domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 30

O barulho do sul lhes dizia que Malcolm tinha começado a distração que tinham planejado. Ele tinha pelo menos cinquenta de seu povo em volta nas árvores, homens, mulheres e crianças, bem longe da vista do castelo, mas ainda ao alcance da voz. Quando ele lhes deu o comando, eles começaram a uivar, gritando, cantando e batendo pedaços de metal em metal, panelas de cozinha e potes, na sua maioria. Era um pensamento preocupante para guerreiros como Horace e os escandinavos perceberem que o choque de espada na espada, aclamado nas canções ao longo dos anos pelos bardos e poetas, soava praticamente igual ao choque de concha de servir na panela.
Independentemente da sua origem, o ruído serviu para o que eles esperavam, chamando a atenção dos defensores. Eles podiam ver os homens na muralha oeste correndo em direção ao sul, quando tentavam ver se havia um grande ataque se desenvolvendo.
— Certo! — Will chamou. — Vamos!
Agachado, ele moveu para baixo do abrigo do carro, seguido de Horace e dos quatro escandinavos, que tomaram o seu lugar nos eixos. Ele os verificou rapidamente, certificando-se que todos eles tinham seus escudos pendurados nas costas. Os escandinavos, contentes que a espera finalmente tinha chegado ao fim, sorriram para ele quando ele sinalizou para frente.
— Vai! — Gritou ele, e eles colocaram o seu peso para os eixos do carro.
Não houve necessidade de Will e Horace ajudarem com esta tarefa. Os quatro corpulentos escandinavos poderiam controlá-lo facilmente, para que os dois araluenses se posicionassem na frente do carro, onde era mais baixo. Como os escandinavos estavam fazendo o trabalho duro, era justo que estes ficassem na parte maior.
O carro começou a andar, lentamente no início conforme os escandinavos forçavam através da tela fina de vegetação remanescente. Will e Horace passeavam com eles, agachando-se abaixo do teto inclinado. Então, o carrinho estourou através do último emaranhado e eles estavam fora da vegetação rasteira. Os escandinavos caíram com a sacudida, um deles falando o tempo para os outros, e o carro, com a escada de escalar fixada em cima do carrinho começou a rolar em um ritmo acelerado, balançando e sacudindo no terreno irregular indo para o castelo.
Mesmo com a distração de Malcolm, eles não podiam esperar passarem despercebidos por muito tempo, e Will logo ouviu gritos de alarme assustados das muralhas à frente deles. Quase imediatamente, houve um estalo sólido quando um míssil bateu contra as tábuas do teto acima deles. Era um dardo de besta mordendo a dura madeira. O impacto inicial foi seguido em rápida sucessão por mais três. Depois, houve um longo intervalo e padrão se repetiu.
Então, parecia que havia apenas quatro arqueiros nas muralhas ocidentais. O padrão de quatro tiros repetia-se depois de vinte ou trinta segundos, o tempo que seria necessário para recarregar uma besta padrão. Era a principal desvantagem da arma, especialmente quando comparado com a estonteante velocidade que um arco longo de um arqueiro qualificado como Will poderia alcançar.
A besta tinha um estribo na parte frontal. Quando o dardo era lançado, o arqueiro tinha que abaixar o arco no chão, colocar um pé no estribo e alçar a corda para trás com as duas mãos, dobrando as armas pesadas do arco até a corda envolvida no mecanismo de gatilho. Só então ele poderia carregar outro míssil, trazer de volta para o ombro e atirar novamente.
Will recuou quando o último dardo da segunda rajada bateu na madeira a apenas alguns centímetros de sua cabeça. Então ele olhou através de um orifício cuidadosamente preparado, grande o suficiente para ver através, mas não grande o suficiente para admitir um tiro de sorte de uma das bestas.
— Uns poucos metros mais! — advertiu aos escandinavos.
Ele queria estar o mais próximo possível para que ele e Horace não tivessem muito terreno para cobrir quando montassem seu ataque real mais tarde na noite. Mas se chegasse muito perto, estaria expondo os escandinavos a um maior risco, quando eles fizessem o seu caminho de volta para a linha das árvores. Estavam quase pela metade do caminho. Ele prendeu a corda que liberaria a roda à esquerda e esperou mais quatro passos antes de puxar.
O pino que segurava a roda sobre o eixo se soltou. A roda continuou girando por outro metro ou dois, mas conforme continuava, ela estava girando a caminho do fim do eixo até que finalmente girou completamente fora, deixando o lado esquerdo do carrinho batendo no chão.
Eles ouviram as comemorações nas muralhas muito claramente, aplausos e gritos de escárnio quando os defensores viram o ataque virar nada. Dois dardos a mais se chocaram com o carro conforme ele parou. Bom, pensava Will, isso significava apenas duas das bestas estavam carregados agora.
— Vão! — ele ordenou urgentemente aos escandinavos.
Eles não precisaram de nenhum incentivo adicional. Se arrastando sob o carro inclinado, eles invadiram o campo aberto e correram para o abrigo das árvores, espalhando-se conforme corriam. Mais tiros das muralhas, e mais vaias conforme os defensores viram os seus supostos agressores vergonhosamente correr por suas vidas.
Ele viu outro dardo acertar o escudo que protegia um dos escandinavos. A força do míssil atingindo seu escudo o fez tropeçar. Will respirou uma oração silenciosa de agradecimento que não existiam arqueiros com arcos longos ou arcos recurvo sobre as muralhas do castelo.
A besta era mais fácil para apontar e atirar do que o arco e necessitava de menos treinamento para desenvolver a habilidade instintiva que ele, e todos os arqueiros, possuíam. Era relativamente simples pegar um soldado não qualificado e treiná-lo para usar uma besta em questão de semanas. Mas você pagaria o preço da facilidade com um ritmo muito mais lento de tiros e um alcance reduzido.
Ele deu um suspiro de alívio quando os quatro homens conseguiram chegar às árvores incólumes. Instalou-se no chão frio e úmido à sombra inclinada do carro e sorriu para Horace.
— Por enquanto tudo certo — disse ele calmamente. — Você poderia aproveitar e ficar confortável também. Agora teremos que esperar até escurecer.
Horace, agachou-se sob a parte inferior do carro e revirou os olhos.
— O meu passatempo favorito — disse ele. — Você trouxe algo para comer?


À medida que a tarde avançava no início da noite, a vista do carro em ruínas gradualmente perdeu sua novidade para os homens nas muralhas.
Keren havia sido chamado para ver o veículo estranho. Ele franziu ao vê-lo e em seguida balançou a cabeça.
— É uma distração — disse ele. — Eles não iriam fazer o ataque principal com apenas uma escada.
Quanto mais pensava nisso, mais ele se convenceu de que estava certo. A muralha oeste, onde as árvores estavam mais próximas do castelo, era a direção óbvia para um assalto. E desde que era a mais óbvia, tornou-se menos provável que os atacantes iriam escolhê-la. A tentativa com o carrinho era um blefe, e não uma forma muito inteligente, uma vez que era fácil ver que um carro e uma escada não seriam eficazes contra as muralhas. Assaltos como esse eram um jogo de adivinhar e contra adivinhar, blefar e contra blefar. Seus instintos lhe disseram que o carro estranho foi uma distração.
Quanto mais esperou, mais se convenceu de que o ataque viria do sul, ou talvez na muralha leste. Lá era o ponto mais distante da muralha oeste depois de tudo. Mas o sul parecia o mais provável. O inimigo já tinha estado ativo lá, e tinha a sensação de que eles iriam tentar embalá-lo em um falso senso de confiança, com mais algumas demonstrações que não dariam em nada, em seguida, lançar o ataque real daquela direção.
Ele empurrou um polegar no carro, inclinado para um lado a vinte metros do castelo.
