz enfeitiçada. Se ele pudesse dar isso a Ty, ao menos, já seria alguma coisa.
E, de fato, Ty amou o computador. Ele o chamou de Watson e passou horas aprendendo a usá-lo, considerando que ninguém tinha ideia. Julian orientou que ele não fizesse nada de ilegal; Arthur, trancado no estúdio, nem percebeu.
Livvy, sempre dedicada ao irmão, também decidiu aprender, com a ajuda de Ty, uma vez que se familiarizou com o funcionamento. Juntos, formavam uma bela equipe.
Ao que parecia Ty, Dru, Livvy e até Tavvy andaram ocupados. Dru tinha espalhado mapas pelo chão. Tavvy estava perto de um quadro branco com um pilot azul, fazendo anotações que pudessem ser úteis se alguém conseguisse traduzir o que escrevia um menino de 7 anos. Ty ocupava a cadeira giratória na frente do computador, os dedos se movendo com agilidade pelo teclado.
Livvy estava apoiada na mesa, como frequentemente acontecia; Ty trabalhava em volta dela, completamente ciente de sua localização ao mesmo tempo em que se concentrava na tarefa.
— Então, achou alguma coisa? — perguntou Julian ao entrar.
— Achei. Só um segundo. — Ty levantou a mão imperiosamente. — Podem conversar entre si se quiserem.
Julian sorriu.
— É muita gentileza sua.
Cristina entrou apressada, prendendo os cabelos escuros e molhados. Era evidente que ela havia tomado banho e trocado de roupa, estava de jeans e uma blusa florida.
— Livvy me falou...
— Shhh. — Emma colocou o dedo nos lábios e apontou para Ty, encarando a tela azul do computador. Suas delicadas feições iluminadas. Ela adorava os momentos em que Ty brincava de detetive; ele representava o papel tão bem – o sonho de ser Sherlock Holmes, que sempre tinha todas as respostas.
Cristina fez que sim com a cabeça e sentou no assento duplo macio ao lado de Drusilla. Dru era quase da mesma altura que ela, apesar de ter apenas 13 anos. Ela era uma dessas meninas que havia se desenvolvido cedo: seios e quadris, era cheinha e com curvas. Isso já tinha causado algumas situações com meninos que achavam que ela tinha 17 ou 18 anos, e algumas situações em que Emma teve que segurar Julian para não matar adolescentes mundanos.
Malcolm se sentara em uma poltrona.
— Bem, se estamos esperando — falou, e começou a digitar no telefone.
— O que está fazendo? — perguntou Emma.
— Pedindo pizza do Nightshade — respondeu ele. — Tem um aplicativo.
— Um o quê? — perguntou Dru.
— Nightshade? — Livvy se virou. — O vampiro?
— Ele tem uma pizzaria. O molho é divino — disse Malcolm, beijando os dedos.
— Não tem medo do que tenha nele? — perguntou Livvy.
— Vocês, Nephilim, são tão paranoicos — respondeu Malcolm, guardando o telefone.
Ty limpou a garganta, girando na cadeira para olhar para a sala. Todos estavam ajeitados em sofás ou cadeiras, exceto por Tavvy, sentado no chão embaixo do quadro branco.
— Descobri algumas coisas — falou o menino. — Definitivamente acharam corpos que se encaixam na descrição de Emma. Digitais raspadas, encharcados de água do mar, pele queimada. — Ele abriu a primeira página de um jornal na tela. — Os mundanos acham que é atividade de algum culto satânico, por causa das marcas de giz encontradas em volta dos corpos.
— Mundanos acham que tudo é atividade de culto satânico — disse Malcolm. — A maioria dos cultos, na verdade, serve a demônios completamente diferentes de Lúcifer. Ele é muito famoso e difícil de ser alcançado. Raramente concede favores a quem quer que seja. Não é um demônio que valha a pena cultuar.
Emma e Julian trocaram olhares entretidos. Ty clicou no mouse, e fotos foram aparecendo na tela. Rostos – diferentes idades, etnias e gêneros. Todos mortos.
