domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 35

Na cela da torre, Alyss estava decididamente apreensiva. Uma vez que Buttle a reconheceu não tinha mais sentido fingir ser uma nobre a caminho do seu casamento. Mas inesperadamente, Keren não tentou tirar nenhuma informação dela. Somente chamou seus guardas e os mandou levá-la até essa cela.
Max, armado somente com uma adaga, mais decorativa do que perigosa, estava preparado para defendê-la, mas ela não deixou. Não queria ser responsável pela morte dele. Ele os outros dois criados foram levados e trancados em uma despensa. Ela não tinha dúvida que os seus guarda-costas iriam se juntar a eles em pouco tempo. Mas foi a falta de ação e de interesse de Keren que mais a preocupou. Obviamente, ele é o centro dos acontecimentos estranhos no castelo Macindaw.
“Por quê?” Ela pensava.
O mais lógico seria para fazer aquilo que ele havia acusado Orman e Will de planejarem – ceder o castelo para a invasão dos escoceses. Afinal, tendo usurpado os direitos de Syron e Orman, ele dificilmente poderia ganhar o título de senhor de Macindaw do Rei Duncan. Sua única alternativa seria procurar fora do reino por uma recompensa.
Seja o que for que estivesse planejando, obviamente não era bom. Pareceu muito estranho ele não tentar questioná-la sobre o que Will estava planejando e o quanto ele já sabia. Francamente, ela esperava ser interrogada rigorosamente, até mesmo torturada. Porém, ela foi trancada nessa cela na torre, que apesar de não ser luxuosa, era relativamente confortável.
Exceto pelo calor, pensou. O fogo na lareira ardia brilhante e o quarto era quente e abafado. Sua boca estava seca – provavelmente o efeito da adrenalina – situação onde ela se encontrou na frente de Buttle. Ela estava desesperadamente sedenta e não havia bebida nenhuma no quarto.
Ela se virou, alarmada, quando a única porta abriu e Keren surgiu.
Ele olhou em volta da pouca mobília: uma mesa, duas cadeiras, uma cama de madeira com um colchão de palha fino e dois cobertores gastos. Uma única lâmpada a óleo com refletor polido de metal iluminava o quarto. A janela, com barras de metal verticais, podia ser coberta por uma pesada cortina se o vento ficasse muito forte. No momento, não tinha vento e a cortina estava aberta.
— Confortável? — ele disse, sorrindo.
Alyss encolheu.
— Podia ser pior — ela disse, e ele assentiu sinceramente.
— Ah sim, claro que podia. E eu acho que você teria isso em mente.
— Acredito que o meu pessoal está seguro — ela disse e Keren assentiu.
— Estão bem e confortáveis, trancados a chave. Um dos seus guarda-costas tentou argumentar. Foi levemente ferido, mas vai se recuperar.
— Espero que você não queira que eu lhe agradeça — ela disse.
Novamente, ele encolheu pelo pouco interesse que tinha. Encerrou esse assunto e apontou para a mesa e as cadeiras.
— Vamos sentar. Penso que está na hora de conversarmos.
Então vai começar, ela pensou, considerando-o. Mas não tinha sentido em resistir e ela foi até a mesa, puxou uma cadeira e sentou-se.
— Não tem nada para beber, está muito quente aqui. Eu quero um pouco de água — ela disse.
Ela fez isso parte para tirá-lo do momento da conversa, e parte, ela percebeu, porque estava com muita sede. Ele ficou imediatamente preocupado com o bem-estar dela.
— Desculpe — ele disse. — Eu não tinha a intenção de te deixar desconfortável.
Um olhar severo entrou em seu rosto enquanto ia a porta, abrindo-a e chamando rudemente um dos guardas fora da sala.
— Você aí! Por que não deu água para a senhorita? Traga esse jarro que tem aí! Encontre outro para você! E traga um copo... um copo LIMPO, seu idiota!
Ele mexeu a cabeça incomodado quando o guarda entrou, olhando para baixo, com um jarro de água e um copo. Ele os colocou na mesa e virou para sair.
— Encha o copo, seu imbecil! — A voz de Keren estalou, e o guarda se virou.
— Desculpe, senhor — ele cambaleou, e encheu o copo até a metade, derramando um pouco na tentativa. Antes que Keren o repreendesse mais, ele secou a mesa com a manga da camisa e saiu rapidamente da sala.
— Aí esta, minha lady — ele disse.
