domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 31

Conforme a tarde passava e a noite chegava, Horace tornava-se cada vez mais inquieto e entediado. Ele mudava de posição continuamente e suspirava repetidamente. Will firmemente o ignorava. Isso irritava ainda mais Horace, que sabia que seu amigo estava deliberadamente não tomando conhecimento dele.
Eventualmente, após um suspiro particularmente prolongado, seguido de uma prolongada mudança de posição e deslocamento dos ombros e nádegas, Will já não podia fingir não notar.
— É uma pena que você não trouxe uma trombeta — disse ele. — Dessa forma, você poderia fazer um pouco mais de barulho.
Horace, prazeroso que tinha finalmente provocado o início de uma conversa, respondeu imediatamente.
— O que eu não entendo — disse ele — é porque nós não corremos com o carro aqui agora, em vez de ter feito isso horas atrás? Poderíamos ter esperado confortavelmente nas árvores até o anoitecer, então correr, perder a roda e ter que esperar apenas uma hora ou mais pelos monstros de Malcolm. Teria sido muito menos chato do que ficar agachado aqui toda a tarde e a noite.
— Isso é suposto ser entediante — Will agarrou. — Essa é a ideia.
— Você queria ficar entediado? — Horace perguntou.
— Não — Will falava muito pacientemente.
Ele adotou o tom de um adulto pode usar a falar com uma criança muito jovem. Fazia algum tempo desde que ele tinha feito isso com Horace, e o guerreiro que descobriu não gostava mais agora do que anteriormente.
— Eu queria que as sentinelas ficassem entediadas. Queria que eles ficassem acostumados à visão de que este carro se tornou parte do cenário. Eu queria que eles olhassem para ele durante horas e horas com absolutamente nada acontecendo de forma que acabassem por acreditar que nada iria acontecer. Se tivéssemos saído das árvores agora, eles ainda estariam desconfiados quando chegasse a hora, e possivelmente ainda têm os olhos em nós. Dessa forma, viram o carro de forma clara, em plena luz do dia, e pensam que não têm nada a temer dele. Eles estarão entediados com ele, na verdade.
— Bem... talvez... — disse Horace com relutância.
Na verdade, o que Will disse fazia sentido. Mas, ainda assim, ele estava entediado. E com frio também. Eles estavam sentados em uma mistura de neve derretida e capim. E a própria terra ainda detinha a temperatura entorpecente do inverno. Conforme ele tinha o pensamento, Horace sentiu uma necessidade enorme de espirrar. Ele tentou abafar o som, mas só conseguiu fazer ficar mais alto.
Will olhou furiosamente, sacudindo a cabeça em descrença.
— Você vai ficar quieto? — perguntou tenso.
Horace encolheu-se no pedido de desculpas.
— Sinto muito — disse ele. — Eu espirrei. Uma pessoa não pode segurar quando se espirra.
— Talvez não. Mas você pode tentar fazer soar um pouco menos como uma tromba de elefante em agonia — Will disse a ele.
Horace não estava preparado para tomar essa deitado. Agachado, talvez. Mas deitado, nunca.
— E é claro, você saberia o que soa como um elefante! Você já ouviu um elefante? — Desafiou.
Mas Will foi ousado por sua lógica.
— Não — disse ele. — Mas eu tenho certeza que ele não poderia ser mais alto do que seu espirro.
Horace fungou com desprezo. Então ele desejou não ter feito isso. Fungar só criou a vontade de espirrar novamente, e ele lutou bravamente contra ele, finalmente, sufocando-o. Ele sentiu Will estava certo. O espirro tinha sido particularmente elevado.


Nas muralhas, o cabo em comando olhou para um dos soldados que estavam junto dele.
— Você ouviu isso? — perguntou ele.
De reação do soldado e do jeito que ele estava olhando para a escuridão, era óbvio que ele tinha.
— Soou como um animal — disse ele hesitante. — Com dor.
— Um animal grande — disse o cabo concordando inquieto. Eles olharam para a noite juntos.
Felizmente, nenhum deles tinha ligado o som estranho com o carro em ruínas. Will tinha provado estar certo. As sentinelas mal percebiam a forma escura.
— Deus sabe o que se passa na floresta — disse o cabo eventualmente.
— O que quer que fosse, parece ter ido embora por agora — disse o outro homem.