— Só alguns assassinatos se encaixam no perfil — disse Ty. Ele parecia satisfeito em usar a palavra “perfil”. — Teve um assassinato a cada mês ao longo do último ano. Doze, contando com o que Emma descobriu, como ela disse.
Emma perguntou:
— Mas nada antes disso?
Ty balançou a cabeça.
— Então teve um intervalo de quatro anos entre a morte de seus pais e essa série.  Quem quer que tenha sido, se foi a mesma pessoa, parou e recomeçou.
— Existe alguma coisa que ligue essas pessoas? — perguntou Julian. — Diana disse que algum dos corpos eram de fadas.
— Bem, essas notícias são todas mundanas — respondeu Livvy. — Eles não saberiam dizer, não é mesmo? Achariam que os corpos eram de humanos se fossem de fadas nobres. A respeito de ligações entre eles, nenhum deles foi identificado.
— Que estranho — disse Dru. — E sangue? Nos filmes, eles eram identificam as pessoas através de sangue e DRT.
— DNA — corrigiu Ty. — Bem, de acordo com os jornais, nenhum dos corpos foi identificado. Pode ser que o feitiço utilizado tenha alterado o sangue. Ou podem ter se decomposto rápido, como os pais de Emma. Isso limitaria as descobertas dos médicos legistas.
— Mais tem outra coisa — acrescentou Livvy. — Todas as matérias relataram os locais onde os corpos foram encontrados, e mapeamos tudo. Eles têm uma coisa em comum.
Ty havia tirado um de seus brinquedos manuais do bolso, uma massa de limpadores de cachimbo, e os estava desenrolando. Ele tinha uma das mentes mais velozes que Emma conhecia, e o acalmava ter uma forma de usar as mãos para descarregar um pouco essa velocidade e intensidade.
— Todos os corpos foram desovados em Linhas Ley. Todos eles — falou, e Emma pôde perceber a empolgação em sua voz.
— Linhas Ley? — Dru franziu o cenho.
— Tem uma rede, que cerca o mundo, de antigas trilhas mágicas — explicou Malcolm. — Elas potencializam a magia, então, durante séculos, integrantes do Submundo as utilizaram para criar entradas para o Reino das Fadas, esse tipo de coisa. Alicante é construída sobre uma convergência de Linhas Ley. São invisíveis, mas algumas pessoas conseguem senti-las se treinarem. — Ele franziu o rosto, fixando o olhar na tela do computador, onde uma das imagens do cadáver, feita por Cristina, estava exposta. — Pode fazer aquela coisa? — indagou. — Você sabe, de aumentar a imagem?
— Dar zoom? — disse Ty.
Antes que Malcolm pudesse responder, a campainha do Instituto tocou. Não era uma campainha normal, aguda. Parecia um sino ecoando pelo prédio, fazendo tremer o vidro, pedra e o gesso.
Emma se levantou em um segundo.
— Eu atendo — falou, e correu para baixo, mesmo enquanto Julian se levantava para segui-la.
Mais ela queria ficar sozinha, só por um segundo. Queria processar o fato de que esses assassinatos datavam do ano em que seus pais morreram. Foi quando começaram. O pai e a mãe foram os primeiros.
As mortes estavam conectadas. Ela conseguia enxergar os fios se ligando, formando um padrão que ela só estava começando a enxergar, mais que sabia que era real. Alguém tinha feito essas coisas. Alguém torturou e matou seus pais, marcou símbolos do mal na pele de cada um e os despejou no oceano para apodrecerem. Alguém roubou a infância de Emma, derrubou os telhados e as paredes de sua vida, deixando-a com frio e exposta.
E esse alguém ia pagar por isso. A vingança é uma amante fria, Diana havia dito, mais Emma não acreditava nisso. A vingança devolveria o ar aos seus pulmões. A vingança permitiria que ela pensasse nos pais sem um nó frio no estômago. Ela conseguiria sonhar sem ver os rostos afogados e sem ouvir vozes gritando por socorro.