Alyss bebericou a água. Então ela percebeu quão desidratada estava e bebeu a maior parte do copo. Seu treinamento a ensinou que, se você é uma prisioneira, é sempre bom fazer seus captores atenderem a pequenos pedidos. Pequenos no inicio, então, quando começassem a se acostumar a atender pedidos, começar a pedir coisas maiores.
Keren sentou na cadeira oposta a dela, apoiou as costas, cruzou as pernas uma sobre a outra e sorriu para ela.
— Relaxe — disse. — Eu só quero fazer algumas perguntas.
— Não são as perguntas que me incomodam — ela disse. — E sim o que você vai fazer quando não tiver as respostas.
Ele franziu, olhando para ela um pouco magoado.
— Você com certeza não acha que eu te torturaria — ele disse. — Eu não sou um monstro, aliás, eu sou um cavaleiro.
— Você parece ter esquecido alguns dos seus deveres como cavaleiro — ela respondeu, e então bocejou.
O quarto abafado estava fazendo ela ficar sonolenta. Ela piscou várias vezes enquanto Keren continuou.
— Bem, talvez pareça que sim. Mas é fácil ter um ponto de vista sem saber toda a situação. Por anos, eu mantenho esse castelo forte e bem defendido. Tudo que pedi de Syron foi um pouco de consideração, um agradecimento pelos meus esforços. Mas não. Ele deixou tudo para o seu filho. Não tinha nada para mim, nem mesmo a garantia que eu continuaria empregado quando Orman assumisse. Eu gastei grande parte da minha vida adulta protegendo a fronteira do reino e não ganho nada mais que um pagamento de um mercenário. Eu mereço coisa melhor que isso.
— Talvez tenha. Mas não tem direito de procurar essa recompensa com os escoceses — ela arriscou, esperando a reação dele.
Não demorou a chegar, ele a olhou intensamente.
— Então você percebeu, não é? Eu fico imaginado o que mais você sabe.
Ela sorriu.
— Eu aposto que sim — ele sorriu ao ouvir isso.
Ele a estudou.
— Você deve estar se sentindo cansada. Tem sido um dia cheio.
Ela assentiu. Ela se sentia cansada, agora que ele disse. Ela piscou os olhos e rolou a cabeça de um lado para outro para tirar a tensão nos ombros.
— Isso — a voz de Keren era profunda e calmante. Estranhamente, ela pensou, parecia vir de longe – não do outro lado da mesa. — Feche os olhos se quiser — ele continuou. — Nós podemos falar depois se você estiver sonolenta agora. Você está com sono?
Suas pálpebras estavam pesadas. Elas fecharam. Ela piscou rapidamente, mas era demais para sustentá-las. Devagar, elas se fecharam.
— Suas pálpebras parecem pesadas — falou com uma voz estranha e calma. — Você está sonolenta?
— Sono... — ela balbuciou em resposta.
Em uma parte distante de sua mente, pôde sentir um fraco sinal agitado de alerta. Ela não podia estar assim sonolenta, pensou. Mas desviou o pensamento porque ela estava. Incrivelmente cansada e sonolenta. Por quê? Por que se sentiu assim tão repentinamente?
A voz de Keren continuou. Era tão calmante e parecia preencher seu mundo.
— Mas é claro que está com sono. Pode dormir, dormir é bom. Seus olhos estão cansados...
E estavam. Então, novamente, aquela parte de sua mente estava tentando dizer alguma coisa. Alguma coisa sobre a água que bebeu. Ele colocou algo nela? Alguma poção do sono? Ela tem sido tão inteligente, fazendo-o atender seus pedidos. Mas talvez ela se enganou sobre a vantagem que achou ter levado sobre a água... Mas que se importa? Ela estava com sono, ele dizia que ela podia dormir e sua voz estava tão calma e confiável. O pequeno sinal de aviso na sua cabeça cintilou e morreu.
— Eu te trouxe algo. Algo que vai ajudá-la a dormir. Olhe.
Ela forçou suas pesadas pálpebras a abrirem e olhou para o que ele estava segurando.
Era uma estranha gema azul, do tamanho de um ovo, e começou a movê-la para frente e para trás em suas mãos. Era muito bonita, pensou, e ela ficou maravilhada com o jeito que a pedra parecia atraí-la, sentiu que podia mergulhar na pedra como se fosse uma piscina funda de água azul e clara. Ela se inclinou, olhando mais de perto, sorrindo.
Era uma pedra bonita.