Esperava que ele estivesse certo.


A vinte metros de distância, sob o carro, Horace tinha seu manto dobrado sobre sua cabeça e bateu com o punho apertado sob a cartilagem mole entre as narinas para evitar outro espirro. No decorrer do dia, ele iria encontrar uma contusão e não saberia como ela chegou lá. Quando o impulso acalmou-se, ele cedeu contra o carro, com os olhos de arregalados.
Will, que tinha visto o imenso esforço que ele tinha feito, lhe deu um tapinha no ombro.
— Bom trabalho — disse ele simpaticamente.
Horace assentiu, exausto demais para fazer mais comentários.
A lua cresceu, passou por cima deles, inundando o terreno à sua volta com a luz pálida, em seguida afundou-se abaixo da copa das árvores a oeste. Will sentiu que seus batimentos cardíacos começaram a acelerar. O tempo de espera estava quase no fim. Ele olhou para Horace e percebeu que seu amigo sabia disso também. Ele já não estava movendo e tendo espasmos. Em vez disso, estava, devagar e com cuidado, esticando o braço apertado e os músculos da perna, diminuindo as câimbras causadas por longas horas de inatividade. Cuidadosamente, o guerreiro alto desatava seu escudo redondo de onde ele estava amarrado ao lado do carro.
Will observava enquanto ele tirava a tela branca grossa cobrindo a frente do seu escudo para revelar o branco brilhante da superfície do esmalte, com o símbolo da folha de carvalho verde brilhando no centro.
— É bom ver que você estará lutando com suas cores verdadeiras. — Ele sorriu.
Horace sorriu brevemente em troca. Ele estava ficando focado agora. Will podia ver que era uma pessoa diferente do Horace inquieto e resmungão que tinha ficado abrigado sob o carrinho nas últimas oito horas. Esse era um muito mortal e muito sério Horace, um mestre de seu ofício, e Will estava feliz que ele estivesse aqui. Uma vez que atingissem o topo das muralhas, ele sabia que seria Horace que iria suportar o peso da luta até que os escandinavos pudessem fazer o seu caminho até a escada para se juntar a eles. Ele não podia pensar em ninguém que preferia ter a seu lado.
Ele percebeu que havia seus próprios preparativos a fazer. Ele verificou que sua aljava, com suas vinte e quatro flechas cinzas, estava firme na posição. Seu arco estava amarrado ao lado de baixo do carro, e o desatou agora. Estava sem corda, é claro. Não havia nenhum motivo para deixá-la sob tensão para as horas que passaram de espera. Ele verificou se a corda estava em posição, sem emaranhados ou nós.
O arco tinha um peso trinta e oito quilos, e seria praticamente impossível manter com pressão na corda embaixo do carro. Ele faria isso logo que se movessem para fora sob o abrigo do telhado inclinado. Ele checou a faca de caça em seu cinto e tocou sua mão na faca de jogar na bainha escondida na parte de trás do colarinho. A posição da bainha estava um pouco estranha, e ele se lembrava como tinha sido incapaz de alcançá-la rapidamente durante a luta com MacHaddish. Ele fez uma nota mental para dizer Halt e Crowley que o lugar da bainha foi uma má ideia.
Ao longe, do outro lado do castelo, eles ouviram o arrastado gemido de um chifre de carneiro, uma nota longa que passou e finalmente desapareceu.
— Iniciar a contagem — Will disse a Horace.
O acordo com Malcolm era que a enorme imagem do Guerreiro da Noite seria projetada vinte segundos após a buzina parar.
Enquanto Horace contava, Will saiu de debaixo do carro, ficando atrás dele, portanto ainda protegido das muralhas enquanto colocava a corda em seu arco. Ele sentiu Horace começar a se mexer no carro.
— Vamos lá para fora — disse ele — mas fique agachado no chão.
Horace rastreou no aberto, meio curvado atrás da tampa do carro. Ambos olharam para o céu escuro acima do castelo. Eles não iriam ver a projeção daqui, mas eles podiam ver o reflexo da luz nas nuvens baixas, Will pensou.
— Ali está! — Sussurrou Horace.
Houve um breve flash de luz no céu. Então eles viram a demonstração seguinte conforme uma bola de fogo levantava na noite, assobiando e à direita uma faixa de faíscas atrás dela antes de explodir acima da terra em uma chuva de brasas vermelhas.