Emma chegou á porta de entrada do Instituto e a abriu. O sol tinha acabado de se pôr. Um vampiro sorumbático se encontrava na entrada, carregando diversas caixas empilhadas. Ele parecia um adolescente, com cabelos castanhos e curtos, e sardas, mais isso não queria dizer muita coisa.
— Entrega de pizza — falou, com um tom que sugeria que a maioria de seus parentes próximos tinha acabado de morrer.
— Sério? — perguntou Emma. — Malcolm não estava simplesmente inventando aquilo? Você realmente entrega pizza?
Ele a olhou confuso.
— Por que eu não entregaria pizza?
Emma remexeu a mesa ao lado da porta para catar o dinheiro que normalmente deixavam ali.
— Sei lá. Você é um vampiro. Achei que tivesse mais o que fazer com sua vida. Sua não vida. O que quer que seja.
O vampiro pareceu ofendido.
— Sabe como é difícil arrumar um emprego quando sua identidade diz que você tem 150 anos de idade e só pode sair à noite?
— Não — admitiu Emma, pegando as caixas. — Não tinha pensado nisso.
— Os Nephilim nunca pensam.
Enquanto ele guardava uma nota de cinquenta no bolso da calça. Emma notou que ele estava com uma camiseta cinza com as letras IM na frente.
— Instant Message? — perguntou ela.
Ele sorriu.
— Instrumentos Mortais. É uma banda. Do Brooklyn. Já ouviu falar?
Emma conhecia. O melhor amigo e parabatai de Clary, Simon, tinha sido da banda em seus tempos de mundano. Foi assim que foram batizados com o nome dos três objetos mais sagrados do mundo dos Caçadores de Sombras. Agora Simon também era um Caçador de Sombras. Ela ficou imaginando como ele se sentia em relação ao fato da banda ter continuado sem ele. Em relação a tudo que estava acontecendo sem ele.
Ela subiu as escadas, com a mente em Clary e nos outros no Instituto de New York. Clary descobriu que era Caçadora de Sombras aos 15 anos. Houve um tempo em que ela achava que viveria uma vida mundana. Ela já tinha falado sobre isso antes, na presença de Emma, do jeito que uma pessoa falaria de uma opção não escolhida. Ela levou muito consigo para a vida de Caçadora de Sombras, inclusive o melhor amigo, Simon. Mas ela poderia ter feito outra escolha. Ela poderia ter sido mundana.
Emma quis falar com ela, de repente, sobre o que isso poderia ter representado. Simon foi o melhor amigo de Clary por toda a sua vida, assim como Jules foi o de Emma. Depois se tornaram parabatai, uma vez que Simon virou Caçador de Sombras. O que mudou? Emma se perguntou. Como foi a transição de melhor amigo para parabatai sem querer ter sabido que esse seria o destino; qual era a diferença nesse caso?
E por que ela própria não sabia a resposta a essa pergunta?
Quando ela chegou de volta à sala do computador, Malcolm estava perto da mesa, com os olhos violeta ligados.
— Está vendo, não é um circulo de proteção. — Ele estava dizendo e, então, se interrompeu quando Emma entrou. — É a pizza!
— Não pode ser pizza — disse Ty, olhando para a tela, perplexo. Seus dedos longos tinham quase desembaralhado os limpadores de cachimbo; quando terminasse, embaralharia outra vez e começaria de novo.
— Tudo bem, chega — disse Jules. — Vamos dar um tempo dos assassinatos e dos perfis para jantarmos. — Ele pegou as caixas de Emma, lançando a ela um olhar de gratidão, e as pousou sobre a mesa de centro.  — Não me importa o assunto que queiram discutir, só não pode ser sobre assassinatos ou sangue. Nenhum tipo de sangue.
— Mas é pizza vampira — observou Livvy.
— Irrelevante — argumentou Julian. — Sofá. Agora.
— Podemos ver um filme? — perguntou Malcolm, falando de modo muito parecido com Tavvy.
— Podemos ver um filme — respondeu Julian. — Agora, Malcolm, não ligo se você é o Alto Feiticeiro de Los Angeles, sente sua bunda no sofá.


