domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 29

A trilha escondida e torcida parecia dobrar sobre si mesma. Havia trilhas ao lado e bifurcações no caminho também, e Will começou a se perguntar se o cão realmente sabia o que estava fazendo ou se ela estava apenas vagando aleatoriamente. Parecia haver tantas opções, tantos caminhos diferentes que poderiam ir. Então, quando percebeu quão focada ela estava em sua tarefa, sabia que ela estava definitivamente seguindo alguma coisa.
A questão ficou, no entanto: o que ela seguia? Ele percebeu que Xander poderia estar certo. Eles poderiam muito bem estar correndo pela floresta em busca de um texugo ou algum outro animal.
Hábil como era na floresta, não demorou muito para Will ver que estava totalmente desorientado, e ele sabia que seria difícil refazer seu caminho se ele tivesse que fazer. Ele percebeu que a vida de Orman estava agora bem e verdadeiramente sob os cuidados do cão e, a partir dos olhares preocupados que Xander mantinha sobre ele, sabia que o secretário estava ciente do fato, também.
Eles não falaram. Não havia nenhum ponto em expressar seu temor e a natureza ameaçadora da floresta escura desanimava uma conversa ociosa. Era como se a própria Grimsdell fosse uma presença, uma personagem escura, deprimente e ameaçadora que pesava sobre eles, aliviada somente pela visão ocasional do céu por cima.
Eles tinham viajado por mais de uma hora, Will estimou, quando chegaram a uma bifurcação de três caminhos na trilha. Pela primeira vez desde que tinha começado, o cão hesitou. Ela foi para o lado direito da bifurcação durante alguns metros, depois parou, o nariz para baixo, pata levantada incerta. Então ela fungou seu caminho de volta e tentou o lado esquerdo.
— Oh, Deus — Xander disse baixinho — ela perdeu o cheiro.
Ele olhou com medo para seu mestre, descansando na sela, de olhos fechados, cabeça caída, mantida no lugar apenas por uma corda que tinham amarrado a suas mãos e amarrado ao punho da sela. Se eles ficassem perdidos dentro da floresta, sem qualquer senso de direção ou finalidade, Xander sabia que isso significaria o fim de Orman.
O cão olhou para ele, como se em reprovação, em seguida, soltou um latido curto e começou a seguir a bifurcação da esquerda, todos os traços de incerteza haviam sumido agora.
Will e o secretário tocaram seus cavalos seguir para frente. Eles tinham ido cinquenta metros virando muitas curvas e, talvez, fazendo apenas vinte metros de progresso, quando Will ouviu Xander gritar.
Ele olhou-o. Sua atenção havia sido fixada no cão,e viu o que tinha causado o grito de alarme. Havia um conjunto de crânio em um mastro de um lado da pista à frente deles. Uma placa bruta, coberta de líquen carregando uma mensagem indecifrável escrita em runas antigas. As palavras podiam ser indecifráveis, mas a mensagem era clara.
— É uma advertência — Xander disse.
Will tirou uma flecha de sua aljava e colocou-o na corda do arco.
— Então, considere-se advertido — disse ele secamente. — Pessoalmente, se estou planejando uma emboscada, a última coisa que eu iria fazer é deixar a presa saber disso com antecedência.
Ele inclinou-se para estudar o crânio mais de perto. Estava amarelado com a idade. E não era completamente humano. A mandíbula parecia mais para frente de que de um homem, e não havia dentes caninos de ambos os lados.
O cão estava esperando impacientemente e Will sinalizou para frente. Ela começou a descer a pista de novo, e de repente saiu correndo, correndo para frente e indo para a próxima curva, fora da vista.
Na deixa de Will, Puxão quebrou em um trote para seguir o cão e contornou a curva atrás dela...
...e se encontraram em uma clareira grande, com construção de um andar, construída com madeira escura e coberta de palha. Ele ouviu os outros dois cavalos vindos barulhentos atrás dele, em seguida, deslizando uma parada ao lado dele.
— Parece que estamos aqui — Will disse calmamente.
Xander olhou ao redor da clareira, procurando algum sinal de habitação humana.
— Mas onde está Malkallam? — disse ele.
Então eles viram o movimento nas árvores do outro lado da clareira, e como se o nome de feiticeiro tivesse chamado eles, e figuras começaram a sair dos bosques circundantes.
Deve ter havido mais de trinta deles. Enquanto que ele tinha esse pensamento, Will percebeu que havia algo incomum sobre eles. Eles eram... procurou o termo certo, e hesitou. Não estava totalmente certo do que estava vendo. Mesmo na clareira, a luz era fraca e incerta, e as pessoas, se é que eram pessoas, estavam perto da massa escura da floresta por trás deles, onde as sombras eram grossas e pesadas. Ele ouviu a ingestão rápida de ar de Xander, em seguida, o secretário falou baixinho.
— Olhe para eles — disse ele. — Eles são humanos?