— Olhe dentro do azul — ele disse gentilmente. — É bonito, não?
Verdade, ela pensou. Era perfeitamente redonda e o azul parecia crescer mais enquanto olhava dentro dela. Ela tinha a fascinante impressão que, se ela olhasse firme o suficiente poderia ver abaixo da superfície da pedra, e as profundidades abaixo.
— É muito bonita, não é? — ele disse. Sua voz era sossegada, relaxante e muito calmante. — Muitas vezes me pergunto como pode haver tantas camadas em um objeto tão pequeno. Olhe como se transforma...
Ele girou a pedra lentamente e ela viu que ele estava certo. O azul parecia desviar da luz, em camadas cada vez mais profundas. Parecia impossível que tudo isso cabia em uma gema tão pequena. E tão bonita. Tão azul. Ela nunca havia percebido antes que azul era sua cor favorita.
— Você nunca me disse seu verdadeiro nome — ele disse gentilmente.
— É Alyss. Alyss Mainwaring.
Não parecia perigoso dizer isso a ele. Depois de tudo, ele sabia que Lady Gwendolyn era uma identidade falsa. Estranho, ela pensou, como que aquela pequena pedra azul parecia ficar maior a cada segundo.
— Você não tem um noivo, tem? — ele disse e ela ouviu uma diversão em sua voz.
Ela riu em resposta.
— Infelizmente não — ela admitiu. — Acho que estou destinada a ser uma solteirona.
Era uma vergonha eles serem inimigos, pensou. Ele era uma pessoa legal, de qualquer jeito. Ela olhou para cima para lhe dizer isso.
— Continue olhado para o azul. — Sua voz era muito gentil e ela assentiu para ele.
— Claro.
Ele fez silêncio por um tempo, a deixando estudar a pedra azul móvel. Era muito relaxante, ela pensou.
— E sobre seu amigo Will? — ele perguntou suavemente — sem romance nenhum nisso?
Ela sorriu quietamente, sem responder por alguns segundos.
— Nos conhecemos desde crianças — ela disse — éramos muito próximos antes dele começar seu treinamento.
— Como um menestrel, você quer dizer? — ele disse.
Ela estava a caminho de balançar a cabeça quando um instinto a parou.
— Will é um... — Ela começou, mas o mesmo instinto a parou antes de dizer algo mais.
A luz de advertência em sua mente estava de volta, agora queimando ardentemente. Ela piscou, percebendo que estava a ponto de dizer Will é um arqueiro. Ela pulou de sua cadeira, como se jogando de um precipício. De uma forma, ela estava.
Ela desviou seus olhos da pedra azul, impressionada pelo quanto de esforço ela teve que usar para isso.
— O que você está fazendo? — ela exigiu, terrificada por ter quase traído Will.
Ela examinou seu cérebro, tentando pensar no que ela o disse, o quanto ela havia revelado a ele. Seu nome, pensou. Mas isso não importava tanto. Desde que não havia dito a ele que Will era um...
Ela parou a si mesma. Melhor nem pensar nisso, disse a si mesma. Aquela maldita pedra azul obviamente tinha propriedades muito estranhas. Keren estava sorrindo. Surpreendentemente, era um sorriso amigável.
— Você é forte — ele disse admiradamente. — Uma vez que alguém entra em transe, é muito incomum eles saírem. Muito bem.
— A água… estava drogada, não é? — ela disse.
Ela sabia agora que não era por acaso que o quarto estava tão quente. O fogo estava deliberadamente forte. Keren sabia que ela iria querer água. Ele sorriu.
— Só uma inocente bebida para ajudar a relaxar – então minha pequena pedra azul poderia fazer seu trabalho.
— O que é essa coisa? — Ela apontou para pedra, com repugnância.
Ele a pegou da mesa, jogou para cima, pegou e a colocou de volta no bolso interno.
— Ah, somente uma bugiganga para me divertir com meus amigos — ele disse, levantando e indo até a porta.
Ele parou com a porta aberta, então seu sorriso sumiu.
— Nós faremos isso de novo — ele disse. — E da próxima vez, iremos muito mais rápido. Sempre é depois que já entrou uma vez. Depois, fica cada vez mais fácil. Eu virei vê-la em uma hora ou menos.
A porta se fechou atrás dele. Alyss ouviu a chave virar na trance e ela derrubou sua cabeça em seus braços sobre a mesa. Ela se sentiu totalmente exausta.

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