A pizza vampira era surpreendentemente boa. Emma decidiu rapidamente que não se importava com os ingredientes do molho. Cabeças de rato, partes humanas cozidas, o que fosse. Era uma delícia. Tinha uma casquinha crocante e a quantidade certa de muçarela fresca.  Ela lambeu o queijo dos dedos e fez caras e bocas para Jules, que tinha muita etiqueta à mesa.
O filme foi muito confuso. Parecia ser sobre um homem que tinha uma livraria e se apaixonava por uma mulher famosa, mas Emma não reconhecia nenhum dos dois, e não sabia ai certo se deveria. Cristina assistiu com espanto e olhos arregalados, Ty colocou os fones de ouvido e fechou os olhos, e Dru e Livvy sentaram a cada lado de Malcolm, afagando-o gentilmente enquanto ele chorava.
— O amor é lindo — disse ele, enquanto o homem na tela corria pelo trânsito.
— Isso não é amor — retrucou Julian, se inclinando no sofá. A luz piscando da tela acendia sua pele deixando-a estranha, pontos escuros formavam-se nos lugares claros e lisos, e sombras surgiam sob suas maçãs do rosto e na parte oca da garganta. — Isso é um filme.
— Eu vim para Los Angeles para trazer de volta o amor — disse Malcolm, os olhos violetas lúgubres. — Todos os grandes filmes são sobre amor. Amor perdido, amor encontrado, destruído, recuperado, comprado, vendido, morrendo e nascendo. Adoro filmes, mais eles se esqueceram do que são. Explosões, efeitos, não era essa a ideia quando vim pra cá. A ideia era iluminar fumaça de cigarro para que parecesse fogo celestial, e iluminar mulheres para que parecessem anjos. — Malcolm suspirou. — Eu vim aqui para ressuscitar o amor verdadeiro.
— Ah, Malcolm! — exclamou Drusilla, e começou a chorar. Livvy entregou a ela guardanapo da pizzaria. — Por que você não tem um namorado?
— Sou hetéro — disse Malcolm, parecendo surpreso.
— Ah, tudo bem, então, uma namorada. Você deveria encontrar uma garota legal do submundo, talvez uma vampira, para que ela viva sempre.
— Deixe a vida amorosa de Malcolm em paz, Dru — disse Livvy.
— O amor verdadeiro é difícil de ser encontrado — declarou Malcolm, apontando para as pessoas se beijando na tela.
— Amor de cinema é difícil de ser encontrado — retrucou Julian. — Por que não existe.
— Como assim? — perguntou Cristina. — Está dizendo que não existe amor verdadeiro? Não acredito nisso.
— O amor não é seguir alguém no aeroporto — respondeu Julian. Ele se inclinou para  a frente, e Emma pôde ver a Marca de parabatai na clavícula dele, aparecendo acima do colarinho da camiseta. — O amor significa que você enxerga alguém. Só isso.
— Você enxerga? — Ty repetiu, parecendo desconfiado. Ele tinha diminuído o som do aparelho de musica, mas continuava com os fones no ouvido, os cabelos negros ao redor.
Julian pegou o controle. O filme tinha acabado; os créditos em branco subiam na tela.
— Quando você ama alguém, a pessoa se torna parte de quem você é. Está presente em tudo que você faz. Ela é o ar que você respira, a água que você bebe e o sangue que corre em suas veias. O toque fica na sua pele, a voz permanece nos seus ouvidos, e, os pensamentos na sua cabeça. Você conhece os sonhos da pessoa, porque os pesadelos agridem seu coração, e os sonhos bons também são seus. E você não acha que a pessoa é perfeita, mas conhece os defeitos dela, sua verdade profunda e a sombra de todos os segredos que ela carrega, e esses segredos não te assustam; na verdade, fazem com que você ame ainda mais, porque você não quer perfeição. Você quer a pessoa. Você quer...
Ele então se interrompeu, como se percebesse que todos o olhavam.
— Você quer o quê? — perguntou Dru, com olhos arregalados.
— Nada — respondeu Julian. — Só estou falando. — Ele desligou a TV e pegou as caixas de pizza. — Vou jogar isso fora — comentou, e saiu.