Então Will percebeu o que foi que lhe tinha feito hesitar. Eles eram certamente humanos, pensou. Mas era como se todos fossem caricaturas horríveis de pessoas normais. Eram terrivelmente disformes, todos eles. Alguns eram anões, menos de 1,5m de altura, os outros eram altos e dolorosamente finos. Um deles era enorme, ele devia ter dois metros e meio de altura e enorme no peito e nos ombros. Sua pele era um branco pálido, e com exceção de alguns fios aleatórios de cabelo amarelado, ele era careca.
Outros eram curvados, seus corpos torceram e cederam. Havia vários que eram corcundas, seus movimentos difíceis e dolorosos quando se misturaram para frente.
A garganta de Will ficou seca quando ele viu que dentre as mais de trinta pessoas à frente dele, não havia uma que poderia ser descrita como normalmente em forma. Obviamente, este foi o resultado da magia negra de Malkallam, e quando pensou nisso, percebeu que tinham cometido um erro levar o inconsciente Orman aqui.
Um feiticeiro que criava tais dolorosas desfigurações nessas pessoas dificilmente iria ajudar o senhor do castelo a recuperar-se do veneno que estava destruindo-o. Após os seus primeiros movimentos fora da sombra das árvores, as criaturas pararam, como se em resposta a algum comando silencioso. Will olhou para baixo quando o cão afundou lentamente até as ancas em frente a ele. Ele podia sentir o baixo e contínuo barulho de aviso do peito de Puxão.
Era um impasse. Não havia nenhum sinal do feiticeiro, a menos que ele passou a ser uma das criaturas disformes que olhavam através da clareira – e de alguma forma, ele duvidou disso.
— Arqueiro... — a voz de Xander era baixa e afiada com medo.
Will olhou para ele e o pequeno homem moveu a cabeça para o outro lado da clareira. Seguindo o seu olhar, Will sentiu sua própria garganta comprimir com medo.
O gigante de pele pálida começou a avançar através da clareira em direção a eles, um passo pesado de cada vez. Quando ele avançou, houve um murmúrio baixo sem palavras de encorajamento de seus companheiros. Will lentamente levantou o arco, a flecha ainda na corda e pronta, de onde ele tinha descansado em seu punho.
— Isso é perto o bastante — disse ele calmamente.
O gigante estava quase na metade do caminho em direção a eles. Ele deu outro passo. Agora estava bem no meio da clareira e Will percebeu que não poderia deixá-lo chegar mais perto. Aquelas mãos enormes poderiam rasgar ele, Xander e Orman membro a membro. E, provavelmente, os cavalos também.
— Pare — disse ele, um pouco mais alto.
O gigante encontrou seu olhar. Apesar de Will estar sentado montando Puxão, seus olhos estavam no mesmo nível. O gigante franziu e Will viu seus músculos tensos quando se preparava para dar outro passo. Ele deslizou a flecha de volta a pressão máxima, instintivamente mirando no peito do gigante, exatamente onde o coração devia estar.
— Grande como você é, essa flecha vai atravessar você direto nessa distancia — disse ele, deliberadamente mantendo sua voz calma.
A criatura hesitou. Ele viu a carranca sair de seu rosto. Perplexidade? Raiva? Medo? Frustração? Ele não tinha certeza. As características grotescas eram tão bizarras, foi difícil de lê-las com precisão. O importante era que o gigante tinha parado de avançar sobre eles.
Dos espectadores silenciosos à beira da clareira, ouviu-se um murmúrio coletivo. Incitando-o para frente? Aconselhando-o a parar? Mais uma vez, Will não tinha ideia.
O que vem depois? , pensou. Vamos ficar aqui até a próxima nevasca, nos encarando nessa clareira? Ele não tinha ideia do que fazer. Por conta própria, confiava em Puxão para levá-lo fora da situação. Mas ele não podia deixar Xander e Orman.
— Arqueiro, olhe! — Xander disse em um sussurro sem fôlego.
Ele desviou o olhar do gigante, que estava, compreensivelmente, ocupando toda a sua atenção. Xander apontava para o cachorro.
Ela tinha subido de sua posição agachada na frente deles e estava avançando através da clareira em direção ao gigante. Will pegou fôlego para chamá-la, então parou e largou a tensão sobre o arco quando ele notou alguma coisa. Sua cauda pesada estava abanando lentamente de um lado para outro enquanto ela andava.
O gigante olhou para ela quando ela chegou até ele, parando apenas na frente dele. Sua cabeça estava abaixada e sua cauda ainda estava abanando. A carranca desapareceu da face da criatura enorme e ele abaixou em um joelho, uma mão enorme para afagar o cão.
Ela avançou novamente para sentar-se aos seus pés e ele acariciou seus ouvidos e coçou o queixo. Seus olhos estavam semicerrados de prazer, e ela virou a cabeça ligeiramente para lamber sua mão.
E então Xander chamou a atenção de Will para ainda outro detalhe notável em um dia totalmente notável.
— Ele está chorando! — disse suavemente. E com certeza, havia lágrimas rolando pelo rosto pálido. — Sabe, eu acho que ele é completamente inofensivo. Graças a Deus você não atirou nele.
— Eu devo dizer que concordo — disse uma voz atrás deles. — Agora, vocês se importariam de me dizer o que diabos estão fazendo na minha floresta?

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