Então, o flash se repetiu, só por alguns breves segundos.
Era importante, Malcolm havia dito a eles, não deixar uma projeção em vigor mais de um segundo ou dois. Mais tempo e os olhos podiam claramente focar nela e perceber que era um esboço rudimentar que não se mexia. Criando aparições para dentro e fora assim, com outras luzes para distrair os olhos dos observadores criariam uma sensação de movimento e incerteza.
— Deixá-los pensar o que eles vêem, mais do que realmente é — disse Malcolm.
Eles podiam ouvir vozes gritando nas muralhas agora que os homens reagiram às imagens aterrorizantes cintilantes no nevoeiro.
— Vamos lá! — Will disse.
Ele puxou a faca de caça e cortou as ligações que seguravam a escada em cima do telhado do carrinho.
Horace jogou-a facilmente ao ombro, seu escudo lançado sobre suas costas, e juntos eles correram para o muro do castelo. Keren estava no salão principal da torre de vigia, quando ouviu os gritos e o estrondo do primeiro foguete explodindo. Ele já estava armado e usando armadura, e correu para o pátio, subindo as escadas para o sul, dois degraus ou três de cada vez.
A gritaria vinha desse lado, e ele percebeu que estava certo. Este era o ataque que estava por vir. Ele chegou às muralhas e encontrou as sentinelas se reunindo perplexos, olhando com medo na escuridão. Suas vozes formavam um murmúrio incompreensível conforme todos falavam ao mesmo tempo.
— Silêncio! — Ele gritou, e quando eles obedeceram, ele destacou o sargento responsável. — Sargento, o que está acontecendo...
Ele não continuou. De repente, no céu da noite escura, a cerca de duzentos metros da muralha sul do castelo, uma figura de sombra gigantesca apareceu contra a névoa. Enorme, o mal terrível.
E se foi, quase tão rapidamente como apareceu.
Keren realmente cambaleou para trás com essa visão. Mas, em seguida um rosto demoníaco vermelho começou a se levantar do chão, subindo no ar e explodindo na escuridão. E após ele outra forma enorme apareceu na névoa, o contorno preto da sombra de um dragão que parecia tremer e agitar e depois desapareceu.
A estranha voz cavernosa podia ser ouvida, rindo histericamente. O som gelou Keren. Os homens em torno dele gritaram com medo. Vários caíram de joelhos, dobraram como se escondendo das visões horríveis. Ele chutou violentamente o homem mais próximo.
— Levante-se, covarde de pele amarela — ele amaldiçoou.
Mas sua voz estava rouca, e sua garganta estava seca. Ele podia sentir a pele formigando nos braços e ondulações, e os pelos na parte de trás do pescoço levantando-se em medo. Em seguida, a cinquenta metros de onde vira pela primeira vez, o guerreiro gigante cintilou e sumiu novamente. Uma série de luzes coloridas passava pelo chão na altura da cabeça de um homem, e a risada estava de volta, mais assustadora a ponto de gelar os ossos do que antes.
Buttle apareceu ao lado de Keren, seu rosto desfigurado com medo. Ele apontou sem dizer uma palavra para a noite conforme o dragão reapareceu, em seguida, um leão enorme, então o guerreiro mais uma vez, todos intercalados com imagens do rosto demoníaco que subia no ar e desaparecia.
— É feitiçaria! — Gritou. — Você disse que não havia feiticeiro! Olhe para isto, seu idiota!
— Controle-se! — Keren rosnou para ele. — É um truque! Não é nada, só um truque!
— Um truque? — Buttle respondeu. — Eu sei o que é feitiçaria quando vejo!
Keren agarrou o homem e o sacudiu.
— Controle-se! — Disse ele ferozmente. — Você não pode ver? Isto é o que Barton quer! Eles estarão vindo para nós a qualquer momento, então leve os homens para as muralhas! — Ele fez um gesto para as sentinelas encolhidas, agrupadas em medo e ficando tão longe da muralha quanto podiam.
Mais e mais homens tinham corrido das muralhas leste e oeste, até ver a cena aterrorizante fora do castelo. Como Buttle hesitou, meio aceitando que Keren poderia estar certo, eles ouviram uma voz gritando:
— Aqui vêm eles!

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