— Quando ele se apaixonar — disse Dru, olhando atrás dele —, vai ser tipo... uau!
— Claro que quando isso acontecer provavelmente nunca mais vamos vê-lo — disse Livvy. — É uma garota de sorte, quem quer que seja.
Ty franziu as sobrancelhas.
— Estão brincando, né? — falou. — Não é sério que nunca mais vamos vê-lo, é?
— Definitivamente não — disse Emma.
Quando Ty era bem mais novo, ele ficava confuso quando as pessoas exageravam com as palavras para passar uma ideia. Frases como “chovendo canivetes” o irritavam e às vezes o faziam se sentir enganado, considerando que ele gostava muito mais de canivetes que de chuva.
Em alguns momentos Julian começou a fazer uns desenhos bobos para ele, para ilustrar a diferença entre o sentido literal e figurado das frases. Ty riu com os desenhos de canivetes caindo do céu e com pessoas pegas de calças curtas, assim como os quadrinhos de animais e pessoas explicando o que ditados populares e metáforas significavam. Depois disso ele passou a ser frequentemente encontrado na biblioteca, procurando expressões e significados, memorizando-os. Ty não se importava em ter as coisas explicadas e nunca se esquecia de nada que aprendia, mas preferia aprender sozinho.
Às vezes, ainda gostava de ser tranquilizado quanto a uma hipérbole ser uma hipérbole, mesmo que tivesse noventa por cento de certeza de que era isso. Livvy, que sabia melhor do que ninguém a ansiedade que a imprecisão linguística causava no irmão, se levantou e foi até ele. Colocou os braços em volta dele e apoiou o queixo em seu ombro. Ty se apoiou nela, com os olhos quase fechados. Ty gostava de afeto físico quando estava de humor pra isso, contanto que não fosse muito intenso – ele gostava que o afagassem no cabelo, ou fizesse carinho nas costas. Às vezes, ele lembrava a Emma do gato, Church, quando Church queria carinho na orelha.
Uma luz brilhou. Cristina tinha se levantado e acendido a luz enfeitiçada. A claridade se espalhou, preenchendo o recinto ao mesmo tempo que Julian voltava e olhava em volta; toda a compostura que tinha perdido, fora recuperada.
— Está tarde — falou. — Hora de dormir. Principalmente para você, Tavvy.
— Odeio a hora de dormir — disse Tavvy, que estava no colo de Malcolm, mexendo em um brinquedo que o feiticeiro havia lhe dado. Era quadrado e roxo, e emitia faíscas brilhantes.
— Esse é o espirito da revolução — disse Jules. — Malcolm, obrigado. Tenho certeza que precisaremos da sua ajuda outra vez.
Malcolm colocou Tavvy de lado gentilmente e se levantou, esfregando os farelos de pizza da roupa. Pegou o casaco jogado e foi para o corredor, com Emma e Julian atrás.
— Bem, vocês sabem onde me encontrar — falou, fechando o casaco. — Eu ia conversar com Diana amanhã sobre...
— Diana não pode saber — declarou Emma.
Malcolm pareceu confuso.
— Não pode saber o quê?
— Que estamos investigando isso — emendou Julian, interrompendo Emma. — Ela não quer que a gente se envolva. Diz que é perigoso.
Malcolm pareceu desapontado.
— Poderiam ter dito isso antes — falou. — Não gosto de esconder nada dela.
— Sinto muito — disse Julian. A expressão dele era suave, ligeiramente apologética. Como sempre, Emma ficou ao mesmo tempo impressionada e um pouco assustada com sua capacidade de mentir. Julian era um mentiroso profissional quando queria ser; não demonstrava em sua expressão nada do que queria esconder. — Não podemos avançar tanto assim nessa história sem ajuda da Clava e dos Irmãos do Silêncio, de qualquer jeito.
— Tudo bem. — Malcolm olhou de perto para os dois; Emma fez o melhor que pôde para imitar a expressão sonsa de Julian. — Contanto que falem sobre isso com Diana amanhã. — Ele enfiou as mãos nos bolsos, a luz refletindo em seu cabelo sem cor. — Tem uma coisa que não consegui contar a vocês. Aquelas marcas em volta do corpo que Emma encontrou, não eram para um feitiço de proteção.
