domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 29

O foguete de sinal tinha sido avistado nas muralhas do Macindaw também. Familiarizado com o conceito de substâncias explosivas ou fogos de artifício, as sentinelas apertaram suas armas com mais força, olhando para o sul com medo e se perguntando que tipo de feitiçaria estava em andamento.
Keren, convocado de um sono profundo, passeou nas muralhas incerto, perscrutando a noite, esperando a estranho, luz vermelha subindo ser repetida. Mas quando uma hora se passou sem nenhum sinal adicional de atividade, ele finalmente decidiu que tinha sido um alarme falso, apenas mais um exemplo das estranhas luzes que podiam ser vistas perto de Grimsdell no escuro da noite.
Antes de voltar para sua cama, ele fez uma visita rápida das defesas, parando na muralha oeste, onde a floresta crescia próxima ao castelo. John Buttle já estava lá.
— Qualquer coisa se mexendo nesse lado? — Keren perguntou.
Buttle, como ele, tinha sido despertado de sono por relatórios da luz sobrenatural no céu. Sua camisola estava enfiada nas calças, e ele usava um colete vestido à pressa sobre ele. Ele balançou a cabeça, olhando para a muralha escura da floresta, à apenas cinquenta metros de distância.
— Nada de nada — relatou ele.
Keren bateu seus dedos sobre a muralha de pedra.
— Este é o lado do perigo — disse ele, pensativo.
— Você nunca conseguiria uma grande força atravessando aquele emaranhado lá fora — respondeu Buttle. Ele tinha reconhecido os terrenos adjacentes ao longo das últimas semanas. — E se você conseguisse, você nunca poderia fazer uma formação de ataque sem muito aviso.
Keren estava parcialmente convencido. Mas só em parte.
— Talvez. Mas enquanto nada se agita lá fora, eu fico desconfiado. Eu não sei porque Syron nunca derrubou todas aquelas árvores.
— Porque ele teria levado anos para fazer isso — disse-lhe Buttle. — E você precisaria de centenas de homens também. Confie em mim. Essas árvores são a nossa melhor defesa. É uma selva lá dentro.
— Hmm. No entanto, quero manter uma vigilância apertada deste lado para o resto da noite. Você vai estar aqui?
Buttle bocejou.
— Eu estou indo para a cama.
Os olhos de Keren endureceram.
— Isso não era uma questão ou uma sugestão. — Sua voz era fria.
Buttle ficou rígido com raiva.
— Muito bem, meu senhor — respondeu ele. — Eu vou ficar de plantão até o amanhecer.
— Bom — disse Keren, virando as costas e indo para a escada.
Não pela primeira vez, desejou que o seu segundo em comando fosse um companheiro mais agradável, alguém mais preparado para assumir algumas das responsabilidades de liderança. Ele tinha esperado que Buttle fosse se oferecer para permanecer em serviço para tranquilizar o seu comandante, ao invés de esperar ser comandado para fazê-lo.
Ele suspirou pesadamente. Tinha calculado que demoraria quase dois anos antes que pudesse comprar seu feudo em Gálica. Ele percebeu que o tempo ficaria pesado em suas mãos, e ele amaldiçoou a garota loira elegante que tinha rejeitado a sua proposta de casamento. Pelo menos ela seria uma companhia adequada.
Atrás dele, na passadiço, os lábios de Buttle moviam-se em uma maldição silenciosa de sua autoria. Mas suas palavras eram dirigidas a seu comandante.


Uma vez que Will e Horace viram o sinal de foguete de Malcolm, passaram uma noite descontraída. Eram novos e acostumados a passar o tempo acampando. Eles levaram suas tendas pouco para trás da linha das árvores, rastejaram para dentro delas e dormiram até de madrugada.
Eles sabiam que nenhuma outra ação teria lugar naquela noite. O sinal não tinha sido o prelúdio de um ataque, então eles poderiam dar ao luxo de relaxar. Ao longo do próximo dia, os seus maiores inimigos seriam uma estranha mistura de tédio e antecipação. Eles estavam programados para executar seu ataque simulado ao final da tarde e Will sabia que, enquanto as horas passassem, o nó de tensão no estômago apertaria a cada minuto que passava até que ele desejaria que pudesse estar em seu caminho, fazendo alguma coisa em vez de espera.
E assim se provou ser. Eles montaram o carro e a escada que iriam transportar e manipular através dos arbustos à beira da linha das árvores, cortando as árvores pelo caminho. Mas, inevitavelmente, eles começaram muito cedo sua preparação, pelo tempo que eles estavam prontos, havia passado apenas meio-dia, e ainda teriam quatro horas para esperar.
Will sentou debaixo de uma árvore, fingindo cochilar, tentando acalmar-se na tentativa de aliviar esse nó apertado em seu estômago. Ele olhou para Horace, que estava a poucos metros de distância, aparentemente despreocupado, conversando calmamente com os quatro escandinavos que iriam acompanhá-los. Horace parecia sentir os olhos de Will em cima dele. Ele olhou para seu velho amigo e sorriu, acenando tranquilidade.
Will se perguntou como Horace poderia ser tão calmo. Ele não sabia que Horace estava perguntando-se a mesma pergunta sobre Will, sentindo a mesma amarração dos músculos do estômago.
O dia se arrastou.
Will verificou o carro pela décima vez, certificando-se que a roda esquerda estava corretamente manipulada de modo que pudesse quebrar quando eles estivessem prontos, fazendo parecer que o carro tinha batido alguma obstrução. Ele inspecionou as pranchas do telhado, certificando-se que não havia lacunas onde uma besta poderia passar. E ele questionou os quatro escandinavos para se certificar que compreenderam o seu papel.
— Pareça como se vocês estivessem entrando em pânico — ele lhes disse.
Ele encontrou quatro olhares em branco. Pânico não era uma emoção que os escandinavos compreendiam muito facilmente.
— Olhe com medo — ele corrigiu, e viu os quatro pares de olhos mudarem de perplexos a hostis. — Finjam que olham com medo — acrescentou, e a contragosto eles concordaram.
Ele checou seus escudos também. Tinha uma pequena força à sua disposição, e ele não podia dar ao luxo de perder nenhum deles nessa jogada preliminar. Os escudos estavam bem oleados para evitar que eles secassem e ficassem quebradiços. Eles eram generosamente cravejados com placas de latão e com figuras de boi. Os homens iriam colocá-los em suas costas enquanto corriam de volta para a linha das árvores depois de ter o carrinho destruído.
Suas cabeças seriam protegidas por seus capacetes com chifres. As únicas partes de seus corpos que estariam expostas eram as suas pernas. Ainda assim, pensou o jovem arqueiro, um ferimento na perna pode manter um homem fora da batalha tão eficazmente quanto se ele estivesse morto.
— Não corra em linha reta — ele os advertiu. — E não corram juntos. Corram em diferentes direções.
Um dos escandinavos respirou fundo, a ponto de dizer a Will que ele poderia parar de repreendê-los como uma mãe. Então percebeu que o rapaz estava realmente preocupado com ele e seus três companheiros, e sentiu uma onda de calor. Escandinavos não estavam acostumados que os seus comandantes realmente se preocupassem com eles.
— Sim, arqueiro — disse humildemente.
Will assentiu distraído e afastou-se, sua mente nas ações que teriam que realizar naquela tarde.
Horas mais tarde, o sol estava dobrando sobre as árvores, sombras longas em direção ao castelo. Ao longe, ouviram uma algazarra de ruído do sul. Will engatou seu arco por cima do ombro, instalou sua aljava mais confortavelmente e virou-se para Horace.
— Hora de ir — disse ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário