sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 3 - A lua nunca brilha sem me fazer sonhar

O sótão do Instituto estava mal iluminado. Havia duas claraboias no teto, mas tio Arthur as cobriu com papel pardo quando trouxe os livros e papéis para esta sala, dizendo que temia que a luz do sol danificasse seus delicados instrumentos de estudo.
Arthur e o irmão, Andrew, pai de Julian, foram criados por pais obcecados pelo período clássico: com grego antigo e latim, com contos de heróis, mitologia e história de Roma e da Grécia.
Julian cresceu ouvindo as histórias da Ilíadae da Odisseia, dos Argonautas e da Eneida, de homens e monstros, deuses e heróis. Mas enquanto Andrew tinha apenas apreciação pelos clássicos (uma apreciação que, sabidamente, o levou a dar aos filhos nomes em homenagem a imperadores e rainhas – Julian ainda era grato á mãe pelo fato de ser Julian, e não Julius, como seu pai queria), Arthur era obcecado por eles.
Ele trouxe centenas de livros da Inglaterra, e todos os anos desde que viera para cá, tinha enchido a sala com outras centenas mais. Eram organizados segundo um sistema que só Arthus entendia – Antígona, de Sófocles, sobre a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, várias monografias e livros de capa vermelha, as páginas individuais espalhadas cuidadosamente sobre várias superfícies. Havia provavelmente seis mesas na sala: quanto uma ficava cheia demais de papéis, pedaços de cerâmica e estátuas, o tio Arthur simplesmente comprava outra.
Ele estava sentado a uma das que ficavam no lado oeste da sala. Através de um rasgo no papel pardo que cobria a janela próxima, Julian viu um pedacinho de oceano azul. As mangas do velho casaco de Arthur estavam arregaçadas. Sob as bainhas esfarrapadas das calças, seus pés calçavam pantufas velhas. A bengala, que ele raramente usava, fora apoiada contra uma parede.
— Aquiles tinha uma fôrminx — murmurava ele — com uma barra de prata; Hércules aprendeu a tocar cítara. Ambos os instrumentos foram traduzidos como “lira”, mas será que são a mesma coisa? Se são, por que duas palavras diferentes para descrevê-los?
— Olá, tio — disse Julian. Ele levantou a bandeja que carregava, na qual tinha colocado um jantar preparado apressadamente. — Estamos de volta.
Arthur se virou lentamente, como um cachorro velho inclinando a cabeça cuidadosamente ao ouvir um grito.
— Andrew, que bom vê-lo — falou. — Estava pensando sobre os ideais gregos do amor. Ágape, é, claro, o mais elevado amor, o amor que os deuses sentem. E Eros, o amor romântico; Philia, o amor entre amigos e Storgé, o amor dos familiares. O que você diria que nossos parabataisentem? É mais próximo de Philia ou Ágape, considerando que Eros, é claro, é proibido? E se for, somos agraciados com algo, na condição de Nephilim, que mundanos jamais podem entender, então como os gregos sabiam? Um paradoxo, Andrew...
Julian suspirou. A última coisa que ele queria fazer era conversar sobre o tipo de amor que parabatai sentiam um pelo outro. E ele não queria ser chamado pelo nome do pai morto. Desejou estar em outro ligar, em qualquer lugar, mas entrou assim mesmo e foi para onde a luz estava mais forte, onde o tio poderia ver o seu rosto.
— É Julian. Eu disse que voltamos. Todos nós. Tavvy, Dru, os gêmeos...
Arthur o encarou com os olhos azul-esverdeados confusos, e Julian lutou contra a sensação de coração apertado. Ele nem queria ter vindo ali; queria ter ido com Emma. Mas ele notou pela última mensagem de Diana que uma visita ao sótão seria necessária assim que chegasse.
Sempre foi obrigação dele. Sempre seria.
Ele colocou a bandeja na mesa, com cuidado, para evitar as pilhas de papel. Havia uma pilha de cartas a serem enviadas e anotações sobre patrulhas ao lado do cotovelo de Arthur. Não era enorme, mas não tão pequena quanto Julian gostaria que fosse.
— Eu trouxe o jantar para você.
Arthur olhou para a bandeja de comida como se fosse um objeto distante, mas discernível através de névoa, e franziu o cenho. Era uma tigela de sopa, rapidamente esquentada na cozinha, agora esfriando no ar frio do sótão. Julian tinha arrumado os talheres cuidadosamente em um guardanapo e colocou uma cesta de pães na bandeja, apesar de saber que, quando voltasse pela manhã para recolher a bandeja, a comida estaria praticamente intocada.
— Acha que é uma pista? — perguntou o tio Arthur.
— Se eu acho que é uma pista?
— A cítara e a fôrminx. Eles se encaixam em um padrão, mas é um padrão tão amplo... — Tio Arthur se inclinou para trás com um suspiro, encarando a parede diante dele, onde centenas de papéis cobertos por anotações estavam grudados ou pregados. — A vida é curta, e a sabedoria é longa demais para ser aprendida — sussurrou.
— A vida não é tão curta assim — retrucou Julian. — Ou, pelo menos, não precisa ser. — Tinha sido para seus pais, supunha. Frequentemente o era, para Caçadores de Sombras. Mas o que poderia ferir Arthur, escondido naquele sótão cheio de coisas? Ele provavelmente viveria mais que todos eles.
Pensou em Emma, nos riscos que ela corria, nas cicatrizes que ele via em seu corpo quando iam nadar ou treinavam. Ela tinha essa característica, o sangue de Caçadores de Sombras que arriscavam suas vidas por várias gerações, que viviam do oxigênio da adrenalina e da luta. Mas afastou o pensamento dela morrendo como aconteceu com seus pais; não era um pensamento que ele fosse capaz de suportar.
— Nenhum homem sob o céu vive duas vezes — murmurou Arthur, provavelmente citando alguma coisa. Normalmente citava, ele estava olhando para a mesa outra vez, e parecia perdido em pensamentos. Julian se lembrou de anos antes e do chão do sótão coberto por impressões em sangue das mãos de Arthur. Foi na noite em que chamou Malcolm Fade pela primeira vez.
— Se já tem tudo o que precisa, tio — disse Julian, começando a se afastar.
Arthur levantou a cabeça. Por um instante, seu olhar estava claro e focado.
— Você é um bom menino — ele disse a Julian. — Mas isso não vai ajudá-lo no final.
Julian congelou.
— Quê?
Mas Arthur já tinha voltado para os papéis.
Julian virou e desceu pelos degraus do sótão. Eles rangeram de forma familiar sob seus pés. O Instituto de Los Angeles não era particularmente antigo, certamente não tanto quanto os outros Institutos, mas alguma coisa no sótão parecia velha, empoeirada e destoava do restante do lugar.
Ele chegou à porta na base da escada. Por um instante, se apoiou contra a parede, no escuro e no silêncio.
Silêncio era algo que ele raramente obtinha, a não ser que estivesse indo dormir. Normalmente estaca cercado pelo constante barulho dos irmãos. Eles sempre estavam em volta, querendo atenção, precisando de ajuda.
Também pensou na casa na Inglaterra, no zumbido quieto das abelhas no jardim, no silêncio sob as árvores. Tudo verde a azul, tão diferente do deserto, com aquele marrom seco e dourado murcho. Ele não queria ter deixado Emma, mas ao mesmo tempo achou que isso pudesse ajudar. Como um viciado se afastando do vício.
Chega. Não adiantava pensar em certas coisas. No escuro e nas sombras onde moravam os segredos, era ali que Julian sobrevivia. Foi como conseguiu durante anos.
Respirando fundo, ele voltou para o corredor.


Emma estava na praia. Não havia mais ninguém ali; estava completamente deserta. Vastos terrenos de areia se espalhavam por todos os lados, brilhando com pontos de mica sob o sol coberto por nuvens.
O mar estava diante dela. Era tão lindo e mortal quanto as criaturas que o habitavam; os grandes tubarões brancos, com suas laterais espessas e claras, as orcas pretas e brancas, que pareciam uma espreguiçadeira do período eduardiano. Emma olhou para o oceano e sentiu o que sempre sentia: uma mistura de desejo e pavor, uma vontade de se jogar no frio verde, semelhante ao desejo de dirigir muito rápido, pular muito alto, lutar sem armas.
Tânato, Arthur diria. O desejo do coração pela morte.
O mar soltou um grande grito, como o grito de um animal, e começou a recuar. Afastou-se dela, deixando peixes moribundos se debatendo atrás, montes de alga, ruínas de navios naufragados, detritos do fundo do mar. Emma sabia que deveria correr, mas ficou paralisada enquanto a água se acumulava em uma torre, uma parede imensa com laterais claras – ela pôde ver golfinhos enormes e tubarões se debatendo, presos nas laterais ferventes. Ela gritou e caiu de joelhos ao ver os corpos dos pais, presos na água que se elevava, como se eles estivessem presos em um enorme caixão de vidro, sua mãe, com o corpo molenga se contorcendo, a mão de seu pai se esticando para ela através da espuma e das bolhas das ondas...
Emma se sentou assustada, alcançando Cortana, que estava na cabeceira. Sua mão escorregou, no entanto, e a espada caiu no chão. Ela se inclinou para o abajur e o acendeu.
Uma luz amarela calorosa preencheu o quarto. Ela olhou em volta, piscando. Tinha caído no sono de pijama, por cima da coberta.
Jogou as pernas para a beirada da cama, esfregando os olhos. Emma tinha se deitado para esperar por Jules, com a porta do armário aberta e a luz acesa.
Ela queria mostrar as novas fotos para Julian. Queria contar tudo para ele, ouvir a voz dele: calma, familiar, carinhosa. Ouvi-lo ajudá-la a descobrir o que fazer em seguida.
Mas Julian não apareceu.
Ela se levantou, pegando um casaco na parte de trás de uma cadeira. Uma rápida olhada para o relógio na cabeceira a informou de que eram quase três da manhã. Ela fez uma careta e saiu para o corredor.
Estava escuro e silencioso. Nenhuma listra de luz sob as portas indicava alguém acordado. Ela caminhou pelo corredor para o quarto de Julian, abriu a porta e entrou.
Quase esperava que ele não estivesse ali. Achou que talvez tivesse ido para o estúdio – certamente tinha sentido saudade de pintar enquanto esteve fora – mas ele estava espalhado na cama, dormindo.
O quarto estava mais claro do que o corredor lá fora. A janela tinha vista para a lua, que se pendurava sobre as montanhas, e a luminosidade branca emoldurava em prata tudo no quarto. Os cabelos negros e cacheados de Julian estavam espalhados sobre o travesseiro, os cílios escuros completamente pretos. Sombreavam as maçãs do rosto, finos e suaves como fuligem.
Ele esticara o braço por trás da cabeça e com isso, a camisa estava levantada. Ela desviou o olhar da pele exposta sob a bainha e foi até a cama, estendendo o braço para tocá-lo no ombro.
— Julian — chamou suavemente. — Jules.
Ele se mexeu, abrindo os olhos lentamente. Ao luar eles pareciam cinza--prateados, como os de Ty.
— Emma — falou ele, a voz rouca de sono.
Pensei que você fosse até o meu quarto, ela queria dizer, mas não conseguiu; ele parecia tão cansado que derreteu seu coração. Ela esticou a mão para tirar o cabelo dos olhos dele, parou, e, em vez disso, o tocou no ombro. Ele rolou para o lado, ela reconheceu a camiseta desbotada e a calça de moletom que que ele vestia.
Os olhos dele estavam começando a fechar outra vez.
— Jules — falou impulsivamente. — Posso ficar aqui?
Era o código deles, a versão abreviada de um pedido mais longo: fique e me faça esquecer os pesadelos. Fique e durma ao meu lado. Fique e espante os  sonhos ruins, as lembranças de sangue, de pais mortos, de guerreiros Crepusculares com olhos como carvões mortos.
Era um pedido que ambos já tinham feito, mais de uma vez. Desde que eram pequenos, deitavam na cama um do outro para dormir. Emma uma vez imaginou os sonhos se misturando enquanto adormeciam juntos, compartilhando pedacinhos dos mundos adormecidos um do outro. Era uma das coisas sobre parabatai que transformavam isso na magia que ela tanto desejou: de certa forma, significava que a pessoa nunca estaria sozinha. Acordada e dormindo, na batalha e fora dela, sempre teria alguém ao seu lado, ligada a sua vida, suas esperanças e felicidade, um apoio quase perfeito.
Ele se afastou para o lado, com os olhos semiabertos, a voz abafada.
— Fique.
Ela entrou embaixo das cobertas ao lado dele. Julian abriu espaço para ela, o corpo comprido dobrando e desdobrando. Na parte afundada que o corpo dele deixou, os lençóis estavam mornos e com cheiro de cravo e sabão. Ela continuava tremendo. Aproximou-se mais dele, sentindo o calor irradiando. Ele dormia de costas, com um braço dobrado atrás da cabeça, a outra mão esticada sobre a barriga. As pulseiras brilhavam à luz da lua. Ele a encarou – Emma sabia que ele a tinha visto chegando mais para perto – e então os olhos dele brilharam antes de ele os fechar deliberadamente, os cílios escuros caindo sobre as maçãs do rosto.
A respiração de Julian começou a se acalmar quase imediatamente. Ele estava dormindo, mas Emma ficou acordada, olhando para ele, para o peito subindo e descendo, um metrônomo firme.
Eles não se tocaram. Raramente o faziam quando dormiam na mesma cama. Quando crianças, brigavam pelas cobertas, às vezes, empilhavam livros entre eles para resolver discussões a respeito de quem estava invadindo o espaço de quem. Agora já tinham aprendido a dormir no mesmo lugar, mas mantinham a distância dos livros entre si, urna lembrança compartilhada.
Ela podia ouvir o mar batendo ao longe; podia ver a parede verde de água do sonho subindo atrás de suas pálpebras. Mas tudo parecia distante, a batida aterrorizante das ondas afogada pela respiração suave de seu parabatai.
Um dia ela e Julian estariam casados, com outras pessoas. Não poderiam mais pular para a cama um do outro. Não trocariam mais segredos à meia-noite. A intimidade não deixaria de existir, mas tomaria uma nova forma. Ela teria que aprender a conviver com isso.
Um dia, mas não ainda.


Quando Emma acordou, Julian não estava mais lá.
Ela se sentou meio grogue. A manhã já estava na metade, mais tarde do que ela costumava se levantar, e o quarto, iluminado po um tom de rosa e dourado. Os lençóis azuis de Julian e o cobertor se embolavam ao pé da cama. Quando Emma colocou a mão no travesseiro, ainda estava morno – ele provavelmente tinha acabado de sair.
Ela afastou os sentimentos de inquietação por ele ter saído sem dizer nada. Provavelmente não quis acordá-la; Julian sempre teve sono agitado, e o fuso horário certamente não ajudava. Dizendo a si mesma que não tinha nada de mais, ela voltou para o quarto, vestiu uma legging e uma camiseta, e calçou os chinelos.
Normalmente ela iria primeiro ao estúdio de Julian, mas deu para ver com um olhar através da janela que fazia um dia claro e esplendoroso de verão. O céu estava cheio de pinceladas leves de nuvens brancas. O mar brilhava, a superfície dançando com manchas douradas. Ao longe Emma notou pontinhos pretos que eram os surfistas boiando na superfície.
Ela sabia que ele sentia falta do mar – soube pelas breves e escassas mensagens de texto que ele mandou da Inglaterra. Ela cruzou o Instituto e percorreu a trilha que levava à estrada, depois a atravessou, evitando vans de surfistas e conversíveis luxuosos a caminho do Nobu.
Ele estava exatamente onde ela pensou que estaria ao chegar na praia: olhando a água e o sol, o ar salgado levantando seus cabelos e soprando a camiseta. Emma ficou imaginando há quanto tempo ele estaria ali, com as mãos nos bolsos da calça.
Ela deu um passo hesitante na areia úmida.
— Jules?
Ele se virou para olhar para ela. Por um instante pareceu confuso, como se estivesse olhando para o sol, apesar de estar acima deles – Emma podia sentir seu calor, vibrante e quente nas costas.
Ele sorriu. Uma onda de alívio passou por ela. Era o sorriso familiar de Julian, aquele que iluminava o seu rosto. Ela correu para a beira da água: a maré estava vindo, deslizando pela praia até as pontas dos sapatos do rapaz.
— Você acordou cedo — disse Emma, pisando nas poças na direção dele. A água formou pequenos caminhos prateados na areia.
— É quase meio-dia — falou ele. A voz soou normal, mas ele continuava parecendo diferente, estranhamente diferente: o formato do rosto, os ombros sob a camiseta. — Sobre o que você queria conversar comigo?
— Quê? — Emma foi pega de surpresa, tanto pela diferença dele, quanto pela súbita pergunta.
— Ontem à noite — explicou ele. — Você disse que queria conversar comigo. Que tal agora?
— Tudo bem. — Emma olhou para as gaivotas voando pelo alto. — Vamos sentar. Não quero me encharcar quando a maré subir.
Eles se sentaram mais afastados do mar, onde a areia estava aquecida pela luz do sol. Emma tirou os sapatos e enterrou os dedos do pé, deliciando-se com a sensação granulosa. Julian riu.
Ela o olhou de lado.
— Que foi?
— Você e a praia — disse ele. — Você ama a areia, mas detesta a água.
— Eu sei — retrucou Emma, arregalando os olhos para ele. — Não é irônico?
— Não é irônico. Ironia é o resultado inesperado de uma situação esperada. Esta é só uma das suas manias.
— Você me choca — disse Emma, pegando o telefone. — Estou chocada.
— Sarcasmo devidamente notado — rebateu ele, virando o telefone em sua mão direita.
As fotos de Cristina da noite anterior já tinham carregado enquanto ele passava os olhos por elas, Emma explicou que seguiu uma dica de Johnny Rook até o Sepulcro, a maneira como encontrou o corpo e a bronca de Diana após a visita de Rook ao Instituto. Enquanto falava, relaxou, e suas novas percepções estranhas sobre Julian desapareceram. Isso era normal, eram eles como sempre foram: conversando, ouvindo, agindo como parabatai.
— Sei que são as mesmas marcas — ela concluiu. — Não estou louca, estou?
Julian olhou para ela.
— Não — disse ele. — Mas Diana acha que, se você investigar isso, vai comprometer a boa vontade da Clave em permitir que Helen volte?
— É. — Emma hesitou, em seguida, esticou o braço e pegou a mão dele. A pulseira de vidro do mar no pulso esquerdo tilintou musicalmente. Ela sentiu os calos dele em seus dedos, tão familiares quanto um mapa do próprio quarto. — Eu jamais faria algo para machucar Helen, Mark ou você — emendou ela. — Se você achar que Diana tem razão, não farei nada. — Ela engoliu em seco. — Vou deixar quieto.
Julian olhou para os dedos entrelaçados dos dois. Ele estava parado, mas a pulsação tinha acelerado na base da garganta; ela pôde ver batendo, forte. Deve ter sido a menção à irmã dele.
— Já se passaram cinco anos — disse ele, e puxou a mão de volta. Julian não a arrancou da mão dela, nem nada parecido, apenas a retraiu ao se virar para a água. Um movimento completamente natural, mas a deixou inquieta. — A Clave não cedeu nem um pouco em relação a permitir o retorno de Helen. Não cedeu quanto a procurar Mark. E também não cedeu em relação a cogitar que Sebastian não tenha matado seus pais. Me parece errado sacrificar a possibilidade de descobrir o que aconteceu com seus pais por uma esperança vã.
— Não diga que é vã, Jules...
— Há também urna outra forma de se pensar nisso — disse ele, e ela praticamente viu as peças girando no cérebro veloz de Julian. — Se você resolver essa questão, se nós resolvermos, a Clave ficaria em dívida conosco. Concordo com você que não importa quem tenha matado seus pais, não foi Sebastian Morgenstern. Estamos procurando um demónio ou alguma outra força que tem o poder de assassinar Caçadores de Sombras e escapar ileso. Se derrotarmos algo assim...
A cabeça de Emma estava começando a doer. O elástico apertava seu rabo de cavalo; ela levantou a mão para soltá-lo.
— Aí nos concederiam privilégios, você quer dizer? Porque todos estariam vendo?
— Teriam que fazer isso — respondeu Julian. — Se todos soubessem o que fizemos. E poderíamos nos certificar de que todos soubessem. — Ele hesitou. — Nós temos contatos.
— Não está falando de Jem, está? — perguntou Emma. — Porque não sei como entrar em contato com ele.
— Não estou falando de Jem e Tessa.
— Então Jace e Clary — emendou a menina.
Jace Herondale e Clary Fairchild controlavam o Instituto de Nova York. Eram os Caçadores de Sombras mais jovens a deterem uma posição tão importante. Emma era amiga de Clary desde os 12 anos de idade, quando Clary a seguiu para fora do Salão do Conselho em Idris, a única pessoa em toda a Clave, ao que parecia, que se importava com o fato de que ela havia perdido os pais.
Jace provavelmente era um dos dos melhores Caçadores de Sombras que já tiveram, apenas por suas proezas em combate. Clary nasceu com um talento diferente: ela conseguia criar símbolos Era algo que nenhum Caçador de Sombras jamais conseguiu fazer. Uma vez ela explicou a Emma que não conseguia forçar os símbolos a saírem dela; eles saiam ou não. Ao longo anos, ela acrescentou diversos símbolos úteis ao Livro Gray: um para respirar embaixo d'água, outro para correr longas distâncias e um bastante controverso para fins anticoncepcionais que, apesar de tudo, se tornou um dos mais utilizados do dicionário de símbolos.
Todos conheciam Jace e Clary. Era assim que funcionava quando você salvava o mundo. Para a maioria das pessoas, eles eram heróis – para Emma, eram pessoas que lhe estenderam a mão na pior fase de sua vida.
— É. — Julian esticou o braço e coçou a própria nuca. Ele parecia cansado. Havia um leve brilho na pele sob seus olhos, como se estivesse esticada por exaustão. Ele mordeu os lábios de nervoso, como sempre fazia quando estava ansioso ou inquieto. — Quero dizer, eles são dois dos diretores de Instituto mais jovens de todos os tempos. E veja o que a Clave fez por Simon, e por Magnos e Alec. Quando você é um herói, fazem muito por você. — Julian se levantou, e Emma se ergueu com ele, tirando o elástico do rabo de cavalo. O cabelo se soltou, caindo em ondas pelos ombros e pelas costas. Julian olhou rapidamente para ela, em seguida desviou o olhar.
— Jules. — Ela começou.
Mas ele já tinha virado as costas, voltando pela estrada.
Ela enfiou os pés nos sapatos e o alcançou onde a areia subia para o pavimento.
— Está tudo bem?
— Claro. Tome, desculpa, esqueci de devolver. — Ele entregou o telefone a Emma. — Olha, a Clave faz as próprias regras. E vive pelas regras. Mas isso não significa que, com a pressão correta, a regra não mude.
— Você está sendo enigmático.
Ele sorriu, os cantos dos olhos enrugando.
— Eles não gostam de deixar Caçadores de Sombras jovens como nós se envolverem com questões sérias. Jamais gostaram. Mas lace, Clary, Alec e Isabelle salvaram o mundo quando tinham a nossa idade. Foram honrados por isso. Resultado: é isso que faz com que mudem de ideia.
Tinham chegado à estrada. Emma levantou o olhar para as colinas. O Instituto empoleirava-se sobre uma falésia baixa na estrada da costa.
— Julian Blackthorn — anunciou Emma enquanto atravessavam a rua. — Seu revolucionário.
— Então vamos investigar, mas discretamente — disse Julian. — Primeiro passo, comparar as fotos do corpo que você encontrou com as fotos dos corpos dos seus pais. Todo mundo vai querer ajudar. Não se preocupe.
Estavam na metade do caminho para a estrada do Instituto. Mesmo àquela hora havia trânsito, mundanos indo o centro trabalhar. O sol brilhava em seus para-brisas.
— E se descobrirmos que as marcas não passam de bobagens? E for só algum lunático aleatório em uma onda de assassinatos?
— Não pode ser uma onda. Ondas acontecem de uma vez, mas em lugares diferentes. Tipo, se você vai de um lugar para o outro atirando em pessoas, isso é uma onda.
— Então o que é isso? Assassinato em massa?
— Assassinatos em massa também acontecem ao mesmo tempo, no mesmo lugar. — Julian respondeu com segurança, com o mesmo tom que utilizava para dizer a Tavvy que ele não podia comer cereal com açúcar no café da manhã. — Definitivamente é um assassino serial. Isso acontece quando os assassinatos são espaçados ao longo do tempo.
— É perturbador que você saiba disso — comentou Emma.
Na frente do Instituto, na beira da falésia, havia um trecho de gramado seco pelo sol, cercado por grama marinha e vegetação. A família passava pouco tempo lá: muito perto da estrada, sem sombra e cheio de plantas que espetavam.
— Dru está com mania de crimes agora — falou Jules. Tinham chegado à escadaria do Instituto. — Você não acreditaria o quanto ela me falou sobre  ocultar um cadáver.
Emma o ultrapassou, parou três degraus acima de Julian e se virou para olhar para ele.
— Estou mais alta do que você — anunciou.
Era uma brincadeira que faziam quando pequenos, Emma sempre jurando que estava mais alta do que ele, até finalmente desistir quando ele fez 14 anos e espichou 12 centímetros.
Julian olhou para ela. O sol brilhava diretamente nos olhos dele, cobrindo o azul-esverdeado com dourado, deixando-os parecidos com a pátina que brilhava no vidro romano que Arthur colecionava.
— Em — falou ele. — Por mais que a gente brinque, você sabe que levo isso a sério. São seus pais. Você merece saber o que aconteceu.
Ela sentiu um nó súbito na garganta.
— Estou com uma sensação diferente — sussurrou ela. — Sei quantas vezes pensei que tinha achado alguma coisa e acabou não sendo nada, ou segui uma pista falsa, mas isso parece diferente, Jules. Parece real.
O telefone dela tocou. Em desviou o olhar de Jules e o tirou do bolso. Quando viu o nome na tela, fez uma careta e guardou o aparelho de volta. Jules ergueu uma sobrancelha, mas a expressão era neutra.
— Cameron Ashdown? — disse ele. — Por que você não atendeu?
— Não estou a fim. — As palavras saíram e quase a surpreenderam. Ela se perguntou por que não contava para ele. Eu e Cameron terminamos.
A porta da frente abriu com uma batida.
— Emma! Jules!
Eram Drusilla e Tavvy, ambos ainda de pijama. Tavvy trazia um pirulito em uma mão e o lambia. Ao ver Ernma, seus olhos brilharam e ele correu para ela.
— Emma! — falou por cima do doce.
Ela o puxou para perto e o abraçou, apertando até ele rir.
— Tavvy! — gritou Julian. — Não corra com o pirulito na boca. Você pode se engasgar.
Tavvy tirou o pirulito e ficou olhando como alguém olharia para uma arma carregada.
— E morrer?
— Terrivelmente — respondeu Julian. — Fatalmente, fatalmente morreria. — Ele olhou para Drusilla, que estava com as mãos nos quadris. O pijama preto era decorado por desenhos de serras elétricas e esqueletos. — E aí, Dru?
— Hoje é sexta-feira — disse Drusilla. — Dia de panqueca. Você se lembra? Você prometeu.
— Ah, certo, prometi. — Julian puxou afetuosamente uma das tranças da irmã. — Pode acordar Livvy e Ty, e eu...
— Eles já estão acordados — declarou a menina. — Estão na cozinha. Esperando. — Ela olhou fixamente para ele.
Julian sorriu.
— Muito bem, já estou indo. — Ele pegou Tavvy e o colocou na entrada. — Vocês dois vão para a cozinha tranquilizar os gêmeos antes que eles se desesperem e resolvam cozinhar sozinhos.
Eles saíram correndo, rindo. Julian olhou para Emma com um suspiro.
— Fui pirulitado — falou, apontando para onde Tavvy tinha conseguido deixar uma marca azul açucarada no colarinho da camisa.
— Distintivo de honra. — Emma riu. — A gente se vê na cozinha. Preciso de um banho. — Ela correu pela escada, parando na porta aberta a fim de olhar para ele. Emoldurados pelo céu e pelo mar, os olhos de Julian pareciam parte da paisagem. — Jules... você queria me perguntar alguma coisa?
Ele desviou o olhar, balançando a cabeça.
— Não. Nada.


Alguém estava sacudindo Cristina pelo ombro. Ela acordou lentamente, piscando. Estava sonhando com sua casa, com o calor do verão, a sombra dos jardins de inverno do Instituto, as rosas que a mãe cultivava em um clima nem sempre favorável a flores delicadas. Rosas amarelas eram as favoritas, por serem a flor favorita de seu escritor favorito, mas rosas de qualquer cor eram necessárias para iluminar o orgulhoso nome de Rosales.
Cristina estava caminhando em um jardim, prestes a dobrar uma esquina, quando ouviu o murmúrio de vozes familiares. Ela acelerou, com um sorriso se espalhando no rosto. Jaime e Diego... o amigo mais antigo e o primeiro amor. Certamente ficariam felizes em vê-la.
Dobrou a esquina e ficou observando. Não havia ninguém. Só o eco de vozes, o som distante de risadas zombeteiras carregadas pelo vento.
A sombra e as pétalas desapareceram, e Cristina viu Emma inclinada sobre ela, usando um de seus vestidos floridos. Os cabelos caíam sobre os ombros em fios úmidos depois do banho.
iDeja de molestarme, estoy despierta! —protestou Cristina, empurrando as mãos de Emma. — Emma! Pare! Estou acordada! — Ela se e colocou as mãos na cabeça. Orgulhava-se em jamais misturar a língua ma-terna com a local enquanto estava ali, mas, às vezes, quando estava cansada ou meio sonolenta, algo escapava.
— O café da manhã já está pronto. — Emma adulou. — Ou talvez seja brunch. Já é quase meio-dia. Tanto faz, quero apresentá-la a todos. Quero que conheça Julian...
— Eu o vi ontem à noite do alto da escada — respondeu Cristina com um bocejo. — Ele tem mãos bonitas.
— Ótimo, você pode dizer isso a ele pessoalmente.
— Não, obrigada.
— Levante-se — ordenou Emma. — Ou vou sentar em cima de você.
Cristina jogou um travesseiro nela.
— Espere lá fora.
Alguns minutos mais tarde, Cristina – após vestir rapidamente um suéter rosa-claro e uma saia lápis – se viu sendo conduzida pelo corredor. Ouviu vozes altas, que vinham da cozinha. Ela tocou a medalha no pescoço, como sempre fazia quando precisava de uma dose extra de coragem.
Ela ouvira tanto sobre os Blackthorn, principalmente, Julian, desde sua chegada ao Instituto, que eles tinham atingido um estado quase mítico em sua mente. Cristina estava apavorada com a perspectiva de encontrá-los – não só eram as pessoas mais importantes da vida de Emma, mas também as que poderiam tornar o resto de sua estadia agradável ou pavorosa.
A cozinha era um cômodo amplo, com paredes pintadas e janelas abrindo para o oceano azul-esverdeado ao longe. Uma imensa mesa de madeira dominava o espaço, cercada por bancos e cadeiras. As bancadas e a mesa tinham azulejos que pareciam espanhóis, mas, se você olhasse de perto, compunham cenas da literatura clássica: Jasão e os Argonautas, Aquiles e Pátroclo, Ulisses e as Sereias. Alguém, um dia, decorou esse espaço esse espaço com amor – alguém selecionou os utensílios de cozinha em bronze, as pias duplas de porcelana, o tom exato de amarelo das paredes.
Julian estava na frente do fogão, descalço, com um pano de prato pendurado sobre o ombro largo. Os Blackthorn mais novos estavam agrupados em torno da mesa. Emma entrou, puxando Cristina atrás de si.
— Pessoal, esta é Cristina — apresentou. — Ela salvou a minha vida umas dezesseis vezes durante o verão, então, sejam legais com ela. Cristina, esse é Julian...
Julian olhou para ela e sorriu. O sorriso o fazia parecer um raio de sol personificado. Não atrapalhava em nada o fato de que o pano de prato no ombro tinha gatinhos na estampa, e de que em suas mãos calejadas havia massa de panqueca.
— Obrigado por não permitir que Emma morresse — falou. — Ao contrário do que possa ter dito, precisamos dela aqui.
— Eu sou Livvy. — A menina bonita que compunha uma metade dos gêmeos deu um passo a frente para apertar a mão de Cristina. — E esse é Ty. — Ela apontou para um menino de cabelos pretos que estava encolhido no banco, lendo Os Arquivos de Sherlock Holmes. — Dru é a de tranças, e Tavvy o que está com o pirulito.
— Não corra com pirulito, Cristina — disse Tavvy. Ele parecia ter mais ou menos 7 anos, com um rosto fino e sério.
— Eu... não correrei!? — garantiu Cristina, confusa.
— Tavvy — resmungou Julian. Ele estava despejando massa de uma jarra branca de cerâmica na frigideira que se encontrava no forno. O recinto foi tomado pelo aroma de manteiga e panquecas. — Levantem-se e ponham a mesa, seus parasitas inúteis; você não, Cristina — acrescentou ele, parecendo constrangido. — Você é visita.
— Vou passar um ano aqui. Não sou exatamente uma visita — retrucou Cristina, e foi com os demais pegar talheres e pratos.
Havia um agito agradável de atividade, e Cristina se sentiu relaxando. Se tivesse que admitir, ela estava morrendo de medo da chegada dos Blackthorn, e de que eles interrompessem o ritmo agradável de sua vida com Emma e Diana. Agora que a família estava aqui, presente e real, ela se sentiu culpada pela apreensão.
— As primeiras panquecas estão prontas — anunciou Julian.
Ty pousou o livro e pegou um prato. Cristina, buscando mais manteiga na geladeira, ouviu quando ele falou para Julian:
— Achei que tivesse se esquecido do dia da panqueca. — Havia um tom de acusação em sua voz e mais alguma coisa; uma pontinha de nervoso? Ela se lembrou de Emma comentando que Ty se chateava quando sua rotina era interrompida.
— Não me esqueci, Ty — disse Julian gentilmente. — Me distraí. Mas não me esqueci.
Ty pareceu relaxar.
— Tudo bem.
Ele voltou para a mesa, e Tavvy foi atrás. Os Blackthorn eram organizados do jeito inconsciente que só uma família poderia ser: sabiam quem ganhava as primeiras panquecas (Ty), quem queria manteiga e calda (Dru), quem só queria calda (Livvy), e quem só queria açúcar (Emma).
Cristina comeu as dela puras. Estavam amanteigadas e não muito doces, crocantes nas bordas.

— Estão muito boas — falou para Julian, que finalmente tinha se sentado. De perto, dava para ver as linhas de cansaço ao redor de seus olhos, linhas que pareciam fora do lugar no rosto de um menino tão novo.
— Prática. — Ele sorriu para ela. — Faço panquecas desde os 12 anos.
Livvy deu um pulinho no assento. Ela estava com um vestido preto de alcinha que lembrava as meninas mundanas estilosas da Cidade do México, andando confiantes pelos bairros de Condesa e Roma, com seus vestidos justos e delicadas sandálias de salto. Os cabelos castanhos tinham mechas douradas aleatórias de sol.
— É tão bom estar de volta — falou, lambendo calda do dedo. — Não era a mesma coisa lá na casa da tia-avó Marjorie sem vocês dois cuidando da gente. — Ela apontou para Emma e Julian. — Dá para ver por que dizem que não se pode separar parabatai, vocês simplesmente combinam, como...
— Sherlock Holmes e Watson — disse Ty, que tinha voltado a ler.
— Chocolate e manteiga de amendoim — acrescentou Tavvy.
— Capitão Ahab e a baleia — sugeriu Dru, que fazia desenhos distraída com a calda no prato vazio.
Emma engasgou com o suco.
— Dru, a baleia e o Capitão Ahab eram inimigos.
— É verdade — concordou Julian. — A baleia sem Ahab é só uma baleia. Uma baleia sem problema. Uma baleia sem estresse.
Dru parecia irritada.
— Eu ouvi vocês dois conversando — disse ela a Emma e Julian. — Eu estava na grama antes de voltar para buscar Tavvy. Sobre Emma encontrar um corpo?
Ty imediatamente levantou os olhos.
— Emma encontrou um corpo?
Emma olhou um pouco preocupada para Tavvy, mas ele parecia absorvido pela própria comida. Ela disse:
— Bem, enquanto vocês estavam fora, aconteceu uma série de assassinatos.
— Assassinatos? Por que não contou nada para Julian, nem para nós? — Ty estava sentado ereto agora, com o livro pendurado na mão. — Você podia ter mandado um e-mail, uma mensagem ou um cartão-postal...
— Um cartão-postal sobre assassinato? — disse Livvy, franzindo o nariz.
 — Só descobri anteontem — respondeu Emma, e explicou rapidamente o que tinha acontecido no Sepulcro. — O corpo estava coberto por símbolos — concluiu. — O mesmo tipo de marca que havia nos corpos dos meus pais quando foram encontrados.
— Ninguém nunca conseguiu traduzir, certo? — perguntou Livvy.
— Ninguém. — Emma balançou a cabeça. — Todo mundo tentou decodificar. Malcolm, Diana, até o Labirinto Espiral. — Ela acrescentou, citando a central subterrânea dos feiticeiros do mundo, onde muito conhecimento arcaico era escondido.
— Antes, eles eram únicos, até onde sabíamos — disse Ty. Seus olhos realmente tinham um tom impressionante de cinza, como a parte de trás de uma colher de prata. Estava com um fone pendurado no pescoço, o fio para dentro da camisa. — Agora existe mais um exemplo. Se compararmos, pode ser que a gente descubra alguma coisa.
— Fiz uma lista de tudo que sei sobre o corpo — contou Emma, pegando um pedaço de papel e colocando sobre a mesa. Ty o pegou imediatamente. — Algumas coisas eu vi, outras ouvi de Johnny Rook e Diana. As pontas dos dedos estavam raspadas, os dentes, quebrados, e não tinha carteira.
— Alguém está tentando ocultar a identidade da vitima — constatou Ty.
— Provavelmente não é tão incomum — falou Emma. — Mas também tem o fato de que o corpo estava ensopado de água do mar, apresentava sinais de queimadura e repousava em um circulo de giz com símbolos. E estava coberto por marcas. Isso parece incomum.
— O tipo de coisa que você poderia pesquisar em arquivos de jornais mundanos — disse Ty. Seus olhos cinzentos brilhavam de empolgação. — Eu cuido disso.
— Obrigada — agradeceu Emma. — Mas... — Ela olhou para Julian, depois para os outros, seus olhos castanhos muito sérios. — Diana não não pode ficar sabendo, tudo bem?
— Por que não? — perguntou Dru, franzindo o rosto.
Tavvy não estava prestando atenção alguma; tinha sentado no chão e brincava com caminhõezinhos embaixo da mesa.
Emma suspirou.
— Vários dos corpos eram de fadas. E isso deixa a situação totalmente fora do nosso campo de atuação. — Ela olhou para Cristina. — Se não quiserem nada com isso, tudo bem. Assuntos de fadas são complicados, e Diana não nos quer envolvidos.
— Sabem como me sinto em relação à Paz Fria — disse Cristina. — Claro que ajudarei.
Ouviu-se um murmúrio de concordância.
— Eu disse para não se preocupar — falou Julian, tocando levemente o ombro de Emma antes de se levantar para começar a tirar a louça do café. Algo naquele toque, por mais leve e casual que fosse, causou uma reação em Cristina. — Hoje não tem aula, Diana foi para Ojai, então, agora é um bom momento para cuidarmos disso. Principalmente por termos teste da Clave no fim de semana.
Houve um resmungo coletivo. O teste da Clave era um evento que ocorria duas vezes por ano, e os alunos eram avaliados para checar se suas habilidades estavam no nível necessário, ou se precisariam ser mandados para a Academia em Idris.
Mas Ty ignorou o anúncio de Julian. Ele estava olhando o papel de Emma.
— Quantos morreram, exatamente? Pessoas e fadas?
— Doze — respondeu Emma. — Doze corpos.
Tavvy saiu de debaixo da mesa.
— Estavam todos correndo com pirulitos?
Ty pareceu espantado, Emma, culpada, e Tavvy, ligeiramente trêmulo.
— Talvez já seja o suficiente — declarou Julian, pegando o irmão mais novo no colo. — Vamos ver o que descobrem, Tiberius, Livia?
Ty murmurou em concordância, levantando. Emma falou:
— Eu e Cristina estávamos indo para o treino, mas podemos...
— Não! Não cancelem! — Livvy se levantou. — Preciso treinar! Com outra menina. Que não esteja lendo — falou, lançando um olhar para Dru. — Ou assistindo a filmes de terror. — Ela olhou para seu irmão gêmeo. — Vou ajudar Ty por meia hora. Depois vou treinar.
Ele fez que sim com a cabeça e colocou os fones de ouvido, indo para a porta. Livvy foi com ele, comentando que sentia falta de treinar e de seu sabre, e que a tia-avó achava que um celeiro cheio de aranhas era uma sala de treinamento.
Cristina olhou para trás ao sair da cozinha. O cômodo estava cheio de luz e projetava um estranho brilho sobre Emma e Julian, borrando suas feições. Julian segurava Tavvy, e, quando Emma se inclinou para perto, eles formaram um retrato estranho de uma família.
— Não precisa fazer isso por mim — disse Emma, baixinho, mas seriamente, com uma voz que Cristina jamais a ouvira usar.
— Acho que preciso — respondeu Julian. — Acho que me lembro de ter feito um juramento quanto a isso.
— Onde fores, irei, qualquer coisa estúpida que você faça, eu também farei? — recitou Emma? — Foi esse o juramento?
Julian riu. Se falaram mais alguma coisa, Cristina não ouviu. Ela permitiu que a porta se fechasse sem olhar para trás. Um dia ela achou que teria um parabatai. Apesar de ser um sonho que há muito descartara, era doloroso testemunhar aquele tipo de intimidade.

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