— Mas você disse... — começou Emma.
— Mudei de ideia quando olhei de perto — respondeu Malcolm. — Não são símbolos de proteção. São símbolos de invocação. Alguém está usando a energia dos cadáveres para invocar.
— Invocar o quê? — perguntou Jules.
Malcolm balançou a cabeça.
— Alguma coisa para esse mundo. Um demônio, um anjo, não sei. Vou olhar melhor as fotos, perguntarei discretamente no Labirinto Espiral.
— Então, se for um feitiço de invocação — disse Emma — deu ou não deu certo?
— Um feitiço assim? — retrucou Malcolm. — Se tivesse dado certo, pode acreditar, você saberia.


Emma acordou com um miado lamurioso.
Ela abriu os olhos e encontrou um gato persa em seu peito. Era um persa azul, para ser exato, muito redondo, com orelhas encolhidas e grandes olhos amarelos.
Com um grito, Emma se levantou em um pulo. O gato voou. Os momentos que se seguiram foram de caos enquanto ela tropeçava na cabeceira e o gato chiava. Finalmente ela conseguiu encontrar o gato sentado perto da porta do quarto, parecendo convencido e cheio de si.
— Church — gemeu ela. — Sério? Você não tem nenhum lugar melhor para ir?
Ficou claro, pela expressão de Church, que não. Church era um gato que às vezes pertencia ao Instituto. Ele tinha aparecido na entrada há quatro anos, deixado em uma caixa no degrau com um bilhete endereçado a Emma, que dizia: Por favor, cuide do meu gato. Irmão Zachariah.
Na época, Emma não conseguiu entender por que um Irmão do Silêncio, mesmo um ex-Irmão do Silencio, queria que ela cuidasse do seu gato. Ela ligou para Clary, que disse que o gato tinha morado no Instituto de Nova York, mas na verdade, pertencia ao Irmão Zachariah, e, se Emma e Julian quisessem o gato, deveriam ficar com ele.
O nome dele era Church, ela disse.
Church se provou o tipo de gato que não ficava onde o deixavam. Ele vivia escapando por janelas abertas e desaparecendo por dias, ou até mesmo semanas. No começo, Emma se desesperava cada vez que ele sumia, mais ele sempre voltava parecendo mais elegante e satisfeito do que nunca. Quando Emma completou 14 anos, o gato começou a voltar com presentes amarrados na coleira: conchas e pedaços de vidro marinho. Emma colocou as conchas no parapeito de sua janela. O vidro marinho virou a pulseira da sorte de Julian.
Àquela altura, Emma sabia que os presentes vinham de Jem, mais ela não tinha como entrar em contato com ele para agradecer. Então ela fazia o melhor que podia para cuidar de Church. Sempre tinha ração de gato fresca na entrada e água limpa para ele tomar. Ficavam felizes em vê-lo quando ele aparecia, e não se preocupavam quando sumia.
Church miou e arranhou a porta. Emma estava acostumado a isso: significava que ele queria que ela o seguisse. Com um suspiro, ela vestiu um casaco sobre a camiseta e calçou um chinelo.
— Espero que seja alguma coisa boa. — disse a Church, pegando a estela. — Ou vou transformá-lo em uma raquete de tênis.
Church não pareceu preocupado. Ele conduziu Emma pelo corredor, pelas escadas ate a porta da frente. A lua estava alta e brilhante, refletindo na água ao longe. Formava uma trilha pela qual Emma seguiu, confusa, enquanto Church continuava andando. Ela o pegou no colo quando foram atravessar a rua, e o colocou no chão quando chegaram na praia do outro lado.
— Bem, estamos aqui. — falou a garota. — Na maior caixa de areia do mundo.
Church lançou um olhar que sugeria que não tinha se impressionado com a piada, e seguiu para perto da água. Caminharam juntos por ali. A noite estava tranquila, maré, baixa e rasa, mais silenciosa que o vento. Ocasionalmente Church corria para pegar um siri, mas sempre voltava, andando à frente de Emma, em direção às constelações do norte. Ela estava começando a se perguntar se o gato realmente a estava levando a algum lugar quando se deu conta de que haviam circulado a curva de pedras que escondia sua praia secreta com Julian, e viu que a praia não estava vazia.
Ela desacelerou. A areia estava iluminada pelo luar, Julian estava ali no meio, longe da beira. Ela foi em direção a ele, com os pés silenciosos na areia.
Ele não levantou o olhar.
Ela raramente tinha chance de olhar para Julian sem que ele notasse. Era estranho e um pouco enervante, A lua brilhava o suficiente para que ela pudesse ver a cor da camisa, vermelha, e ele estava com um jeans velho, os pés descalços. A pulseira de vidro marinho parecia brilhar. Ela nunca desejara saber desenhar, mas nesse momento era o que queria, só para poder desenhar a linha perfeita que ele era, do ângulo da perna dobrada à curva da coluna inclinada para frente.
A poucos centímetros dele, Emma parou.
— Jules?
Ele levantou o olhar. Não pareceu nem um pouco espantado.
— Aquele é Church?
Emma olhou em volta. Levou um instante para localizar o gato, que estava empoleirado no topo de uma pedra e lambia a pata.
— Ele voltou — disse Emma, sentando na areia ao lado de Jules. — Você sabe, só para visitar.
— Eu vi que estava vindo na curva das pedras. — Ele deu um meio sorriso. — Pensei que estivesse sonhando.
— Não conseguiu dormir?
Ele esfregou os olhos com o dorso da mão. Os nós dos dedos estavam sujos de tinta.
— Pode-se dizer que sim. — Ele balançou a cabeça. — Pesadelos estranhos. Demônios, fadas...
— Coisas básicas de Caçadores de Sombras — observou Emma. — Quero dizer, parece uma terça-feira qualquer.
— Ajudou muito, Emma — ele se jogou sobre a areia, com o cabelo parecendo uma auréola preta em volta da cabeça.
— Sempre ajudo.
Ela se deitou ao lado dele, olhando para o céu. A poluição luminosa de Los Angeles também se espalhava para a praia, e as estrelas estavam desbotadas, mas ainda visíveis. A lua era coberta e descoberta por nuvens, Uma estranha sensação de paz recaiu sobre Emma, uma sensação de estar onde pertencia. Ela não sentia isso desde que Julian e os outros partiram para a Inglaterra.
— Estava pensando no que você disse mais cedo — falou ele. — Sobre aqueles caminhos inúteis. Todas as vezes que achamos que tínhamos encontrado alguma coisa que levava ao que aconteceu com seus pais, mas acabava não sendo nada.
Ela olhou para ele. O luar deixava seu perfil mais marcado.
— Eu estava pensando que talvez isso signifique alguma coisa — continuou. — Que talvez tivéssemos que esperar até agora para descobrir o culpado. Até você estar pronta para isso. Eu vi seus treinamentos, observei enquanto melhorava. Cada vez mais. Quem quer que seja, o que quer que seja, você está pronta agora. Pode encarar. Pode vencer.
Alguma coisa bateu sob as costelas de Emma. Familiaridade, ela pensou. Aquele era Jules, o Jules que ela conhecia, que tinha mais fé nela do que ela mesma.
— Gosto de acreditar que as coisas têm uma razão de ser — disse ela baixinho.
— Elas têm. — Ele pausou por um instante, com os olhos no céu. — Eu conto estrelas. Às vezes, acho que se propor uma tarefa sem sentido ajuda.
— Lembra que, quando éramos mais novos, conversávamos sobre fugir? Sobre navegar pela Estrela Polar? — perguntou Emma, — Antes da guerra.
Ele cruzou os braços atrás da cabeça. A luz do luar entornava nele, iluminando seus cílios.
— Isso mesmo. Eu ia fugir e me juntar à Legião Estrangeira francesa. E mudar meu nome para Julien.
— Porque ninguém nunca ia desvendar esse código. — Ela inclinou a cabeça para o lado. — Jules, o que houve? Sei que alguma coisa está te incomodando.
Ele estava em silêncio. Emma podia ver o peito subindo e descendo lentamente. O som de sua respiração, abafado pelo barulho de água.
Ela esticou o braço e colocou a mão no braço dele, com o dedo traçando lentamente sobre a ele: O-Q-U-E-F-O-I?
Ele virou o rosto; ela o viu tremer, como se estivesse com calafrios.
— Mark.
Julian continuava não olhando para ela; ela só conseguia ver a curva da garganta e do queixo.
— Mark?
— Tenho pensado dele — disse Julian. — Mais do que o normal. Quero dizer, Helen sempre me atende ao telefone se eu preciso, mesmo estando na Ilha Wrangel. Mas é como se Mark estivesse morto.
Emma se sentou reta.
— Não diga isso. Ele não está morto.
— Eu sei. Sabe como eu sei? — perguntou Jules, com voz rouca. — Eu procurava a Caçada Selvagem todos os dias. Estatisticamente eles deveriam ter passado por aqui pelo menos uma vez nos últimos cinco anos. Mas jamais vieram. Acho que Mark não deixa.
— Por que não? — Emma o encarava agora. Jules quase nunca falava assim. Não com esse amargor na voz.
— Porque ele não quer nos ver. Não quer nenhum sinal da gente.
— Porque ele ama vocês?
— Ou porque ele nos odeia. Não sei. — Julian cavou incessantemente a areia. — Eu odiaria. Eu o odeio, às vezes.
Emma engoliu em seco.
— Eu também odeio os meus pais, por terem morrido. Às vezes. Não é... não significa nada, Jules.
Ele virou o rosto para olhar para ela. Estava com os olhos enormes, com anéis pretos em volta das íris azul-esverdeadas.
— Não é desse tipo de ódio que estou falando — a voz saía baixa. — Se ele estivesse aqui, meu Deus, tudo seria diferente. Teria sido diferente. Eu não precisaria estar em casa agora, caso Tavvy acorde. Nem seria uma atitude imoral caminhar até a praia porque preciso de um tempo. Tavvy, Dru, Livvy, Ty... eles teriam alguém para criá-los. Mark tinha 16 anos. Eu tinha 12.
— Nenhum de vocês escolheu...
— Não, não escolhemos. — Julian sentou. O colarinho da camisa estava frouxo, e havia areia em sua pele e cabelo. — Não escolhemos. Porque se eu tivesse tido a chance de escolher, teria tomado decisões muito diferentes.
Emma sabia que não deveria perguntar. Não quando ele estava assim. Mas ela não tinha experiência com esse Julian; ela não sabia como reagir a ele, como se comportar.
— O que você teria feito diferente? — sussurrou ela.
— Não sei se ia querer um parabatai — as palavras soaram claras, precisas e brutais.
Emma se encolheu. Foi como estar com água até o joelho e ser atingida por um tapa na cara e, inesperadamente, por uma onda.
— Está falando sério? — perguntou. — Você não queria? Isso, comigo?
Ele se levantou. A lua tinha saído totalmente de trás das nuvens, e brilhava clara, esplendorosa o suficiente para que ela conseguisse enxergar a cor da tinta nas mãos dele. As sardas claras nas maçãs do rosto. A rigidez da pele em torno da boca e das têmporas. A cor visceral dos olhos.
— Eu não devia querer — disse ele. — Absolutamente não devia.
— Jules — falou Emma, espantada, magoada e furiosa, mas ele já estava indo embora, pela beirada da praia. Quando ela se levantou, ele já tinha chegado às pedras. Era uma sombra longa e esguia, subindo sobre elas. E então sumiu.
Ela poderia tê-lo alcançado se quisesse, sabia disso. Mas não queria. Pela primeira vez na vida, não queria falar com Julian.
Alguma coisa a tocou nos tornozelos. Ao olhar para baixo, ela viu Church. Seus olhos amarelos pareciam solidários, então, ela o pegou e o abraçou, ouvindo seu ronronar enquanto a maré se aproximava.

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