— Coloque fogo — ele disse ao sargento comandante da muralha oeste. — E mantenha um olho sobre as árvores. Mas eu não acho que esse é o lugar aonde eles vão para nós. Esteja pronto para mudar seus homens para a muralha sul, se precisarmos de você lá.


No espaço confinado, inclinando-se sob o carro estragado, Horace se contorcia para encontrar uma posição mais confortável.
Will, olhando para ele, balançou a cabeça em desaprovação.
— Tente manter-se parado — disse ele. — Se você continuar pulando desse jeito, você vai derrubar o carrinho de vez.
Horace fez uma careta para ele.
— É tudo muito bom para você — disse ele. — Você é treinado para sentar-se parado por horas a fio enquanto as formigas rastejam em você e seus músculos têm cãibras.
— Se eu consigo fazer isso, você consegue fazer — disse Will inutilmente.
Ele observou pelo olho mágico, mais uma vez estudando o castelo. Ele podia contar lá fora três dos defensores andando na direção do carro, e viu a fumaça de um braseiro ao lado deles.
Estranho, pensou ele. O dia estava frio, mas não tão frio que fosse precisar de um fogo nas muralhas para mantê-los quentes, pelo menos não até o anoitecer.
— O que está acontecendo? — perguntou Horace.
Ele estava aborrecido e desconfortável, e queria alguma forma de distração. Will acenou a ele por silêncio. Estavam apenas vinte metros ou mais das muralhas, e era possível que eles pudessem ser ouvidos.
— Fale baixo — disse ele.
Horace revirou os olhos para o céu novamente e continuou num sussurro rouco.
— Está tudo certo para você. Você tem o olho mágico — disse ele.
Will deu-lhe outro olhar de longo sofrimento.
— Deve ser horrível ser você — ele disse — coberto de formigas, em agonia de grampear os músculos e nem mesmo um olho mágico para olhar em frente.
— Oh, cale a boca — Horace disse.
Ele não conseguia pensar em uma resposta espirituosa.
Eles foram interrompidos pelo impacto de outro dardo batendo na madeira sobre suas cabeças.
Will franziu a testa, perguntando por que os defensores estavam desperdiçando tempo e munição atirando no carro encalhado. A resposta veio a ele alguns segundos mais tarde.
Horace, que havia se encolhido violentamente com o impacto inesperado, cheirando o ar.
— Sinto o cheiro de fumaça — disse ele.
Will se esticou mais uma vez para olhar pelo olho mágico. Ele podia ver as muralhas, com o mesmo grupo de homens observando o carro intensamente. Então ele viu um deles levantar uma besta e atirar novamente.
— Aqui vem outra — advertiu o companheiro.
O dardo voou através do ar em direção a eles, arrastando uma fina fita de fumaça por trás. Segundos depois, houve outro baque que atingiu o telhado de tábuas. Agora, o cheiro de fumaça era mais forte. Através do olho mágico, Will pôde ver um lamber de chama.
— Eles estão atirando flechas de fogo — disse calmamente. — Tentando queimar o carrinho.
— O quê? — Horace empurrou para se levantar, e sua cabeça bateu contra um dos quadros de apoio sobre o carro. — É melhor sairmos daqui!
— Relaxe — Will disse a ele. — Eu encharquei as tábuas com água antes de virmos pra cá.
Horace recostou-se em dúvida. Lembrou-se agora que durante dez minutos antes de terem deixado o abrigo das árvores, os escandinavos tinham derramado água e neve derretida sobre as pranchas.
— Além disso — Will continuou — você já tentou colocar um pedaço de madeira em chamas, apenas atirando uma madeira em cima dele? As probabilidades são as setas que irão queimar a madeira um pouco, mas vai parar de queimar antes que o fogo pode realmente tomar posse.
— As probabilidades são? — Horace repetiu. — Quais seriam essas probabilidades?
Will o considerou pacientemente.
— O que você quer fazer, Horace, saltar e tirar fora as flechas e, em seguida jogar para os homens nas muralhas?
Horace parecia desconfortável, percebendo que ele poderia ter sido prematuro em sua reação.
— Bem, não — disse ele. — Mas eu certamente não quero ser apanhado embaixo de um carrinho queimando também.
— O carro não vai queimar. Confie em mim — Will disse a ele.
Então, vendo que as duas últimas palavras não tiveram absolutamente nenhum efeito sobre Horace, ele continuou.
— E mesmo se isso acontecer, nós vamos ter tempo de sobra para sair daqui. Mas não há nenhum motivo para correr agora. Como é que nos sentiremos se desistíssemos de nosso plano e corrêssemos pra longe e, em seguida, sentássemos nas árvores vendo o fogo acabar sem queimar?
— Bem, talvez... — Horace disse, um pouco amolecido pela lógica de Will e pelo fato de que o cheiro da fumaça não havia ficado mais forte.
Ele colocou a mão contra as tábuas, abaixo do local onde uma das flechas tinha atingido. A madeira não estava nem um pouco mais quente do que em outras partes do telhado.
Outros dois dardos queimados bateram no carrinho nos próximos minutos. Mas, como os dois primeiros, eles logo abafaram, causando nada, além de esquentar a superfície. Eventualmente, vendo que as flechas de fogo não fariam o trabalho, os defensores nas muralhas desistiram da tentativa.
A tarde avançava, e a luz começou a desaparecer enquanto o sol de inverno aguado afundava abaixo do nível das árvores. Horace puxou seu manto apertado sobre ele. Fazia frio aqui sentado imóvel por horas a fio.
— Que horas são? — Horace perguntou.
— Cerca de cinco minutos depois que a última vez que você perguntou — Will lhe disse. — Você está ficando tão ruim quanto Gundar, com seu constante “Estamos quase lá?”
— Não posso ajudá-lo — Horace resmungou. — Eu apenas não gosto de ficar sentado sem fazer nada.
— Tente compor um poema — Will disse sarcasticamente, desejando que seu amigo calasse a boca.
— Que tipo de poema? — Horace perguntou.
— Um limerique — Will lhe disse, rangendo os dentes. — Isso pareceria com sua velocidade.
— Sim, boa ideia — disse Horace, animando um pouco. — Isso vai levar minha mente fora das coisas.
Ele franziu pensando totalmente, olhando para o céu em busca de inspiração. Seus lábios se moviam silenciosamente por alguns minutos, em seguida, a carranca se aprofundou.
— Eu não tenho nada para anotar o poema — disse ele.
Will, que havia conseguido cochilar no silêncio, e foi acordado ao som da voz de Horace.
— O quê? — ele falou. — Escrever o quê?
— Meu limerique. Se eu não anotá-lo, eu poderia esquecê-lo.
— Já pensou nele?
— Bem, eu tenho a primeira linha — disse Horace defensivamente.
Escrever o limerique estava provando ser mais difícil do que ele esperava.
— Era uma vez um castelo chamado Macindaw... — declamou. — Essa é a primeira linha.
— Certamente você pode se lembrar disso? — falou Will.
Horace assentiu de acordo relutante.
— Bem, sim. Mas quando eu chegar a dois ou três ou quatro linhas trabalhadas, vai ficar mais difícil. Talvez eu pudesse lhe dizer para que possa recordá-los? — ele sugeriu.
— Por favor, não — disse Will, mordendo as palavras.
Horace encolheu os ombros.
— Muito bem, se você optar por não ajudar.
— Eu faço.
As respostas de Will, Horace observou, estavam se tornando cada vez mais curtas.
— Tudo bem, então — disse ele, um pouco de mau humor.
Seus lábios se moviam mais uma vez, parando e reiniciando. Fechou os olhos para se concentrar. Isso durou uns cinco minutos, e quanto mais Will tentava ignorá-lo, mais ele era atraído pelas contorções faciais de Horace. Finalmente, o guerreiro de ombros largos percebeu que seu amigo estava olhando para ele.
— O que rima com Macindaw? — perguntou.

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